terça-feira, outubro 21, 2008

O TELEFONEMA DE DRUMMOND

O TELEFONEMA DO DRUMMOND

Conheci um cara tempos atrás, que tocava órgão na igreja da Consolação no Engenho Novo. Ele tinha o hábito de mandar cartas e de telefonar para o Carlos Drummond de Andrade. O poeta nunca estava em casa, jamais respondia às missivas. Um dia, entretanto, atendeu ao telefone. Conversaram vinte, talvez trinta minutos. Esse conhecido, que também escrevia seus versos, nunca esqueceu o fato. Era seu troféu!
Anos depois, o internaram no Pedro II.
Fui visitá-lo. “Não sou louco, mas tenho que me fazer de. Se durmo no ponto, me enrabam.” Cochichou ao meu ouvido, olhando assustado para os lados. Com o tempo, perdi o contato. Vez por outra, recebia correspondência sem remetente. Passei a atribuí-las a ele. Não tenho respostas. Veja um exemplo:
“Existo como um cigarro ardendo no cinzeiro, ou um pássaro sobrevoando a cidade barulhenta em que habita a minha vida? Passageiro ou não, sei que vivo. Tenho uma forma minúscula. Desconsidero outra forma de existir.”
Poema em prosa, ou desabafo?
Outro exemplo:
“Posso ver as pessoas se movimentando, as estrelas, os objetos que caem, absorvendo lentamente espaços de outros seres. Ver as luzes ou o ofego após uma calma instantânea com a precisão que a vida oferece. Está claro isso? (Parte ilegível) quando estou sozinho no escuro, ouvindo música, acontece algo apavorante. Tenho um (palavra riscada) incrível de música... Sei que é complicado falar nisso. É como quando vejo os garotos correndo pelas ruas, os automóveis cruzando as avenidas, as setas apontando para o futuro. Será que tem valor ser como um cigarro que se consome lentamente sem consciência disso?”
Ao final desta carta, uma data: 30 de abril de 1987. Nada mais. Depois desta, que foi a primeira, vieram outras e outras, até que cessaram. Resolvi ir ao Pinel para visitá-lo. Havia cometido suicídio, deixando centenas de cartas para serem remetidas a mim com outro interno.

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