quinta-feira, agosto 07, 2008

POESIA

Para comprovar que o blog também é literário, estamos postando um poema de CDA.
Após essa postagem, publicaremos, semanalmente, um conto escrito com base na minhas memórias de Cavalcante, a aldeia de minha infãncia.

DRAMA SECO

O noivo desmanchou o casamento.
Que será da noiva – toma hábito
ou se consagra à renda de bilro para sempre?
Tranca-se ao jeito das viúvas trágicas.
O noivo fica noivo novamente,
de outra moça, em outra rua.
A noiva antiga que dirá
em seu quartinho negro, à hora em que...?
À hora em que
passar a pé
o noivo com
seu cortejo, braço dado a braço dado,
rumo da noiva nova,
diz-que da antiga casa de noivado
a água descerá, em punição.
Lá vai o cortejo
todo ressabiado,
terno noivo
terno novo
preto de medo,
vestido novo
branco de medo,
olho no medo
no céu da casa.
Todas as janelas secamente fechadas,
sequer uma lágrima
pinga na lapela do noivo.

Carlos Drummond de Andrade

1 Comments:

Blogger arrabaldes said...

Sempre bom um Drummonzinho...
Sheila.

4:01 PM  

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