terça-feira, abril 10, 2007

RECADO


No blog, o poema O Defunto de Pedro Nava a imagem de uma fotografia de escultura hiper-realista de Ron Mueck, que nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1958.

POESIA


O Defunto
A Afonso Arinos de Melo Franco


Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!

Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...

— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!


— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...

Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual

Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...

Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança envenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.

— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...

Rio de Janeiro, 23 julho de 1938
Publicado no livro O Defunto (1967).


Pedro Nava


quinta-feira, abril 05, 2007

RECADO


No blog, o conto O Aleph de Borges e o poema A Flauta Vértebra de Maiakowski. Desejo a todos meus leitores e amigos uma boa leitura e feliz páscoa.

LITERATURA


O Aleph

«God, 1 could be bounded in a nutshell and count myself a King of infinite space.»
Hamlet, II, 2.

«But they will teach us that Eternity is the Standing still of the Present Time, a Nunc­stans (as the Schools call it); which neither they, nor any else understand, no more than they would a Hic-stans for an Infinite great­nesse of Place.»
Leviatã, IV, 46

Na ardente manhã de Fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sen­timentalismo nem ao medo, notei que os painéis de ferro da Praça da Constituição tinham renovado não sei que anúncio de cigarros louros; o facto doeu-me, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudara o universo mas eu não, pensei com melancólica vaidade; sei que, algumas vezes, a minha vã devoção a exasperara; morta, podia consagrar­me à sua memória, sem esperança, mas também sem humilhação. Lembrei-me de que a 30 de Abril era o seu aniversário; visitar, nesse dia, a casa da Rua Garay para saudar seu pai e Carlos Argentino Daneri, seu primo direito, era um acto cortês, irrepreensível, talvez iniludível. De novo aguardaria no crepúsculo da abarrotada salinha, de novo estudaria as circunstâncias dos seus muitos retratos. Beatriz Viterbo, de perfil, a cores; Beatriz, com máscara, no Carnaval de 1921; a primeira comunhão de Beatriz; Beatriz, no dia do seu casamento com Roberto Alessandri; Beatriz, pouco depois do divórcio, num almoço do Clube Hípico; Bea­triz, em Quilmes, com Delia San Marco Porcel e Carlos Argentino; Beatriz, com o pequinês oferecido por Villegas Haedo; Beatriz, de frente e a três quartos, sorrindo, com a mão no queixo... Não seria obrigado, como outras vezes, a justificar a minha presença com módicas ofertas de livros — livros cujas páginas, finalmente, aprendi a cortar, para não com­provar, meses depois, que se mantinham intactos.
Beatriz Viterbo morreu em 1929; desde então não deixei passar um 30 de Abril sem voltar a sua casa. Eu costumava chegar às sete e um quarto e ficar uns vinte e cinco minutos; cada ano aparecia um pouco mais tarde e ficava um pouco mais; em 1933, uma chuva torrencial favoreceu-me: tiveram que me convidar para jantar. Não desperdicei, como é natural, esse bom precedente; em 1934, apareci, já passando das oito, com um alfajor santafecino[1]; com toda a naturalidade, fiquei para jantar. Assim, em aniversários melancólicos e inutilmente eróticos, recebi as graduais confi­dências de Carlos Argentino Daneri.
Beatriz era alta, frágil, ligeiramente curvada; havia no seu andar (se for tolerável o oximoro) uma graciosa lentidão, um princípio de êxtase; Carlos Argentino é rosado, grande, encanecido, de traços finos. Exerce não sei que cargo subalterno numa biblioteca sem leitores dos arrabaldes do Sul; é autoritário, mas também ineficiente; aproveitava, até há bem pouco, as noites e as festas para não sair de casa. A duas gerações de dis­tância, o esse italiano e a copiosa gesticulação italiana sobrevivem nele. A sua actividade mental é contínua, apaixonada, versátil e completamen­te insignificante. É abundante em inúteis analogias e em ociosos escrúpu­los. Tem (como Beatriz) grandes e afiladas mãos formosas. Durante al­guns meses sofreu a obsessão de Paul Fort, menos pela suas baladas que pela ideia de uma glória irrepreensível. «É o príncipe dos poetas da França», repetia com fatuidade. «É inútil tentares atacá-lo; nunca o atin­girás, nem com a mais venenosa das tuas setas.»
No dia 30 de Abril de 1941, permiti-me juntar ao alfajor uma garrafa de conhaque nacional. Carlos Argentino provou-o, julgou-o interessante e pôs-se, depois de alguns copos, a fazer uma defesa do homem moderno.
— Evoco-o — disse com uma animação um tanto inexplicável — no seu gabinete de estudo, como se disséssemos na torre albarrã de uma cidade, provido de telefones, de telégrafo, de fonógrafos, de aparelhos de radiotelefonia, de cinematógrafos, de lanternas mágicas, de glossários, de horários, de prontuários, de boletins...
Observou que, para um homem assim dotado, o acto de viajar erainútil; o nosso século XX tinha transformado a fábula de Maomé e da montanha; as montanhas, agora, convergiam sobre o moderno Maomé.Tão ineptas me pareceram essas ideias, tão pomposa e tão extensa a sua exposição, que as relacionei logo com a literatura; perguntei-lhe porque não as escrevia. Como era de prever, respondeu que já o fizera: esses conceitos, e outros não menos novos, figuravam no Canto Augural, Canto Prologal ou simplesmente Canto Prólogo de um poema em que trabalhava há muitos anos, sem propaganda, sem tumulto ensurdecedor, sempre apoiado nesses dois báculos que se chamam trabalho e solidão. Primeiro, abria as comportas à imaginação; depois, fazia uso da lima. O poema intitulava-se A Terra; tratava-se de uma descrição do planeta, em que não faltavam, por certo, a pitoresca digressão e a galharda após­trofe.
Pedi que me lesse uma passagem, mesmo que fosse breve. Abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou um maço volumoso de folhas de bloco com o timbre da Biblioteca Juan Crisóstomo Lafinur e leu com sonora satis­fação:

