quinta-feira, janeiro 29, 2009

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS NAS DECISÕES DE GILMAR MENDES

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS NAS DECISÕES DE GILMAR MENDES

O ministro da Justiça Tarso Genro concedeu em 13/01/2009, o status de refugiado político ao italiano Cesare Battisti - militante da esquerda italiana - cuja extradição havia requerida pelo governo da Itália, após Battisti ter sido condenado a pena de prisão perpétua por quatro assassinatos ocorridos na década de 1970.

Até aí, nada demais, pois o Brasil, país que atravessou 20 anos de ditadura militar, tem concedido refúgio político toda vez que há fundado temor de perseguição política contra um cidadão, na justificativa do ministro. Battisti, após sua condenação, partiu para a França e obteve o refúgio beneficiado pela Doutrina Mitterrand. Posteriormente, com a vitória eleitoral da direita francesa, a França revogou o refúgio político e Battisti fugiu para o Brasil, onde foi preso em março de 2007, estando preso desde esta data na Penitenciária da Papuda, no Distrito Federal. Para Tarso Genro, o abrigo político francês foi desconstituído por razões políticas, configurando o fundado temor de perseguição política como pilar para concessão do refúgio brasileiro.

A princípio, tive dúvidas sobre o acerto da decisão, pois o ministro Tarso colocava em dúvida a imparcialidade da Justiça italiana, bem como porque o Comitê Nacional para os Refugiados - órgão subordinado ao Ministério da Justiça - havia decidido em novembro de 2008 não conceder a condição de refugiado a Battisti. Além disso, em abril de 2008, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, exarara parecer favorável à extradição do ativista. Também não pretendo neste artigo entrar no mérito do processo contra o italiano em seu país, porém, a imprensa brasileira tem divulgado que a única prova contra ele é o testemunho do militante Pietro Mutti, que fez um acordo de delação premiada com a promotoria italiana.

Entretanto, minhas dúvidas acerca da decisão do Ministro foram se desvanecendo, à medida que a imprensa brasileira começou a divulgar várias atitudes do governo italiano, tais como a carta do Chefe de Estado daquele país, que, direcionada ao Presidente da República brasileira, descortesmente foi divulgada antes para a imprensa; as ameaças de greve de fome de funcionários públicos italianos em protesto contra a decisão, desrespeitando a soberania brasileira; a convocação de futebolistas brasileiros, etc. Tal atuação desastrada do Governo Berlusconi culminou na terça feira 27/01/2008 com a convocação para consultas de seu embaixador em Brasília, Michele Valensise, em protesto contra a decisão do governo brasileiro. Ou seja, o que era um simples pedido de extradição se transformou em um incidente diplomático entre os dois países.

Devo lembrar rapidamente, que, recentemente, a Itália negou a extradição de Salvatore Cacciola, condenando por crime contra o sistema financeiro brasileiro, sob o argumento de que este possuía nacionalidade italiana. Pode estar correta esta decisão, pois a não-extradição de nacionais é muito comum nos sistemas jurídicos modernos. O próprio Brasil não extradita seus nacionais se condenados no exterior.

O caso evoluiu e o advogado de Battisti requereu junto ao STF a soltura de Battisti, pois a concessão do status de refugiado político, por ordem do ministro da Justiça deverá levar ao arquivamento do pedido de extradição. Vou repisar: com a concessão do refúgio político, o Supremo Tribunal Federal deverá arquivar o pedido de extradição feito pela Itália, pois assim determina a legislação vigente no Brasil.

Com o recesso do STF, seu presidente, Gilmar Mendes, é competente para apreciar este pedido de soltura do militante italiano. No entanto, ao invés de despachar o pedido imediatamente, conforme sua atuação na prisão juridicamente correta de Daniel Dantas, o chefe do Judiciário brasileiro requereu um parecer à Procuradoria-Geral da República, que na segunda-feira 26/01/2008, pediu ao Supremo Tribunal Federal o arquivamento do processo de extradição de Battisti.

