terça-feira, setembro 13, 2016

ELEGIA DAS ILUSÕES

ELEGIA DAS ILUSÕES
            I
Esse é o tempo em que tudo se excedeu,
Há sobras e restos para todos os lados.

O cigarro, o jogo, a política,
Vícios e virtudes se acumularam
No baú de nossas merencórias ilusões,
Se bebestes, bebestes demais.
Ganhou-se dinheiro, ganhou-se demais,
Se não soube guardar e o perdestes,
Também perdestes demais,
O câncer levou teus melhores amigos
E com eles teus melhores dias,
As guerras campeiam,
Roma treme diante do Islã,
O governador do mundo te acerca com drones,
Mas bombas não caem somente do céu.

Os homens ainda se matam,
Enquanto um dentista caça no Quênia
Uma juba negra para pendurar na parede.
            II
Por aqui,
Há muito o esgoto subiu a superfície
De nossas lutas intestinas,
De onde, refugiados no silêncio e na sombra,
Espreitavam-nos esperando o ocultar das luzes,
Para, no gesto deferente dos canalhas,
Os herdeiros da marcha da família
Saírem dos túmulos do esquecimento
E caminharem portando cartazes
Apregoando o passado.

Hoje, no excesso do retrocesso,
Covardes atrozes,
Rapaces que comungam aos domingos,
Ofendem os torturados, os libertários
Que clamam pelo futuro.

E tu, pardo e preto,
Caminhas pela Avenida Central
Vendo o moderno VLT
E a falta de honestidade intelectual
De teus colegas de Filosofia.

Há abundância de crises,
Segredo de polichinelo.
            III
Perdeu-se o rumo na sombra,
Não há um propósito
Para o país das causas perdidas,
Imoderado em seus limites territoriais.
Não há povo brasileiro ao luar,
O povo brasileiro não existe
- o que persiste, é desolação.
            IV
Sobre as cinzas desses dias escuros
Caminhas melancólico,
Não sabes o rumo, sequer se os há.
Nessa escuridão luminosa de agosto
O ano ruiu, a juventude em busca do passado,
Onde juventude de ambições vigorosas?
O capital obscurece o planeta,
Sua sombra se projeta sobre,
O futuro não é o desejo, mas o medo,
Procrastinaram a liberdade, não há mais,
O jogo acabou, todas as fichas foram levadas.
Esse é o tempo dos homens indiferentes
Que trabalham na Bolsa.

Agora, o jogo acabou,
Não há mais acordo possível,
É preciso ir às armas, “burn baby burn”,
Inflamar as consciências, Andreas Baader
É preciso lutar, Baader-Meinhof,
Mas teu tupamaros companheiros
De luta já não lutam,
Zapatistas aposentados.
Houve muitas guerras e todas, perdidas.
O cansaço se espalhou entre tuas hostes,
Não haverá a amanhã, não haverá um país,
Não se vê senderos luminosos,
Um legado, sequer um sonho sonhado
Dentro de outro sonho,
E tu, nesse momento, vês as crianças no pátio,
Tua contribuição sobeja e atira em gol.
            V
Homens brancos portam bandeiras à sombra.

Homens brancos vociferam nas ruas,
Nos bares, nas praças públicas,
Agridem atrizes e poetas.
Nenhum país deveu tanto aos seus poetas.
Todavia, eles caminham anônimos e silenciosos.

Homens brancos corrompidos pela fartura
Buscam secar todas as verves,
Silenciar todas as vozes,
Sugar todas as veias,
Incendiar todos os palcos e saraus,
Calar todos os poetas.
            VI
Pobre poeta somente te restou
O futuro, quando todos mortos
Quando historiadores escafandristas
Irão manusear as sentenças forjadas pelo esgoto,
Onde estava escondido esse país cordial,
Essa nação segregacionista e hipócrita.
Despiu-se o véu,
Entre seus pares já não há mais comunhão,
A santa hóstia, na boca do fariseu, se dissolve
Da mesma forma que na boca do santo,
O crucificado justifica tanto um discurso
Quanto sua réplica.

Mas os poetas nunca se calam.
            VII
Hoje o Brasil acabou!
Não há mais país
 – não verás país nenhum
O poeta vaticinou há décadas.
Sua profecia se espatifa
À nossa cara.

