terça-feira, abril 03, 2007

LITERATURA


DESFILADEIRO

Joel Santos, escritor brasileiro, caminhava pelo corredor do museu do Louvre e se deparou com o quadro Leônidas nas Termópilas de 1814, óleo sobre tela, 395 x 531 cm de Jacques-Louis David (1748-1825), começado em 1799. Ao seu lado, um guia passava informações em francês acerca da obra e de seu autor: “deputado à Convenção durante a Revolução francesa, regicida por ter votado a morte do rei de França Luís XVI, pintor histórico, mais característico representante e principal expoente da reação neo-clássica contra o estilo rococó, foi um dos raros grandes artistas da época, controlou durante anos a atividade artística francesa, sendo o pintor oficial da Corte, esta obra, o rei em primeiro plano, retrata uma pausa da batalha. Há uma pintura do século XIV que, de forma mais realista, mostra a batalha entre gregos e os persas na qual pereceram o Rei da Lacônia e seus trezentos espartanos.” Joel Santos, ouviu atentamente e continuou seu passeio pelo Louvre. Sempre se impressionara com a história dos espartanos esperando os persas, cientes da morte iminente, para que os gregos pudessem ganhar tempo e organizar suas defesas. Como tivesse alguns compromissos profissionais no dia seguinte, nosso escritor resolveu procurar o quadro referido pelo guia. Passou pela exposição de Toni Morrison, Willian Forsythe e Peter Welz, Danse, dessin, film, sur une suggestion de Toni Morrison, “Corps étrangers” explore les possibles dialogues entre la danse e le dessin. Em outro ponto do museu, pelas “Gravures de la collection Edmond de Rothschild. Seicento - En écho aux expositions en région sur le dessin en Italie aux XVIIe et XVIIIe siècles, une présentation au Louvre est également proposée à partir des fonds des collections publiques françaises. Pour la première fois, des exemplaires uniques et précieux d’estampes réalisées en Italie sont présentés. Alguns trabalhadores vestidos de macacões de brim azul montavam outra exposição e ele perguntou onde poderia encontrar quadros do século XIV. Um deles o olhou incrédulo, o outro mostrou uma direção com o braço, em vista de estar com a boca cheia de pregos.
Seguiu o caminho indicado sem acreditar que era o correto e, surpreso, deparou com o quadro no corredor adiante. Pintura a óleo sobre a tela 200 cm x 450 cm, de autor desconhecido do Séc. XIV. De repente, Joel Santos sentiu uma vertigem e se apoiou em uma parede nua. Talvez a fome, estava sem almoço, ou o fuso horário, desembarcara em Orly apenas duas horas antes, seus olhos semicerrados faziam crer que as luzes do museu haviam sido apagadas. Em meio à escuridão, observou que o quadro brilhava e ele pode ver no canto esquerdo da obra riscos pretos, lacônicas setas sobre os lacedemônios a obscurecerem o céu das Termópilas. Observou atentamente, um deles, torso flechado, cuja cabeça decepada rolaria pelos abismos do desfiladeiro, não houvesse o artista paralisado o tempo naquele momento, no qual Leônidas, na parte central da obra, espada empunhada, escudo de bronze, conclamava os gregos a resistir ao invasor. Outro soldado mais próximo ao rei chamou a atenção do escritor e ele viu que aqueles olhos secos não demonstravam covardia diante de uma lança que se avizinhava. Pensou que talvez ele houvesse aprendido desde a mais tenra idade a superar o sentimento da morte, dos sete aos treze anos praticara diversas técnicas para a suplantação da dor; já efebo, participara de exigentes treinamentos e de testes cruéis para avaliar sua destreza e coragem. Depois, aos vinte anos, incorporado às temíveis falanges espartanas, participara de várias batalhas, sendo ferido no ombro, obrigado a dormir em acampamentos militares, ao relento sempre, com apenas uma coberta de couro para se habituar ao frio do inverno e assenhorar-se do medo. Talvez, na cabeça daquele soldado passasse lembranças de seu adestramento militar, com ginástica, esgrima, das cavalgadas, das lutas, dos jogos olímpicos que disputara e ainda se lembrasse das longas corridas em terrenos acidentados, do treinamento com o escudo de carvalho, que servia tanto para proteger o combatente quanto como arma de choque, que ele, naquele momento congelado do passado, utilizava para persuadir um invasor que o atacava de lança em punho. Distante de sua Esparta, talvez o soldado se lembrasse apenas de sua ninfa lhe dizendo para voltar com o escudo, ou sob ele e esta última frase lhe impusesse fibra para não esmorecer diante do inimigo poderoso.
