segunda-feira, outubro 05, 2009

SAMBA CABEÇA

SAMBA CABEÇA

I
Houve uma época no Brasil que Chico Buarque era o líder da oposição, pois a MPB havia se constituído como a grande opositora do regime de exceção que vigia. É claro que não havia homogeneidade entre esses opositores - era tiro para todos os lados - nem planejamento, mas havia um projeto político: derrubar a ditadura militar minando sua base ideológica. O rumor causado pela MPB se espalhava pelas ruas minando os alicerces do regime que terminou de forma pífia, em um acordo que congregava várias forças políticas.
Vivemos hoje um momento político único na história recente do Brasil. Não há sombra de golpe, tampouco apoio do grande irmão do norte às forças mais reacionárias do país. Parece que agora vai, que a democracia brasileira agora se solidificará. Estamos no terceiro presidente eleito pelo voto direto, com alternância entre conservadores e progressistas no poder.
Na economia, substituímos o rumo ortodoxo e neoliberal do governo FHC por um modelo de gestão heterodoxo com fortalecimento do papel do Estado. Entramos na era da auto-suficiência do petróleo e descobrimos reservas na camada pré-sal que poderão nos levar ao rol dos exportadores.
Internacionalmente, o país reivindica um assento no Conselho de Segurança da ONU, uma maior participação no FMI, vamos sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas e, como dizem os argentinos, até o assento do Papa os brasileiros querem ocupar.
No entanto, esse momento de euforia deveria ser também um momento de reflexão, mas não vislumbro na MPB atual nenhum espaço para reflexão. A MPB está muda.

II
Tom Jobim é a perfeita expressão do Rio de Janeiro – diz unânime a crítica especializada. É preciso ponderar: o Rio de Janeiro de Jobim nunca atravessou o túnel. Aliás, poucos escritores e compositores nascidos ou radicados na Zona sul do Rio o fizeram. A maioria dos escritores que conheço, quando ambienta seus contos e romances no Rio de Janeiro, fica todos por ali: do Centro a Zona sul. Alguns novelistas não saem sequer de um bairro: o Leblon.
Felizmente, há exceções.
Uma delas é Guinga que, em Catavento e Girassol, tenta integrar essa cidade partida e faz, talvez, a melhor homenagem que o Rio de Janeiro já recebeu. Ao romancear os dois lados da cidade como um casal, Guinga vai no sumidouro do espelho, na levada do subúrbio macho e da feminina zona sul, cobrindo os espaços vazios, fechando as lacunas, mostrando as contradições.
Uma outra exceção que pode estar surgindo no Rio de Janeiro é o advogado Luiz Fernando Cordeiro, que já ganhou alguns sambas nos blocos cariocas Que Merda é Essa? Carmelitas, Volta pra quê? Acorda e vem brincar, e emplacou no carnaval de 2008 o samba enredo da Unidos de Padre Miguel. No dia 11 de setembro deste ano, data de triste memória para a humanidade, Luiz Fernando e seu parceiro Hudson lançaram o cd Da Central a Japeri, no Espaço Cultural do Sintcon na Rua Álvaro Alvim, no qual desponta a crônica da zona norte do Rio.
Luiz Fernando, o letrista da dupla, não tenta integrar nada. Sua opção pelo lado esquecido da cidade é flagrante: Se você quer saber/ Como é viajar/ Da Central à Japeri/ Pega o trem aí. É samba para pé sujo: Gosto mesmo é de um pé-sujo/ De pé-sujo é que eu gosto/ (...)/Ovo colorido, torresmo, salaminho e carne assada/ Rabada com agrião, jiló, linguiça, sardinha frita. Para a rainha das escolas de samba: Chorei quando fecharam a passarela/ Separando a Portela do seu coração/ A Majestade do Samba foi impedida/ De entrar na avenida, Oh quanta desilusão. Para o Império Serrano: Ao lado da linha do trem/ Há uma escola de samba/ (...)/ Sem ter medo de ninguém/ “Serrinha custa, mas vem”. No samba mais belo do cd a triste melodia se integra com uma letra um tanto quanto conformista, que traduz bem o modo de vida do povo do subúrbio: Guerreiro, sei que sou!/ Não temo a maré/ Se a maré não está pra peixe/Vou aonde Deus quiser/ (...)/ Vou tocando o barco devagar/ Não é tempo ruim/ Que vá me desanimar.
Em suma, Da Central a Japeri nos leva aos lugares esquecidos pela grande mídia carioca, que somente ressalta o aspecto real da violência, levando o restante da cidade a temer a circulação pelo subúrbio. É de novo, na tradição do samba, a voz do subúrbio que soa, que pede para não ser esquecida, porque se o Rio reluz na zona sul, nem tudo que reluz é ouro. Por outro lado, Luiz Fernando parece fazer uma opção pelos pobres. Sem integração, sem inclusão dos desfavorecidos, não haverá Rio de Janeiro, sequer um país.

Nota: para mais informações e ouvir as músicas: http://dacentralajaperi.wordpress.com/

Celso Gomes


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1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Você esqueceu de citar que o Aldir Blanc como um dos autores da música Catavento e Girassol.

sergiocaz

4:10 PM  

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