quinta-feira, setembro 11, 2008

Notas Breves sobre Sexmaster 5 e Contos Negreiros

Notas Breves sobre Sexmaster 5 e Contos Negreiros.
O conto no Brasil Pós-moderno.

O conto tem origem desconhecida e remonta aos primórdios da própria literatura. No Século XIX, o conto adquire espaço próprio, distanciando-se da novela e do romance.

Entre os teóricos do gênero há muitos elementos de convergência. Tais como o de considerar que o conto deve ser uma narrativa curta, simples, com poucos personagens. Neste, tempo e espaço devem estar concentrados com grande tensão dramática, com o intuito de prender a atenção do leitor.

Certa feita, em uma discussão literária, ouvi um autor brasileiro desafiar seu público a nomear um grande personagem de conto. Ninguém conseguiu. Desafio meus leitores a consegui-lo. São raros ou inexistentes, enquanto os personagens de romance surgem de roldão: Madame Bovary, Capitu, Bloom, Riobaldo. Essa quase impossibilidade deriva do fato de o conto ser um só conflito que rejeita digressões. Há economia dos meios narrativos, preferência pela concisão e concentração dos efeitos. Alguns autores afirmam que uma de suas características mais importantes é que ele termina no clímax, ao contrário do romance em que o clímax aparece em algum ponto antes do final.

Gosto muito das teses de Ricardo Piglia sobre o conto. Reproduzirei apenas a primeira para não alongar demais o texto:

“Num de seus cadernos de notas Tchecov registrou este episódio: "Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo dessa narração futura e não escrita.
Contra o previsível e convencional (jogar-perder-suicidar-se) a intriga se estabelece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa cisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.
Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.
O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.”

Simplesmente perfeito.

Li recentemente dois livros de contos, cujos autores são pouco conhecidos do grande público. O primeiro Contos Negreiros de Marcelino Freire, ed. Record, ganhou o Prêmio Jabuti de 2006; e o segundo, Sexmaster 5 e outras histórias de João Paulo Vaz, ed. Cais Pharoux foi lançado neste ano.

No primeiro, não vi nada além de uma temática enobrecedora, o resgate de uma dívida social enorme, que tem justificado as cotas universitárias e outras políticas de inclusão social, com as quais concordo. Todavia, no caso do livro, o tema é maior que a obra, o que não é bom para a literatura. Os contos são libelos contra a situação dos negros, dos pobres, dos marginalizados. Entretanto, esse tema é batido. A esquerda brasileira já escreveu muito sobre. Soa panfletário. No aspecto formal, há tentativas de inovação da linguagem, mas infrutíferas.

No segundo, a decepção do contista desborda para além das páginas. Não há caminhos no mundo dominado pela tecnologia. João Paulo Vaz se desesperou com a falta de contato humano que prevê para um futuro muito próximo no conto que dá nome ao livro. Em outra história, A visita anual, que talvez seja a melhor do livro, Vaz, ao escrever o último parágrafo, deixou escapar uma das teses de Hemingway, sintetizadas na teoria do “iceberg”: “o mais importante nunca se conta.”

Hemingway, mestre do conto, talvez escrevesse uma conversa banal entre os dois personagens principais, retirando o final que deixaria em aberto. Ao fazê-lo, o segredo seria revelado quando ninguém mais esperasse, produzindo aquilo que James Joyce denominava epifania.

No entanto, estou sendo um leitor clássico demais, pois as narrativas pós-modernas fogem aos padrões estéticos definidos pela tradição. Ler um texto pós-moderno é garimpar os elementos mediatos da narrativa, que muitas vezes estão jogados como fragmentos desconexos, para compreender o sentido subjacente. Os contos de Vaz são muito bons e recomendo a leitura do livro que terminou me causando boa impressão. Também recomendo Contos Negreiros, apesar dos senões que coloquei alhures, pois ambos são bons autores, que sabem, como Cortazar ensinava, que o tempo não é aliado do contista.

Celso Gomes

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home