terça-feira, julho 05, 2011

ELEIÇÃO NA ABL

ELEIÇÃO NA ABL


O jornalista Merval Pereira foi eleito para a Academia Brasileira de Letras - ABL em 2 de junho de 2011, ocupando a cadeira 31 e susbstituindo o escritor Moacyr Scliar falecido no início do ano. Merval recebeu 25 votos, enquanto Antônio Torres recebeu apenas 13 votos, com uma abstenção.

O revés não foi de Antônio Torres, mas da literatura brasileira.

Merval escreveu dois livros: O Lulismo no Poder, Editora Record, 2010, uma coletânea de artigos publicado em O Globo; e A segunda guerra, a sucessão de Geisel, Brasiliense, 1979 - com André Gustavo Stumpfum. Durante os oito anos de governo de Lula, Merval, que possui profunda ligação com as Organizações Globo – ocupando diversos cargos nesta, sendo, atualmente, colunista do jornal O Globo e comentarista político na rede CBN e do canal Globo News – fez oposição sistemática ao Governo petista.

Antônio Torres – que nos deu a honra de abrir a edição eletrônica do Algo a Dizer com uma entrevista bastante interessante (http://algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=22) – nasceu no pequeno povoado do Junco (hoje Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Posteriormente, mudou-se para Alagoinhas para estudar e, mais tarde, foi para Salvador, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Aos 20 anos, transferiu-se para São Paulo, empregando-se no Última Hora. Depois de alguns anos trabalhando na Imprensa, Torres passou a trabalhar em publicidade. Viveu três anos em Portugal e atualmente se dedica exclusivamente à atividade literária na qual se iniciou com 32 anos, quando lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica especializada como a revelação do ano. O segundo romance, Os Homens dos Pés Redondos, ambientado em Portugal, confirmou suas qualidades de escritor. O grande sucesso veio em 1976 com Essa terra, romance autobiográfico, abordando a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sudeste brasileiro. Esse livro foi traduzido para o francês, abrindo o caminho de Torres para a carreira internacional, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal.

O universo literário de Torres, porém, não se restringe ao interior do Brasil e à temática nordestina, escrevendo com a mesma desenvoltura sobre temas urbanos, como em Um cão uivando para a Lua, Os homens dos pés redondos, Balada da infância perdida e Um táxi para Viena d’Áustria; bem como sobre temas históricos: Meu querido Canibal e O nobre sequestrador.

Em 1998, Torres foi condecorado pelo governo francês como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França. Em 2000, ganhou o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, foi o vencedor, junto com Salim Miguel por Nu na escuridão do Prêmio Zaffari & Bourbon da 9.ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, RS, por seu romance Meu querido canibal, no qual se debruça sobre a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido guerreiro indígena brasileiro; Em 2003, seu romance O nobre sequestrador foi finalista no Prêmio Zaffari & Bourbon; e, finalmente em 2006, publicou o romance Pelo fundo da agulha, com o que fechou uma trilogia iniciada com Essa terra e prosseguida com O cachorro e o lobo. Este livro foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti e finalista do Prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Literária Nacional de Passo Fundo.

Em suma, estamos diante de um grande escritor, pois sua obra é capaz de traçar a história secreta do homem brasileiro, de nos impingir a dor humana e uma grande literatura se mede pela quantidade de miséria, infelicidade, nostalgia, melancolia, aflição que é capaz de forjar em seus leitores. Torres é uma voz, cuja força impõe o silêncio, um escritor capaz de semear tempestades. O romancista preterido pela ABL, conforme nos ensina Marcel Proust, produz um instrumento ótico para ajudar a discernir aquilo que, sem sua obra, o leitor talvez não percebesse por si próprio.

Esse pequeno artigo tem o condão de demonstrar nossa indignação, pois Antônio Torres, um dos nomes mais importantes de sua geração, com uma obra expressiva, autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, foi preterido na Casa de Machado de Assis para um jornalista que somente escreve artigos políticos conservadores contra o Governo de esquerda eleito democraticamente, e que, na última eleição, fez campanha abertamente para José Serra, reverberando, em sua coluna, fatos negativos para a candidata Dilma, tais como a acusação de que o PT e Dilma teriam forjado o dossiê de Amaury Ribeiro Jr. contra Serra. Posteriormente, a Polícia Federal indiciou Amaury Ribeiro Jr. e foi divulgado pela imprensa que o tal dossiê seria obra de Aécio Neves e O Estado de Minas, na disputa pela pré-candidatura tucana no ano anterior às eleições.

Fica aqui o nosso protesto.

Celso Gomes

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