quarta-feira, outubro 22, 2008

GABEIRA E A RENOVAÇÃO CONSERVADORA

GABEIRA E A RENOVAÇÃO CONSERVADORA

Arnaldo Jabor, na última o semana do período eleitoral no Rio de Janeiro, em sua crônica publicada no jornal O Globo de 21/10/2008, declara o voto em Gabeira. Ele provavelmente não sabe, mas acabou de ajudar uma grande parcela do eleitorado carioca que estava em dúvida.
Em 08/11/2006, logo após a reeleição de Lula, publiquei no meu blog Arrabaldes A Crônica dos Derrotados, no qual analisava alguns artigos do articulista acima referido. Naquela época, Jabor fazia previsões catastróficas para o país após a reeleição de Lula. Aproximadamente dois anos depois, suas previsões foram para o ralo da história. O Brasil, que não é nenhuma ilha de tranqüilidade, tem atravessado a grande crise financeira da Era da Globalização com problemas causados pela ganância e pela desregulamentação do mercado financeiro norte-americano. A crise é global e não brasileira. Nada tem a ver com a política econômica do Governo Lula. Tanto assim que o Washington Post questionou recentemente acerca do fim do Capitalismo, e a revista The Economist publicou matéria denunciando que o Capitalismo está acuado.
Não sei se é o fim do Capitalismo, mas o fato é que se quebrou a confiança nas instituições da economia de mercado. É bastante provável que o atual modelo de Capitalismo financeiro, sem regulamentação adequada, tenha caído por terra. É provável que o Capitalismo sobreviva, mais por falta de alternativas viáveis do que por seus próprios méritos. Novamente os liberais levaram o mundo à bancarrota; novamente serão salvos pelo Estado, a besta do apocalipse preferida dos ideólogos neo-liberais, que nos oito anos de Governo FHC repetiram esse mantra à exaustão.
Disse alhures que Jabor ajudou boa parte do eleitorado a se definir e este é o mote deste artigo, pois o articulista acredita que a massa atrasada, que não o vê como farol, vota em Paes; que o bordão de mudança de Obama poderá influenciar as vitórias de Gabeira e Kassab. Entretanto pergunto: que mudança? Não se iludam leitores de Jabor, pois não há nenhuma mudança no horizonte dos dois candidatos. Kassab, apesar de novo, é velho na política. Foi Secretário de Planejamento do Prefeito Celso Pitta em São Paulo de 1997 a 2000. e Gabeira há muito tempo abandonou o campo da esquerda para se oferecer como líder dessa nova direita. Não é sem motivo que Gabeira ganhou apoio do reacionário Clube Militar. Veja-se Caetano Velozo o apoiando. Não tem novidade, há anos que Caê tem criticado a Esquerda brasileira com um discurso confuso que não sabe em que desaguar. É a velha direita maquiada que busca iludir a juventude com o discurso de novidade. O Brasil é assim meio estranho: um ex-guerrilheiro de esquerda lidera um movimento de renovação conservadora na antiga capital do país em um momento que os conservadores estão acuados mundo afora, que Obama lidera nas pesquisas eleitorais norte-americanas, que o sucessor de Blair estatiza bancos na Inglaterra.
Na revista de O Globo, Marta Medeiros declara seu voto em Gabeira, não tem novidade. São sempre os mesmos que se vestem de branco para abraçar a Lagoa pedindo paz e depois voltam para seus apartamentos de classe média e assistem a miséria pelos noticiários de TV. Gabeira é o legítimo representante desse povo. Devem votar nele. Veja-se seu discurso preconceituoso contra a vereadora que o apóia, chamando-a de analfabeta política e suburbana. E agora, novamente demonstrando seu preconceito declarando que os sambistas apoiaram Paes por causa de uma feijoada. Ou seja, a adesão dos artistas à sua campanha é legítima, a adesão dos sambistas não tem ideologia, foi feita sem consciência política. É assim que o candidato pretende governar essa cidade partida chamada Rio de Janeiro? De maneira preconceituosa e elitista?
Em São Paulo, Jabor acusa Marta de ser trampolim ideológico para fortalecer o PT nas eleições de 2010. Ora, todos os articulistas políticos já declararam que a vitória de Kassab cacifica Serra para a Presidência. Ou seja, 2010 sempre esteve na pauta de São Paulo, mas o articulista, que prefere as privatarias tucanas, silencia sobre o uso da máquina serrista para trabalhar em favor de Kassab.
A crônica de Jabor norteou o eleitorado de esquerda que deve caminhar para o centro. Nesse sentido, Jabor ajudou a esquerda carioca que não engolia Paes por sua atuação contra Lula. Alguns amigos me disseram que o artigo - defendendo o voto em Kassab e Gabeira - os levou para o outro lado, pois dizer que Gabeira interrompe décadas de sordidez chaguista, brizolista, etc, que há mudança cultural nesse voto, quando vemos Marcello Alencar, Luiz Paulo Correia da Rocha, César Maia, Bornhauser, o apoiando. É cinismo demais. A velha direita em crise busca renovação, sem escrúpulos, sem bandeira e com um cinismo de doer.