Novamente o advogado de Battisti requereu a soltura de Battisti, cuja prisão agora é totalmente ilegal, mas, até o presente momento, o italiano continua preso na Papuda, o que demonstra a fragilidade das posições jurídicas de Gilmar Mendes, conforme apontado por vários juristas quando da soltura de Daniel Dantas. Em outras palavras, o posicionamento ideológico do Chefe do Judiciário brasileiro transparece e macula sua atuação jurisdicional, pois o banqueiro não pode ficar preso para que a Justiça possa produzir as provas necessárias ao devido processo legal, mas o militante italiano está preso ilegalmente há mais de 10 dias, sem nenhuma manifestação de apreço por sua liberdade exarada pelo melancólico presidente do STF. É com tristeza que nós, profissionais do Direito, vemos a balança da justiça pendendo para o lado dos poderosos nas mãos de Gilmar.

Celso Gomes




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quarta-feira, janeiro 21, 2009

ALGO A DIZER

Já está no ar a edição de JANEIRO do jornal de Cultura e Política Algo a Dizer (www.algoadizer.com.br), com as seguintes matérias:

1) Entrevista com a professora Maria da Conceição Tavares, publicada no site da Agência Carta Maior: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=212;

2) Entrevista com o sindicalista e dirigente comunista Hércules Correia, recentemente falecido, realizada pelo Caderno de Idéias do JB em 1979: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=211;

3) Manifesto/abaixo assinado do ato contra a privatização do espaço destinado ao Centro Cultural Casa Grande: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=200;

4) Artigo do professor Raimundo Santos sobre a visão do Partido Democrático italiano sobre a crise econômica: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=209;

5) Nota da diretoria da Associação Scholem Aleichem (ASA) sobre o conflito Israel x palestinos na Faixa de Gaza: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=194;

6) Resenha do filme "Juventude", de Domingos de Oliveira, por Gustavo Dumas: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=210;

7) Comentário de Áurea Alves sobre artigo da revista Rolling Stone sobre "Os cem maiores artistas da música brasileira": http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=196;

8) Artigo de Rafael Brito sobre as perspectivas que se abrem com Obama: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=208;

9) Douglas Naegele fala do preocupante aumento da participação feminina no narcotráfico no Rio: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=201;

10) O professor Helder Molina debate a atual crise econômica à luz do marxismo: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=204;

11) Um novo espaço para a música e os músicos brasileiros que não têm jabá - o blog TAXI, de Áurea Alves: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=197;

12) Artigo de Glecy Barbiratto sobre trabalho de educação com crianças em situação de risco: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=203;

13) Celso Gomes comenta o conto A Força Humana, do livro A Coleira do Cão, de Rubem Fonseca: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=199;

14) O texto de Maria Balé: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=206;

15) O humor de Cairbar Garcia Rodrigues: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=198;

16) A crônica de Marcelo Mirizola: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=207;

17) Três poemas de Flávio de Araújo: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=202;

18) O conto de Assionara Souza: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=195;

19) Ensaio do professor Marcio Pochmann - publicado no site da Agência Carta Maior - de análise crítica do capitalismo atual: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=205.

Boa leitura e um forte abraço

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segunda-feira, janeiro 19, 2009

TEATRO CASAGRANDE

Na próxima quinta, 22/1, às 17h, no Teatro Oi Casa Grande (Av. Afrânio de Melo Franco, 290, no térreo do Shopping Leblon), haverá a visita coletiva de artistas, intelectuais e outros ativistas da Cultura às instalações do futuro Centro Cultural Casa Grande.
Esse ato visa interromper o leilão de privatização do espaço marcado para o dia 27.
Os andares acima do Teatro Oi Casa Grande devem ser destinados a atividades culturais e acadêmicas, conforme o manifesto/abaixo-assinado reproduzido abaixo e em anexo.
Até lá e um forte abraço.


Pelo Centro Cultural Casa Grande

Os fundadores e dirigentes do Teatro Casa Grande e um representativo número de intelectuais e artistas do Rio de Janeiro, que participaram dos debates e eventos políticos e culturais do Teatro no período mais agudo da luta pela democracia no País, reivindicam a formalização do contrato de cessão de uso do espaço, acima do Teatro, destinado ao Centro Cultural Casa Grande.

