sexta-feira, dezembro 21, 2012

Curtas reflexões de Natal:

                           Curtas reflexões de Natal:

 

1.                     Lula, do alto de sua popularidade, após sucessivas vitórias políticas e eleitorais, com o ego inflado e ressentido pelos sucessivos ataques da mídia conservadora, resolveu sair do canto do ringue para reagir, ameaçando a elite brasileira com novas caravanas da cidadania, agora sob outra feição. Vocês têm os meios de comunicação, eu tenho acesso direto às massas, quer dizer Lula. Vamos esperar os próximos rounds.

 

2.                     A ação penal 470 diminui a corrupção? Não creio. A corrupção faz parte das regras das instituições políticas brasileiras, que reproduzem a enorme desigualdade social na qual vivemos. Nesse mesmo momento em que escrevo, leio nos jornais fatos relacionados à Prefeitura de Caxias, de Friburgo e do escritório da Presidência da República em São Paulo.

 

3.                     O julgamento do Mensalão causou um orgasmo midiático na direita brasileira. Moralismo hipócrita sem precedentes. O processo transformado em espetáculo pode ser um enorme perigo para a sociedade brasileira, em vista do fato de Joaquim Barbosa e seus pares – seja por compromisso político, por ideologia, ou por canalhice mesmo – jamais julgarão o Mensalão mineiro e do DEM, utilizando os mesmos critérios para julgar os petistas. Em termos gerais, concordo com a condenação, mas que ela possuiu um ingrediente de vingança contra aqueles que elegeram o operário não tenho dúvida.

 

4.                     Lula, apesar de ser um político extraordinário, fez péssimos acordos políticos para governar, jogando por terra o trabalho de formiguinha feito pelos militantes do PT ao longo de décadas. O discurso ético do PT caiu por terra, bem como a luta pelo Socialismo, que foi esquecida nas gavetas. É certo que distribuiu renda, mas não enfrentou o sistema financeiro e o agro-negócio, crendo que, assim fazendo, o deixariam governar. A trégua durou apenas um ano. No primeiro erro, que se diga, era cometido pelo PSDB no Poder, a cacetada veio dura no quengo de nordestino. Novamente, se safou com apoio de formiguinha dos petistas, que realizaram um movimento nas eleições internas do PT, mostrando força política e colocando a direita na dúvida se valeria ou não a pena encarar um processo de impeachment, na qual poderiam sofrer um duro revés.

 

5.                     Para nomear Lewandowski, Lula ouviu a própria mulher, que conhecia a mãe do nomeado; para nomear Joaquim Barbosa, primeiro negro a ocupar uma cadeira no STF, Lula ouviu um padre. Pergunto: não existe uma comunidade jurídica próxima ao PT? Se matarem algum proxeneta no porto, não adianta ouvir os monges do São Bento, vá as putas. Cada macaco no seu galho.

 

6.                     Lula sob ataque da mídia conservadora. Não se iludam: não é tão-somente o ex-retirante nordestino que eles querem. Está em jogo algo muito mais importante: os projetos de inclusão social levado a efeito nos últimos 10 anos; a diminuição da margem de lucros do sistema financeiro internacional. O peru de natal do mercado financeiro internacional chamado Brasil, agora deu a vez para outro: o México. Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos.

 

7.                     Por falar nos ianques, veio-me direto a lembrança de Obama. Estive nos EUA dois meses antes de sua primeira eleição. Vi a campanha democrata nas ruas de NYC. “Yes, we can.” Acreditava à época que estávamos diante de um político diferente. Qual nada! Obama é menos corajoso que Lula. Durante seu mandado, por várias vezes pisou no freio e não enfrentou a direita estadunidense com a força adquirida nas urnas. Para ser reeleito dependeu muito mais de Bill Clinton e do medo da população, que temia a volta das excludentes políticas republicanas, do que por seus próprios méritos. Agora, diante de um novo massacre de crianças inocentes, fez um discurso pífio, acovardado, com medo da Associação dos Rifles e da indústria armamentista.

 

8.                     Decepção é minha palavra nesse momento natalino.

 

9.                     Golpe: o mesmo chefe do Ministério Público que engavetou o processo contra um Senador da República que estava na folha de pagamento de um chefe mafioso, a saber, Demóstenes Torres, pede a prisão dos petistas poucos dias antes do Natal, esperando o recesso forense para que o Presidente midiático do STF, Joaquim Barbosa, possa decidir sozinho, e sem que o acórdão do julgamento tenha sido publicado. Espero estar enganado, mas creio que Joaquim Barbosa, que tem um perfil autoritário e enfadonho, vai deferir o pedido, dando mais um golpe na jurisprudência consolidada pelo Supremo.