Celso Gomes


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6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Prezado Celso Gomes

Concordo em parte com o que vc escreve, mas vou votar no Gabeira porque dos dois é o menos ruim. Você se esqueceu de que o Paes trocou de partido não sei quantas vezes, foi filhote do César Maia, atacou o Lula até ontem da forma mais direitosa, e agora vem com esta estória de UPA como se fosse uma grande panacéia para o povo extremamente carente com os hospitais administrados precisamente pelo PMDB de Sérgio Cabral - e pelo governo Lula. Qual é o projeto dele para a educação e os professores? O mesmo de Sérgio Cabral?
Mentira por mentira, o Paes afirma que o César Maia volta ao poder pela porta dos fundos com o Gabeira. Você sabe que isso é uma mentira e um expediente eleitoreiro. Eu poderia dizer o mesmo com relação ao Garotinho, que faz política da forma mais abjeta, acionando sentimentos religiosos.

Pelo menos na forma-campanha o Gabeira está dando um bom exemplo, e pessoalmente acho que ele tem muito mais condições de unir para governar com os pobres do que o PMDB, com a sua truculência dos caveirões, mais de 1.500 mortos por ano em confrontos policiais (com a população das favelas), sucateamento das escolas e UERJ. Esta prática peemedebista está aí para quem quiser ver.

Você sabe que, numa eleição, não se trata de quem apóia o candidato. O Lula foi apoiado nas últimas eleições por diversos grandes capitalistas (e acho que eles não estão se sentindo muito decepcionados não).

Saudações
Luiz Barros Montez

10:18 AM  
Blogger Carlos said...

Olá Celso,
Sempre que posso leio seus artigos, no entanto nunca comentei nada - não sei porque razão nunca o fiz - agora, neste exato momento, subitamente, diante desta janela de 17 polegadas, meus dedos coçaram - não me pergunte o motivo disto também.
Tudo bem. Paz.
Posso elencar as razões mais fundamentadas, mas prefiro dizer que, na condição de ex-cidadão carioca, amei, ainda amo e sempre amarei a cidade do Rio de Janeiro. E é esta paixão que invoco para expressar minha opinião sobre a eleição municipal desta maravilhosa cidade, ainda que eu seja, hoje, cidadão niteroiense.
Dito isto, passo ao meu intento.
"Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode pensar a tua vã filosofia". Esta sentença do príncipe dinamarquês bem que poderia ser repetida, se por acaso o amigo Horácio se deparasse com a atual cena política carioca.
Pergunto-te, amigo Celso, se algum dia imaginariámos que o Partido dos Trabalhadores iria preferir o "moço" Eduardo Paes, com seu histórico político - concordemos, nada socialista - a Fernando Gabeira?
É de deixar o cabelo em pé. O espanto é maior quando se soma a esta aliança os comunistas do Brasil. Vê, falo das adjacências desta aliança, não vou perder espaço e tempo falando de sua espinha dorsal: o pessoal do "Movimento democrático" com seus Piccianis e Jerominhos milicianos cabralinos.
Não! Paz.
Confesso ser difícil entender tal “pragmatismo”, por isso acho que cabe muito bem a mim aquela sentença hamletiana. Ah! Esta minha vã filosofia...acaso queres tu, pobre Moresche, entender o que há por detrás das circunstâncias que viabilizou este “espectro” político?
Além disso, não penso no Gabeira como líder de uma renovação conservadora - cuidado com as palavras, elas, às vezes, servem para vários propósitos - se tu pensares que conservadora é o atual modo de exercer a política carioca, tua sentença vira um sofisma.
Não posso deixar de comparar este “moço” com o “idoso” Gabeira. Lembro-me, quando morava em Jacarepaguá, este “moço” era sub-prefeito da Barra, com seu ar de “mauricinho” bem arrumado, engravatado, pedindo votos diante de uma praça recém “melhorada”(carro-chefe da administração César Maia, estas “intervenções maquiadoras” tornaram-se símbolo da prefeitura “empreiteira” - aí sim, conservadora - em detrimento da dimensão social: saúde, educação, transporte, lazer e cultura). Sim, este é o Eduardo Paes que conheci. Será que ele mudou tanto assim? Este que mudou de partido cinco vezes? Só posso atribuí-lo uma enorme ambição pelo poder, custe o que custar.
Defendo a renovação pela criatividade, despojado de “profissionalismo marketeiro”, tão em voga em nosso tempo, pelo espírito republicano da “coisa pública”(pleonasmo necessário), por valores esquecidos, caros a herança socialista de outras eras, que é nossa também.
Opinião de um apaixonado pelo Rio.

