terça-feira, fevereiro 13, 2007

BRUSCA POESIA

ADIVINHAÇÃO

Adivinho teus lábios,
Não sei mais como
era tua luz.

Adivinho teus olhos,
Sempre tristes.

Esqueci teu nome.
Esqueci teu calor,

Tua voz úmida ao telefone,
Teu grito noturno.


ALUNAR

Oh! Mais do que luar preciso,
O anel louro das estrelas rútilas
Preciso, com precisão.

O luar mais doloroso
Cobre os galhos parabólicos,
Captar oh capitão salve
Singre esta nossa revolução.

A inexorável lua
O cobertor de nuvens desvela,
Apaga o cais, o desejo de ir
Navio afora para os braços meigos de Iemanjá.

O vento traz estrelas de sons,
Mensagens via Embratel.
O telefone toca quando perigos.
Rondam os tigres, os leões,
Cães ladram, coiotes urbanos uivam,
Gatos brilham olhos em telhados cinzas
Enquanto a lua cheia cai
Como uma estrela no mar.


ANOTHER SIDE
I
Aquelas noites, nunca mais
Aqueles beijos, nunca mais
Aqueles sonhos, nunca mais

Nunca mais aquele outro que eu era
Nunca mais aquele tempo de construir um país
Nunca mais aqueles tombos de bicicleta

Nunca mais, nunca mais
Em mim que me visto na matemática
Em mim que me dispo na gramática

Nunca mais aquele estampido
Aquele grito nunca houve
Nunca mais aquela nuca molhada

II
Nunca mais
Aquele amor
Aquele rosto sem nome
Aqueles beijos suados
Aqueles invernos e balões
Aquelas noites de violão
Aquelas notícias da guerra
Aquelas cartas da terra
Aquelas viagens preparadas
Aquelas viagens irrealizadas.
Nunca mais em mim essa dor
Nunca mais em mim o esquecimento.


AVENTURA

O que é a aventura?
Eu nunca vivi além da insipidez.
Minha vida tem sido
Um vai-e-vem,
Monótono trem de horas, agora.

Os carros passam
Seus ocupantes:
Cabelos, ventos, rostos,
Cem olhos inexpressivos,
Terão vivido?

Minha vida tem sido
Uma conta inumerável,
Rio que mar nenhum abraça,
Fonte morna de água chã,
Não potável, planície, chão.

A noite vem invencível,
Solidão níquel
Nu ocidente de abrigo
No rosto ocasional
Em minhas viagens episódicas.

E a fortuna cruel, amazona errante
Contada pelos livros de viagens
É só aos burgueses
Nesse vasto mundo
Debruçada nua à janela ao luar?

Os anos passam zil.
Algum poeta viu
Heterônimos de Pessoa?
Talvez um rosto ocasional
Em dentro viagens epifânicas?

Tenho visto seios brotarem, caírem.
Não tenho mais tempo para esperar
A inefável maior aventura que são teus olhos,
Tais que vejo brilhar luz
Na multidão de anônimos.


BAR ESPERANÇA

O luar é um lobo-de-asfalto caçando ar,
Lutando em um cemitério de fotografias.

Ando entre as lápides,
Ossos do ofício de ser lobo.

Em casa deixei os ombros,
Os braços no bar Esperança.


BEIRA DO CAMINHO

Longe do caminho se me afigura o tempo,
Sob o olhar esquecido de um deus taciturno.
Nada que me mate a sede,
Nem a vontade de dormir eternamente.

Que venha a morte, o fim absoluto
Desse corpo que se foi longe do caminho
E a voz canonizada à distância
Breve todos esqueceram, todos passaram
Fugazes pelo caminho.

Distante no tempo se me afigura o amor,
Ousados os seres da manhã me envenenaram
O sangue e o sono eterno.
Que venha tudo, desde a morte
Até a prematura manhã
Desse homem em busca de caminho.


BOMBA DOMÉSTICA

O coração explode
Em gritos, aplausos
Você não sabe,
Mas tenho muito medo:
- medo de ficar só.

Músicas, estrondos
Nas calçadas entupidas
Do Centro,
Guerrilhas urbanas
Nas avenidas os autos voam
Para a zona rural.

- De repente, caro leitor,
A calçada ficou vazia
Pessoas corriam para todos os lados
Uma bomba doméstica explodiu
Em um teatro, e eu parado
Diante da televisão.


