segunda-feira, dezembro 26, 2011

       
ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA

(I)
                     Certa feita, tomando um café no Odeon com minha mulher e meu filho Daniel, aproximou-se de nós um poeta vendendo seus livros artesanais. Nesse momento, ou um pouco antes, sem nenhuma razão aparente, meu filho iniciou um choro arretado, fazendo pirraça. Ficamos preocupados, pois não conseguíamos resolver o problema e constatamos estupefatos que o rapaz insistia em vender seus opúsculos, indiferente ao fato de o bebê estar chorando e da nossa preocupação. Bastante desgastados, compramos o livro do sujeito para nos livrarmos dele.

                     - Quanta sensibilidade! – minha mulher comentou.

                     Em casa, li o pequeno caderno de poemas: um amontoado de versos malfeitos e sem sentido, mas bastante sinceros.

                     Aliás, é preciso acrescentar que todo poema medíocre é extremamente sincero e que toda grande poesia possui um fundo irredutível de falsificação, de mentiras, de astúcia. Faltava ao sujeito saber que poesia não é ornamentar a palavra, mas subtrair dela, de espremer dela, o seu maior silêncio. Ao final do livro, perguntei-me: porque falar tanto de si mesmo se nada nos foi perguntado? Depois, fiquei pensando acerca dos motivos que levam um sujeito a escrever versos, publicá-los e sair pelas ruas a vendê-los. Obviamente não cheguei a nenhuma conclusão.

         (II)
                                 Paul Valery ensina que “os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.”

(III)
                     Os poetas mais novos creem que ser jovem é automaticamente ter talento e que o passado está morto e enterrado. No entanto, o passado não está necessariamente morto, tampouco deve ser demolido.

(IV)
                     A memória é condição da poesia.

(V)
                     Por outro lado, atualmente, os poetas brasileiros conservadores manejam as palavras com mais cuidado que os engajados, pois são contestados, ou melhor, desafiados pela realidade, pelos acontecimentos e precisam, para aplacar a angústia que os consome, do refúgio da linguagem. Enquanto isso, os entusiastas das últimas gerações, com exceções é claro, recorrem às palavras com indiferença, tendo em vista que se acreditam portadores de uma chave que abre a porta do futuro, terminando por produzir obras sem arte e sem paixão.
                     Em suma, os mais novos, desprezam a linguagem; enquanto os conservadores retiram desse limo sua vingança contra a realidade que não os satisfaz. 
(VI)
                     Na verdade, tanto os últimos como os primeiros deveriam ter ciência que a linguagem jamais se deixa dominar, jamais se deixa submeter aos caprichos do poeta.

(VII)
                     A apuração de um estilo é o legado que o luxo dá ao fracasso.

(VIII)
                     Donald "Don" Robert Perry Marquis, poeta e humorista estadunidense, disse em certa ocasião que escrever um livro de poemas é atirar uma rosa no “Grand Canyon” e ficar esperando pelo eco.

(IX)
                     Que eco esperam os poetas que publicam seus versos em meios eletrônicos, ou em opúsculos como o que eu havia comprado, se toda ação concreta envolve dispêndio de energia e tempo, que poderiam ser gastos de outra maneira?

(X)
                     Sabemos que entre viver e escrever existe um hiato, que é preciso escolher entre viver e escrever, pois enquanto se escreve nada acontece. Nesse sentido, porque os poetas fizeram essa escolha, abrindo mão de momentos que poderiam ser melhor aproveitados?

(XI)
                     Há cerca de 2.000 leitores de poesia no Brasil – dizia Otto Lara Resende. Por esse motivo, o meio editorial brasileiro sacrificou a poesia em favor do lixo despejado nas livrarias: zumbis, vampiros e anjos; autoajuda; romances estrangeiros de qualidade duvidosa; etc. Todavia, contraditoriamente, o povo brasileiro ama seus poetas. A culpa é dos poetas pela parca quantidade de leitores?

                      Talvez.

                     Alguns são herméticos demais, lacônicos, outros rebuscados, outros ainda, concisos ao extremo.

                     O laconismo deve se resignar ao silêncio, se não se deseja cair no obscurantismo, ou melhor, na obscuridade, na profundidade falsamente enigmática; e toda concisão tende ao silêncio. Então, não é melhor silenciar de vez?

(XII)
                     Alguns poetas precisam entender que poesia requer inspiração, sensibilidade, mas não é só isso. Poesia é trabalho. Dizia Cora Coralina que o trabalho é fonte permanente da poesia. É lugar comum afirmar que arte é 99 % de transpiração e 1 % de inspiração.