 

10.                   A CPI do Cachoeira demonstrou que os partidos políticos brasileiros se nivelaram  por baixo. Diante do quadro, sobra-nos somente uma palavra: esgoto.

 

11.                   O Relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira, o deputado petista Odair Cunha (MG) confidenciou a interlocutores que foi abandonado por seu partido na sessão que enterrou a comissão. A bancada do PT no Senado tinha direito a dois votos na CPI. Os dois titulares: José Pimentel (CE) e Jorge Viana (AC) faltaram. Só um dos cinco suplentes apareceu para votar em favor de Odair. O que temia o PT para não brigar pelo relatório? Acordos espúrios que nunca sairão dos esgotos de Brasília. Aliás, até hoje não compreendi o que levou os irmãos Viana a se filiarem ao PT: são tucanos disfarçados.

 

12.                   Odair também é bastante responsável pela rejeição de seu relatório. Recuou não indiciando Policarpo, dando uma isenção à revista Veja que não dá tréguas ao PT. Recuou não convocando o Procurador da República para explicar os motivos que o levaram a engavetar o inquérito contra Demóstenes Torres. De recuo em recuo, acovardado, sobrou muito pouco para defender.

 

13.                   Acima escrevi que Lula fez péssimos acordos políticos, assim como FHC, que também fechou os olhos para roubalheira. Com algumas diferenças importantes: Lula dotou a Polícia Federal e o Ministério Público de poderes subtraídos à época tucana; extinguiu o cargo de Engavetador Geral da República. Reflexão: fizesse um governo completamente ético, Lula governaria? Óbvio que não. A corrupção política brasileira tem fundamento bem sólido: a enorme desigualdade social na qual vivemos e a própria representação política, na qual poucos exercem o Poder em nome de muitos, sem mecanismos de destituição, como por exemplo, o recall norte-americano.

 

14.                   Joaquim Barbosa é aplaudido no Bracarense. Não fosse um governo democrático de esquerda, Joaquim seria ainda um obscuro membro do Ministério Público, vivendo em seu ostracismo. De onde não deveria ter saído.

 

15.                   Músico negro, em entrevista publicada nos jornais cariocas, diz que sempre sofreu preconceito andando pelas ruas do Leblon onde mora. Porteiros o olham desconfiados, madames seguram suas bolsas, etc. Abre teu olho Joaquim, os aplausos de hoje serão os apupos de amanhã. Não é assim que o Bracarense trata seus irmãos nas ruas.

 

16.                   Joaquim Barbosa, o nome do momento. Espero que ele conheça a lição de Júlio César em sua entrada triunfal em Roma após derrotar Pompeu na guerra civil. - És um homem, dizia o escravo, diante da enorme ovação.

 

17.                   Lula atravessou o Rubicão. Alea jacta est. Espero que tenha atravessado para a briga, para que o PT se movimente e saia da enorme letargia e covardia na qual se encontra, para que as bandeiras vermelhas voltem a colorir nossa democracia. Para avançar nas reformas políticas e para enfrentar a banca. Não creio, mas espero.

 

18.                   A direita brasileira não esta acostumada com tantas derrotas políticas. Os udenistas voltam ao palco. O moralismo hipócrita toma conta da mídia e contamina o STF. Um setor da sociedade brasileira, que estava calado, volta a se manifestar: as vivandeiras dos quarteis e a os filhos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Desenha-se um golpe. Não nos modelos antigos, de quartelada, mas do modo democrático (argh). Semelhantes ao golpe contra Lugo e Zelaia. Vamos ver até onde vai o afã de Joaquim e seus pares.

 

19.                   Joaquim, a Constituição não é o que os ministros do Supremo dizem que ela é, mas aquilo que o povo, dono e destinatário, em seu acordo político, disse no passado. O resto é conversa para boi dormir.

 

20.                   Estou com o Parlamento nessa briga com o Supremo. Entre a aristocracia e a casa do povo, mesmo com restrições, não tenho dúvidas. O mandato parlamentar não é dos condenados, mas do povo. Novamente o Supremo extrapolou de sua função repetindo o caso Chico Pinto em movimento perigoso e sem precedente na democracia brasileira.

