terça-feira, novembro 24, 2009

ALGO A DIZER



Já está no ar a edição de NOVEMBRO do jornal de Cultura e Política Algo a Dizer (www.algoadizer.com.br).




Conteúdo
1) Conjuntura internacional é o tema da entrevista com o professor da UFBA Muniz Ferreira: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=388;

2) Em entrevista exclusiva, Sergio Antunes, que fala de sua rica produção literária: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=389;

3) A coluna de Milton Coelho da Graça, “Brasil e mundo”: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=385;

4) Breno Altman questiona as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlin: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=377;

5) Novo disco de Pedro Miranda, na resenha de Áurea Alves: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=376;

6) Sergio Antunes resgata a memória de Anselmo Duarte: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=386;

7) Áurea Alves avalia o filme “Deixa ela entrar”, de Tomas Alfredson: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=375;

8) O que há de subversivo e revolucionário na mensagem de Jesus, por Douglas Naegele: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=390;

9) Celso Gomes denuncia a amnésia de FHC: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=378;

10) Leonardo Mesentier fala da preocupação com o patrimônio cultura das cidades: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=380;

11) “Não dê esmola! Dê oportunidade!”, conclama Luciano Cazz: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=381;

12) Jorge Nagao comenta o blecaute do dia 10: //www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=379;

13) O fino humor de Antonio Barreto: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=374;

14) Maria Balé “De Shakespeare a Wall Street”: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=382;

15) A guerra no Morro dos Macacos na pena de Marcelo Mirisola: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=384;

16) A poesia de Alexandre Bonafim: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=373;

17) O belo conto de Marilena Montanari, “Ginástica”: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=383;

18) “A ordem do discurso”, denso ensaio de Sérgio Granja: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=387

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AINDA FHC



Recebi esse texto pela rede e estou divulgando. Boa leitura.

Leandro Fortes: FHC descobriu a maconha tarde demais


Por Leandro Fortes, no Brasília Eu Vi

Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. Era uma vistosa autoridade entronizada no Palácio do Planalto, cheia de diplomas e títulos honoris causa, mas condenada a ser puxada nos arreios por Antonio Carlos Magalhães e aquela sua entourage sinistra, cruel e sorridente, colocada, bem colocada, nas engrenagens do Estado. Eleito nas asas do Plano Real – idealizado, elaborado e colocado em prática pelo presidente Itamar Franco –, FHC notabilizou-se, no fim das contas, por ter sido co-partícipe do desmonte aleatório e irrecuperável desse mesmo Estado brasileiro, ao qual tratou com desprezo intelectual, para não dizer vilania, a julgá-lo um empecilho aos planos da Nova Ordem, expedida pelos americanos, os patrões de sempre.

Em nome de uma política nebulosa emanada do chamado Consenso de Washington, mas genericamente classificada, simplesmente, de “privatização”, Fernando Henrique promoveu uma ocupação privada no Estado, a tirar do estômago do doente o alimento que ainda lhe restava, em nome de uma eficiência a ser distribuída em enormes lucros, aos quais, por motivos óbvios, o eleitor nunca tem acesso.

Das eleições de 1994 surgiu esse esboço de FHC que ainda vemos no noticiário, um antípoda do mítico “príncipe dos sociólogos” brotado de um ninho de oposição que prometia, para o futuro do Brasil, a voz de um homem formado na adversidade do AI-5 e de outras coturnadas de então. Sobrou-nos, porém, o homem que escolheu o PFL na hora de governar, sigla a quem recorreu, no velho estilo de república de bananas, para controlar a agenda do Congresso Nacional, ora com ACM, no Senado, ora com Luís Eduardo Magalhães, o filho do coronel, na Câmara dos Deputados. Dessa tristeza política resultou um processo de reeleição açodado e oportunista, gerido na bacia das almas dos votos comprados e sustentado numa fraude cambial que resultou na falência do País e no retorno humilhante ao patíbulo do FMI.