(XIII)
                     O grande poeta não é aquele que acerta, mas o que erra, que busca.

(XIV)
                     Todavia, o grande poeta não deixa nada para improvisação ou para inspiração. Ele vigia as palavras, pesa-as. Ele jamais esquece que a linguagem é a única realidade.

(XV)
                     O grande poeta é aquele que tenta, que não cumpre regras e cânones, que aposta no erro, que enverada por muitos caminhos, que falha, mas que sua para enfrentar o motivo de seu sofrimento, pois todo escritor sofre de algo que com a escrita ele enfrenta. Atormentado por uma memória prodigiosa, ele é incapaz de esquecer e essa incapacidade o torna imaginativo e doentio, levando-o, muitas vezes, a descer aos abismos dos remorsos, de construir seu espírito sobre essa tênue e sombria amurada. No entanto, suas falhas e erros servem para que outros escritores não percorram o mesmo caminho.

Ps. Godard é um exemplo de grande poeta, mas por favor jovens cineastas, não repisem seus passos.

(XVI)
                     A literatura de um grande poeta, ensina Proust, é um instrumento ótico que nos ajuda a ver o mundo de uma forma que, sem ela, talvez não víssemos por nós mesmos.

(XVII)
                     Um grande poeta é um escritor triste e sua voz possui força para impor o silêncio, para semear tempestades e a qualidade de uma literatura se mede pela quantidade de miséria que forja em seus leitores.

(XVIII)
                     No seu desejo de solidão, o grande poeta, como por exemplo, Gullar, “invade as ventas no limite do veneno”.

(XIX)
                     É preciso entender que Drummond, quando diz: “Ah, chega de lamento e versos ditos / ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça, / ao ouvido do muro, / ao liso ouvido gotejante / de uma piscina que não sabe o tempo, e fia / seu tapete de água, distraída.” É um mundo sem deus que ele descreve. Drummond fala sobre o Ser de Parmênides, Heráclito, Heidegger e outros; de um universo vazio de intenções, que não nos prometeu nada; de um cosmo frio e indiferente ao drama humano.

(XX)
                     Em nossa solidão cósmica, somos como o Universo reflete sobre si mesmo. Por isso somos raros e nenhum poema dará conta desse fato tão triste. No entanto, é preciso tentar, trilhar o Real que, em grande parte, está invisível aos nossos olhos.

(XXI)
                     Quando se busca os grandes temas, o grande poema surge necessariamente.


                     Celso Gomes



                    
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3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Muito bom!
Grande abraço,
Tarcísio

10:41 AM  
Blogger liane sales said...

Amei, celsito!
Liane

9:30 PM  
Blogger arrabaldes said...

Querida Liane,



Transcrevo parte que gostei muito:




(XX)

Em nossa solidão cósmica, somos como o Universo reflete sobre si mesmo. Por isso somos raros e nenhum poema dará conta desse fato tão triste. No entanto, é preciso tentar, trilhar o Real que, em grande parte, está invisível aos nossos olhos. (grifo meu).

O que consideramos como o real (no sentido da razão cartesiana, que pretende ser a porta voz da verdade absoluta) é cada vez mais pura representação do real.

No pensamento de Heidegger, citado pelo Celso, o real não é uma substância, um absoluto, uma coisa dada, o real é um acontecimento que revela (real-iza) uma possibilidade de ser no mundo, entre infinitas outras possibilidades que se escondem exatamente no momento em que se apresenta esta possibilidade.

Cada possibilidade é única, um jangada num mar de infinitas possibilidades do real se revelar, se mostrar. Daí, não existir um real visível, mas muitas realidades escondidas no nada e prontas a se revelarem.

O pensamento racional (o conhecimento), representado pela ciência, conhece apenas o objeto definido do seu estudo (a ciência objetifica tudo para dominar através do conhecimento), mas se vê limitada por uma conceituação exata, precisa e segura do real.

Heidegger diz que esquecemos o Ser, limitamo-nos a buscar compreender o ente, o objeto, a substância (uma simples aparência do real).

A filosofia (não a metafísica da tradição), tanto quanto a poética (a arte), e diria também a religião (como um modo de pensar ligado à ordem cósmica, quase aos moldes de Espinoza, e não como transcendência que concede ao homem a vida eterna), conhecem a manifestação do real através da criatividade do sempre novo, porque no mesmo momento em que se dá já não é mais, ou seja, o real é um acontecimento, não um absoluto.

Abraço

Santacruz





Em 1 de agosto de 2012 21:33, liane sales escreveu:

liane sales enviou o link de um blog para você:

Santa,Escrito por um amigo muito querido...Aquele abraço.

1:19 PM  

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