quinta-feira, janeiro 14, 2010

POLÍTICA



O NOVO DISCURSO DA OPOSIÇÃO SEM DISCURSO




Recentemente, verificando que bater em Lula não a levaria ao Planalto em 2010, a oposição, nomeie-se PSDB-DEM, e seus satélites PPS-PV, que se caracterizou durante o mandato de Lula como uma oposição sem discurso oposicionista, ficando apenas no “denuncismo”, contando com o apoio massivo e rasteiro da grande imprensa, mudou o rumo de sua prosa: o governo Lula está indo bem porque é um governo que somente deu continuidade à obra perpetrada por FHC. Em linhas gerais, a oposição quer que a sociedade brasileira creia que o PT assumiu a visão tucana só que com um viés mais dirigista, estatizante. Ficamos em dúvida se esta mudança reflete cálculo político apenas, ou adesão plena à razão cínica.



Em seguida, esses luminares da política iniciaram um movimento reabilitador de FHC, com artigos elogiosos assinados por Merval Pereira e outros. Uma citação internacional do Príncipe como um dos homens mais influentes da década foi propagada aos quatro cantos do país. É preciso lembrar que esta citação se referia a sua defesa da descriminalização do uso da maconha e que durante seus dez anos de mandato, o Príncipe uspiano nenhum passo deu nesta direção e nenhum ato consistente produziu neste sentido.



Diante desta mudança de rumo, é preciso que a Esquerda brasileira esteja atenta para que a oposição não confunda o eleitorado e, tampouco, se deixe levar pela crença que não é diferente, pois o Governo Lula não é um governo continuísta de FHC. Todos sabemos como seria um governo que desse continuidade à obra do famoso sociólogo. Houvesse mais oito anos de mandato para o PSDB, teríamos mais privatizações - já estavam preparando a Petrobras com a mudança de nome para Petrobrax - ALCA; quebra do movimento social com sua criminalização, entre outros atos neste rumo. A agenda adotada por FHC no governo foi cunhada na campanha de Mario Covas na eleição presidencial de 1989, o tal “choque de capitalismo”.



Modelo desenvolvimentista

Desde a década de 1930, inspirado em Keynes, sob o modelo desenvolvimentista, a estratégia econômica brasileira consistia em nacionalizar a economia internacional, trazendo para dentro do país os capitais necessários, procurando atingir o crescimento econômico apoiado no atendimento do mercado interno, baseado em um protecionismo exarcebado. Esta estratégia terminou por criar gargalos, como, por exemplo, o isolamento do país que, aliados à falta de investimento em infraestrutura e educação, levaram à baixa produtividade de nossa indústria e ao pouco beneficiamento dos produtos exportados pelo país. Exportávamos cacau e comprávamos chocolate, vendíamos minério de ferro e comprávamos chapas laminadas e, daí por diante.



Modelo neoliberal

Nos anos 1990, com Collor e FHC, houve uma ruptura com o modelo anterior, abrindo a economia brasileira. Os economistas do governo nesta época tinham horror ao desenvolvimentismo e reafirmavam a confiança ilimitada no mercado como mecanismo de alocação de recursos. Discurso que era integralmente apoiado pelo controle monopolista dos meios de comunicação de massa. Porém, ambos deram continuidade à importação de insumos.

O modelo implementado por FHC e Collor foi extremamente pernicioso para a economia brasileira, pois nos conduziu à nacionalização da globalização. O neoliberalismo que Fernando Henrique Cardoso gerenciou em seus dois mandatos, dando incentivos e fazendo concessões ao capital estrangeiro, aumentou consideravelmente o desequilíbrio em conta corrente. Sua política econômica nos conduziu a uma grave crise econômica, tornando-nos vulneráveis às crises financeiras internacionais, pois na ausência de controle de capitais, os aplicadores financeiros buscam oportunidades de ganhos, especialmente aquelas representadas pela arbitragem de juros, que ocorre quando um país paga uma taxa de juros mais elevada que a dos outros. Quando isso acontece, o tal capital especulativo toma empréstimo no país que paga juros baixos e aplica naqueles com taxas de juros mais altas.

A propagada estabilidade do real foi calcada nisso. Essa foi a herança deixada por FHC. Para sustentar sua política econômica com índices baixos de inflação, o Príncipe aumentou consideravelmente a taxa de juros e restringiu a disponibilidade da moeda na economia. Assim agindo, atraiu para o Brasil os capitais especulativos do exterior que vinham se beneficiar dos juros mais altos pagos pelo país. Durante seu governo e no posterior, essa entrada de capitais terminou por pressionar o Real para cima, já que esta moeda se tornou atrativa, encarecendo nossas exportações. Para não permitir a valorização, o Banco Central tem comprado o excedente da moeda estrangeira, aumentando a circulação da moeda nacional que se buscava restringir com a taxa de juros mais alta. Essa política econômica autocontraditória tem sido o calcanhar-de-aquiles de Lula, que não conseguiu desamarrar completamente esses nós. Contudo, no governo atual tem ocorrido um ingresso massivo de investimentos de natureza mais durável, aqueles que buscam ocupar mercados e não apenas se beneficiar de diferentes taxas de juros.



