quinta-feira, fevereiro 23, 2012

NEO-COLONIALISMO

NEO-COLONIALISMO

Leio nos jornais que a Grécia aprova cortes em meio ao caos nas ruas e penso: a crise da dívida pública européia atingiu de vez os cidadãos comuns.
A necessidade de quitar a dívida levou os países europeus a utilizar um remédio já empregado pelo FMI no Brasil há pouco tempo atrás, em pleno Governo FHC. Ou seja, esse remédio é nosso velho conhecido: ajuste fiscal, reforma da previdência (visando aumentar a idade para a concessão das aposentadorias), redução de direitos trabalhistas, exoneração de funcionários públicos, cortes de serviços públicos, aumento de tributos e privatizações.
É um remédio amargo que os europeus terão que engolir e cujos resultados são bastante discutíveis, pois acaba com a doença matando o doente.
A crise européia atual é consequência da crise do setor financeiro deflagrada em 2008 pelos derivativos norte-americanos. Devemos relembrar que a bolha estourou em vista do fato de os maiores bancos do planeta possuírem em suas carteiras de negócios os chamados “ativos tóxicos”. A princípio, a crise atingiu fortemente o sistema bancário norte-americano e britânico. Em um primeiro momento, os EUA não agiram deixando quebrar o Lehman Brothers. Em seguida, houve injeção bilionária de recursos públicos para salvar o sistema financeiro e a indústria automobilística norte-americana.
O que temos a ver com isso? – perguntariam meus poucos leitores – nosso sistema bancário não negocia os tais derivativos que contaminaram a economia mundial.
Não é bem assim.
Lembrem-se da Aracruz Celulose e da Sadia, que quase quebraram na crise de 2008.
Os ideólogos dos países capitalistas centrais estão buscando saídas para a crise deles e uma das idéias que está sendo lançada, encampada por Barack Obama, é a criação dos “bad banks”, instituições financeiras que absorveriam os papéis podres. É mais ou menos o que Marcello Alencar do PSDB fez quando privatizou o BANERJ: a parte boa foi vendida para o Itaú; a parte podre ficou com o Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Todavia, para a criação dessas instituições, faz-se necessário a alocação de recursos. De onde esses viriam? É aí que entram os BRICS, países que reúnem os emergentes com muitas reservas e com crescimento econômico superior à média dos países capitalistas centrais.
A idéia central dos economistas europeus e norte-americanos é transferir esses ativos podres para os BRICS. Somente a Alemanha, segundo os informes econômicos dos jornais, possui 1,1 trilhão de dólares em papéis podres circulando pelo mundo
Em um momento em que estamos discutindo o que fazer com as reservas do Pré-sal e criando fundo de previdência privada para funcionários públicos, é preciso ficar atento.
Com a aprovação da Lei 12.351/2010, há um enorme risco de que nosso país adquira esses papéis podres que circulam pelo mercado financeiro internacional, pois esta lei determina em seu art. 50 que os recursos do Fundo Social do Pré-sal sejam alocados principalmente em investimentos e aplicações em ativos no exterior. Verbis: “A política de investimentos do Fundo Social tem por objetivo buscar a rentabilidade, a segurança e a liquidez de suas aplicações e assegurar sua sustentabilidade econômica e financeira para o cumprimento das finalidades definidas nos arts. 47 e 48. Parágrafo único. Os investimentos e aplicações do Fundo Social serão destinados preferencialmente a ativos no exterior, com a finalidade de mitigar a volatilidade de renda e de preços na economia nacional.”
Obviamente, ao adquirir esses papéis, nós estaríamos contaminando definitivamente nossa economia, e há um enorme risco de absorção para este Fundo, de papéis que nada valem e que contaminaram toda economia européia e estadunidense. Logo, de forma direta, estaríamos terminando por financiar os riscos do capitalismo financeiro e aliviando de vez a economia desses países, em uma nova espécie de colonização.

Celso Gomes

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

O HOMEM SEM AGÁ

O HOMEM SEM AGÁ


Há algum tempo atrás, para ser mais exato na edição 25 do Algo a Dizer (http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=36), Marlene Lima publicou um conto de sua lavra que havia sido premiado em um concurso literário. Faltava um livro da autora. Agora não falta mais. Marlene lançou em dezembro de 2011 o livro O Homem sem Agá, pela editora Cais Pharoux, uma coletânea de contos escritos ao longo dos últimos anos.
Sou filho de nordestinos. Meu pai veio para o Rio de Janeiro em um pau-de-arara para ganhar a vida como muitos outros retirantes. Por esse motivo, sempre me considerei meio nordestino, meio carioca. Morei em Natal quando criança, em uma das muitas idas e vindas do meu pai, que se sentia como um exilado no Sul maravilha.
Marlene fez o mesmo movimento que meu pai. De Alagoas para o Rio. Mas, assim como meu pai, Marlene nunca abandonou de vez sua terrinha querida. O pó do Nordeste se entranhou em sua pele, numa amargura de dar dó. Por esse motivo, a música, a literatura, a dança, as comidas, nunca dão conta de tirar essa nódoa, essa dor.
No entanto, não custa nada tentar.
O Homem sem Agá é isso. Uma bela tentativa de aplacar esse sentimento teimoso de exílio. O livro representa o caminho traçado pela autora até o Rio de Janeiro. Marlene, astuciosamente, vem de Alagoas para a Glória. Seu caminho de escritora nordestina que chega para ocupar um lugar há muito tempo vazio.
Por esse motivo, eu, meio carioca e meio nordestino, saúdo sua chegada à literatura brasileira, pois me senti assim lendo seus contos: um Brasil inteiro.

Celso Gomes