Talvez, no canto direito da tela, Joel Santos pudesse ver as helenas trombetas que jaziam mudas e aquele soldado nem soubesse que estava lutando contra Xerxes, que escorria o ano de 480 a.C., que estava cercado por uma máquina de guerra poderosa de milhares de homens, montada para subjugar sua amada Grécia, que já havia derrotado o Grande Rei da Pérsia Dario, pai desse novo invasor. Era provável que soubesse que viera ao norte da Lacedemônia para encontrar seu destino, no Desfiladeiro das Termópilas, onde as elevações rochosas eram por demais estreitas e se estendiam rios caudalosos de águas quentes, local obrigatório de passagem para as tropas invasoras, e que naquele ponto estratégico, para onde se deslocara seu general acompanhado de cinco mil homens, com a missão de barrar o avanço inimigo, o Oráculo de Delfos havia predito a morte de um rei.
Talvez ele ainda tivesse ouvido o mensageiro “de Xerxes, filho de Dario, o Grande Rei da Pérsia e Média, Rei dos Reis, rei de Todas as Terras, Senhor da Líbia, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Babilônia, Caldéia, Fenícia, Síria, Assíria e Palestina, Soberano da Jônia, Frigia, Armênia, Capadócia, Trácia, Macedônia, Rodes, Lesbos e das ilhas do Egeu; Governador Supremo da Báctria, Cáspia e Índia, Senhor de todos os homens do sol nascente ao poente; Magnificência mais sagrada, exaltada, invencível e incorruptível; Majestade abençoada pelo Deus Ahura Mazda e Onipotente entre os mortais”, ler a intimação para que os gregos se rendessem e entregassem as armas; e ainda ouvido a resposta lacônica de seu comandante: “Venham pegá-las.” E ainda, tivesse ouvido de seu amigo Dienekes a resposta ao mensageiro inimigo quando este dissera que haviam tantos arqueiros persas que suas flechas obscureceriam o céu: “Melhor assim, combateremos à sombra.” E uma pequena rachadura se tenha formado em sua represa de coragem ao ver a lúgubre imagem de um céu coalhado de estrelas vermelhas que se transformavam em persas flechas, incendiando homens e o acampamento; e depois tivesse cimentado sua coragem destroçada sobre os alicerces da dor ao ser escolhido entre os trezentos, quando seu rei dispensou suas tropas para a defesa do restante da Grécia, após o traidor Anito, informar a Xerxes da existência de uma passagem que levaria à retaguarda de Leônidas e o deixaria isolado na estreita garganta, ou soubesse que, naqueles sete dias encarniçados, os gregos teriam tempo suficiente para organizarem suas defesas e derrotarem os persas, ou, que olhando para o seu rei, ele vislumbrasse que este seria morto e teria sua cabeça decepada. Mas o que Fedro, porque era esse seu nome, não tinha como saber que um escritor brasileiro veria, dois mil e quinhentos anos depois, estampado em seus olhos, o momento de sua agonia ao ser sacrificado por sua Hélade e para preservar a futura civilização greco-romana da qual o outro seria legatário. Então, olhando orgulhoso para além do limite das tintas de sua existência, para além da pintura que o aprisionava, apinhado da dor da morte que se avizinhava, balbuciou frases no antigo dialeto dos gregos. Joel Santos aproximou o ouvido ao óleo para ouvir em apertada e incompleta síntese, abafada pelo alarido da batalha, pelo estralar das espadas e pelo zumbido das setas, como foi a saga dos lacedemônios e ainda, mesmo sem que pudesse entendê-lo, pois era um homem de dois mil e quinhentos anos murmurando um tanto envergonhado: “Tive medo.”

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