sexta-feira, dezembro 24, 2010

PASCALINA

PASCALINA

I

Nesta noite de natal,

Diante desse cosmo frio

E indiferente à minha existência

Olho para o céu mudo

E me deparo com a solidão desses mundos mortos

E me deparo com o passado em forma de luzes,

E me pergunto: o que somos?



II

Vivo, amo, sofro

Para ser esquecido

Assim como meus ancestrais.



III

Nunca conseguiremos

A explorar a totalidade

Do existente, minha angústia.



IV

A expansão cósmica implica em uma direção do tempo,

Existe um senso definido de passado e futuro,

O que nos impossibilita?



V

Nossos olhos evoluíram para captar imagens

Que nossos cérebros usam para aumentar nossas

Chances de sobrevivência,

Por esse motivo, muito da realidade nos escapa,

Por isso, o invisível, o Real fora do espectro visível.



VI

Na escala das partículas tudo flutua em incerteza.



VII

Segundo Einstein, a gravidade é um efeito

Da curvatura do espaço em torno de concentrações de massa:

Quanto maior a massa e menor o volume

Em que se encontra, mais o espaço a sua volta

É encurvado e mais forte a atração gravitacional

Que a massa exerce sobre outros corpos.



VIII

O universo é muito grande!

O Sol se encontra a oito-minutos luz

De distância da Terra;

A estrela Alfa-centauro, a mais próxima

Está a quatro anos luz de distância;

Andrômeda, a galáxia vizinha,

Está distante de nós dois milhões e meio de anos-luz.



Por onde andavam nossos ancestrais

Quando as luzes de nossa vizinha foram emitidas?



IX

O pósitron é a antimatéria do elétron

O próton e sua antimatéria, o antipróton

A existência de antimatéria é conseqüência inevitável

Da unificação entre a teoria quântica

E a teoria da relatividade.



Todavia, a antimatéria é muito rara no universo.

Caso contrário, ambas teriam se aniquilado

E o universo consistiria apenas em radiação difusa.



Nossa existência se deve a essa assimetria.



X

São conhecidas, até o momento, quatro forças

Com as quais as partículas da matéria interagem entre si:

As forças de longo alcance: gravidade e eletromagnetismo;

As forças que atuam em distância nucleares e subnucleares

- as primeiras são responsáveis por manter os prótons colados, apesar de suas repulsões elétricas

- as segundas, responsáveis pela radioatividade.



XI

Nossa ciência será sempre lacunosa e limitada

Pelo que podemos conhecer,

- não somos capazes de conceber a totalidade do Ser,

Exceto Parmênides.



XII

Meu caro e raro amigo, neste natal

Olhe para dez anos atrás

Estamos no natal do ano dois mil,

Houve muitas previsões catastróficas

Mas não importa, abra sua porta

Fique nu diante do espelho

Veja em seu corpo quantas mudanças

Vivíamos anos neoliberais,

Devíamos dinheiro ao mundo, falidos

Nossas estatais vendidas,

Nosso presidente chamava os aposentados de vagabundos,

Os movimentos sociais eram criminalizados, mas

E você nu diante do espelho?

Barriga demais, pele decrépita, raros cabelos,

Dentes implantados, outros lixados para retirar a nicotina,

Mas há uma mudança imperceptível

Sobre a qual você não reflete:

- nenhum átomo que estava em seu corpo em vinte e cinco de dezembro de dois mil se encontra hoje constituindo você.



Algo permaneceu não é?

Mas o quê?

Se entre você e você se passaram apenas o vazio,

A indiferença da natureza com sua existência

E sua permanência em solidão?

Mas, retorno a pergunta: o quê permaneceu?



Sugiro dois caminhos:

a) Caminho místico: a alma;

b) Caminho materialista: o corpo.



XIII

O planeta flutua no tempo, tudo.



XIV

Agora, minha família reunida na sala,

Ouço uma música gravada em 1967 pelo Pink Floyd.



De alguma forma, Syd Barrett fez chegar até mim

Os acordes daquele dia em que ele saiu de casa e seguiu

Pelas ruas até Abbey Road,

Bateu papo com Lennon e Harrison,

Queimaram fumo pelos cantos,

Falaram de Chuck Berry e de Andy Warhol, etc.



Essa cápsula do tempo, ou melhor

Essa mensagem na garrafa,

Viajou até mim quarenta e poucos anos depois.



