terça-feira, junho 10, 2008

O SONHO DE CASSANDRA É ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO



O SONHO DE CASSANDRA É ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Dois filmes em exibição merecem uma reflexão para além da estética do cinema, pois remetem a elementos fora deste último. Faremos uma breve introdução sobre ambos para, posteriormente, apontar esses elementos exteriores ao entrecho dos dois.
O primeiro filme é O Sonho de Cassandra, de Woody Allen. Filmado em Londres, o filme conta a história de irmãos que buscam melhorar suas vidas. Um deles é um jogador crônico com dívidas a pairar sobre a sua cabeça e o outro é um jovem que tenta viver como “playboy” e se apaixona por uma bela atriz. A vida dos dois irmãos é enredada em uma situação com infelizes resultados. Apesar de a crítica especializada considerar que Allen flerta com as tragédias gregas desde Poderosa Afrodite, no qual a profetisa Cassandra aparecia dizendo: “Eu vejo desastres. Eu vejo catástrofes. Pior: eu vejo advogados!” Neste filme, creio que Allen flerta descaradamente com Dostoievski em Crime e Castigo, ou com Fausto de Goethe, com sua história do pacto em troca do sucesso material, no qual ele explora o lado negro da ambição.
O segundo é Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto do diretor Sidney Lumet. O filme é interessante e o espectador é levado a um estado de tensão que não termina após o final da fita. Lumet, que dirigiu também o ótimo Um dia de cão, utiliza uma técnica de ir retrocedendo as cenas para contar a visão e a participação de cada um dos personagens por vez. O filme narra a história de dois irmãos, Andy e Hank, que também buscam modificar suas vidas materialmente. Andy, o mais velho, mora em um belo apartamento, possui um excelente emprego e vive com uma mulher belíssima, porém fútil. Em determinado momento não narrado no filme, sua vida começa a desmoronar. Talvez, levado por essa ruína iminente, Andy passa a usar drogas pesadas, algo que vai se intensificando ao longo do filme. Ele termina desviando dinheiro que a empresa destinava para impostos e outros encargos para seus gastos pessoais e, diante de uma auditoria que se aproxima, formula um golpe, como solução para seus problemas financeiros. O outro irmão é divorciado, possui uma filha entrando na adolescência e trabalha na mesma empresa que Andy, porém em cargo bem inferior, que não lhe permite sequer pagar suas pensões, levando sua ex-mulher ao desespero. Diante do desejo da menina de ir a Broadway ver O Rei Leão, Hank aceita participar do golpe proposto pelo irmão.
Nos dois filmes, mesmo que um deles seja filmado em Londres, é a família estadunidense que está em cheque. Os irmãos são viciados em jogo, ou em drogas, e vivem, ou querem viver, além de suas possibilidades materiais, com padrões de consumo que não conseguem sustentar. Não é por acaso que o próximo presidente norte-americano herdará um déficit de 5,5 trilhões de dólares. O segundo filme mostra uma família completamente desestruturada. O fracasso de Hank é cobrado pela filha e pela ex-mulher. Aliás, esse fracasso não é tolerado por seus familiares, que o espetam em vários momentos denominando-o de chorão. Há um problema de ordem emocional não explicitado, porém extraível das relações familiares, que se relaciona de forma inexorável com o dinheiro, com a decadência.
As duas histórias possuem claros elementos de contato e algumas reflexões surgem como perguntas, pois sabemos que o cinema não é apenas entretenimento. O que está acontecendo no Império? Algo de podre aconteceu com o “self made man”? Os valores norteadores do capitalismo norte-americano, que criaram a maior nação do ocidente em termos capitalistas estão ruindo e levando junto os pilares da família? Diante do fracasso iminente, podemos perguntar: o que aconteceu, a locomotiva está parando, ou suas engrenagens apodrecendo? Não há lugar para o fracasso, então como conviver com os milhões de excluídos desse sistema perverso que bestializa as pessoas?
No entanto, não podemos esquecer que esses valores norteadores não estão sendo contraditados pelos cineastas em questão. Os filmes retratam momentos históricos, mas seus diretores não refletem sobre os mecanismos que levam até essa provável bancarrota. De qualquer sorte, em julho estreará Batman – O Cavaleiro das Trevas, e ainda se encontra em exibição O Homem de Ferro. O Império contra-ataca e nos salvará a todos. Do que não sabemos.

Celso Gomes

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