BRUSCA POESIA

O céu arde
E o corpo desaba
Em febre de vida
O campo arde
As luzes
Iluminam ruas
E você vagará
Pelas avenidas
Até quando?

Os fios,
Como rios telefônicos
Comunicam aos outros sozinhos
Que alguém
Está sozinho do outro
Lado do fio.

E você ficará
Sobre uma viga
Construindo
Um edifício
Para alguém
Morar sozinho
Entre paredes frias
E brusca poesia.


CANTIGA DE ESPONSAIS

No cais sozinho a vida me invade de luz.
Nossa memória é sempre iluminada?

Observo os barcos indo e vindo
No acordo das ondas, das marés,
Os peixes, o incêndio.

A prostituta despertou,
Olhou em derredor e se espreguiçou.
E cantou a mais bonita cantiga de esponsais.


CANTIGA DE NINAR
I
Se um filho eu tivesse hoje,
Como o ninaria?
Com versos tristes, voz fraca,
Hálito de escritório,
Amargor na boca,
Medo de bisturi?

Meu filho sem substância
Estaria preparando para dar
De cara com esse olhar febril
Que trago? Com essa dor no peito?
Com esse mormaço estéril?

O mundo nisso se resume:
Lá dentro arde um segredo,
Ventos levam meus pensamentos,
Lavam túmulos chuvas
Que regam cadáveres insepultos.

O mundo se resume em solidão
E se exprime em sonhos.
Então, como colocar a solidão
Em cantigas e adormecer as crianças?
Esse é o grande segredo
Do homem substantivo.

Mesmo assim cantamos
Fora há frio feito faca,
Feito de nós alguma coisa de obscuro.
Há na obscuridade algo de inumano
Algo que não deve ser colocado em versos,
Versos que flutuam no vento mágico
Do automóvel percorrendo a rua infinita.

A distância percorrida
As vezes se mostra sem sentido,
Pessoas não ouvidas nos olham com carinho,
Paredes conservam discussões,
As vezes é melhor ficar só,
A vida secreta que vive dentro
Nos açula e ... (nada a dizer).

II
Testo meus equipamentos
Ao meio dia a fome consumiu
Minhas últimas reservas minerais
Sinto-me só no centro da cidade,
Ao meio dia o mundo é pálido
Correm carros.
De repente, ouço os gritos
Nos rostos anônimos enigmas,
Mutismo em uma mulher que passa
Perfumada na retina tevê
Nunca mais a verei
Para mim seu movimento
É como se não ocorresse
No mundo que criei
Sou o único (último) habitante.

Como colocar isso em versos claros
E acordar os passantes?
Este é o meu anelo.
Abrigo sem fim dos meus sonhos.
Despertai crianças,
É hora de morrer, não de sono.


CARAVELAS

Velas acesas
Escapam
No mar
Azul escuro
Da Guanabara.

Velas acesas
No mar-procissão
Correnteza de vento
Vindo, vindo. Wind

Abra a janela
Feita para aquele sonho
Naquela casa destruída
Dentro do peito.


CHUVA

Ondas navegam estrêllas
Y lua abraça mar.
Vento tenta tantas faces
Na concha acústica
Nos túmulos, nos theatros
in down.

Edifícios de pombos matam,
Ondas, rádios ondas in down
Il pleut, táxi avariado,
avacalhação.

Il pleut...
Memórias – wind(as) do norte,
Janela vazia, window
- Amar é abraçar o mar.


DECLIVES

Solidão é carga pesada
Caminhão rodando estrada
Correndo montanhas, declives

Solidão é suavidade (declive forte).
É a mesma estrada do caminhão
Completamente abandonada,

Fazendo vista grossa pro futuro.


DESEJOS
À Sheila Dardari
Eu desejo você é
Centro city – deste lado
Tecendo amanhãs
Era só desejo – moedas no poço
Era só começo – poço de anseios
Em futuros mais teus seios...

Eu desejo só começo era
Catalisador mudez urbe
Receptivo corpo nudez
Contrapontos, portos, surdez
Gravidez de máquinas –
Vento de fuligem vem...

Eu, quando você, quando em mim
Sem ninguém, planeta despovoado
Sem riscos de mapas geotécnicos
Só começo, sem fim, eram desejos
Sem deus, só futuros, quando você
Quando em mim, sem ninguém – você vem?