Modelo de Estado Logístico

Com Lula, houve uma nova mudança no modelo de gestão do Estado brasileiro. Lula buscou conduzir o país a uma nova etapa do desenvolvimento capitalista: a expansão das empresas brasileiras para fora do país. Esta internacionalização tornou-se possível pela capitalização e elevação da produtividade ao nível global das empresas brasileiras e ainda pela captação pelo empresariado de informações necessárias à expansão de seus negócios além-fronteira, bem como pelo apoio dado pelo governo a este setor na busca de oportunidades. As viagens de Lula, tão criticadas pela imprensa oposicionista, demonstram uma mudança em nossa política exterior.



Esta transformação na forma de gestão do Estado, deu-se durante o governo de Lula que modificou do modo de gestão neoliberal para o modo de gestão do Estado logístico - aquele que não possui os meios de produção, mas não entrega a regulação das forças econômicas ao próprio mercado - zelando pela realização dos interesses nacionais, que vem a ser o somatório de todos os interesses setoriais. Este novo modo de gestão pressupõe apoio político e jurídico às empresas brasileiras, seja através da assinatura de acordos comerciais, seja por meio da estabilidade no ordenamento jurídico interno para garantia de investimentos. O capital necessita de um ordenamento jurídico confiável, de credibilidade política e estabilidade econômica. Por esse motivo, Lula, contrariando a esquerda brasileira que queria o calote, afirmou, em 2002, que respeitaria os contratos anteriormente pactuados. Nesse sentido, a atuação segura de Lula justifica o grande fluxo de investimentos diretos exteriores para o Brasil e a capitalização das empresas brasileiras no exterior.



A construção da América do Sul como unidade econômica

Outro objetivo da política externa brasileira atual que difere bastante do governo FHC tem sido a construção da América do Sul como unidade econômica, dando continuidade ao Governo Sarney, que iniciou o Mercosul. É preciso lembrar que o objetivo de FHC era a inserção do Brasil na ALCA. Em outro sentido, no governo Lula esse projeto ficou esquecido nas gavetas e houve uma convolação de objetivos. O Governo Lula concebe a integração econômica da América do Sul como caminho mais adequado ao desenvolvimento do continente.

Esta tese justifica o enorme investimento estatal brasileiro em nossos vizinhos e os empréstimos concedidos pelo BNDES. Apesar de a instabilidade política de Bolívia, Equador, Paraguai e Argentina, seduzidos pelo discurso anacrônico de Hugo Chavez, criar um receio de calote e afugentarem os investimentos de capitais norte-americanos e europeus. A mídia opositora de Lula tem usado esta instabilidade para bater no governo, pois está bastante acostumada com a sociedade segregacionista brasileira em que pobres são pobres e que fiquem em suas favelas.

É falaciosa a afirmação de que não há diferença entre PT e PSDB, bem como que o modo de gestão do Estado está mais no campo da ordem da política do que da economia, pois, conforme escrevi em outros artigos, não há despolitização da economia. O resgate do Estado como indutor do desenvolvimento econômico, certamente, foi efetuado pelo Governo Lula e tal fato tem causado irritação na imprensa golpista dando voz ao Príncipe uspiano como se este fosse o grande pai do país.



Celso Gomes





terça-feira, janeiro 12, 2010

LULA, O FILHO DO BRASIL



LULA, O FILHO DO BRASIL



De Fábio Barreto

Fui ao cinema na primeira semana deste ano para ver Lula, o Filho do Brasil. Como sou precavido, já vi filmes sobre grandes personagens desaguarem em decepção, não criei grandes expectativas. Lembrei-me de filmes sofríveis e estereotipados sobre Che Guevara tentando dar conta de seu idealismo e luta pelo socialismo.

É preciso fazer algumas considerações sobre o filme.

Os primeiros quinze minutos de filme são muito bons. Remete à Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, com a cadela Baleia sendo substituída pelo cão Lobo. A secura da terra contamina os personagens, quase não há diálogos, tampouco trilha sonora. O pai de Lula, Aristides, abandona mulher e prole numerosa para tentar a sorte no Sudeste brasileiro, caminho seguido por muitos nordestinos, acompanhado por uma adolescente grávida, Mocinha, prima de Dona Lindu. A história segue com Aristides estabelecido em um barraco em Itapema, no litoral paulista, vivendo maritalmente com Mocinha, e com Jaime, um de seus filhos com Lindu. Ficamos sabendo de forma indireta que o pai retornara à terra para buscar o filho e que teria uma nova filha com Lindu, Sebastiana.

Analfabeto, Aristides pede a Jaime para escrever uma carta mandando instruções à família em Pernambuco, mostrando-se desiludido com seu destino, dizendo para a mãe de Lula não vender os bichos, tampouco seu pedaço de terra. Jaime, escreve uma carta em sentido contrário, determinando que a mãe venda seus bens e venha para o Sudeste. Esta seqüência é ótima.

