quinta-feira, janeiro 08, 2009

A FORÇA HUMANA

A FORÇA HUMANA

No fim do século passado, houve lançamento de vários livros contendo listas das cem melhores coisas do século que terminava. No natal daquele último ano do século XX, ganhei de um amigo o livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, ed. Objetiva. Imediatamente após abrir o embrulho, fui para um canto da casa e comecei a ler o meu presente. Dei cabo da tarefa em poucos dias. O livro é ótimo, os contos convivem bem, apesar das discrepâncias de estilos, épocas, gerações. Com certeza, o livro contém o que de melhor se publicou no Brasil no século passado, bem como deixou de fora alguns contos que gosto muito. Mas listas são assim mesmo, sempre há reclamações e injustiças. Porém, de todos os contos reunidos, apenas um não sai da minha memória, apesar dos anos passados: A Força Humana, do livro A Coleira do Cão, de Rubem Fonseca.

Rubem Fonseca neste conto, utiliza-se do próprio personagem principal como narrador - o que faz com que o conto contenha fortes elementos de oralidade - e foge da estrutura de narrativa policial, que é uma das características mais presentes em seus escritos. Em A Força Humana, não há nada de policialesco, não há um crime, ou um mistério a ser desvendado. Neste conto, em que não há nada para deslindar, interessa apenas registrar o drama humano de um praticante de halterofilismo. Há toda uma atmosfera de tensão que fará com que não se desgrude das páginas antes do desenlace. Porém, leitor atento, tome cuidado, pois Rubem Fonseca é um escritor que parece cortar o fim, ou o início de seus contos, ou seja, o leitor precisa completar a história. Talvez o escritor suponha que sejamos todos muito inteligentes, talvez seja apenas preguiça, ou quem sabe para criar uma atmosfera de mistério.

Em A Força Humana, Rubem Fonseca parece fugir de suas características como escritor, pois seus personagens comumente são perversos e não são atormentados por qualquer culpa. Outro tema dominante em sua obra é abandonado: a violência que percorre as cidades brasileiras. Também não há uma obsessão sexual como alternativa ao vazio do personagem. Pelo contrário, o narrador percebe antes da amante que o fim inevitavelmente chegou. Neste conto, há sutilezas, como, por exemplo, a solidão dos personagens que vivem isolados, sem satisfação física do desejo, ou seja, o erotismo cru de Fonseca também é deixado de lado.

O conto beira as raias da perfeição. Talvez seja o melhor conto brasileiro que li. Comparável aos grandes momentos da literatura universal, como, por exemplo, Os Mortos de James Joyce. Todos os elementos da estrutura do conto estão bem delineados: uma situação inicial aparentemente estável; uma crise que se inicia com o surgimento do personagem negro; a complicação da crise com a disputa entre ambos; o desembocar em um clímax com o braço-de-ferro; para, logo em seguida, chegarmos ao desenlace em uma situação final inesperada que leva o leitor ao conto subjacente de forma inesperada. O leitor se pergunta: de onde saiu isso e o desespero já o tomou.

Reli o conto várias vezes e a sensação da primeira leitura sempre retorna. Arrisco a dizer que descobri o segredo da literatura de Rubem Fonseca: é soco! Aliás, a literatura deve ser soco. Um soco bem dado, seja no estômago, no esôfago, no meio da cara, no pau-do-nariz, para usar a linguagem de Fonseca, de forma a sangrar, fazer doer. Literatura tem que fazer o sujeito se arrepender de ter nascido, ou, arrepender-se de sua existência inútil. Levar o sujeito satisfeito de si, dar ao desespero, conforme ensinava Manuel Bandeira. Tirar o leitor do marasmo e levá-lo a buscar algo de novo, querer mudar tudo, deixar tudo de lado e recriar o mundo, seguir o ensinamento de Merleau-Ponty: abro os olhos e crio o mundo.

Com certeza, Rubem Fonseca não escreveu A Força Humana para leitores felizes. Esses devem passar longe do livro, não o abram e partam silenciosos para o outro lado da livraria.

Celso Gomes


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