quinta-feira, setembro 25, 2014

A CLASSE C VAI AO PARAÍSO

A CLASSE C VAI AO PARAÍSO


Problemática

Nas eleições de 2010 foi possível detectar um conteúdo que estava amortecido desde as marchas pela família com deus de 1964. A direita se movimentou, tornou-se militante. Foi possível ainda a detecção de outro conteúdo, esse aterrador: o ódio. No decorrer do ano, expus em parte o que pensava em meu blog: a direita esta tentando silenciar a esquerda na Rede.

Em qualquer post sobre as eleições, haverá sempre uma maioria que começa de forma raivosa dizendo que é preciso banir o PT do poder; expulsar os petralhas, etc.. Nunca vi tanto ódio, inclusive em meu próprio meio.

Pensei sobre o problema do ódio nas eleições 2010 e 2014 e resolvi expor em parte minhas conclusões.

No campo da esquerda o problema é fácil de entender: o PT tem o peixe que partidos como, por exemplo, o PSTU, quer pescar.

Em segundo plano, há o ódio de uma classe média despolitizada, pautada pela grande mídia, que acredita ser o Mensalão o maior escândalo de corrupção da história do país; que acredita, piamente, que a Petrobras esta sendo roubada pelos petistas; bem como que o PT criou a corrupção no Brasil. Não percebe que os grandes jornais fazem política em lugar de informar e que estão completamente imiscuídos na luta política brasileira.

Em terceiro lugar, há o ódio da classe média tradicional, ideologicamente ligada à direita.

Centraremos esse breve artigo nesse último aspecto. Porque o ódio da direita tem pautado as eleições? Todavia, não temos nenhuma pretensão de apontar a solução do problema, apenas levantar a questão, para que possamos avançar na construção do nosso país, de forma pacífica e solidária.


A Classe C vai ao paraíso

Durante o Governo Lula, o perfil socioeconômico do país mudou com o fortalecimento de uma classe social, a chamada Classe C, que, atualmente, é composta por 91,8 milhões de brasileiros. Para a FGV, uma família é considerada de classe média quando tem renda mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.591. A classe C em 1992 era composta por 34,96% da população. Em 2009 chegou a 50,5%. Segundo dados divulgados pelos institutos ligados ao governo, trinta e dois milhões pessoas ascenderam à categoria de classes médias e 19,3 milhões saíram da pobreza.

Essa transformação se deve a múltiplos fatores, mas se costuma apontar como preponderante, a estabilização de preços e do mercado de trabalho ocorrida após a estabilização da economia pelo Plano Real e dos programas sociais dos governos petistas.

Com a ocorrência desse fenômeno, com o entusiasmo gerado pelo aumento do poder aquisitivo, bem como a facilidade do crédito, milhões de pessoas passaram a consumir produtos que antes lhe eram inacessíveis. Como, por exemplo, automóveis, televisões digitais, smartphones, viagens internacionais, etc.

O Professor da Unicamp Márcio Pochman diverge da classificação como classe média desse segmento de nossa sociedade. Para ele, a classificação de classe média deste segmento da população esta impregnado de ideologia e voluntarismo, pois o que ocorreu foi o aumento do consumo. De seu ponto de vista, a classe média se caracteriza por uma estrutura ocupacional específica com remunerações mais altas, gozando de maior prestígio social. Outra diferença apontada por esse autor é na forma como se dá o gasto. A classe média tradicional tem a tendência de valorizar o entretenimento, a cultura, a educação, enquanto a classe C não investe tanto em cultura e educação. Por outro lado, essa nova classe social tem como característica o exercício de empregos de menor complexidade intelectual, remunerações mais baixas que a classe média tradicional, e não tem condições de poupar.

Para Pochman, o que ocorreu foi, simplesmente, o fortalecimento da classe trabalhadora.