Esta cessão esteve prevista ao longo de toda a negociação com vários governos do Rio de Janeiro e com a Assembléia Legislativa do estado, quando foi definida a construção do Shopping Leblon no terreno do antigo Teatro, ficando acertado que a contrapartida deste projeto comercial seria a criação de um complexo de atividades culturais e acadêmicas no espaço acima do teatro.

Em 2002, a então Governadora Benedita da Silva celebrou um convênio para tirar do papel a idéia da criação do Centro Cultural, dando forma jurídica a essa iniciativa. Os andares foram construídos e o Centro está pronto para ser instalado. É um sonho de mais de vinte anos e uma luta de artistas e intelectuais, desejosos de expandir e tornar permanente a ação social do Teatro.

Nos planos do Instituto Casa Grande, que vai administrar o Centro, está a realização de cursos práticos nas áreas das artes plásticas, música, um Fórum Permanente de Problemas Brasileiros, uma Universidade Livre e Aberta e outras iniciativas. Os nomes do Conselho Consultivo do Instituto respondem por sua credibilidade: Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Sergio Cabral (pai), Sergio Ricardo, Ziraldo, Zuenir Ventura, Milton Coelho da Graça e outros.

Para nossa surpresa, o Secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, no propósito legítimo de fortalecer as finanças do Estado, mas certamente por desconhecer aspectos históricos do problema, anunciou que venderia o espaço, tendo marcado um leilão para o próximo dia 27 de janeiro. Se isto for concretizado, terá sido alienado um patrimônio cultural e simbólico que pertence não só aos cariocas, mas a todos os brasileiros. Terá sido também uma violação do direito estabelecido no convenio para o uso do terreno do Casa Grande e consagrado pela Assembléia Legislativa – portanto, passível de contestação.

Esperamos, portanto, que a venda não ocorra e que o estado reconheça a importância desta trincheira da cultura e da cidadania.

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quinta-feira, janeiro 08, 2009

A FORÇA HUMANA

A FORÇA HUMANA

No fim do século passado, houve lançamento de vários livros contendo listas das cem melhores coisas do século que terminava. No natal daquele último ano do século XX, ganhei de um amigo o livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, ed. Objetiva. Imediatamente após abrir o embrulho, fui para um canto da casa e comecei a ler o meu presente. Dei cabo da tarefa em poucos dias. O livro é ótimo, os contos convivem bem, apesar das discrepâncias de estilos, épocas, gerações. Com certeza, o livro contém o que de melhor se publicou no Brasil no século passado, bem como deixou de fora alguns contos que gosto muito. Mas listas são assim mesmo, sempre há reclamações e injustiças. Porém, de todos os contos reunidos, apenas um não sai da minha memória, apesar dos anos passados: A Força Humana, do livro A Coleira do Cão, de Rubem Fonseca.

Rubem Fonseca neste conto, utiliza-se do próprio personagem principal como narrador - o que faz com que o conto contenha fortes elementos de oralidade - e foge da estrutura de narrativa policial, que é uma das características mais presentes em seus escritos. Em A Força Humana, não há nada de policialesco, não há um crime, ou um mistério a ser desvendado. Neste conto, em que não há nada para deslindar, interessa apenas registrar o drama humano de um praticante de halterofilismo. Há toda uma atmosfera de tensão que fará com que não se desgrude das páginas antes do desenlace. Porém, leitor atento, tome cuidado, pois Rubem Fonseca é um escritor que parece cortar o fim, ou o início de seus contos, ou seja, o leitor precisa completar a história. Talvez o escritor suponha que sejamos todos muito inteligentes, talvez seja apenas preguiça, ou quem sabe para criar uma atmosfera de mistério.

Em A Força Humana, Rubem Fonseca parece fugir de suas características como escritor, pois seus personagens comumente são perversos e não são atormentados por qualquer culpa. Outro tema dominante em sua obra é abandonado: a violência que percorre as cidades brasileiras. Também não há uma obsessão sexual como alternativa ao vazio do personagem. Pelo contrário, o narrador percebe antes da amante que o fim inevitavelmente chegou. Neste conto, há sutilezas, como, por exemplo, a solidão dos personagens que vivem isolados, sem satisfação física do desejo, ou seja, o erotismo cru de Fonseca também é deixado de lado.

