quinta-feira, setembro 11, 2008

CHORO E SAMBA


CHORO E SAMBA

João Severino era o Presidente da Em Cima da Hora. Alguns anos antes deste fato, ele levara o Pixinguinha à escola de samba e nos reunira no centro da quadra para ouvi-lo. Em minha lembrança, Pixinguinha era alto e forte, e estava vestindo um terno branco. Esse encontro ficou como um troféu em minha memória.

Anos depois, já adulto, conversando com amigos, narrei o episódio.

“Esse é o grande Pixinguinha.” Apresentou Severino. Vimos ao seu lado, o Mestre com seu instrumento, sorrindo timidamente. Sem nada dizer, ele começou a tocar uma melodia que, lentamente, nós entoávamos em coro: “Meu coração/Não sei porque/Bate feliz, quanto de te vê.” O velho batuta terminou a canção emocionado, tirou um lenço vermelho do paletó, secou o rosto, os olhos e murmurou: “Não esperava esse coro de crianças.” João Severino sorriu. Eu conhecia a canção na voz do Orlando Silva. Lembro-me que ele foi tocando sua música sem fronteiras geográficas. Atravessando o tempo, entoaria para o resto de nossas vidas.

Provavelmente, Pixinguinha, encabulado, levantara os olhos para o céu. Talvez, houvesse uma lua nova e a noite de verão estivesse fresca. Quem sabe chovera e essa tenha sido a última vez que se viu a lua do centro da quadra, pois, algum tempo depois, a diretoria mandou colocar uma cobertura.

Com o passar dos anos, a Rua Zeferino da Costa foi asfaltada, colocaram esgotamento. Apenas o Morro Primavera continuava na mesma. Havia promessas de calçamento, de levar água até o último morador, de colocar rede de esgoto para acabar com as valas negras. Promessas.

A visita de Pixinguinha ficara para trás. João Severino ainda presidia nosso samba e haveria outra visita. Era sábado, dia de feira. Durante o dia, eu vira as pessoas subindo a Ladeira Zeferino da Costa carregando compras e latas d’água com ansiedade. A água não chegava as partes mais altas. A quadra da escola estava enfeitada de bandeirinhas e balões. Eu vira, durante o dia, Dona Didi cozinhando canjica para a criançada na cozinha da escola. Antes de servirem os pratos, seríamos apresentados a outro grande compositor brasileiro. Eu não o conhecia. Alguns portelenses, pais dos meus amigos falavam dele. Eu aprendera a gostar de samba, apesar de ser filho de nordestinos, que ouviam Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, e Genival Lacerda.

O dia passou. Com a chegada da noite, o povaréu descia o morro ansioso. Na porta da escola, eu brincava com meus amigos. Disseram-me que o convidado já chegara e estava na casa do João Severino. Após alguns minutos de espera, chamaram todas as crianças para o centro da quadra. Sentamos em cadeiras de metal e esperamos. Os adultos vieram depois. Em seguida, ele entrou vindo pelo lado contrário ao palco sobre uma cadeira de rodas e sorriu. O silêncio foi eloqüente. Compreendi naquele momento, naquela noite de São João, na qual uma canjica saborosa nos esperava, que um dos maiores compositores de samba que pisaria a face da terra estava presente: Candeia.

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2 Comments:

Anonymous Reginaldo Martha said...

Muito bonito companheiro!
Belíssimo!

9:51 AM  
Anonymous Luiz Elias Sanches said...

Reminiscências emocionantes. De arrepiar, pensar naquele bando de crianças, sentadinhas, assistindo Pixinguinha ou Candeia. Com suas canequinhas de canjica na mão. Belo texto.

Abs,
Elias

9:54 AM  

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