quinta-feira, novembro 29, 2007

LITERATURA

Postei no blog um convite para lançamento do livro Laranja Seleta do poeta "marginal" Nicolas Behr. Nicolas é da mesma geração literária de Chacal, Ana C. e outros. A diferença é que Nicolas mora em Brasília e, segundo sei, pouco se relacionava com os poetas cariocas de sua geração. No entanto, todas as marcas geracionais estão em Nicolas como nos demais. Aproveito o ensejo para divulgar uma carta que enviei para ele há alguns meses, quando nos correspondemos por conta do lançamento do meu livro Brusca Poesia, para o qual Nicolas cedeu uma "orelha".

Carta ao poeta marginal Nicolas Behr
Fiquei abestalhado com a história do processo, depois, eu e minha mulher caímos na gargalhada quando lemos o auto de prisão e de apreensão de seus livros. Eles caíram no ridículo. Eu fico imaginando a sua cara com 20 anos sendo preso por escrever e vender livros de poesia. O mais estranho é que aqui no Rio não fiquei sabendo desse fato. Mas, na época, eu tinha dezesseis anos e não havia me agrupado. Escrevia e guardava na gaveta. Somente no início da década de 1980, eu encontrei minha tribo e passei a editar meus livrinhos de forma alternativa. Não sabia que corria risco de ser preso.
Li seus livros de uma levada só. Quando li, comentei com minha mulher: é estranho que a gente comece a escrever poesia em um caderno, coloque-o na gaveta e vai para a rua onde encontra um sujeito cabeludo que nem a gente vendendo um livrinho artesanal de poesia feito do jeito que a gente faz. Foi o que aconteceu comigo. Será que somos realmente uma geração de poetas? Comecei a escrever e publicar pouco depois de você. Escrevi poemas de forma coloquial, alguns com humor, ácidos, críticos, bêbados, fumados, largados, cheirados e vai por aí. Depois, briguei com minha namorada adolescente e fiquei mais sério, dei para escrever coisas tristes, macambúzias. Até que um dia, a poeta Ângela Melim, quase acabou comigo e com o Sérgio Carvalho de Azevedo numa roda de poetas dizendo que a gente era obscuro demais. O defeito era verdadeiro. Larguei a poesia e fui para a prosa; o Sérgio para lugar nenhum. Estou voltando a escrever poesia agora, mais de quinze anos depois, e resolvi comemorar publicando os poemas daquela época, acrescentando alguns que escrevi recentemente.
Sua poesia é muito característica da geração marginal. Está tudo aí: coloquialidade, juventude, desbunde, humor, falta de humor, mal humor, prosaísmo, ironia pós-modernista. Impressiona o fato de Brasília ser distante do Rio e você escrever como o pessoal daqui. Tua antena estava ligada. Pena que naqueles anos não participamos de uma roda de leitura. Fazíamos por aqui várias dessas rodas. Invadíamos um bar cheios de cana e recitávamos sem pedir licença. Depois íamos para outro bar.
Estou enviando pelo Correios a novela Trilhas Urbanas que escrevi em 1979, somente publicada em 2002. A primeira parte da novela é sobre um personagem "raté" que não se enquadra na sociedade que vivemos; a segunda parte é sobre um pintor que se rende; e na terceira é contada a história de um advogado em crise amorosa e existencial, que se identifica com um livro de poesia (artesanal como os que você publicava) e resolve encontrar o poeta, que tirando os detalhes específicos da trama, poderia se chamar Nicolas Behr. O livro é essa busca. Depois, enviarei o que está no prelo.
Ps. Adorei o estatuto do poeta marginal.
Um grande abraço. Celso Gomes

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home