quinta-feira, junho 09, 2011

A LÓGICA PALOCCIANA

A LÓGICA PALOCCIANA




Há alguns meses, em plena crise no Senado, escrevi um artigo para o Algo a Dizer, edição 23 de agosto de 2009, no qual afirmava a “inocência” de Sarney. Minha tese à época é de que a crise no Senado era uma crise ética e que não havia nenhuma crise política ocorrendo no Brasil. No Brasil, vivemos, e não é de hoje, uma crise de valores éticos, escrevi à época. Passados vinte e um meses, entramos em nova crise ética que culminou com a demissão de Antônio Palocci da Casa Civil. Ou seja, por apego ao cargo, Palocci levou um problema ético-pessoal seu para dentro do governo que a esquerda elegeu e sustenta politicamente.

Volto a esse tema para reafirmar o que escrevi. Não há nenhuma crise política ocorrendo no Brasil, todavia, os valores éticos continuam sendo vilipendiados por aqueles que deveriam dar o exemplo. Para o cidadão comum, diante da atuação de seus líderes, fica a seguinte mensagem: locupletemo-nos todos!

Antônio Palocci, de quando em vez, é envolvido com alguma acusação de negócios escusos: Prefeito de Ribeirão Preto, houve denúncias relacionadas à empresa de coletagem de lixo; como Ministro da Fazenda, caiu – felizmente para nós brasileiros, pois seguia célere o rumo neoliberal do governo peessedebista anterior e nos derrubaria com sua política econômica ortodoxa na crise financeira de 2008/2009 – pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, após denúncias de que o ilustre cidadão, um Ministro de Estado, era frequentador de uma casa, na qual políticos se reuniam por razões inconfessáveis. Juridicamente, ele tem sido inocentado, mas, conforme o jargão antigo sobre a mulher de César, não basta ser honesto, tem que parecer honesto.

Ao longo dos últimos anos, após a redemocratização do país e da fundação do PT, nunca li nenhum documento produzido por Palocci, nunca o ouvi defendendo nada tão importante que justificasse sua ascensão no Partido e no primeiro governo Lula. Ao contrário, tenho dele a pior impressão possível: carreirista, neoliberal, banqueiros financiaram sua campanha para deputado, e agora, um enriquecimento rápido e injustificável. Alguém conhece um pensamento econômico-financeiro sequer de Palocci que justifique as tais consultorias, pergunto-te meu caro leitor. Para a sociedade não há dúvida, ou é dinheiro de corrupção, ou tráfico de influência, ou sobra de campanha.

Sinto pelo PT um carinho paternal e posso, do alto da minha independência, escrever as seguintes linhas: a ascensão de Palocci no PT é semelhante a ascensão da Máfia, na qual quanto mais o sujeito arrecada para a organização, mais ele sobe na hierarquia.

Quando aderi ao PT, pensava em lutar para construir um país melhor. Hoje, vendo Palocci nos altos cargos da República, Delúbio retornando, e outros fatos que melhor estariam nas páginas criminais dos jornais, penso que ao aderir a um partido político crendo em uma distinção com os demais, em uma distinção com os militantes que seguiam outro partido político, na verdade, todos nós, desde o momento que escolhemos, participamos de uma mesma natureza, distinguindo-nos apenas na aparência. Naquele momento de adesão, eu não tinha ciência de que ao me engajar em um projeto tão importante eu seria ultrapassado pela realidade, que ao revés de conduzir os acontecimentos, eu sofreria o seu curso e que a direção do movimento mais importante da História recente do Brasil estaria na mão de um grupo de espíritos fúteis, que, de forma irresponsável, pensa agir livremente, quando todos somos cientes de que a história, que nada mais é que a história de nossa luta política, é uma fatalidade da qual ninguém escapa.

Nesse momento, sinto-me triste e decepcionado, pois constato que essa turma que tomou a direção do partido, deixou-nos, os idealistas, apenas com as tarefas de defender os ideais socialistas, de fazer campanhas nas ruas, de discutir na rede e de brigar com os conhecidos para defender esse ideário; enquanto eles enchem as burras de dinheiro e fazem acordos impensáveis há alguns anos com um dos setores mais retrógado do empresariado brasileiro e mundial: o capital financeiro.

Se na ocasião da crise do Senado, Sarney estava sendo atacado pela mídia conservadora por sua defesa da coligação PT-PMDB que terminou elegendo Dilma, desta vez, por incrível que pareça, esta mesma mídia, por motivos inconfessáveis e estranhos à maioria do Partido, foi relutante e condescendente com o Chefe da Casa Civil. Veja-se que Palocci teve tempo na organização Globo para se defender e o fez muito mal, pois não divulgou os nomes das empresas que o contrataram, preferindo sangrar o governo que deveria defender. Conforme disse um deputado em Brasília, há alguns anos Palocci caiu por quebrar um sigilo; agora caiu por manter um sigilo. Interessante a lógica palocciana, quebrou o sigilo de um pobre trabalhador e manteve o sigilo de ricos empresários que contrataram seus serviços. Em minha opinião, sua opção classista é clara.

Em suma, a crise ética instalada há anos nos Poderes da República instalou-se como um câncer na cúpula do PT. É preciso que os idealistas dentro do PT lutem para retomar o controle do partido, para que sujeitos como Palocci procurem os seus reais partidos políticos, que são aqueles ligados à burguesia brasileira e internacional, jamais o PT, fundado como uma esperança pelos trabalhadores brasileiros.



Celso Gomes

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