Isso tudo já seria um legado e tanto, mas FHC ainda nos fez o favor de, antes de ir embora, designar Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal, o que, nas atuais circunstâncias, dispensa qualquer comentário.

Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais a um galpão a servir de tribuna ao grande sociólogo do Plano Real. Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.

Hoje, FHC virou uma espécie de ressentido profissional, a destilar o fel da inveja que tem do presidente Lula, já sem nenhum pudor, em entrevistas e artigos de jornal, justamente onde ainda encontra gente disposta a lhe dar espaço e ouvidos. Como em 1998, às vésperas da reeleição, quando foi flagrado em um grampo ilegal feito nos telefones do BNDES. Empavonado, comentava, em tom de galhofa, com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, da subserviência da mídia que o apoiava acriticamente, em meio a turbilhão de escândalos que se ensaiava durante as privatizações de então:

Mendonça de Barros – A imprensa está muito favorável com editoriais.

FHC – Está demais, né? Estão exagerando, até!

A mesma mídia, capitaneada por um colunismo de viúvas, continua favorável a FHC. Exagerando, até. A diferença é que essa mesma mídia – e, em certos casos, os mesmos colunistas – não tem mais relevância alguma.

Resta-nos este enredo de ópera-bufa no qual, no fim do último ato, o príncipe caído reconhece a existência do filho bastardo, 18 anos depois de tê-lo mandado ao desterro, no bucho da mãe, com a ajuda e a cumplicidade de uma emissora de tevê concessionária do Estado – de quem, portanto, passou dois mandatos presidenciais como refém e serviçal.

Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha.

A meu ver, um pouco tarde demais.

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quarta-feira, novembro 18, 2009

RESPOSTA A CAETANO VELOSO



RESPOSTA A CAETANO VELOSO

Caetano Veloso, em entrevista ao Estadão, disse que Lula é analfabeto e cafona. Pensei em escrever uma resposta, pois, sendo filho de pais analfabetos e nordestinos, que, assim como Lula, vieram para o Sul Maravilha em busca de melhores condições de vida e terminaram ajudando a construir um país, exercendo os ofícios de metalúrgicos, pedreiros, empregadas domésticas e outras funções tão importantes, senti-me chocado e atingido em cheio.

Meu primeiro impulso foi jogar fora cd's e discos de vinil do dito-cujo, mas reconsiderei, pois Caetano sempre foi preconceituoso contra a Esquerda, bem como seu elitismo não deixa margem à dúvida. Resolvi ficar com sua música, separada do autor.

Por outro lado, sua declaração de voto em Marina demonstra que esta candidatura - apesar da própria ser criacionista e evangelica, aliada de partidos como o PPS e o PSDB, partidos laicos e evolucionistas - possui um perfil de classe média alta. Logo, não há novidade. Caetano sempre teve esse perfil conservador político.

Em seguida, li um artigo que tenta responder ao cantor e cheguei a conclusão que seria melhor divulgá-lo do que perder meu tempo com respostas a um autor que caminha perigosamente para o ostracismo e, provavelmente, usou a polêmica acerca de Lula para divulgar um novo trabalho.

Celso Gomes.


Tropicália, sob o signo de escorpião


No mesmo dia em que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no Caderno 2 do Estadão, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na seção Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da cultura, como estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.

Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto para Marina Silva.

Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.

Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans.

Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.

Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.

Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a "res pública". Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.

Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.

Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?

Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.

Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este programa tétrico.

Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. "Amor Ordem e Progresso." O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.

Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.

A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.

Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa "estasia", Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista!

Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

"Vício na fala

Pra dizerem milho dizem mio

Pra melhor, dizem mió

Para telha, dizem teia

Para telhado, dizem teiado

E vão fazendo telhado"

SamPã, 6 de novembro, sob o signo de escorpião, sexo da cabeça aos pés, minha Lua de Ariano, evoéros!



