segunda-feira, outubro 19, 2015

REFLEXÕES SOBRE UMA CRISE ESTRANHA



                REFLEXÕES SOBRE UMA CRISE ESTRANHA
                Dicotomia
Há pouco tempo atrás, acompanhei pelo Facebook uma discussão entre alguns amigos acerca da dicotomia esquerda x direita. Alguns afirmavam, categoricamente, que essa distinção não faz mais sentido; enquanto outros defendiam a posição contrária. Posteriormente, em uma festa, um sujeito sabendo que eu tinha ligações com um partido de esquerda, taxativamente, disse-me: esse negócio de esquerda e direita acabou.
Com base nessa sentença, resolvi me debruçar sobre o assunto para entender esse fenômeno, essa necessidade imperiosa de acabar com a dicotomia, que, conforme diria Galileu Galilei, porém se move.
                Basicamente, são três as posições diante da realidade social:
1)      a conservadora, representada em toda a hostilidade às mudanças pela passeata do dia 15/03/2015;
2)       a reformista, que mantém o status quo propondo alterações de superfície, representada pelo Governo Dilma;
3)      e, finalmente, a revolucionária, que propõe a demolição da ordem vigente e sua substituição por outra, exemplo do MST.
                A essas posições correspondem às designações de direita, centro e esquerda. Essa distinção entre direita e esquerda não comporta a complexidade e, tampouco, a flutuação das posições políticas, pois uma mesma idéia pode ser sustentada em campos opostos, ou passar de um campo para outro, criando uma zona cinzenta, vulgarmente chamada de Centro. Todavia, essa dificuldade não nos deve levar a desistir de buscar uma distinção.
                É por demais sabido, mas não custa nada repisar, que essa dicotomia nasceu da disposição física dos membros da Assembléia Constituinte francesa em 1789, na qual, por afinidade, os deputados se reuniam à direita ou à esquerda do Presidente da Assembléia.  Atualmente, há uma recusa a essa oposição esquemática. Entretanto, conforme se perceberá ao longo desse artigo, mesmo essa recusa poderá ser vista como um discurso de direita.
                Há várias diferenças entre esquerda e direita:
1)            a primeira delas que podemos citar é a sociológica, por meio da qual fica patente que a esquerda representa as camadas populares; enquanto a direita, os proprietários; no entanto, é preciso verificar que nenhum dos dois campos detém o monopólio da representação classista;
2)            histórica: a esquerda, ao longo da história, tem se posicionado a favor das mudanças mais ambiciosas na sociedade, pretendendo-se essencialmente progressista, o presente e o passado pesam, aborrecem-na, busca a utopia, é idealista; ao passo que a direita é conservadora, o passado é um patrimônio a ser preservado, quer que o futuro seja semelhante a esse passado que defende ou ao presente, prefere defender, restaurar o que era. Há claramente uma oposição entre conservação (direita) e movimento (esquerda), bem como a relação com o tempo, entre ambas, não é semelhante;
3)            política: a esquerda pretende estar do lado do povo, das suas organizações, tais como partidos políticos, sindicatos, associações de bairro; a direita é mais apegada à idéia de Nação, à pátria. A esquerda tende à demagogia, enquanto a direita tende ao autoritarismo.
4)            econômica: a esquerda rejeita o Capitalismo, ou se resigna com má vontade, confia mais no Estado que no Mercado; enquanto a direita confia mais no mercado.
                A esquerda possui alguns valores que a caracterizam: igualdade, liberdade, laicidade, defesa dos mais fracos, do lazer; enquanto a direita possui como valores o gosto pelo sucesso pessoal, liberdade de empreendimento, da religião, hierarquia, segurança, pátria, família, propriedade. A esquerda pretende que os homens sejam iguais de fato, não apenas de direito, possui a justiça como um ideal de equidade, cada um de acordo com suas necessidades; para a direita, a justiça é mais uma recompensa ou sanção, a igualdade de direitos lhe basta, cada um de acordo com seus méritos.      Há ainda uma curiosidade: a não ser no período autoritário, da ditadura civil-militar brasileira, eu nunca vi um homem de esquerda recusar esse rótulo; porém, todo homem de direita que conheço pretende que esta noção não tem sentido e recusa ser classificado como tal.
                Manifestações de Junho de 2013:
As manifestações de Junho de 2013, a princípio, tiveram uma direção e pauta pela esquerda, comandada pelo Movimento Passe Livre. Posteriormente, a massa foi para a direita com os cartazes indicando claramente um conteúdo conservador, uma luta contra o marxismo. Contudo, havia dentro do movimento, uma parcela que depredava bancos e prédios oficiais, indicando que o movimento era mais plural.
                Posteriormente, com a esquerda do movimento sendo silenciada pela atuação do Ministério Público e do Judiciário, e a massa sendo cooptada pela oposição demo-tucana, esse movimento tendeu para a direita, posição na qual permanece até hoje, com cartazes horripilantes nas mãos de senhoras tão simpáticas pedindo a volta dos militares e lamentando que a ditadura não tenha exterminado a esquerda brasileira naquela época. Outros cartazes atacam o governo marxista do PT. Ou seja, onde vemos um governo acomodado, contemporizador com as classes dominantes, eles veem o Marx de Garanhuns.
