terça-feira, janeiro 12, 2010

LULA, O FILHO DO BRASIL



LULA, O FILHO DO BRASIL



De Fábio Barreto

Fui ao cinema na primeira semana deste ano para ver Lula, o Filho do Brasil. Como sou precavido, já vi filmes sobre grandes personagens desaguarem em decepção, não criei grandes expectativas. Lembrei-me de filmes sofríveis e estereotipados sobre Che Guevara tentando dar conta de seu idealismo e luta pelo socialismo.

É preciso fazer algumas considerações sobre o filme.

Os primeiros quinze minutos de filme são muito bons. Remete à Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, com a cadela Baleia sendo substituída pelo cão Lobo. A secura da terra contamina os personagens, quase não há diálogos, tampouco trilha sonora. O pai de Lula, Aristides, abandona mulher e prole numerosa para tentar a sorte no Sudeste brasileiro, caminho seguido por muitos nordestinos, acompanhado por uma adolescente grávida, Mocinha, prima de Dona Lindu. A história segue com Aristides estabelecido em um barraco em Itapema, no litoral paulista, vivendo maritalmente com Mocinha, e com Jaime, um de seus filhos com Lindu. Ficamos sabendo de forma indireta que o pai retornara à terra para buscar o filho e que teria uma nova filha com Lindu, Sebastiana.

Analfabeto, Aristides pede a Jaime para escrever uma carta mandando instruções à família em Pernambuco, mostrando-se desiludido com seu destino, dizendo para a mãe de Lula não vender os bichos, tampouco seu pedaço de terra. Jaime, escreve uma carta em sentido contrário, determinando que a mãe venda seus bens e venha para o Sudeste. Esta seqüência é ótima.

Lindu, seguindo a orientação do marido, vende seus parcos bens e parte em um pau de arara. Este é um dos momentos mais belos do filme, evoca os filmes do Cinema Novo, contando a saga do sofrido povo nordestino migrando rumo ao sul. A música, a literatura e o cinema brasileiro já nos proporcionaram grandes obras com esta temática. Ficasse o filme por aí, e teríamos uma obra prima.

Mas daí em diante o filme desanda, transformando-se em um melodrama. Os diálogos poucos e curtos tornam-se sofríveis. A viagem de pau de arara, que durou vários dias de poeira, cansaço, suor, fome, sujeira e morte pelo caminho, é reproduzida rapidamente e de forma estilizada, sem alma.

O pai de Lula é retratado como um bruto sem nuanças, um déspota que bate na mulher e nos filmes de forma gratuita. O próprio Lula não gostou desse retrato do pai. Não é levado em consideração pelo cineasta o fato de Aristides ter quase vinte pessoas para sustentar entre suas duas relações conjugais, trabalhando como estivador, uma das profissões mais degradantes para a saúde. O álcool surgia como um alívio para suas tensões. O episódio de Dona Lindu abandonando o marido à beira mar, que na vida real é precedido pela perda da canoa por Lula e seus irmãos, fica sem sentido. Dona Lindu, muito bem representada por Glória Pires, valoriza o estudo dos filhos sendo a grande responsável pelo fato de nenhum deles cair na marginalidade, ou prostituição, enquanto o pai deseja que os filhos trabalhem para ajudá-lo na árdua tarefa de levar alimento a tantas bocas. Ou seja, as razões de ambos são válidas e o filme não esclarece este aspecto.

Em poucas palavras, o retrato dos pais de Lula é maniqueísta: Lindu, o bem; Aristides, o mal. Fábio Barreto desconhece que ser nordestino e abandonar sua terra embrutece as pessoas e as desespera.

O Lula de Fábio Barreto é um sujeito despolitizado que ingressa por acaso no movimento sindical do ABC, um dos mais combativos do país. É quase um santo, pois Barreto o coloca em um pedestal, escondendo o episódio bastante conhecido sobre Miriam e a filha Luriam. O Lula do filme é aberto ao diálogo, conciliador e que teria conflitos de consciência ao ver os grevistas justiçarem o patrão após a morte de um operário. Em outras palavras, o Lula retratado por Barreto jamais seria líder dos metalúrgicos, pois o excesso de espírito conciliador não coadunava com os anseios da classe trabalhadora do período. Os discursos do Lula do ABC incendiavam os metalúrgicos e operários do país inteiro. Quem o ouviu na época sabe o que ele era capaz de fazer com as massas. Vendo o Lula conciliador de hoje presidindo o Brasil, tenho a impressão que Barreto levou-o para liderar as greves do ABC.

Sabemos hoje que Lula foi um elo de transição entre o sindicalismo pelego e o sindicalismo combativo da CUT, que não chegou a fundar. Não se é Lula por acaso como Barreto quer fazer acreditar. Por outro lado, o filme dá pouca relevância ao papel da igreja católica nas greves do ABC e transformou personagens principais, como, por exemplo, Frei Chico, em personagens secundários. Sabemos que o irmão Ziza foi muito importante para formação política de Lula. O autor poderia ter usado a metáfora do PCB como pai do PT, mas perdeu a oportunidade.

Tendo muitos fatos para contar e pouco tempo de fita, Barreto transformou o filme em uma sucessão fragmentada de episódios sem muita ligação entre eles. Veja-se o episódio da enchente, na qual a família perde tudo. No momento seguinte, nada disso tem importância.

Por outro lado, não há muito espaço para humor no filme. Lula não é esse personagem solene. Ao contrário, Lula é chegado a uma caninha, é brincalhão, gosta de contar piadas. A disputa com outro pretendente por Marisa Letícia no portão de sua casa o retrata como um pícaro, mais próximo do que ele é.

Apesar de todos esses senões, o filme merece ser visto. Há seqüências ótimas e os primeiros quinze minutos são soberbos, é cinema novo na veia. Lula discursando para 80 mil pessoas, episódio real, sem equipamento de som, com o discurso seguindo em ondas até o último operário dentro do estádio é impagável. A cena da carta sendo ditada pelo pai de uma forma e escrita pelo filho de outra é muito boa. O abandono do cão à beira da estrada é de levar às lágrimas os mais sensíveis.

Mas, assim como esperei dezenas de anos até ver Walter Salles criar Diários de Motocicleta, obra prima, na qual um rapaz idealista e sonhador, cuja história conhecemos, sobe o continente em busca de conhecimento acerca de seu povo e atravessa o rio Amazonas a nado para passar uma noite com leprosos, esperarei mais um pouco para ver Lula como metáfora do Brasil.


Celso Gomes



1 Comments:

Anonymous Wagner Pereira da Cruz said...

Fui ao cinema com uma grande expectativa. No entanto o filme se revelou um pouco chato e desconexo. Algumas cenas são realmente muito boas, mas o Lula de Barreto não é o real. Esse lula do filme praticamente pede para ser canonizado. Ele não deixa o pai bater na mãe, não abandona os estudos, é sincero, é romântico, é altruísta. Enfim, é tudo que há de bom na terra. Mas o filme merece ser visto, em virtude do personagem retratado.

Wagner Pereira da Cruz

4:55 PM  

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