Vi, como o grego, as cidades dos homens,
Os trabalhos, os dias de vária luz, a fome;
Não corrijo os factos, não falseio os nomes,
Mas o voyage que narro, é... autour de ma chambre.

— Estrofe, sob qualquer ângulo, interessante — opinou. — O pri­meiro verso granjeia o aplauso do catedrático, do académico, do helenis­ta, quando não dos falsos eruditos, sector considerável da opinião; o se­gundo passa de Homero para Hesíodo (toda uma implícita homenagem, na fachada do flamante edifício, ao pai da poesia didáctica), não sem re­novar um processo cujo antepassado está na Escritura, a enumeração, congérie ou conglobação; o terceiro — barroquismo, decadentismo, cul­to depurado e fanático da forma — consta de dois hemistíquios gémeos; o quarto, francamente bilingue, assegura-me o apoio incondicional de todos os espíritos sensíveis aos desenfadados convites da facécia. Nada direi da rima rara nem da ilustração que me permite, sem pedantismo, acumular em quatro versos três alusões eruditas que abarcam trinta sécu­los de densa literatura: a primeira à Odisseia, a segunda aos Trabalhos e Dias, a terceira à bagatela imortal que nos proporcionaram os ócios da pena do saboiano... Compreendo uma vez mais que a arte moderna exige o bálsamo do riso, o scherzo. Decididamente, tem a palavra Goldoni!
Leu-me muitas outras estrofes, que também obtiveram a sua aprova­ção e seu profuso comentário. Nada de memorável havia nelas; nem se­quer as julguei muito piores que a anterior. Na sua redacção tinham co­laborado a aplicação, a resignação e o acaso; as virtudes que Daneri lhes atribuía eram posteriores. Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admi­rável; naturalmente, esse trabalho posterior modificava a obra para ele, mas não para os outros. A dicção de Daneri era extravagante; a sua lentidão métrica, salvo raras vezes, impediu-o de transmitir essa extravagância ao poema[2].
Uma só vez na vida tive a ocasião de examinar os quinze mil dode­cassílabos do Polyolbion, essa epopeia topográfica na qual Michael Drayton registou a fauna, a flora, a hidrografia, a orografia, a história militar e monástica da Inglaterra; estou certo de que esse produto considerável, mas limitado, é menos entediante que a vasta empresa congénere de Car­los Argentino. Este propunha-se versificar toda a redondez do planeta; em 1941 já tinha consumido alguns hectares do estado de Queensland, mais de um quilómetro do curso do Obi, um gasómetro a norte de Vera-cruz, as principais casas de comércio da paróquia de Concepción, a quinta de Mariana Cambaceres de Alvear na Rua Onze de Setembro, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos não longe do acredita­do aquário de Brighton. Leu-me certas passagens laboriosas da zona aus­traliana do seu poema; esses longos e informes alexandrinos careciam da relativa agitação do prefácio. Copio uma estrofe:

Sepan. A manderecha del poste rutinario
(Viniendo, claro está, desde el Nornoroeste)
Se aburre una osamenta — ¿Color? Blanquiceleste —
Que da al corral de ovejas catadura de osario.[3]

— Duas audácias — gritou, exultante — libertadas, ouço-te resmun­gar, para o sucesso! Admito, admito. Uma, o epíteto «rutinario», que certeiramente denuncia, en passant, o inevitável tédio inerente às fainas pastoris e agrícolas, tédio que nem as Geórgicas nem o nosso já laureado Don Segundo se atreveram jamais a denunciar assim, ao vivo. Outra, o enérgico prosaísmo «se aburre una osamenta», que o melindroso quererá excomungar com horror, mas que o crítico de gosto viril apreciará mais que a própria vida. Todo o verso, de resto, é de muito alto quilate. O se­gundo hemistíquio trava animadíssima conversação com o leitor; anteci­pa-se à sua viva curiosidade, põe-lhe uma pergunta na boca e satisfá-la... logo a seguir. E que me dizes desse achado, «blanquiceleste»? O pitores­co neologismo sugere o céu, que é elemento importantíssimo da paisagem australiana. Sem essa evocação ficariam demasiado sombrias as tin­tas do esboço e o leitor ver-se-ia compelido a fechar o volume, com a alma profundamente ferida de incurável e negra melancolia.
Por volta da meia-noite despedi-me.
Dois domingos depois, Daneri chamou-me pelo telefone, penso que pela primeira vez na vida. Propôs que nos reuníssemos às quatro, «para tomar leite juntos, no salão-bar próximo que o progressismo de Zunino e de Zungri — os proprietários da minha casa, estarás lembrado — inau­gura na esquina; confeitaria que te importará conhecer». Aceitei, mais com resignação que com entusiasmo. Foi-nos difícil encontrar mesa; o «salão-bar», inexoravelmente moderno, era apenas um pouco menos atroz que as minhas previsões; nas mesas vizinhas, o excitado público mencionava as quantias gastas sem regatear por Zunino e por Zungri. Carlos Argentino fingiu assombrar-se com não sei que primores da instala­ção da luz (que já conhecia, sem dúvida) e disse-me com certa severidade:
— Mesmo que não queiras, tens de reconhecer que este local se com­para aos mais sofisticados de Flores.
Releu, depois, quatro ou cinco páginas do poema. Corrigira-as de acordo com um depravado princípio de ostentação verbal; onde antes es­crevera «azulado», agora abundava em «azulino», «azulenco» e até mesmo «azulillo». A palavra «lechoso» não era bastante feia para ele; na impetuosa descrição de um lavadouro de lã, preferia «lactario», «lacticinoso», «lactes­cente», «lechal»... Insultou os críticos com amargura; depois, mais benigno, comparou-os a essas pessoas «que não dispõem de metais preciosos nem tão-pouco de prensas a vapor, laminadores e ácidos sulfúricos para a cunhagem de tesouros, mas que podem indicar aos outros o lugar de um tesouro». Acto contínuo, censurou a prologomanía, «da qual já se fez mofa no donairoso prefácio do Quixote, o Príncipe dos Engenhos». Admitiu, porém, que no frontispício da nova obra convinha o prólogo vistoso, a ajuda firmada pelo plumífero de forte prestígio. Acrescentou que pensava publicar os cantos iniciais do seu poema. Compreendi então o singular convite telefónico: o homem ia pedir-me que prefaciasse o seu aranzel. O meu temor era infundado: Carlos Argentino observou, com admiração rancorosa, que não julgava errar de epíteto ao qualificar de sólido o prestígio logrado em todos os círculos por Álvaro Melián Lafi­nur, homem de letras que, se eu me empenhasse, iria prefaciar com bele­za o poema. Para evitar o mais imperdoável dos fracassos, eu tinha de me fazer porta-voz de dois méritos incontestáveis: a perfeição formal e o rigor científico, «porque esse extenso jardim de tropos, de figuras, de elegâncias, não tolera um só detalhe que não confirme a severa verdade». Acrescentou que Beatriz sempre se tinha divertido com Álvaro.
Assenti, assenti profusamente. Esclareci, para maior verosimilhança, que não falaria com Álvaro na segunda-feira, mas na quinta: na pequena ceia que costuma coroar todas as reuniões do Clube de Escritores. (Não existem tais ceias, mas é irrefutável que as reuniões são às quintas-feiras, facto que Carlos Argentino Daneri podia comprovar nos jornais e que dava à frase certa realidade.) Disse, entre adivinhatório e sagaz, que, antes de abordar o tema do prólogo, descreveria o curioso plano da obra. Des­pedimo-nos; ao passar pela Rua Bernardo de Irigoyen, encarei com toda a imparcialidade o futuro que me restava: a) falar com Álvaro e dizer-lhe que o primo direito de Beatriz (esse eufemismo explicativo permitir-me­ia mencioná-la) elaborara um poema que parecia estender até o infinito as possibilidades da cacofonia e do caos; b) não falar com Álvaro. Previ, com lucidez, que acabaria por optar por b.
A partir da primeira hora de sexta-feira começou a importunar-me pelo telefone. Indignava-me que este instrumento, que noutros dias re­produzira a voz irrecuperável de Beatriz, pudesse rebaixar-se a receptá­culo das inúteis e talvez coléricas queixas desse enganado Carlos Argen­tino Daneri. Felizmente, nada aconteceu — salvo o rancor inevitável que me inspirou aquele homem que me tinha imposto uma delicada missão e depois me esquecia.
O telefone perdeu os seus terrores, mas, em fins de Outubro, Carlos Argentino falou comigo. Estava agitadíssimo; não identifiquei a sua voz, a princípio. Com tristeza e com raiva, murmurou que aqueles já ilimita­dos Zunino e Zungri, a pretexto de ampilar a sua desmedida confeitaria, iam demolir a casa.
— A casa dos meus pais, a minha casa, a velha casa enraizada da Rua Garay! — repetiu, talvez esquecendo o pesar na melodia.