O conto beira as raias da perfeição. Talvez seja o melhor conto brasileiro que li. Comparável aos grandes momentos da literatura universal, como, por exemplo, Os Mortos de James Joyce. Todos os elementos da estrutura do conto estão bem delineados: uma situação inicial aparentemente estável; uma crise que se inicia com o surgimento do personagem negro; a complicação da crise com a disputa entre ambos; o desembocar em um clímax com o braço-de-ferro; para, logo em seguida, chegarmos ao desenlace em uma situação final inesperada que leva o leitor ao conto subjacente de forma inesperada. O leitor se pergunta: de onde saiu isso e o desespero já o tomou.

Reli o conto várias vezes e a sensação da primeira leitura sempre retorna. Arrisco a dizer que descobri o segredo da literatura de Rubem Fonseca: é soco! Aliás, a literatura deve ser soco. Um soco bem dado, seja no estômago, no esôfago, no meio da cara, no pau-do-nariz, para usar a linguagem de Fonseca, de forma a sangrar, fazer doer. Literatura tem que fazer o sujeito se arrepender de ter nascido, ou, arrepender-se de sua existência inútil. Levar o sujeito satisfeito de si, dar ao desespero, conforme ensinava Manuel Bandeira. Tirar o leitor do marasmo e levá-lo a buscar algo de novo, querer mudar tudo, deixar tudo de lado e recriar o mundo, seguir o ensinamento de Merleau-Ponty: abro os olhos e crio o mundo.

Com certeza, Rubem Fonseca não escreveu A Força Humana para leitores felizes. Esses devem passar longe do livro, não o abram e partam silenciosos para o outro lado da livraria.

Celso Gomes


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segunda-feira, janeiro 05, 2009

EVENTOS LITERÁRIOS

Agenda de eventos na Estação das Letras
Janeiro
10 de janeiro
Universos da Criação Literária - mergulhos de verão
Workshops gratuitos de leitura e criação literária em vários dos principais gêneros literários que a Estação das Letras desenvolve em sua grade de cursos. Experiência única para as pessoas que ainda não experimentaram receber orientação de uma oficina de criação literária.
Da escrita criativa passando pelo conto, a literatura infantil e a poesia, os workshops acontecerão durante todo o dia 10/01, sábado, a partir das 9h da manhã.
9h às 10h - Mergulho na Poesia
12 às 13h - Mergulho na Escrita
13h30 às 14h30 - Mergulho no Conto
15 às 16h - Mergulho na Literatura para crianças
15 às 16h - Mergulho na Crônica
31 de janeiro
Livros na mesa
Um dos mais concorridos eventos da Estação das Letras, desde sua estréia em 1996. Trata-se de um encontro informal em que a troca de livros e de idéias é a tônica. Após as trocas, começa o encontro de leitura com escritores ou pesquisadores e personalidades do mundo dos livros.
10h30 - Troca de livros
11h30 às 13h - Encontro de leitura: Poéticas contemporâneas com Mauro Santa Cecília e Evandro Nascimento.
Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 - Loja 107 e 108 :: Flamengo Rio de Janeiro - RJ :: CEP: 22230-060 :: Telefone: (21) 3237-3947

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sábado, janeiro 03, 2009

ENTREVISTA DE ERIC HOBSBAWM

ENTREVISTA: ERIC HOBSBAWM

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: "Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista".
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da Revolução: Europa 1789-1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro "Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later" (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do "marxismo-leninismo", não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: "O pensador do terceiro milênio?". Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de "relevância atual". Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título "Ein Gespenst Kehrt zurük" (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa "In Our Time" da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, "são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx" e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: "Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz". Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova "demanda de Marx", do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da "sociedade burguesa", cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam. A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados "novos movimentos sociais", como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o "proletariado", dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx. Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente - eu diria, principalmente - baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta. As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer "retorno a Marx" será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade - incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias "socialistas" foram organizadas sob o chamado "socialismo realmente existente". Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de "O Capital". Como mostram os "Grundrisse", aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso. Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os "Grundrisse". Escritos entre 1857 e 1858, os "Grundrisse" são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no "Capital", como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: "Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos "Grundrisse", menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev". Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os "Grundrisse" "trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na "Ideologia Alemã". Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos "Grundrisse" hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano

Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer
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