Meu caro amigo, pergunto-te:

Se veio para frente poderia ir para trás?



XV

Óbvio que não, diriam os céticos

Sendo seguidos pelos ignorantes.



Mas, e o paradoxo dos gêmeos?



Ainda assim, seriam os sinais enviados para frente

Seguindo as setas de Zenão de Eléia,

Discípulo do Parmênides.



Mas não seria também uma boa mexida

No absolutismo do tempo?



XVI

Finalmente, chegamos até Ele.



XVII

Nesse natal,

Comemoramos o nascimento de seu filho,

E esquecemos que todos somos filhos.



XIX

Mas o silêncio obsequioso de Darwin

Já não o havia destronado?



XX

Não somos projeto, somos evolução,

O que pressupõe milhares de milhões de tentativas e erros.

O que não pressupõe criador e criatura.



XXI

A existência é um acaso,

E a consciência humana é um absurdo.



XXII

No entanto, comemorem, riam, bebam

Festejem, batam palmas para Nosso Senhor Jesus Cristo,

Com seus perus assados sobre as mesas.



Mais vale a festa do que seus motivos.



XXIII

Nesse natal, tudo que sei é que o planeta flutua

Em um universo hostil e indiferente à nossa presença,

Mas, que entre tantos senões: produziu-nos.



Uma supernova explodiu

E jorrou suas entranhas em nosso sistema solar,

Sobre esse planeta apto para a vida,

E a vida se criou, a princípio: unicelular,

Depois, colônias e mais colônias,

E, após milhões de anos, vida inteligente,

E, após milhões de anos, a consciência.



O universo nos criou

Porque precisa de nós para refletir sobre si mesmo.



Somos a consciência do cosmo.



XXIV

Neste natal,

Pergunto-te meu mais precioso amigo:

Estamos fadados ao fracasso?


XXV

Em torno, vejo ações humanas indiferentes

Ao nosso destino global,



Vejo poucas reflexões entre meus amigos

Acerca de nosso destino ínfimo,

Como se não vivêssemos

No meio de um turbilhão de estrelas reluzentes.



É preciso lembrá-los

Das antigas aulas de Física do segundo grau:

Algumas estrelas, quando são três vezes maiores que nosso sol, implodem e se tornam buracos negros,

Outras supernovas em colapsos ocasos;



As menores que nosso sol, ou de seu tamanho,

Tornam-se estrelas anãs como Nêmesis, nosso segundo sol.



Aqui perto passa um rio cósmico que nos engolfará



Podemos sair, podemos ficar



E difundir a consciência

Pelo cosmo de incerteza que nos cerca.



Entretanto, leio nos jornais

A crise entre palestinos, Israel, iranianos,

Coreanos e norte-americanos



Podemos sair e podemos ficar



Entretanto, apedrejamos adúlteras

E glorificamos imãs, padres e bispos assassinos,

Padres nazistas que acobertam pedófilos,

Glorificamos pastores que dilapidam as vidas de seus fiéis

Enquanto pregam

A palavra de um deus que sabem não existir.



Eu, por enquanto,

Nessa noite de natal em que me encontro reflexivo e só

Sei apenas que a humanidade existe,

E como sou sabedor da nossa crise,

Desejo que cada um de nós

Tenha uma boa reunião com seus semelhantes,

Que cada um de nós não viva

Esse instante como se fosse o último,

Pois isso é apenas desespero,



Que cada um de nós tente voltar no tempo,

Para que o dia de hoje não seja perdido

Na indiferença que tem nos distanciado.



A propósito, feliz natal.







Celso Gomes.

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3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Eta poeta da física!

Parabéns.

Abraçlos,

Mozart

12:43 PM  
Anonymous Anônimo said...

"Mais vale a festa do que seus motivos"...acho que essa bela frase também
vale para a vida.
Capa é capa! Rs...

Um feliz ano de dois mil e onze para todos!

Edson Furlan

11:11 AM  
Anonymous Anônimo said...

"Mais vale a festa do que seus motivos"...acho que essa bela frase também
vale para a vida.

Valeu Celso! pela poesia e pela reflexão.

Não sei se estamos indo bem, se faltam alguns tempos-luz para melhorar, mas
sinto que algo se move.

Felizes Ano Novo!

Wilton Aquino"

6:20 PM  

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