Não me foi muito difícil compartilhar da aflição. Já completos os quarenta anos, qualquer mudança é um símbolo detestável da passagem
do tempo; além disso, tratava-se de uma casa que, para mim, aludia infi­nitamente a Beatriz. Quis esclarecer esse delicadíssimo aspecto; o meu interlocutor não me ouviu. Disse que se Zunino e Zungri persistissem naquele propósito absurdo, o Dr. Zunni, seu advogado, os processaria ipso facto por perdas e danos e obrigá-los-ia ao pagamento de cem mil nacionales.
O nome de Zunni impressionou-me; o seu escritório, em Caseros y Tacuarí, é de uma seriedade proverbial. Perguntei se ele já se tinha encar­regado do assunto. Daneri disse que iria falar-lhe naquela mesma tarde. Vacilou e, com essa voz calma, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema a casa lhe era indispensável, pois num ângulo da cave havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos.
- Está na cave debaixo da sala de jantar — explicou, com a voz ali­geirada pela angústia. — É meu, é meu; descobri-o na infância, antes da idade escolar. A escada da cave é inclinada, os meus tios tinham-me proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo na cave. Referia-se, soube-o depois, a um baú, mas eu pensei que havia um mun­do. Desci secretamente, tropecei na escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
- O Aleph? — perguntei.
- Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei a minha desco­berta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse con­cedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não, mil vezes não. De código em punho, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph.
Procurei raciocinar.
- Mas não é muito escura a cave?
- A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lu­gares da Terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.
- Irei vê-lo imediatamente.
Desliguei, antes que ele pudesse proibir-me. Basta o conhecimento de um facto para se perceber no acto uma série de traços confirmativos, antes insuspeitados; espantou-me não ter compreendido até esse mo­mento que Carlos Argentino era um louco. De resto, todos esses Viter­bo... Beatriz (eu mesmo costumo repeti-lo) era uma mulher, uma menina de uma clarividência quase implacável, mas havia nela negligências, dis­tracções, desdéns, verdadeiras crueldades, que talvez exigissem uma ex­plicação patológica. A loucura de Carlos Argentino encheu-me de malig­na felicidade; no fundo, sempre nos havíamos detestado.
Na Rua Garay, a criada disse-me que tivesse a bondade de esperar. O menino estava na cave, revelando fotografias. Junto ao jarrão sem flo­res, no piano inútil, sorria (mais intemporal que anacrónico) o grande re­trato de Beatriz, em cores pesadas. Ninguém nos podia ver; num deses­pero de ternura, aproximei-me do retrato e disse:
- Beatriz, Beatriz Elena, Beatriz Elena Viterbo, Beatriz querida, Beatriz perdida para sempre, sou eu, sou Borges.
Carlos entrou pouco depois. Falou com secura; compreendi que não podia pensar em mais nada senão na perda do Aleph.
- Um copinho do falso conhaque — ordenou — e mergulharás na cave. Já sabes, é indispensável o decúbito dorsal. Também o são a escuri­dão, a imobilidade, certa acomodação ocular. Tu encostas-te no chão de tijolos e fixas o olhar no décimo nono degrau da tal escada. Saio, baixo o alçapão e ficas sozinho. Se algum rato te meter medo, não tem importân­cia! Em poucos minutos vês o Aleph. O microcosmos dos alquimistas e cabalistas, o nosso concreto amigo proverbial, o multum in parvo!
Já na sala de jantar, acrescentou:
- É claro que, se não o vires, a tua incapacidade não invalida o meu testemunho... Desce; muito em breve poderás estabelecer um diálogo com todas as imagens de Beatriz.
Desci com rapidez, farto das suas palavras sem substância. A cave, pouco mais larga que a escada, tinha muito de poço. Com uma olhadela, procurei o baú de que me falara Carlos Argentino. Alguns caixotes com garrafas e alguns sacos de lona escureciam um canto. Carlos pegou num saco, dobrou-o e ajeitou-o num lugar preciso.
— A almofada é humilde — explicou —, mas se a levanto um só cen­tímetro, não verás nada e ficas confundido e envergonhado. Refastela es­se corpanzil no chão e conta dezanove degraus.
Cumpri as suas ridículas exigências; por fim, saiu. Fechou cautelosa­mente o alçapão; embora houvesse uma fresta que depois distingui, a es­curidão pareceu-me total. Subitamente, compreendi o meu perigo: deixa­ra-me enterrar por um louco, depois de tomar veneno. As bravatas de Carlos evidenciavam o seu íntimo terror de que eu não visse o prodígio; Carlos, para defender o seu delírio, para não saber que estava louco, ti­nha de matar-me. Senti um vago mal-estar, que tratei de atribuir à rigi­dez, e não ao efeito de um narcótico. Fechei os olhos, abri-os. Então vi o Aleph.
Chego, agora, ao inefável centro do meu relato; começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; co­mo transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? Os místicos, em transe semelhante, gastam os símbolos: pa­ra significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum mo­do, é todos os pássaros; Alano de Insulis fala de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel fala de um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não é em vão que rememoro essas incon­cebíveis analogias; alguma relação elas têm com o Aleph.) É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas esta informação ficaria contaminada de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.
Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta­-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminui­ção de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebra­do labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão de uma casa de Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore, vi numa quinta de Adrogué um exemplar da primeira versão in­glesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o facto das letras de um livro fechado não se misturarem e se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia reflectir a cor de uma rosa em Bengala, vi o meu quarto sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando bi­lhetes-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de alguns fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbo­los, bisontes, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra fez-me tremer) cartas obscenas, claras, incríveis, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia cruel do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Alpeh a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjecturai cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
Senti infinita veneração, infinita lástima.
- Ficarás tonto por bisbilhotar assim onde não és chamado — disse uma voz enfadonha e alegre. — Mesmo que queimes o juízo, não me pa­garás num século esta revelação. Que observatório formidável, hem, Borges!
Os pés de Carlos Argentino ocupavam o degrau mais alto. Na brusca penumbra, consegui levantar-me e balbuciar:
- Formidável. Sim, formidável.
A indiferença da minha voz causou-me estranheza. Ansioso, Carlos Argentino insistia:
- Viste tudo bem, a cores?
Nesse instante, concebi a minha vingança. Benévolo, manifestamente apiedado, nervoso, evasivo, agradeci a Carlos Argentino Daneri a hospi­talidade da sua cave e instei com ele para aproveitar a demolição da casa e afastar-se da perniciosa metrópole, que a ninguém — creia-me, a ninguém! — perdoa. Neguei-me, com suave energia, a discutir o Aleph; abracei-o, ao despedir-me, e repeti que o campo e a serenidade são dois grandes médicos.
Na rua, nas escadarias da Praça da Constituição, no metro, pareceram-me familiares todas as faces. Tive medo de que não restasse uma só coisa capaz de surpreender-me, tive medo de que jamais me abandonasse a impressão de voltar. Felizmente, depois de algumas noites de insónia, agiu outra vez sobre mim o esquecimento.
Post-sriptum do primeiro de Março de 1943. Seis meses após a demo­lição do prédio da Rua Garay, a Editorial Procusto não se deixou ame­drontar pela extensão do descomunal poema e lançou no mercado uma selecção de «trechos argentinos». Vale a pena repetir o ocorrido; Carlos Argentino Daneri recebeu o Segundo Prémio Nacional de Literatura[4]. O primeiro foi dado ao Dr. Aita; o terceiro, ao Dr. Mario Bonfanti; in­crivelmente, a minha obra Los naipes del tahúr não conseguiu um único voto. Mais uma vez, triunfaram a incompreensão e a inveja! Há já muito tempo que não consigo ver Daneri; os jornais dizem que em breve nos dará outro volume. A sua pena afortunada (não mais perturbada pelo Aleph) consagrou-se a versificar os epítomes do Dr. Acevedo Díaz.
Quero acrescentar duas observações: uma, sobre a natureza do Aleph; outra, sobre o seu nome. Este, como se sabe, é o da primeira letra do alfabeto da língua sagrada. A sua aplicação ao círculo da minha história não parece casual. Para a Cabala, essa letra significa o En Soph, a ilimitada e pura divindade; também se disse que tem a forma de um homem que assinala o céu e a terra, para indicar que o mundo inferior é o espelho e o mapa do superior; para a Mengenlehre, é o símbolo dos números transfinitos, nos quais o todo não é maior que qualquer das partes. Eu queria saber: Carlos Argentino escolheu esse nome, ou leu-o, aplicado a outro ponto para onde convergem todos os pontos, em algum dos inúmeros textos que lhe revelou o Aleph da sua casa? Por incrível que pareça, acredito que exista (ou que tenha existido) outro Aleph, acredito que o Aleph da Rua Garay era um falso Aleph.
Dou as minhas razões. Por volta de 1867, o capitão Burton exerceu o cargo de cônsul britânico no Brasil; em Julho de 1942, Pedro Henríquez Ureña descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito seu que ver­sava sobre o espelho que atribui o Oriente a Iskandar Zu al-Karnayn, ou Alexandre Bicorne da Macedónia. No seu cristal reflectia-se o universo inteiro. Burton menciona outros artifícios semelhantes — o sétuplo cáli­ce de Kai Josrú, o espelho que Tárique Ibne Ziade encontrou numa torre (As Mil e Uma Noites, 272), o espelho que Luciano de Samósata pode examinar na Lua (História Verdadeira, I, 26), a lança especular que o pri­meiro livro do Satíricon de Capela atribui a Júpiter, o espelho universal de Merlim «redondo e oco e semelhante a um mundo de vidro» (The Faerie Queene, III, 2, 19) — e acrescenta estas curiosas palavras: «Mas os anteriores (além do defeito de não existirem) são meros instrumentos de óptica. Os fiéis que acorrem à mesquita de Amr, no Cairo, sabem muito bem que o universo está no interior de uma das colunas de pedra que rodeiam o pátio central... Ninguém, é claro, pode vê-lo, mas os que aproximam o ouvido da superfície declaram ouvir, ao fim de pouco tem­po, o seu atarefado rumor... A mesquita data do século vil; as colunas procedem de outros templos de religiões pré-islâmicas, pois como escre­veu Abenjaldun: «Nas repúblicas fundadas por nómadas, é indispensável o concurso de forasteiros para tudo o que seja alvenaria.»
Existe esse Aleph no íntimo de uma pedra? Tê-lo-ei visto quando vi todas as coisas e esqueci-o? A nossa mente é porosa para o esquecimen­to; eu próprio começo a falsear, sob a trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz.

