terça-feira, setembro 23, 2008

O ENSAIO

O ENSAIO

A bateria da Em Cima da Hora ensaiava tocando um samba-enredo antigo e seu batuque tomava todo o quarteirão. Do alto do morro até a igreja na Antônio Saraiva, ouvia-se o som, que chegava remoto.
“Era uma vez, era assim que começava/ As histórias que vovó contava...”
No internato da igreja, dois meninos ouviam os agogôs, cuícas, tamborins, a marcação dos surdos, os acordes do bandolim. De onde estavam, não podiam ver os sambistas. Acaso pudessem, veriam Cigarra, de calças e sapatos brancos, camisa listrada em azuis na horizontal, que ganhara a disputa daquele ano e teria seu samba cantado na avenida. O chapéu de palha escondia uma leve calvície frontal, a barba, rala e mal feita, dava-lhe um aspecto de velho malandro da Lapa. Comentava-se que ele não sabia compor e que seus sambas eram feitos pelo médico de Cavalcante que não queria espantar sua clientela se associando à Em Cima da Hora. Dois anos antes, Valdir Marujo defendera um belo samba-enredo do Doutor. A história circulara de boca em boca, porém os boatos eram negados pela família do compositor.
“Do pavão misterioso que Evangelista mandou construir.”
Os moradores do bairro haviam colocado as cadeiras nas calçadas para ouvir o ensaio que tomava seus destinos e os arrabaldes de suas vidas. Crianças brincavam de bandeirinha, pique-esconde.
“Com seu talento conquistou ôô/ A filha do Conde e seu amor.”
José, dos dois internos o mais alto, cabelos loiros e olhos azuis, empunhava um violão e acompanhava à distância. O outro menino, Jorge, moreno, cabelos encaracolados até os ombros, escrevia versos em um caderno espiral: “É, pois é, eu pensei que o amor viesse a mim, pois é, quero esquecer o meu amor por você, por você...” José tomou a letra em suas mãos e começou a musicá-la: “Oh, tristeza, quero esquecer esse amor por você, pois é.” O ritmo marcado foi sendo composto à luz breve da lua. Nuvens carregadas atravessavam o céu de dezembro. O som da escola subia em partículas pelo ar.
No boteco, Álvaro, o galego, servia cerveja e cachaça. A Velha Guarda observava o povaréu cantando. Dois negros começaram a lutar capoeira no meio da quadra. A roda se abriu para fintar as longas pernadas. Um estalar se fez ouvir. Um dos capoeiristas caíra. A briga acabara, o sangue escorria do nariz. João Severino, o Presidente da escola, surgiu para dissipar o grupo. O negro se levantava lentamente, ferido e envergonhado. Cigarra, alheio ao que se passava, acompanhava o ensaio do mestre-sala e da porta-bandeira. Os dois meninos, pendurados na ribanceira do internato, compunham sobre amores acabados. O capoeirista derrotado subia a ladeira praguejando e jurando vingança.


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ALGO A DIZER

Já está no ar a atualização de setembro do jornal de Cultura e Política Algo a Dizer (www.algoadizer.com.br), que completa seu primeiro ano na internet.
São duas as novidades no site: um mecanismo de busca de textos por "Autor" ou "Matéria" e a possibilidade de postagem de comentários.
Neste número há uma homenagem especial a Fausto Wolff, amigo do Algo a Dizer e benemérito ("devasso honorário") do bloco carnavalesco Devassos da Cardeal, que organizamos em Santa Tereza, Rio de Janeiro, recentemente falecido: uma entrevista e dois artigos.

