domingo, maio 20, 2007

CYBERSENZALA

Carta ao Jair sobre Cybersenzala:
Jair, somente agora pude ler seu último livro. Gostei do livro como um todo, principalmente, do conto que dá nome ao mesmo. O Fado Pauleira também é muito bom, mas esse eu havia lido na Estação das Letras. Você não deixa nenhuma alternativa para os personagens de Cybersenzala. A futilidade das relações estabelecidas por essa geração que fetichiza o dinheiro e adjacências impressiona. Sem investimento cultural, sem informações acerca do período histórico no qual vivem, tampouco do passado, leva-os a um caminho sem volta. Não há luta de classes, não há luta ideológica. O capitalismo os levou para um beco sem saída. O indivíduo luta por seu egoísmo, um atropela o outro. Jair, parece que você pergunta onde está o homem, para onde ele caminha. No entanto, seu desespero ao mesmo tempo nos leva a outro aspecto: não há saída nem na morte. Os personagens são humanos caricatos, não possuem coragem para um gesto de extrema grandeza diante da enorme crise de suas existências. O conto possui um exagero de detalhes e informações. Demorei um pouco para perceber sua intenção: é proposital tal situação hiperbólica, pois você quer nos mostrar o mundo fútil e vazio a nossa volta, cercado dessas pessoas, desses novos ricos ignorantes ou de burgueses decadentes, incultos, sem nenhuma ideologia que não seja o seu supremo egoísmo e vaidade. Não há projeto de país, não há luta política ou ideológica, não há preocupação social com os excluídos que aumentam, basta olhar para fora da janela do Subaru. Não vêem a miséria africana, asiática, brasileira, etc. Não vivem em nosso mundo, mas em um mundo virtual do mercado financeiro. Oliveira, não por acaso um burguês decadente, em um beco sem saída para o qual caminhou de forma inciente (acho que acabei de criar uma palavra, pois meu dicionário diz que ela não existe), verifica que algo está errado enquanto atira nos animaizinhos noturnos que divisa na floresta diante de sua janela. Porém, não consegue estabelecer contato com as respostas possíveis, pois isso exigiria um questionamento anterior que sua vida fútil não permite. A música apenas racha sua couraça, dentro da qual se encontra toda sua insatisfação egoística: a decadência física e profissional. Na verdade, como traduz bem o nome de um dos personagens, Oliveira é um rato pós-moderno e urbano, mas o que me preocupa é o fato de que ele não é o único rato nessa história.
Parabéns e um abraço. Celso Gomes.

Livro: Cybersenzala
Autor: Jair Ferreira dos Santos
Ed. Brasiliense, 2006

1 Comments:

Blogger arrabaldes said...

Prezado Celso,
Grato pela sua msg. Sua análise do conto é perfeita. Trata-se principalmente de realçar o vazio e a ausência de projeto que não seja a satisfação pessoal imediata e o acúmulo de dinheiro e bens. Não há saída para eles, assim como não há para nós, pq a História hoje está tocando uma música inaudível, não conhecemos sua melodia, seu tom, nada, pq vamos nos aproximando do último substrato humano que restará - a nossa animalidade. Seria um bom ponto de recomeço. A tentativa do conto é caracterizar um modo de vida, o que explica a abundância de detalhes, pq quase ninguém fala dessa gente (as novelas caricaturam as elites sem nenhum esforço de compreensão e apreensão da gênese da coisa). Grande abraço, Jair

8:56 PM  

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