quinta-feira, maio 08, 2008

WHAT’S WRONG WITH THE WORLD?

  • WHAT’S WRONG WITH THE WORLD?
    Esteve em cartaz de 19/04/2008 a 04/05/2008 no Oi Futuro a peça que dá nome a esse artigo com direção de Rubens Velozo.
    Segundo o folder distribuído à entrada do teatro, WHAT’S WRONG WITH THE WORLD? “ fixa um marco no Oi Futuro como espaço de encenação de espetáculos onde linguagens misturam-se e onde o risco e a experimentação estão sempre presentes;” “nossa proposta é ser um espaço para a investigação sobre as possibilidades de rompimento do “conhecendo” e do “supostamente assimilável”. O folder continua: “Temos pautado – e produzido – projetos que, invariavelmente, unem arte e tecnologia, afirmando-se com o conceito de convergência que tem movido nossa programação.” O Oi Futuro busca declaradamente propor novas relações palco/platéia, novas formas dramatúrgicas e novos diálogos com o que acontece no mundo com o foco no teatro do Século XXI.
    Por outro lado, o diretor da peça Rubens Velozo, declara que WHAT’S WRONG WITH THE WORLD? Retoma e aprofunda os experimentos iniciados em “Play on Earth”, enfrentando o desafio de construir um espetáculo em que todos os elementos envolvidos – técnicos, dramatúrgicos e de atuação – são pensados para um suporte tecnológico. É preciso informar que “Play on Earth” foi um projeto realizado em 2006 pela companhia inglesa Station House Opera, ao lado da Cia. Fila 7 e do TheatreWorks de Cingapura, no qual em um palco virtual construído pela internet e com dramaturgia criada pelas três companhias, criava-se um espetáculo realizado ao vivo nos três continentes sedes das mesmas.
    No caso, há encenação de uma peça passada simultaneamente em Londres e no Rio de Janeiro. A técnica utilizada permite que os atores contracenem com o auxílio de telas invisíveis. O público carioca e o londrino, supostamente, interagem ao longo da encenação. Entretanto, não há nada além de tecnologia. As cenas não são entendidas pelo público, pois os personagens repetem frases sem propósito, realizando gestos que não têm sentido algum para a platéia, que vê um mulher derrubar objetos de sua bolsa no chão, buscando encontrar algo que não encontra, ou, em outro momento, dois homens se encontram em um bar e um deles repete a frase-bordão: não está comigo a carta; não está comigo o dinheiro, e etc. Em outro momento, a mulher deixa o teatro e é vista com aparente desespero na Rua Dois de Dezembro, onde se localiza o Oi Futuro, procurando alguém nos prédios adjacentes. Em Londres, nada ocorre de diferente, há repetição de gestos e frases. Sessenta minutos depois do início, o público vai embora sem nada entender.
    A encenação, pois não nomearei como peça teatral aquilo que não é, transborda no exagero pós-moderno. O autor lida com signos – a tecnologia – sem se preocupar com o humano. Aqui se prefere a imagem ao objeto. Não é à toa o uso do “delay” para mostrar as cenas em Londres ou no Rio de Janeiro. Na verdade, WHAT’S WRONG WITH THE WORLD? é uma ode ao simulacro, uma singularização do banal. A pretensão de caminhar para uma nova dramaturgia – pretensão confessada nas entrelinhas do discurso do diretor – desborda na completa falta de dramaturgia. É como se um cirurgião ao invés de cortar a carne e realizar a cirurgia, fizemos longos discursos acerca do bisturi. A tecnologia deveria ter sido utilizada para apoiar o espetáculo, ou para realizar a interação entre os personagens londrinos e cariocas, pois o público espera, desde os tempos remotos dos gregos, que seja acrescentado algo a sua existência singular. A primeira máscara utilizada por um ator na Grécia antiga era um aparato tecnológico, mas havia por trás a imensa condição humana a sustentá-la. A máscara não atuava sozinha. Quando se transforma a tecnologia em espetáculo, podemos ter qualquer coisa, exceto teatro.

    Celso Gomes

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