1) Entrevista com Fausto Wolff feita por Eduardo Goldenberg, Fernando Toledo, Gustavo Dumas e Roberta Oliveira, no Bar Brasil, em 2004: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=139;

2) Fernando Toledo fala da vida e da obra de Fausto Wolff: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=140;

3) Homenagem de Áurea Alves a Fausto Wolff: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=134;

4) Ivan Pinheiro analisa a conjuntura política no Paraguai: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=141;

5) Gustavo Dumas resenha o livro “Baque” (Editora 34, 2007) de Fabio Weintraub: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=149;

6) Novo CD de Sérgio Ricardo é comentado por Daniela Camargo e por ele próprio: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=147;

7) O caso Celobar é relembrado por Adriana Almeida: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=133;

8) A luta em defesa do bondinho de Santa Tereza, por Juçara Braga: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=142;

9) Homem pode gostar de homem e não ser gay, por Luciano Cazz: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=143;

10) Celso Gomes comenta os livros "Sexmaster 5" e "Contos Negreiros": http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=136;

11) Resenha do livro "Ó Serdespanto", de Vicente Cecim, por Alberto Pucheu: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=146;

12) História do Morro da Providência, por Douglas Naegele: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=138;

13) Obama, poesia, e McCain, prosa, por Regis Bonvicino: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=135;

14) A crônica "Que idade você teria", de Maria Balé: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=144;

15) Poemas escolhidos de Paula Cajaty: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=145;

16) O conto "Sonâmbulos", de Whisner Fraga: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=148;

17) O ensaio "Subordinação formal e subordinação real: ou como as idéias 'entram no lugar'", do professor Carlos Nelson Coutinho: http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=137.
Boa leitura

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quinta-feira, setembro 11, 2008

CHORO E SAMBA


CHORO E SAMBA

João Severino era o Presidente da Em Cima da Hora. Alguns anos antes deste fato, ele levara o Pixinguinha à escola de samba e nos reunira no centro da quadra para ouvi-lo. Em minha lembrança, Pixinguinha era alto e forte, e estava vestindo um terno branco. Esse encontro ficou como um troféu em minha memória.

Anos depois, já adulto, conversando com amigos, narrei o episódio.

“Esse é o grande Pixinguinha.” Apresentou Severino. Vimos ao seu lado, o Mestre com seu instrumento, sorrindo timidamente. Sem nada dizer, ele começou a tocar uma melodia que, lentamente, nós entoávamos em coro: “Meu coração/Não sei porque/Bate feliz, quanto de te vê.” O velho batuta terminou a canção emocionado, tirou um lenço vermelho do paletó, secou o rosto, os olhos e murmurou: “Não esperava esse coro de crianças.” João Severino sorriu. Eu conhecia a canção na voz do Orlando Silva. Lembro-me que ele foi tocando sua música sem fronteiras geográficas. Atravessando o tempo, entoaria para o resto de nossas vidas.

Provavelmente, Pixinguinha, encabulado, levantara os olhos para o céu. Talvez, houvesse uma lua nova e a noite de verão estivesse fresca. Quem sabe chovera e essa tenha sido a última vez que se viu a lua do centro da quadra, pois, algum tempo depois, a diretoria mandou colocar uma cobertura.

Com o passar dos anos, a Rua Zeferino da Costa foi asfaltada, colocaram esgotamento. Apenas o Morro Primavera continuava na mesma. Havia promessas de calçamento, de levar água até o último morador, de colocar rede de esgoto para acabar com as valas negras. Promessas.

A visita de Pixinguinha ficara para trás. João Severino ainda presidia nosso samba e haveria outra visita. Era sábado, dia de feira. Durante o dia, eu vira as pessoas subindo a Ladeira Zeferino da Costa carregando compras e latas d’água com ansiedade. A água não chegava as partes mais altas. A quadra da escola estava enfeitada de bandeirinhas e balões. Eu vira, durante o dia, Dona Didi cozinhando canjica para a criançada na cozinha da escola. Antes de servirem os pratos, seríamos apresentados a outro grande compositor brasileiro. Eu não o conhecia. Alguns portelenses, pais dos meus amigos falavam dele. Eu aprendera a gostar de samba, apesar de ser filho de nordestinos, que ouviam Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, e Genival Lacerda.

O dia passou. Com a chegada da noite, o povaréu descia o morro ansioso. Na porta da escola, eu brincava com meus amigos. Disseram-me que o convidado já chegara e estava na casa do João Severino. Após alguns minutos de espera, chamaram todas as crianças para o centro da quadra. Sentamos em cadeiras de metal e esperamos. Os adultos vieram depois. Em seguida, ele entrou vindo pelo lado contrário ao palco sobre uma cadeira de rodas e sorriu. O silêncio foi eloqüente. Compreendi naquele momento, naquela noite de São João, na qual uma canjica saborosa nos esperava, que um dos maiores compositores de samba que pisaria a face da terra estava presente: Candeia.