DOWN
I
Hora do almoço down.
Ando nas ruas down.
Assembléia dez down.
Saudade, dúvidas, down.

A tarde cai down.
Helicóptero sobrevoa prédios,
Barca Rio-Niterói
Carros na Perimetral,
Vasp voa baía down.

- Como tudo continuou
se eu parei?

II
Ando down
Entre rostos desconhecidos.
Desconhecem minha dor
- O amor acabou, ou o gás?


... E

Seus olhos me detinham.
Suas pernas solfejavam esguias,
Enguias entre as mesas, nas marés.
Na lua cheia de seus olhos,
Aprisionado, vi o planeta azul
E espumante.

Seus dois bicos duros embeveciam
Coloridos entretendo dedos de luz,
Iluminando além, nadando nos braços
Bebendo sofregamente esta mulher.


ELEGIA

Passas em vento pelos corredores acesos
As vidraças das lojas rebrilham
As roupas e os manequins sem vida
As luzes coloridas resplandecem teus olhos.
Desces pela escada rolante dentro de mim
Abres o sorriso da noite na rua iluminada
Pelos faróis dos automóveis.

Caminhas pela calçada a ver vitrinas
Vidros, roupas, jóias e perfumes
Perto de observa um travesti,
Vestido em negra transparência.
De longe te observo dentro de mim
E te vejo atravessar a passarela
Rumando ao desconhecido vazio da noite.

Passas pairando no ar que respiro
E me deixa com minha queixa a cantar
A palavra inexata, a heresia de sofrer
Na magia das lanternas noturnas.
Atravessas a noite com seu perfume
Desces pelas escadas do metrô
Para um subterrâneo dentro de mim.


FURTA-COR

Ah! Não quero mais a criação,
Quero o espanto do deserto.

Meu corpo pulsando no areal imenso
Meu coração aflito passeando imerso
Nos versos escritos em folhas-de-cacto.

Centro da cidade
A convulsão capitalista emite
Ondas para o universo.

As palavras tremem,
Sapos coaxam no pântano
Dos poemas pós-modernos.

Sou pós-moderno, tenho culpa de ser eterno?
O fogo lambeu meu terno de palha,
Iluminou a avenida fugazmente.

A lua devorou versos
Dizendo que na poesia
Não há tempo sem inspiração.

Os mais novos se horrorizaram,
E encheram as latas de lixo.


GALO GALO

Ela era arisca
Como uma galinha
Pernas esguias, finas quase
Bunda pequena, redondilhas
Quase não tinha seios
Chapada que era.
Os cabelos sararás, muitos
Loucamente balançavam
Ao vento poeirento de agosto
Em meio à passeata
Pelas Diretas-já.

Sua boca, seus dentes, seus lábios
Seus olhos, suas ventas abertas
Gritavam palavras de ordem
Contra a Ditadura militar,
Quando o olhar do Ferreira Gullar
Capturou-a em meio ao caos.
O poeta estacou, seguiu-a
Quis fodê-la, cantou-a em versos sararás
E ela arisca navegou pela Avenida Rio Branco.


GALOS

É noite, cantam galos noturnos
Desavisados como eu

Perambulam pelos bares
Perdem dinheiro no jogo

Lamentam-se em ouvidos
Nunca visitados, galos d’ouro.


HETERÔNIMOS
I
Algum tempo estive apaixonado
Por duas mulheres,
Uma era desejo fabril,
Outra, orvalho na janela.

Já fui homem de muitos sonhos,
Sonhos de mapas e aeroplanos.
Fiz cavalgar sobre o mundo
A matéria dos sonhos,
Que hoje usam óculos
E se barbeiam ao amanhecer.

Dores senti em outras noites.
Dores de partir e de dente.
Mil balas meti no peito
Em noites suicidas.
Mil balas se perderam na química.

II
O que tem um poema
De forma, conteúdo e psicanálise?

O poeta nasce, cresce, vive e se transborda.
Ou se é autor, ou se morre de amor.

Não sei – nada sei.
Minha imperfeição formal me obriga a isso.

Outrora fui cavaleiro errante
E boêmio de tavernas.
Hoje escrevo para ninar crianças.


INVENTÁRIO
I
O elevador me captura em pleno vôo.
Já vivi sob luzes mais fracas
De candelabros diversos na juventude,
O sol encastelado nas enchentes,
O passeio do ancião na tarde hipócrita.
Há muita música no passado,
Talvez música demais.