Dois efeitos na Economia: o de imitação e esnobação:

O Efeito Imitação é o desejo de um consumidor em ter determinados produtos, porque outras pessoas os têm ou porque estão na moda. Esse efeito foi identificado por Duesenberry e faz com que membros da Classe C passem a consumir produtos da classe B e tendam a imitar os padrões de vida desta classe superior. Por sua vez, os membros da Classe B perseguem os níveis da Classe A.

Desse efeito se extrai algumas consequências econômicas, como, por exemplo, “à medida que mais pessoas adquirem estes produtos, o Efeito Imitação, conforme Pindyck & Rubinfeld (1994), majora a reação da demanda às variações ocorridas no preço, tornando-a mais elástica e isto traz importantes implicações nas estratégias de preços das empresas. Como este Efeito Imitação está muito associado a novidades de moda, estilo e marcas, ou mesmo a novidades tecnológicas, ele é fortemente influenciado pelos ativos intangíveis. O lançamento de novas tecnologias de aparelhos celulares ou de versões atualizadas de softwares como o Windows XP®, ou mesmo a recente explosão dos DVDs no Brasil e no mundo são exemplos claros deste Efeito Imitação.” (Características Estratégicas dos Ativos Intangíveis e o Desempenho Econômico das Empresas no Brasil, dos autores Marcelo Monteiro Perez e Dr. Rubens Fama in http://www.ead.fea.usp.br).

Não vou me deter muito nesse aspecto, pois não é esse o objetivo desse artigo. Vou pular para o segundo efeito.

Outra consequência do efeito imitação é o segundo efeito, Esnobação, ou “efeito snob”.

Perseguida pela Classe B, a Classe A abandona certos tipos de consumo porque se tornaram correntes na Classe B e passa a consumir produtos e bens mais elevados e inacessíveis à Classe B. Esta última, por sua vez, age da mesma forma com a Classe C. Em outras palavras, C persegue B, que corre trás de A, que foge dos dois.

Eis aí o mecanismo de um crescimento indefinido do consumo, crescimento esse que tende a ser proporcional ao aumento da produção. Quanto mais esse crescer, mais as classes inferiores têm condições de adotar padrões de vida superiores e mais esta refinam seus próprios hábitos de consumo.


Desigualdade

No Brasil, o consumo sempre foi usado como elemento de diferenciação entre os segmentos sociais. Por esse motivo, a ascensão econômica e social de mais de trinta milhões de pessoas não agradou à classe média tradicional. A sociedade brasileira é desigual e até o governo petista a luta contra a desigualdade não entrava na pauta da elite politicamente dirigente e economicamente dominante. O país sempre teve esse elemento que o diferencia, e, ao incluir milhões de pessoas no mundo do consumo, o governo petista começou a tensionar esse traço diferenciador.

Nossa classe média tradicional começou a se incomodar com a proliferação de máquinas fotográficas, do fácil acesso às passagens aéreas. “Hoje qualquer pé de chinelo pode ter máquina fotográfica”, “aeroporto ou rodoviária”, postou em seu Facebook a professora Rosa Marina de Brito Meyer, de Letras da PUC, no Rio de Janeiro; “antigamente fazer um cruzeiro era só para quem podia, hoje qualquer um faz”. São frases facilmente encontradas nas redes sociais. Na expressão de Alberto Dines são os maus bofes das redes sociais. Contudo, essas ofensas não estão confinadas tão-somente nessas redes, pois a grande mídia as reproduz. O preconceito classista é óbvio.

Por outro lado, a classe média tradicional que não quer perder privilégios, não vê com bons olhos a ascensão da classe C e, tampouco, reconhece os avanços dos governos petistas na questão social. Segundo a ONU, que não pode ser considerada um órgão petista, o Brasil saiu do mapa da fome; houve aumento consistente do salário mínimo nos últimos anos; e, apesar da crise econômica, o nível de emprego tem se mostrado estável; bem como mantida a distribuição de renda. Nesse sentido, o ódio ao PT é o irracional vestido de racionalidade.


Celso Gomes








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