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Notas Breves sobre Sexmaster 5 e Contos Negreiros

Notas Breves sobre Sexmaster 5 e Contos Negreiros.
O conto no Brasil Pós-moderno.

O conto tem origem desconhecida e remonta aos primórdios da própria literatura. No Século XIX, o conto adquire espaço próprio, distanciando-se da novela e do romance.

Entre os teóricos do gênero há muitos elementos de convergência. Tais como o de considerar que o conto deve ser uma narrativa curta, simples, com poucos personagens. Neste, tempo e espaço devem estar concentrados com grande tensão dramática, com o intuito de prender a atenção do leitor.

Certa feita, em uma discussão literária, ouvi um autor brasileiro desafiar seu público a nomear um grande personagem de conto. Ninguém conseguiu. Desafio meus leitores a consegui-lo. São raros ou inexistentes, enquanto os personagens de romance surgem de roldão: Madame Bovary, Capitu, Bloom, Riobaldo. Essa quase impossibilidade deriva do fato de o conto ser um só conflito que rejeita digressões. Há economia dos meios narrativos, preferência pela concisão e concentração dos efeitos. Alguns autores afirmam que uma de suas características mais importantes é que ele termina no clímax, ao contrário do romance em que o clímax aparece em algum ponto antes do final.

Gosto muito das teses de Ricardo Piglia sobre o conto. Reproduzirei apenas a primeira para não alongar demais o texto:

“Num de seus cadernos de notas Tchecov registrou este episódio: "Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo dessa narração futura e não escrita.
Contra o previsível e convencional (jogar-perder-suicidar-se) a intriga se estabelece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa cisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.
Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.
O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.”

Simplesmente perfeito.

Li recentemente dois livros de contos, cujos autores são pouco conhecidos do grande público. O primeiro Contos Negreiros de Marcelino Freire, ed. Record, ganhou o Prêmio Jabuti de 2006; e o segundo, Sexmaster 5 e outras histórias de João Paulo Vaz, ed. Cais Pharoux foi lançado neste ano.

No primeiro, não vi nada além de uma temática enobrecedora, o resgate de uma dívida social enorme, que tem justificado as cotas universitárias e outras políticas de inclusão social, com as quais concordo. Todavia, no caso do livro, o tema é maior que a obra, o que não é bom para a literatura. Os contos são libelos contra a situação dos negros, dos pobres, dos marginalizados. Entretanto, esse tema é batido. A esquerda brasileira já escreveu muito sobre. Soa panfletário. No aspecto formal, há tentativas de inovação da linguagem, mas infrutíferas.

No segundo, a decepção do contista desborda para além das páginas. Não há caminhos no mundo dominado pela tecnologia. João Paulo Vaz se desesperou com a falta de contato humano que prevê para um futuro muito próximo no conto que dá nome ao livro. Em outra história, A visita anual, que talvez seja a melhor do livro, Vaz, ao escrever o último parágrafo, deixou escapar uma das teses de Hemingway, sintetizadas na teoria do “iceberg”: “o mais importante nunca se conta.”

Hemingway, mestre do conto, talvez escrevesse uma conversa banal entre os dois personagens principais, retirando o final que deixaria em aberto. Ao fazê-lo, o segredo seria revelado quando ninguém mais esperasse, produzindo aquilo que James Joyce denominava epifania.

No entanto, estou sendo um leitor clássico demais, pois as narrativas pós-modernas fogem aos padrões estéticos definidos pela tradição. Ler um texto pós-moderno é garimpar os elementos mediatos da narrativa, que muitas vezes estão jogados como fragmentos desconexos, para compreender o sentido subjacente. Os contos de Vaz são muito bons e recomendo a leitura do livro que terminou me causando boa impressão. Também recomendo Contos Negreiros, apesar dos senões que coloquei alhures, pois ambos são bons autores, que sabem, como Cortazar ensinava, que o tempo não é aliado do contista.

Celso Gomes