Para Estela Canto.

[1] Espécie de bolo de mel procedente de Santa Fé. (N. do T.)
[2] Lembro-me, no entanto, destas linhas de uma sátira em que fustigou com rigor os maus poetas:
Este dá ao poema belicosa armadura
de erudição; estoutro lhe dá pompas e galas.
Ambos batem em vão as ridículas asas...
Esqueceram, coitados, o factor FORMOSURA!
Só o medo de atrair um exército de inimigos implacáveis e poderosos o dissuadiu (segundo me disse) de publicar o poema sem receio.
[3] Saibam. À mão do poste rotineiro / (Vindo, claro está, do nor-noroeste) / Se aborrece um es­queleto — Cor? Branco-celeste — / Que dá ao curral de ovelhas um aspecto de ossário. (N. do T.)
[4] Recebi tua aflita congratulação», escreveu-me. «Suspiras de inveja, meu lamentável amigo, mas confessarás — mesmo que isso te sufoque! — que desta vez pude coroar o meu barrete com a mais vermelha das plumas, o meu turbante com o mais califa dos rubis.»

POESIA


A FLAUTA-VÉRTEBRA

A todas vocês,
Que eu amei e que eu amo,
Ícones guardados em um coração-caverna,
Como quem em um banquete ergue a taça e celebra,
Repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
Seria melhor talvez
Por-me o ponto final de um balaço.
Em todo o caso
Eu
Hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
Um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
Veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verte a alegria.
Esta noite ficará na história.
Hoje executarei meus versos
Na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladmir Maiakowski(1893-1930)

terça-feira, abril 03, 2007

CINEMA

Meus caros amigos.
Aproveitando o lançamento do filme "Trezentos", que retrata a batalha de Leônidas contra o invasor Xerxes no Estreito das Termópilas, estou postando no blog o conto "Desfiladeiro", escrito em 2006 para o livro de contos "O Vampiro de Cavalcante", ainda inédito.

