sábado, junho 23, 2007

LITERATURA

HEMINGWAY

Em Janeiro de 1983, um mês apenas após ter recebido em Estocolmo o Prêmio Nobel, Gabriel García Márquez escreveu uma crônica a propósito da sua primeira visita à Cidade do México, em 2 de Julho de 1961, na qual dizia: "Nunca esquecerei a data, porque no dia seguinte muito cedo um telefonema amigo acordou-me dizendo que Hemingway tinha morrido". O Nobel colombiano escreveu imediatamente sobre a morte, a vida e a obra de Hemingway, uma nota que viria a aparecer uma semana mais tarde numa revista mexicana. Com o título Um homem que morreu de morte natural, republicamos essa nota, agora que vão ser completados 46 anos da morte de Hemingway.

Um homem que morreu de morte natural

Desta vez parece ser verdade: Ernest Hemingway morreu. A notícia comoveu, em sítios opostos e afastados do mundo, os seus empregados de café, os seus guias de caçadores, os seus aprendizes de toureiro, os seus “choferes” de táxi, alguns mal-queridos pugilistas e algum pistoleiro reformado.
Entretanto, na aldeia de Ketchum, Idaho, a morte do bom vizinho foi apenas um doloroso acidente local. O cadáver permaneceu seis dias em câmara ardente, não para que se lhe rendessem honras militares, mas à espera de alguém que estava a caçar leões em África. O corpo não ficará exposto às aves de rapina, junto dos restos de um leopardo congelado no cume de uma montanha, mas repousará tranquilamente num desses cemitérios demasiado higiénicos dos Estados Unidos, rodeado de cadáveres amigos. Estas circunstâncias, que tanto se parecem com a vida real, obrigam a acreditar que desta vez Hemingway morreu a sério, à terceira tentativa.
Há cinco anos, quando o seu avião teve um acidente em África, a morte não podia ser verdade.
As equipes de resgate encontraram-no alegre e meio bêbado, numa clareira da selva, a pouca distância do lugar onde vadiava uma família de elefantes. A própria obra de Hemingway, cujos heróis não tinham o direito de morrer antes de padecer durante certo tempo a amargura da vitória, tinha desqualificado de antemão aquele tipo de morte, mais própria do cinema do que da vida.
No entanto, agora, o escritor de 62 anos, que na passada primavera esteve duas vezes internado a tratar-se de uma doença de velho, foi encontrado morto na sua casa com a cabeça despedaçada por uma bala de escopeta de matar tigres. A favor da hipótese de suicídio há um argumento técnico: a sua experiência no manejo das armas afasta a possibilidade de um acidente. Contra, há apenas um argumento literário: Hemingway não parecia pertencer à raça dos homens que se suicidam. Nos seus contos e romances, o suicídio era uma covardia, e os seus personagens eram heróicos apenas em função da sua temeridade e do seu valor físico. Seja como for, o enigma da morte de Hemingway é puramente circunstancial, porque desta vez as coisas aconteceram como deviam: o escritor morreu como o mais vulgar dos seus personagens, e principalmente para os seus próprios personagens.
Contrastando com a dor sincera dos pugilistas, destacou-se nestes dias a incerteza dos críticos literários. A pergunta central é até que ponto Hemingway foi um grande escritor, e em que medida merece um prêmio, que a ele próprio pareceu coisa sem importância, uma circunstância episódica na vida de um homem.
Na realidade, Hemingway não foi senão uma testemunha ávida, mais do que da natureza humana, da ação individual. O seu herói surgia em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação e em qualquer nível da escala social em que fosse necessário lutar encarniçadamente não tanto para sobreviver quanto para alcançar a vitória. E, depois, a vitória era apenas um estado superior do cansaço físico e da incerteza moral.
No entanto, no universo de Hemingway a vitória não estava reservada para o mais forte, mas para o mais sábio, com uma sabedoria colhida da experiência. Nesse sentido era um idealista. Raramente, na sua extensa obra, se encontra uma circunstância em que a força bruta prevaleça contra o conhecimento. O peixe pequeno, se era mais sábio, podia comer o grande. O caçador não vencia o leão por estar armado de uma escopeta, mas porque conhecia minuciosamente as manhas do seu ofício, e pelo menos em duas ocasiões o leão conheceu melhor as manhas do seu. Em O Velho e o Mar – o relato que parece ser uma síntese dos defeitos e virtudes do autor – um pescador solitário, esgotado e perseguido pela má sorte, conseguiu vencer o peixe maior do mundo numa contenda que era mais de inteligência que de força.
O tempo demonstrará também que Hemingway, como escritor menor, há-de comer muitos escritores grandes, pelo seu conhecimento das motivações dos homens e das manhas do seu ofício. Uma vez, numa entrevista à imprensa, deu a melhor definição da sua obra quando a comparou ao iceberg da gigantesca massa de gelo que flutua à superfície: é apenas um oitavo do volume total e é inexpugnável, graças aos sete oitavos que a suportam debaixo da água.
A transcendência de Hemingway está suportada precisamente pela oculta sabedoria que aguenta a flutuação duma obra objetiva, de estrutura direta e simples, e às vezes até sem adornos, mesmo no seu dramatismo.
Hemingway limitou-se a contar o que tinha visto com os seus próprios olhos, o que tinha gozado e sofrido por experiência própria, que era, ao fim e ao cabo, a única coisa em que podia acreditar. A sua vida foi uma contínua e arriscada aprendizagem do seu ofício, domínio onde foi honesto até ao limite do exagero: é caso para perguntar quantas vezes esteve em perigo a própria vida do escritor para que fosse válido um simples gesto de um seu personagem.
Nesse sentido, Hemingway não foi nada mais, mas também nada menos, do que quis ser: um homem que esteve completamente vivo em cada ato da sua vida. O seu destino, de certo modo, foi o dos seus heróis, que só tiveram uma validade momentânea num qualquer lugar da Terra, e que foram eternos pela fidelidade daqueles que os quiseram. Essa é, talvez, a dimensão mais exata de Hemingway. Provavelmente, este não será o final de ninguém, mas antes o princípio de alguém na história da literatura universal. É, de certeza, o legado natural de um esplêndido exemplar humano, de um trabalhador bom e estranhamente honrado, que talvez mereça algo mais do que um simples lugar na glória internacional.
© Gabriel García Márquez / Cambio