José Celso Martinez Corrêa

terça-feira, novembro 17, 2009

A AMNÉSIA DE FHC



A AMNÉSIA DE FHC

I

O jogo do xadrez eleitoral brasileiro teve bastante movimento de peças nos últimos dias: Fernando Henrique Cardoso, no Estadão em 01/11/09, publicou o artigo Para onde vamos?

Neste artigo, FHC denuncia o governo petista por crer que caminhamos para um novo período autoritário. Ele acredita que “a enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos?” Passo a palavra ao ilustre sociólogo: “Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional;” “Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI.” E seu nhenhenhém melancólico segue: “Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.”

Um pouco antes deste trecho, o princípe dos sociólogos brasileiros formula algumas perguntas que tomo a iniciativa de responder, pois Fernando Henrique Cardoso está sofrendo de amnésia. Devemos refrescar sua memória.

a) por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? FHC em seu governo fez o que quis do Congresso Nacional, entre as mudanças empurradas goela abaixo do Parlamento há a emenda da reeleição (com denúncia de compra de voto por Sérgio Motta, secretário-geral do PSDB à época); a quebra do monopólio do petróleo; etc.

b) por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? FHC comprou um porta-aviões francês, o Almirante Foch, com tecnologia defasada e obsoleta sem licitação e nenhuma discussão na imprensa.

c) por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? FHC determinou a Mendonça de Barros que moldasse a engenharia financeira de suas privatizações com participação do BNDES e dos fundos de pensão.

d) por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso…) exibindo uma candidata claudicante? FHC segurou o cãmbio fixo para se reeleger, enquanto 40 bilhôes de dólares de nossas reservas deixaram o país no período eleitoral. Houvesse um Ministério Público realmente independente e uma Justiça descomprometida com os poderosos, Gustavo Franco, seu Presidente do Banco Central, estaria na cadeia, juntamente com outros próceres do seu partido, entre eles o próprio FHC.



A exposição de seus receios, o que ele chama de “autoritarismo popular” é algo que ninguém sabe o que é. “Para onde vamos?” indica que a oposição não tem rumo, pois seu maior ideólogo apenas, com argumentos claudicantes, aponta para onde ele crê que não se deve ir. Entretanto, é preciso lembrar que o tucanato não soube dizer em 10 anos de governo para onde se deve ir.



II

No domingo 15/11/2009, em entrevista ao jornal espanhol "El País", FHC declarou que não vê diferenças entre a política econômica e do governo Lula e a de sua gestão: "Que diferença há entre o meu governo e o de Lula no modelo econômico? Muito pouca. É basicamente social-democrata, com respeito ao mercado, sabendo que o mercado não é o todo, e políticas sociais eficazes. Todos aprendemos a fazer políticas sociais, Chile aprendeu, México aprendeu, Brasil aprendeu, Uruguai já tinha..."

Repiso: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi tomado por um surto de amnésia, pois não há comparação entre o neoliberalismo que gerenciou no Governo Itamar Franco e em seus dois mandatos, com o governo dirigista e estatizante de Lula. É falaciosa sua afirmação de que as diferenças entre PT e PSDB são mais da ordem da política do que da economia. Não há despolitização da economia. O resgate do Estado como indutor do desenvolvimento econômico foi perpetrado por Lula, pois FHC legou ao próximo governo um Estado fatiado, sem seus tentáculos, sem reservas cambiais e com uma dívida enorme junto ao FMI. Ademais, sua política social era para inglês ver, pois não colocava nenhum centavo nos programas que criava.

O inconformismo do ex-presidente com o sucesso de Lula é caso psicanalítico. Abandonado por seus pares, que temem a comparação de Lula com seu governo, tornou-se um ressentido. É compreensível, mas a história demonstrará o quanto de ridículo há em suas últimas declarações.



Celso Gomes



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