 

21.                   Quem é Celso de Mello para ameaçar um dos Poderes da República? A propósito, pesquisando seus votos no Supremo, encontrei vários em sentido contrário, o que comprova a tese de alguns articulistas de que certos ministros do Supremo terem realizado um julgamento no mínimo diferente. Celso de Mello, decano do Supremo, bah! Nomeado por Sarney não se esqueçam. Esse é o problema do STF. As nomeações são políticas e o cargo se estende até a aposentadoria compulsória. Defendo a tese de que ministros da Corte suprema tenham um mandato e que suas nomeações passem por um processo eleitoral.

 

22.                   Alternância no Poder é bom. A direita sempre diz isso quando é derrotada nas urnas, mas não larga o osso quando vence. Vide o Governo de São Paulo, há décadas em mãos tucanas. Todavia, partidos políticos que, durante muito tempo, exercem o poder, tendem, invariavelmente à corrupção. Mesmo que seja chinelagem, como o caso Rosemary. Jargão: o Poder corrompe. Repito Machado de Assis: a oportunidade não faz o ladrão, mas o roubo. O ladrão já estava feito.

 

23.                   José Dirceu e José Genoíno de novo na prisão. Errar é humano, persistir no erro, é burrice. Lembro-me de Dirceu quando interviu no Rio de Janeiro, impondo uma aliança com Garotinho, após ser derrotado nas urnas partidárias. Não me venha com essa conversa de que sempre lutou pela democracia. Todavia, diante do movimento golpista da direita, sou obrigado, por dever de consciência, a me colocar do lado deles. 2013 vai ser um ano muito difícil. De um lado, teremos a mídia conservadora pautando seus partidos políticos e criando falsos incidentes em nosso caminho, aplainando um caminho para o golpe de 2014; de outro lado, o imenso Brasil de desigualdades sociais, nosso povo sofrido, que não podemos abandonar à própria sorte. Dar-lhe-emos às costas?

 

24.                   Dilma atucanou. Sua política econômica difere muito pouco da tucana. Talvez, na distribuição de renda, ou no arremedo de enfrentamento aos banqueiros. Antes que a Esquerda me venha com pau, vejam os elogios de Mendonça de Barros. Enfrentar a banca é difícil, eu sei. Mas não vejo muita diferença entre os ideários na economia. Um pouco de Celso Furtado ali, um pouco de Keynes acolá, mas o fato de o PSDB haver abandonado o ideário socialdemocrata para abraçar o neoliberalismo não nos autoriza a pensar que nossa política econômica não deixa de ser próxima a deles no passado. Mesmo assim, há o inconformismo da elite brasileira com a manutenção do poder petista. É preciso ler Raymundo Faoro para entender. Dilma é o Colosso de Rhodes. Espero que ela saiba disso.

 

24.                   Vamos usar Marina Silva e Eduardo Campos para forçar um segundo turno entre Aécio e Dilma em 2014. Garrincha perguntaria: já combinaram com os russos?

 

25.                   E tem mais, mexeu com Lula, mexeu comigo.

 

                        Feliz natal.

                        Celso Gomes.

2 Comments:

Blogger arrabaldes said...

Celsao,
escrevo do gelo de Montreal, onde se encontra minha mulher (fazendo mestrado em antropologia), e após uma breve e inspiradora passagem por Cuba.

Perfeitas tuas palavras! Assinaria embaixo, como há muito nao faço, he he.

Sinto saudades dos papos e fico feliz de ver que o amigo-camarada nao caiu nem se subtraiu ante tanta tramoia. A fala sobre o Dirceu e sobre o Joaquim Barbosa resumem cirurgicamente o que penso sobre tudo o que vejo, embora distante dos acontecimentos e do próprio debate, envolvido que estou com outra forma de fazer política - forma que assim entendo a arte e o canto.




Deixo um abraço saudoso e o desejo de um 2013 de lutas e (re)encontros.




Zeh.

12:55 PM  
Anonymous Anônimo said...

DE Paulo Faria
PARA Você Exibir detalhes DePaulo Faria ParaCelso Gomes
querido cunhado, se você conseguir desenhar uma direita brasileira, será meu herói. o Brasil só tem esquerda :p no máximo chegando ao centro esquerda

Países do BRIC convivem com apenas um tipo de ideologia política, acho que seus artigos ficariam melhores se houvesse menção a esquerda liberal e a esquerda democrata, se é que isso existe...

assim como nous EUA não existe esquerda, existe direita republicana e direita sindical.

a guerra fria acabou :p precisamos de novos conceitos....



Enviado via iPad

5:14 PM  

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