Ouço as vozes me chamando para o futebol
E a bola quicando nos campos arenosos.
Vejo as mangas, os tamarindos gostosos,
O carro cheio de farelos de biscoito.
Ouço essas vozes me chamando
E os poemas lidos ao acaso das estrelas.

O vômito do elevador sou eu
Em plena avenida, meu rosto acre,
O pesadelo dormido em noites passadas,
Nesse enorme desejo de regresso,
Nesse tempo preso aos retratos.
E eu crio esse mundo de objetos
Que rodeiam minhas mãos,
Como insetos em torno da luz, alucinados.
Calmamente resplandeço a morte
De outros poetas que se calaram.

Esses pássaros calados em pedra
Alçam vôos cada vez mais longos,
Sob os carros de rolimã descendo
A rua da igreja, rasgando o véu da noiva
E mergulhando na enxurrada,
Onde me chamaram para rezar.
E eu queria somente a quietude e a filosofia.
Essas fugas marcaram as folhas colhidas
No jardim onde o bêbado dormia.
O nó da garganta me faz calar,
Ainda procuro diamantes.

II
No domingo acordo cheio,
O sol toma todas as coisas,
Meu castelo de cartas
E meus companheiros de Partido.
Na maresia da ressaca
Vivi a noite repentina da virgem,
Quando os soldados revistaram o carro
E me entregaram o coração-de-ouro
Que estava sob o tapete,
Mas não me devolveram
O tempo acumulado nos meus olhos fitos
E minha solidão queimada
Nos cigarros king size.

Mas, me resta uma reserva de tempo inesgotável,
Clara como nada, que me bebe as horas
E me derrama o peito.
Arrisco a dizer que sou imortal,
Aquele que ao entardecer
Bebe a morte no saloon,
À espera do amanhecer
Para duelar com o sol,
Condenado a viver o futuro.

III
A velhice é um exílio
E no degredo em que me encontro
Ouço os gritos das crianças no pátio,
O vento batendo nas vidraças,
O mar dos aflitos no domingo
E os desocupados na praça
Cercada pela Prefeitura.

Ouço esses gritos
E o desespero pulsa em minha garganta.
Irremediavelmente percebo,
Que a única forma de voltar no tempo é possuí-lo,
E a memória é o trem correndo nas serras ilógicas
Que me separam da infância.


JORNAIS VELHOS

Caminhões, buzinas,
Ônibus, pedestres,
Subúrbio cai a tarde,
Ou a neve em Toluca?
Fábricas, usinas
E uma estrela arde.

Vês Dona Angelina
No portão? Transeuntes
Passam para casa,
Bolsas de compras, mãos
Cheias de embrulhos, brincam
Crianças na Praça Anil.

As ligadas tevês,
Jornal Nacional. Mal
Seo Noca fecha o bar
O banco da praça
Abriga Nequinha
Em jornais velhos, vês?


LÁBIOS SECRETOS

O céu brilhante de zinco
Escorre o caldo ladeira abaixo.
Nos prédios distantes,
Brinquedos d’ouro,
Nuvens átonas, infância,
Músicas, trombones de caos,
Violões aflitos, vento poeira seca.

!Roma
Beijo saliva doce verão,
Mãos brincam sob roupas,
Entre ferramentas brincam porão,

Abre lábios secretos,
Como janelas no verão,
Ladeiras, esquinas escuras
Rijos corpos se penetram.
Clarão, clarividência,
Rios sem margens.


LUMIAR

Olhos-de-cobra observam grilos e insetos
Torneando a luz, no brejo girinos anseiam
Patas para petiscar besouros, grilos,
O ouro da serra recolhe lentamente.

Patas-de-couros passeiam na grama inerte,
Girinos metamorfoseiam sapos, papos,
Larvas se travestem em besouros, mosquitos,
Olhos-de-vidro, gatos caçam na sombra.

Os sapos coaxam à espera, espreitando.
Acendemos lâmpadas para iluminar
A estrada de luas que leva para Lumiar.

Patas-de-cobra rastejam névoas gramas,
Besouros descem os caminhos do sono,
Um gavião noturno carrega serpentes.