O homem branco dorme o sono dos justos
– desses é o reino dos céus.
            VIII
Todavia, sobre nossas próprias ruínas,
Ouve-se um canto novo no ar,
Talvez devêssemos morrer pelos nossos pensamentos,
Quiçá renunciá-los, quando também
Deveríamos morrer como nossos amigos,
Partir junto com eles,
Esse não é um país possível,
Exauriu-se nosso êxtase musical,
Perdeu-se a matéria dos nossos sonhos,
E se fosse possível morrer agora
Serias o mais feliz dos homens,
Não gotejariam lágrimas de teu oceano subterrâneo.
Sofrestes demais para que determinadas
Felicidades te arrebatam,
Houve um esplendor de dias felizes,
Não os suportará mais.

Nadas no lodo musical
De uma existência fadada ao inexprimível tremor,
Ressoas no espaço o desejo perdido,
Tua existência supérflua
Tornou-se uma melodia anódina,
Ao teu lado,
Gritam palavras de ordem,
Enquanto pensas
Que nada mais reabilitará o gênero humano.
Alguns se suicidam
Diante de algo mais valioso
Que lhes foi tirado e ofendido.
No entanto,
Tu caminhas sondando
Teus abismos,
Teu desespero desnudo maldito,
Teu cemitério abandonado à beira mar,
Sobras em ti a felicidade de não ser santo,
Mas tua prolongada dor te cativas,
Continuas a viver
Mesmo depois que a vida se retirou.

Na infinita comunhão de um instante
Caminhas, oh mar abandonado por suas águas,
Caminhas oh penhascos e desfiladeiros desertos,
Onde tudo cabe e tudo é possível,
Caminhas, oh tragédia entre desespero e morte,
Caminhas oh aquele através do qual a vida falava,
Caminhas oh ser cujo pesar,
Tornou maior que a divindade,
Caminhas contra o vento, contra a inércia
De viver aprisionado no tempo,
Contra o tempo a lutar encarniçadamente,
Caminhas contra homens cujos ideais se cumprem
No passado, cujas esperanças residem naquele
Mesmo cemitério abandonado,
Caminhas oh indiviso ser
Cujo silêncio derruba muralhas de cidade perdidas.
            IX
Alegremo-nos,
Apesar dos hunos fustigarem
Em ofensiva nossa cidadela,
A morte ainda é incerta quando,
Alguns entoam cânticos entusiasmados
E vibração enquanto habitam o inabitável presente,
Atraente e cativante,
Flagelam seus dessemelhantes para escapar
Às tentações da morte,
Querem se exceder de vida,
Nada renunciam,
 Mas a morte sempre vem demasiado tarde
Para quem sofre,
Mas a morte sempre vem demasiado na atualidade
Dos nossos átilos flagelos,
Enquanto teus dessemelhantes esperam consolos
Nessa vida vã,
Para os quais a história não possui sentido,
Tornando inútil a existência do futuro.
            X
Alegremo-nos
Anúncios futuros portarão a transitoriedade
Das coisas terrestres,
A inexistência das coisas celestes
E esse rumor surdo
Que brota das trincheiras.
            XI
Infestado de vida vês a futilidade
Da transformação da negativa em lei,
Porque se legitima
Uma existência tão reduzida no tempo?
Consumada no espaço?
Onde, em tão poucas letras,
Esconde-se a tragédia humana?
Não há desespero nesse caminhar?
Não houve tempo para a ilusão, para o sonho?
Porque o fascismo retornou hoje de manhã
Enquanto te barbeavas?
Insidioso fardo dessa ascensão,
Não há mais possibilidade,
Há uma voz alimentada por exaltações,
Há um estrondoso monologar,
Espatifando-se teu silêncio,
Oh delicia temporária,
Fome voraz
De plantas e galáxias,
Essa atração matéria,
Fome sem vôo,
Enquanto os fragmentos do tempo
São vividos como eternidade,
Oh negação da vida!
Onde a transcendência, o sublime,
O distanciamento, a solidão.

Quando tu pensas no homem
És tomado por uma amargura,
Por um desmoronamento,
Que seca todo teu ímpeto.
            XII
Entretanto, é preciso lutar,
Tirar a caveira do sono
E tomar as armas do inimigo,
Mesmo que saibas que em tua terrível solidão
És o nada da solidão do Ser,
Mesmo que lutes contra moinhos de vento,
Porque os homens somente conhecemos
Nos piores momentos e agora,
Foi te dado conhecer o pó,
Mesmo que saibas impossível transcendência
E fonte de todas as tuas aflições,
Agora mesmo engolfado
Por essa tristeza metafísica,
Sabes que não pode dar
Um passo atrás e deves ir paras ruas:

Queimar todos os acontecimentos,
Desnudar o oculto e íntimo rubor.

Celso Gomes











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