quinta-feira, dezembro 04, 2008

A viagem do Elefante - o conto que não é conto

A VIAGEM DO ELEFANTE
O CONTO QUE NÃO É CONTO

Em março deste ano publicamos no Algo a Dizer o artigo Quem Porfia Mata a Caça no qual procurávamos analisar o romance O Homem Duplicado de José Saramago. O tempo passou, outras leituras vieram. Esqueci-me por completo do escritor português até que li uma notícia sobre sua doença e, meses depois, ressurge Saramago nos cadernos literários com entrevistas e um novo livro publicado, A viagem do Elefante. Pensei cá com meus botões: vou remar contra a maré e vou implicar de novo com um Nobel da Literatura.

Neste livro a narrativa é construída sobre um episódio real, no qual o Rei Dom João III de Portugal presenteia o Arquiduque Maximiliano, herdeiro do trono da Áustria, Império dos Habsburgos, com um elefante, que estava em Portugal havia dois anos, abandonado com o seu cornaca.

Saramago denominou esse livro de conto. Bem, faço a primeira apreciação crítica: A viagem do Elefante conto não é, pois este é universalmente aceito como uma narrativa curta, na qual os personagens são poucos, sendo a ênfase jogada na situação. Tecnicamente, o conto possui um gancho e termina com uma epifania, na qual o leitor percebe o sentido oculto da narrativa, ou seja, um conto sempre conta dois contos. Há uma história visível que esconde uma história secreta e a epifania se dá quando, ao final da leitura, o leitor percebe a história secreta. Nesse sentido, o último livro de Saramago, uma narrativa com mais de 250 páginas, não deve ser considerado como um conto. Talvez, fosse mais adequado denominá-lo como novela ou romance.

Bem, ultrapassada a primeira armadilha colocada pelo autor, vamos à entrevista dada ao Prosa e Verso. Nesta, Saramago se define como um cético que necessita ver o que se oculta por trás da aparência das coisas, das palavras. Acredita ele que vivemos permanentemente numa comédia de enganos que é preciso desmontar continuamente. Em outra entrevista, comentando seu livro Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago diz que estávamos cegos antes do dia 11 de Setembro de 2001.

Lendo a entrevista pensei: vou implicar com essa pose de farol da humanidade e lá vem outro “Romance de tese.” Não gosto desta posição na qual o autor em comento se coloca, como se soubesse de uma coisa óbvia que nós, pobres mortais, não conseguimos enxergar. Acho deveras aborrecida essa idéia de que há um monstro em cada esquina, de matar um leão ideológico por dia e de denunciar nossa própria miséria como se não a fôssemos capazes de perceber. Creio que a crítica que Saramago faz ao mundo contemporâneo é maculada por sua ideologia envelhecida. O mundo mudou, a Esquerda mudou e o autor insiste em apenas criticar o Capitalismo por sua capacidade de nos alienar de nós mesmos.

Por outro lado, já advertimos aos nossos leitores no artigo de março: não acreditamos que romances devam provar tese alguma. Vou economizar os argumentos para me reportar aquele artigo.

Entramos na Viagem do Elefante com todos esses senões e até com alguma má vontade, pensando: pronto, lá vem ele com seus parágrafos intermináveis, seus diálogos sem travessões e suas teses do século passado.

Qual não foi minha surpresa. Saúdo Saramago por seu retorno. Parece que o autor reencontrou o prazer de escrever e contamina seus leitores. O romance é ótimo. Há bastante ironia, há muito ceticismo, porém parece que desta vez o autor não quer provar nada. É simplesmente literário. Se o leitor quiser que extraia suas teses da narrativa. Eu, pessoalmente, tenho a minha: em A Jangada de Pedra, Saramago, sentindo-se desconfortável com a inevitável integração européia, na qual Portugal entraria pela porta dos fundos, assim como a Espanha, fez a Península Ibérica se soltar do Continente Europeu e flutuar na direção da América do Sul, em busca de uma integração com os países periféricos do sul. Agora, o Elefante caminha para o centro do continente e há uma advertência no livro que não passou despercebida ao articulista: “a norma de que o mais lento de uma caravana será aquele que marcará o passo, e portanto a velocidade do avanço.” É preciso dizer mais?