Lindu, seguindo a orientação do marido, vende seus parcos bens e parte em um pau de arara. Este é um dos momentos mais belos do filme, evoca os filmes do Cinema Novo, contando a saga do sofrido povo nordestino migrando rumo ao sul. A música, a literatura e o cinema brasileiro já nos proporcionaram grandes obras com esta temática. Ficasse o filme por aí, e teríamos uma obra prima.

Mas daí em diante o filme desanda, transformando-se em um melodrama. Os diálogos poucos e curtos tornam-se sofríveis. A viagem de pau de arara, que durou vários dias de poeira, cansaço, suor, fome, sujeira e morte pelo caminho, é reproduzida rapidamente e de forma estilizada, sem alma.

O pai de Lula é retratado como um bruto sem nuanças, um déspota que bate na mulher e nos filmes de forma gratuita. O próprio Lula não gostou desse retrato do pai. Não é levado em consideração pelo cineasta o fato de Aristides ter quase vinte pessoas para sustentar entre suas duas relações conjugais, trabalhando como estivador, uma das profissões mais degradantes para a saúde. O álcool surgia como um alívio para suas tensões. O episódio de Dona Lindu abandonando o marido à beira mar, que na vida real é precedido pela perda da canoa por Lula e seus irmãos, fica sem sentido. Dona Lindu, muito bem representada por Glória Pires, valoriza o estudo dos filhos sendo a grande responsável pelo fato de nenhum deles cair na marginalidade, ou prostituição, enquanto o pai deseja que os filhos trabalhem para ajudá-lo na árdua tarefa de levar alimento a tantas bocas. Ou seja, as razões de ambos são válidas e o filme não esclarece este aspecto.

Em poucas palavras, o retrato dos pais de Lula é maniqueísta: Lindu, o bem; Aristides, o mal. Fábio Barreto desconhece que ser nordestino e abandonar sua terra embrutece as pessoas e as desespera.

O Lula de Fábio Barreto é um sujeito despolitizado que ingressa por acaso no movimento sindical do ABC, um dos mais combativos do país. É quase um santo, pois Barreto o coloca em um pedestal, escondendo o episódio bastante conhecido sobre Miriam e a filha Luriam. O Lula do filme é aberto ao diálogo, conciliador e que teria conflitos de consciência ao ver os grevistas justiçarem o patrão após a morte de um operário. Em outras palavras, o Lula retratado por Barreto jamais seria líder dos metalúrgicos, pois o excesso de espírito conciliador não coadunava com os anseios da classe trabalhadora do período. Os discursos do Lula do ABC incendiavam os metalúrgicos e operários do país inteiro. Quem o ouviu na época sabe o que ele era capaz de fazer com as massas. Vendo o Lula conciliador de hoje presidindo o Brasil, tenho a impressão que Barreto levou-o para liderar as greves do ABC.

Sabemos hoje que Lula foi um elo de transição entre o sindicalismo pelego e o sindicalismo combativo da CUT, que não chegou a fundar. Não se é Lula por acaso como Barreto quer fazer acreditar. Por outro lado, o filme dá pouca relevância ao papel da igreja católica nas greves do ABC e transformou personagens principais, como, por exemplo, Frei Chico, em personagens secundários. Sabemos que o irmão Ziza foi muito importante para formação política de Lula. O autor poderia ter usado a metáfora do PCB como pai do PT, mas perdeu a oportunidade.

Tendo muitos fatos para contar e pouco tempo de fita, Barreto transformou o filme em uma sucessão fragmentada de episódios sem muita ligação entre eles. Veja-se o episódio da enchente, na qual a família perde tudo. No momento seguinte, nada disso tem importância.

Por outro lado, não há muito espaço para humor no filme. Lula não é esse personagem solene. Ao contrário, Lula é chegado a uma caninha, é brincalhão, gosta de contar piadas. A disputa com outro pretendente por Marisa Letícia no portão de sua casa o retrata como um pícaro, mais próximo do que ele é.

Apesar de todos esses senões, o filme merece ser visto. Há seqüências ótimas e os primeiros quinze minutos são soberbos, é cinema novo na veia. Lula discursando para 80 mil pessoas, episódio real, sem equipamento de som, com o discurso seguindo em ondas até o último operário dentro do estádio é impagável. A cena da carta sendo ditada pelo pai de uma forma e escrita pelo filho de outra é muito boa. O abandono do cão à beira da estrada é de levar às lágrimas os mais sensíveis.

Mas, assim como esperei dezenas de anos até ver Walter Salles criar Diários de Motocicleta, obra prima, na qual um rapaz idealista e sonhador, cuja história conhecemos, sobe o continente em busca de conhecimento acerca de seu povo e atravessa o rio Amazonas a nado para passar uma noite com leprosos, esperarei mais um pouco para ver Lula como metáfora do Brasil.


Celso Gomes