LITERATURA


DESFILADEIRO

Joel Santos, escritor brasileiro, caminhava pelo corredor do museu do Louvre e se deparou com o quadro Leônidas nas Termópilas de 1814, óleo sobre tela, 395 x 531 cm de Jacques-Louis David (1748-1825), começado em 1799. Ao seu lado, um guia passava informações em francês acerca da obra e de seu autor: “deputado à Convenção durante a Revolução francesa, regicida por ter votado a morte do rei de França Luís XVI, pintor histórico, mais característico representante e principal expoente da reação neo-clássica contra o estilo rococó, foi um dos raros grandes artistas da época, controlou durante anos a atividade artística francesa, sendo o pintor oficial da Corte, esta obra, o rei em primeiro plano, retrata uma pausa da batalha. Há uma pintura do século XIV que, de forma mais realista, mostra a batalha entre gregos e os persas na qual pereceram o Rei da Lacônia e seus trezentos espartanos.” Joel Santos, ouviu atentamente e continuou seu passeio pelo Louvre. Sempre se impressionara com a história dos espartanos esperando os persas, cientes da morte iminente, para que os gregos pudessem ganhar tempo e organizar suas defesas. Como tivesse alguns compromissos profissionais no dia seguinte, nosso escritor resolveu procurar o quadro referido pelo guia. Passou pela exposição de Toni Morrison, Willian Forsythe e Peter Welz, Danse, dessin, film, sur une suggestion de Toni Morrison, “Corps étrangers” explore les possibles dialogues entre la danse e le dessin. Em outro ponto do museu, pelas “Gravures de la collection Edmond de Rothschild. Seicento - En écho aux expositions en région sur le dessin en Italie aux XVIIe et XVIIIe siècles, une présentation au Louvre est également proposée à partir des fonds des collections publiques françaises. Pour la première fois, des exemplaires uniques et précieux d’estampes réalisées en Italie sont présentés. Alguns trabalhadores vestidos de macacões de brim azul montavam outra exposição e ele perguntou onde poderia encontrar quadros do século XIV. Um deles o olhou incrédulo, o outro mostrou uma direção com o braço, em vista de estar com a boca cheia de pregos.
Seguiu o caminho indicado sem acreditar que era o correto e, surpreso, deparou com o quadro no corredor adiante. Pintura a óleo sobre a tela 200 cm x 450 cm, de autor desconhecido do Séc. XIV. De repente, Joel Santos sentiu uma vertigem e se apoiou em uma parede nua. Talvez a fome, estava sem almoço, ou o fuso horário, desembarcara em Orly apenas duas horas antes, seus olhos semicerrados faziam crer que as luzes do museu haviam sido apagadas. Em meio à escuridão, observou que o quadro brilhava e ele pode ver no canto esquerdo da obra riscos pretos, lacônicas setas sobre os lacedemônios a obscurecerem o céu das Termópilas. Observou atentamente, um deles, torso flechado, cuja cabeça decepada rolaria pelos abismos do desfiladeiro, não houvesse o artista paralisado o tempo naquele momento, no qual Leônidas, na parte central da obra, espada empunhada, escudo de bronze, conclamava os gregos a resistir ao invasor. Outro soldado mais próximo ao rei chamou a atenção do escritor e ele viu que aqueles olhos secos não demonstravam covardia diante de uma lança que se avizinhava. Pensou que talvez ele houvesse aprendido desde a mais tenra idade a superar o sentimento da morte, dos sete aos treze anos praticara diversas técnicas para a suplantação da dor; já efebo, participara de exigentes treinamentos e de testes cruéis para avaliar sua destreza e coragem. Depois, aos vinte anos, incorporado às temíveis falanges espartanas, participara de várias batalhas, sendo ferido no ombro, obrigado a dormir em acampamentos militares, ao relento sempre, com apenas uma coberta de couro para se habituar ao frio do inverno e assenhorar-se do medo. Talvez, na cabeça daquele soldado passasse lembranças de seu adestramento militar, com ginástica, esgrima, das cavalgadas, das lutas, dos jogos olímpicos que disputara e ainda se lembrasse das longas corridas em terrenos acidentados, do treinamento com o escudo de carvalho, que servia tanto para proteger o combatente quanto como arma de choque, que ele, naquele momento congelado do passado, utilizava para persuadir um invasor que o atacava de lança em punho. Distante de sua Esparta, talvez o soldado se lembrasse apenas de sua ninfa lhe dizendo para voltar com o escudo, ou sob ele e esta última frase lhe impusesse fibra para não esmorecer diante do inimigo poderoso.
