terça-feira, março 13, 2007

RECADO

No blog está postado o livro Brusca Poesia, que pretendo publicar até maio desse ano. Os interessados podem acessar. Um abraço.

PREFÁCIO INÚTIL

PREFÁCIO INÚTIL

Cores e palavras
O poeta se relaciona com as palavras do mesmo modo que o pintor com as cores. Mas uma coisa é trabalhar com as cores, outra é lutar com palavras: a luta mais vã, pois as cores não são signos, não remetem à nada que lhes seja exterior. O poeta vê as palavras como coisa, não como signo, em vista de este último atravessar o significante para o significado.

Poesia e prosa
Na poesia, lida-se com significados, ao contrário da prosa, na qual há predominância dos signos, as palavras sendo utilizadas como designação de objetos. Por outro lado, em toda poesia há sempre presença de certa forma de prosa, que o poeta deve evitar para não cair no prosaísmo, sem se perder cultivando demasiadamente as palavras e desembocando em uma algaravia. Esse é um dos dramas do poeta: não se perder no prosaísmo, narrando ou explicando seus versos; tampouco, empregando demais seus obscuros silêncios, tornando-os incompreensíveis. No poema Descobrimento[1], de Mário de Andrade, a concisão é lapidar e termina por chamar à unidade territorial e humana desejada como país, um país que necessita ser construído, no ideal de nacionalidade que constituía o horizonte do modernismo do autor. Quantas páginas um romancista teria que escrever para passar esse mesmo chamamento?
A trajetória do poema vai do silêncio do qual se arranca ao se constituir como um tecido verbal, para desembocar em outro silêncio que o supera, que Santiago Kovadloff[2] vai chamar de Silêncio da Epifania, da significação excedida, do mistério que se revela, do silêncio projetado em palavras sua presença intangível., pois a poesia só pode saltar sobre um fundo de silêncio, mesmo que esteja apta a se impregnar desse silêncio mesmo.

Prefácio
Fizemos as advertências anteriores para apresentar um livro, no qual se revelam alguns aspectos geracionais. A geração do autor, que nasceu em 1960 e participou de grupos de poetas alternativos no início dos anos oitenta, pode ser considerada como a Geração Mimeógrafo, pois começou a escrever quando esta última estava pendurando seus poemas em varais, recitando em praça pública. No entanto, esses poetas que surgiram no início dos anos oitenta, quando os expoentes da geração mimeógrafo já eram bastante conhecidos, possuem diferenças que os caracteriza quase como outra geração literária.
Esses jovens, que, como seus antecessores, também vendiam seus livros artesanais nos bares do Rio de Janeiro e organizavam recitais nas praças, passa na praça que a poesia te abraça, tinham a intuição de que o fazer poético não consistia em formular de modo ornamental o que seria possível dizer de maneira simples, que escrever poesia não era fazer uso de palavras bonitas, mas, paradoxalmente, em conceder à palavra aquilo que dela foi retirado, e, finalmente, que o poeta deve ter aptidão para ir além da linguagem comum de seus contemporâneos, onde se deve significar muito mais do que é possível dizer, desembaraçando-se do uso comum da linguagem. Outro aspecto desta Geração, era a ciência que possuía do fato de ser a arte engajada a perdição dos poetas, apesar da enorme tentação que tinham diante de si: um horizonte político obscurecido pelo Regime Militar, contra o qual se debatiam, mesmo de forma inconseqüente e submissa, em atitude de revolta silenciosa, que não os conduzia para mais nada além de si mesmos. No confinamento desse cotidiano estéril, a pergunta que se faziam era: como se libertar dessa prisão sem cair nos porões? De que modo os confinados podem se libertar, sem aceitar sua condição de confinamento, o que, de certo modo, os tornaria realmente presos ao Regime, mas sem levar sua arte para o campo da luta política pura e simplesmente?
Por outro lado, o humor estava destroçado pela sobrevivência de certos hábitos do modernismo, sobretudo o poema-piada, de uma maneira esgotada e a esterilidade da produção de alguns poetas marginais, que se deixaram levar pelo discurso da concisão poética, deixou sem rumo os novos poetas dessa geração também na poesia. Ou seja, na política, o confinamento, o medo de repetir a geração de 68, da luta armada, da tortura e do recrudescimento do Regime Militar; na poesia, o esmagamento da concisão, a falta de alternativas, e os dois grandes ícones Drummond e Cabral, os levaram de forma consciente ou não à uma produção espontaneísta sem muita elaboração, por meio da qual buscavam fugir do racionalismo de Cabral, que planejava minuciosamente seus poemas e repugnava o que era vago, irreal e a idéia de inspiração. Nesse sentido, esses poetas trilharam um caminho pedregoso, em certos momentos buscando se aproximar da prosa, o que em certa medida é o risco de todo poeta; noutros, concisos ao extremo, brilhando obscuros como alfinetes no pano. São os defeitos dessa geração de poetas, que ressalvo, não deve ser vista apenas pelos seus defeitos e ser julgada antes de compreendê-la, pois nisso reside sua força, na descoberta de suas fraquezas e a crítica literária brasileira tem sido muito pouco simpática a esses grupos. É preciso salientar porém, que esta é hoje uma crítica universitária que não vem depois da obra publicada, mas antes e tenta adequar o fenômeno literário ao que ela crê que este deve ser. É preciso salientar que a literatura é um fenômeno a posteriori, que existe a partir do que é publicado. E neste aspecto reside a força dessa geração de poetas, pois cientes de que a contemporaneidade nem sempre é boa juíza e publicar um livro de poemas é, em certa medida, um salto no escuro, tendo em vista que a poesia está sendo sacrificada pelo meio editorial em favor de publicações despejadas nas livrarias que visam apenas o lucro das grandes editoras, e ainda que toda obra de arte é vítima de equívocos e injustiças, eles foram à luta e costuraram seus poemas em livros artesanais, recitaram e venderam seus livros em bares nos bairros boêmios do Rio de Janeiro.


P.Goulart

[1] Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo/Na minha casa da rua Lopes Chaves/De supetão senti um friúme por dentro./Fiquei trêmulo, muito comovido/Com o livro palerma olhando pra mim./Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! muito longe de mim/Na escuridão ativa da noite que caiu/Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,/Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,/Faz pouco se deitou, está dormindo./Esse homem é brasileiro que nem eu.
[2] O Silêncio Primordial