                A reação conservadora foi rápida e a oposição demo-tucana cooptou o movimento para o seu lado, apesar de esse ter se iniciado contra o governo peessedebista de Geraldo Alckmin em São Paulo.
                Finalmente, com o país em ebulição, Dilma ganhou as eleições de 2014, mas a vitória eleitoral da esquerda foi transformada em derrota política, calcada nos próprios erros do Governo, nomeando um liberal para o Ministério da Fazenda e adotando uma política econômica que melhor ficaria nas mãos de Aécio Neves, bem como no acerto da mídia tucana em fragilizar o governo, um verdadeiro massacre midiático que esconde da população o fato de a oposição não ter nenhum projeto para o país, e de ser essa oposição pautada pela mídia, custeada e submetida aos interesses do grande capital e que não se sustenta sozinha, pois não possui ramificações sociais, o que se confirma com o surgimento de grupos organizados de direita, alguns de viés fascista. Perigosamente, caminhamos no fio da navalha, oposição sem povo e povo sem representação política.
                O que temos hoje é uma direita mobilizada e uma esquerda acuada no canto do ringue. Na história do Brasil, na última vez que a direita se mobilizou e se tornou militante, veio o golpe militar que durou vinte anos.  A crise não arrefece porque a oposição não aceitou o resultado da eleição de 2014 e não desceu do palanque; todavia, as eleições acabaram e não há base legal para impedimento de Dilma, vamos dar nome aos bois: É GOLPE DE ESTADO; é quebra da legalidade de inspiração golpista.
                Alguns amigos escrevem no Facebook: não sou de direita, mas sou a favor da maioridade penal aos dezesseis anos; contra os direitos dos homo-afetivos, a favor do impedimento de Dilma, ou seja, do golpe; fim do parlamento; todo poder ao Moro.
                Alguns têm pudor, querem esconder o que deve ser escondido; outros são dissimulados, não escondem o que não deveria ser escondido; mas é preciso taxar: hoje vivemos de lados bem distintos: eu, defendendo a legalidade e a continuidade do governo legitimamente eleito; e esses amigos defendem a quebra da legalidade democrática, para atender ao vil propósito de retornar ao Planalto, com base em pesquisas de opinião, que, segundo esse entendimento, valem mais do que as urnas.
                O extremismo, essa propensão humana de ir até o fim, de derrubar pontes, é a tentação daqueles mais cheios de convicções. Tendo sempre a desconfiar desses homens, pois tenho mais dúvidas que certezas, e mesmos minhas certezas possuem suas franjas banhadas pelas dúvidas, pois um objeto dado é sempre afirmação e negação, convivendo ambas, dialeticamente, dentro de si; e sei que a história é apenas a luta política dos homens. Todavia, apesar dos extremistas, o Real existe e resiste. Althusser dizia que apenas nos extremos se pensa bem; enquanto Montaigne dizia que apenas nos extremos se vive bem. Mas há momentos que não sobra espaço para o meio e radicaliza-se pelos extremos.
                Por outro lado, a oposição demo-tucana possui uma ética seletiva e esta cometendo um erro que será cobrado mais tarde. Silêncio em relação ao Eduardo Cunha, que, comprovadamente, possui contas na Suíça e ataque ao governo legitimamente eleito sem provas de envolvimento de Dilma. Agora, Eduardo Cunha acuado negocia com ambos os lados. Sabe que seu limite é o pedido de impedimento de Dilma. Se der andamento cai no dia seguinte abandonado por todos, principalmente, pela oposição.
                Finalmente, há um lado nesse ataque da mídia que tem se escamoteado completamente: o discurso ético, da luta seletiva contra a corrupção, que não se aplica aos seus próprios pares envolvidos em escândalos, por exemplo, o do HCBC, visa minar as fontes de financiamento do PT. Não que eu concorde com elas, mas a mesma regra que se aplica ao PT deixa de fora a oposição. Há um claro conluio entre mídia, oposição, ministério público, judiciário e polícia federal para ferir de morte o PT e a esquerda brasileira.
                História, com agá maiúsculo, é história política, ensina Corbisier. Essa estranha crise, na qual as Instituições financeiras não quebraram, não há endividamento externo, que o governo não recorreu ao FMI, se arrefecerá quando a oposição compreender que ninguém governa o Brasil se o impedimento de Dilma ocorrer, pois esse fato será o início de uma crise política muito pior com os movimentos sociais, que estão quietos, tomando as ruas e botando fogo no país.
                Nesse modus operandi do PSDB para voltar ao poder federal, a forma como o partido encontrou para chegar ao poder, não respeitando o voto da maioria da população, esta enterrada a cabeça de burro da democracia brasileira.
                Concluo da seguinte forma: todos os dias, na natação do meu filho, vejo as babás negras, mucamas do século XXI, cuidando dos filhos da classe média branca, e penso: esse é um dos motivos de tanta resistência em aceitar as políticas de quotas e de distribuição de renda do governo.
                Há um setor de nossa sociedade que não quer perder os privilégios, que quer ter uma mão de obra barata fazendo o trabalho que não consegue, ou que não quer fazer, delegando a criação dos próprios filhos para as velhas escravas, trazidas diretamente dos confins da enorme dívida social que possuímos com os negros brasileiros.

                Celso Gomes