Talvez, no canto direito da tela, Joel Santos pudesse ver as helenas trombetas que jaziam mudas e aquele soldado nem soubesse que estava lutando contra Xerxes, que escorria o ano de 480 a.C., que estava cercado por uma máquina de guerra poderosa de milhares de homens, montada para subjugar sua amada Grécia, que já havia derrotado o Grande Rei da Pérsia Dario, pai desse novo invasor. Era provável que soubesse que viera ao norte da Lacedemônia para encontrar seu destino, no Desfiladeiro das Termópilas, onde as elevações rochosas eram por demais estreitas e se estendiam rios caudalosos de águas quentes, local obrigatório de passagem para as tropas invasoras, e que naquele ponto estratégico, para onde se deslocara seu general acompanhado de cinco mil homens, com a missão de barrar o avanço inimigo, o Oráculo de Delfos havia predito a morte de um rei.
Talvez ele ainda tivesse ouvido o mensageiro “de Xerxes, filho de Dario, o Grande Rei da Pérsia e Média, Rei dos Reis, rei de Todas as Terras, Senhor da Líbia, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Babilônia, Caldéia, Fenícia, Síria, Assíria e Palestina, Soberano da Jônia, Frigia, Armênia, Capadócia, Trácia, Macedônia, Rodes, Lesbos e das ilhas do Egeu; Governador Supremo da Báctria, Cáspia e Índia, Senhor de todos os homens do sol nascente ao poente; Magnificência mais sagrada, exaltada, invencível e incorruptível; Majestade abençoada pelo Deus Ahura Mazda e Onipotente entre os mortais”, ler a intimação para que os gregos se rendessem e entregassem as armas; e ainda ouvido a resposta lacônica de seu comandante: “Venham pegá-las.” E ainda, tivesse ouvido de seu amigo Dienekes a resposta ao mensageiro inimigo quando este dissera que haviam tantos arqueiros persas que suas flechas obscureceriam o céu: “Melhor assim, combateremos à sombra.” E uma pequena rachadura se tenha formado em sua represa de coragem ao ver a lúgubre imagem de um céu coalhado de estrelas vermelhas que se transformavam em persas flechas, incendiando homens e o acampamento; e depois tivesse cimentado sua coragem destroçada sobre os alicerces da dor ao ser escolhido entre os trezentos, quando seu rei dispensou suas tropas para a defesa do restante da Grécia, após o traidor Anito, informar a Xerxes da existência de uma passagem que levaria à retaguarda de Leônidas e o deixaria isolado na estreita garganta, ou soubesse que, naqueles sete dias encarniçados, os gregos teriam tempo suficiente para organizarem suas defesas e derrotarem os persas, ou, que olhando para o seu rei, ele vislumbrasse que este seria morto e teria sua cabeça decepada. Mas o que Fedro, porque era esse seu nome, não tinha como saber que um escritor brasileiro veria, dois mil e quinhentos anos depois, estampado em seus olhos, o momento de sua agonia ao ser sacrificado por sua Hélade e para preservar a futura civilização greco-romana da qual o outro seria legatário. Então, olhando orgulhoso para além do limite das tintas de sua existência, para além da pintura que o aprisionava, apinhado da dor da morte que se avizinhava, balbuciou frases no antigo dialeto dos gregos. Joel Santos aproximou o ouvido ao óleo para ouvir em apertada e incompleta síntese, abafada pelo alarido da batalha, pelo estralar das espadas e pelo zumbido das setas, como foi a saga dos lacedemônios e ainda, mesmo sem que pudesse entendê-lo, pois era um homem de dois mil e quinhentos anos murmurando um tanto envergonhado: “Tive medo.”