Celso Gomes



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4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Celso, estou mandando parte de um email que minha amiga Cláudia Teixeira mandou ontem de Paris. Ela faz doutorado em - que horror, sisquissi, cáspite! - aí mandei a ela o seu comentário sobre o Elefante do Saramago, e já que ela gosta muito dele e é uma grande leitora, assim repasso partes de sua resposta ao meu email. Tendeu?Mesmo sem pedir permissão a ela, mando apenas os seus comentários sobre o livro, tomei esta liberdade em nome da Literatura, tão parca em bons comentários como este:

Gostei do artigo do Celso, embora eu não leia com os mesmos olhos os escritos de Saramago. Mais do que as posições políticas do autor que permeiam as linhas - e as entrelinhas - da sua obra, vejo em seus livros um olhar permanente sobre o homem em si, com suas virtudes e seus vícios. A ironia fina, por vezes o sarcasmo, o humor e a uma sensibilidade tocante, aliados à expressão esmerada da língua portuguesa são os motivos que têm me cativado na leitura de seus livros.

Para mim, o Saramago das entrevistas é diverso daquele que escreve, por mais paradoxal que isto possa ser. Nesta hora, concordo com o Celso, ao dizer de sua postura como farol da humanidade e o que segue.

O Saramago do "Memorial do Convento" e das "Pequenas memórias" é, para mim, o Saramago que nos comove ao falar sobre o olhar, a visão e a falta dela, no belo documentário de Win Wenders, "Janela da alma".

Tenho a impressão que autores deste porte, e que por conta de suas obras acabam recebendo prêmios importantes como o Nobel e o Goncourt, sempre despertam e provocam críticas, por vezes implacáveis, como se a premiação fosse uma coroação indevida... LeClèzio que o diga!!!

Bom, só me resta esperar chegar ao Brasil para poder ler "a viagem do elefante". Por enquanto, aproveitando a citação que o Celso fez do livro, sigo marcando o passo dessa minha caravana solitária, imprimindo a velocidade do meu próprio avanço..

Cláudia e Celso, meus amigos queridos, um brinde à boa Literatura, estejam aonde estiverem.




Beijos saudosos da




Monique

11:50 AM  
Anonymous Anônimo said...

Minha amiga Monique e Cláudia, a única coisa que não concordei foi com a impressão de que autores premiados acabam despertando muitas críticas. Creio que, ao contrário, autores premiados terminam não sendo criticados. A crítica faz um pacto de mediocridade com as editoras e não se aponta mais os defeitos dessas vozes.

Com relação ao Saramago, creio que analisei mais globalmente em março, na edição do Algo a Dizer.

Eu, pessoalmente, gosto muito dos livros dele, mas não deixo de ver esses problemas que terminam atrapalhando a leitura de seus romances.

De qualquer sorte, o último que comentei é muito bom.

Bjs.

1:06 PM  
Anonymous carlos moresche said...

Salut! mon chère Celso.
Lendo os comentários me veio à cabeça a confusão que podemos fazer entre o autor-pessoa física-cidadão e o autor-escritor-narrador-onisciente-ou-não. Fico a imaginar como seria nossa percepção de alguns dos ícones da literatura universal: Dostoiévski acreditava em Deus? Seria ele um republicano crente? Platão era partidário da aristocracia ateniense? Machado apoiou ou não a abolição da escravatura?
No meu entender estas questões podem ser pertinentes, mas trazem um viés perigoso: o auto-engano, concomitante ao pré-julgamento. O grande barato da literatura está na interação entre o autor e o leitor, na medida em que este forma um sentido personalíssimo da obra, seja qual for o sentido ou não-sentido que autor deseja, mesmo que ele não deseje nada.
No caso de Saramago, salta aos olhos o belo domínio da língua portuguesa, sua lucidez esclarecedora e a sutileza magistral com a qual aborda o homem e sua problemática existêncial, de maneira nenhuma sob a forma individualista, mas partindo, sempre, do homem em si, para as representações do mundo que ele vê. Foi assim com o "Evangelho segundo Jesus Cristo", "O ano da morte de Ricardo Reis" e "In Nomine Dei". Este último uma peça teatral contra o fanatismo religioso(tema mais que atual).
Enfim, comunista ou não, sua leitura pode fazer bem, ou pelo menos desencadeará naquela inter-ação fundamental entre o autor-obra-leitor.
Moresche

10:36 PM  
Anonymous Anônimo said...

Obrigado, Celso! Gostei dos comentários, que você tinha iniciado no encontro que teve depois do lançamento do livro da Catarina.

Abraços e o desejo de uma boa semana.

Jorge

3:51 PM  

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