Carlos Henrique Moresche

4:28 PM  
Anonymous Anônimo said...

Celso,
concordo plenamente com sua análise, mas vc. não acha que seria uma opção "menos pior" dentro do quadro eleitoral do Rio?
Bjs. grandes para o Daniel
Aline

10:20 AM  
Anonymous Anônimo said...

Aline, não fiz essa análise em termos de candidatos pessoalmente
falando, mas em termos de luta política mais ampla. Uma cidade como o
RJ, por sua vocação cosmopolita, é um palanque e tanto para 2010 e não
quero perder para os neo-liberais, que estão acuados mundo afora.
Veja-se que a Inglaterra estatizou bancos, os EUA estão indo nesse
caminho, etc.
Nesse sentido, creio que devamos votar no Paes que está na base de apoio
ao Governo. A esquerda deve caminhar para o Centro para concluir seu
projeto histórico de construção do Brasil. Bjs.
Celso.

11:06 AM  
Anonymous Anônimo said...

Celso, adotando essa visão mais ampla vc. está certo. Para mim o Governo Lula é um melhores se não o melhor da história, dentro de uma conjuntura internacional totalmente desfavorável!
Bjs. grandes
Aline

9:55 PM  
Blogger Carlos said...

Eduardo Paes é o novo prefeito do Rio. O "moço" venceu com uma pequena diferença entre os votos válidos. O vencedor dedicou sua eleição ao Governador Cabral. Muito justo, reconheço que não se pode tachá-lo de ingrato. A vida segue. O cidadão carioca fez a sua parte - digo, quase todos - resta torcer para que o Poder público, na sua dimensão municipal, faça a sua também, ou seja, um bom governo.
Parábens ao Paes. Agora, deixo de lado as felicitações da vitória democrática e parto para uma consideração que desejo fazer: Tenho dúvidas, sobretudo nesta relação do PT com o PMDB. O que vejo é o PMDB crescendo. Já é a maior força no congresso, terá o próximo presidente da Câmara e também do Senado, no plano federal a fatura vai pesar mais forte. Aqui no RJ já está consolidado como o partido do poder, cresce em todos os lugares e agremiações políticas o desejo de tê-lo como "parceiro". Pergunto, será que o PMDB contentar-se-á com uma indicação de vice-presidente? Ou em outros termos, será que o PT desistiu do seu projeto histórico? Será que sucumbiu de vez a mera função de ocupar as pastas sociais(habitação, ação social, etc.).Quando sabemos que as mudanças estruturantes passam pelas áreas econômicas(Fazenda, receita, planejamento, infraestrutura, energia, etc.). A esquerda vai mesmo cair neste conto da "carochinha", ficar com assitencialismo e só? Não sei não, mas este movimento de que tu falas, Celso, da esquerda caminhar para o centro pode ser um contragolpe que teria por fim deixar a esquerda refém do "saudoso" centrão. Porém, hoje, a política é lugar de políticos e prefiro não acreditar em tamanha ingenuidade. Oxalá, estejas certo e que esta estratégia seja julgada acertada.
No mais, felicito o seu blog e mando um abraço cordial.
Saudações amigo.
Carlos Henrique Moresche Rodrigues.

12:06 AM  

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