LUSTRA

A lembrança constrói destróieres
No retrato de Doriam Gray.
Na face esquerda da estante,
Recife de corais morre.
Proust na fluidez buscando
De Freud metáfora.

No trem, futuro ao passado,
A espessa lua deságua nas ruas,
O oceano desejoso.
Peixes nus nadam no parque,
Onde pescadores de almas
São catadores de papel.


MADRINHA
I
Doze burros compõem a tropa
A madrinha vai à frente
Toda enfeitada de guizos
Pelas terras enjeitadas
Por Deus Nosso Senhor

A mulinha vai à frente
Um capinzinho aqui, outro acolá
Uma samambaia ali, outra também lá
E o caminho foi perdido
O tropeiro perdido a tropa
Até o chicote zombar do lombo
Da mulinha envergonhada com seus enfeites
Que retoma o caminho das Gerais.

II
Zé-do-burro toca a tropa
Carregada de milho, feijão, talvez sal,
Pelo brasil caboclo na tarde que se esvai
Na frente, a madrinha pela estrada poeirenta
Bem-te-vis empoleirados, canários e curiós,
Buezão chora manso macio no aboio,
Enquanto ela vai cruzando países vários
Que compõem, não compõem
Entre choros e velas acesas.

Nas igrejas e capelas barrocas
Do barro amassado pelas mãos negras
A mulinha, de roçados transparentes
De rendados das domingueiras,
De cascos duros dos matutos
Pés-de-portinari cândidos sofrimentos
Semeando seis seus dias, seis seus sonhos
Que compõem, não compõem
Entre choros e velas acesas.

Velho chico velho, coroné garcia,
Augusto matuto matraga, zé belém
Jeca moço, jeca velho, jeca tatu
Zé sagaz, beato jô, Jó-que-não-é-beato,
Pai zico do congo, frei zezinho
Terras de Nossa senhora,
Perdida na prata do sertão
Que compõe, não compõe
Entre choros e velas acesas.

III
No lilás crepúsculo demais
A senhora passeia as gerais

Zé-do-burro atravessa o rio
A mulinha atravessou

O rio derrete o sal não sei
Que em mar se retornou

A tropa atravessa célere
O rio que atravessou

A madrinha foi na frente
A senhora já passou

De minas cruzaram os rios
Na margem se desmontou.


MENINOS EU VI

I
Eu vi o sol se por no final dos tempos,
O imenso olhar triste de Deus no Theatro.

Eu vi a estrela-do-amar ser tragada
Pelo vórtice de matéria e energia de um buraco negro.

Eu vi a última viagem do Halley
E a luz retornar do imenso horizonte de tempo-espaço.

Ouvi as ondas de rádio transmitidas pela BBC,
No dia em que Hitler invadiu a Polônia,
Voltarem, milhares de anos depois,
Próximo à abandonada estação MIR.

Vi milhões de estrelas nascerem e morrerem,
Depois cansei,
Vi a teoria do big bang implodir
Como o heliocentrismo.
Vi o fim do capitalismo,
Mas não o fim da opressão.
Lutei em guerras no céu
Como os gregos na guerra do Peloponeso.
Vi fronteiras se rompendo
E a aurora boreal de uma cidade em Marte.
Eu vi tudo isso e acho que a velhice
É mais sonhadora que a meninice.


MINAS
Para Filomena Barbosa

Quanto pasto!
Quanto boi tanto verde!
Nos Gerais de Minas
Terra de minha incelença
Terra de minha nascença.

Os versos flutuam pelos prados
Versos aplastantes de férreas patas
E luvas de pele negra
E dentes africanos de mar-fim
E serras ilógicas de diamantes
Onde meu avô procurava na noite
Na noite mágica que acalentava
Meus sonhos infantes.

Minas de ouros e de sonhos
Meu avô arava a terra minha mãe.


NADO

Se eu morrer amanhã.
Hoje quero nadar com os golfinhos,
Que vi cruzarem o estreito
Entre o continente e a ilha,
Em um luminoso ocaso
De Arraial do Cabo.

Se eu morrer amanhã.
Hoje quero nadar com a orca,
Que vi parturiente
Na praia de Copacabana,
No dia em que fiz vinte anos
Há vinte anos atrás.

Se eu morrer amanhã.
Hoje não vou morrer amanhã
Sou imortal como as águas
Enquanto nessa imortalidade
Amanhã de manhã nadarei
No mar coalhado de golfinhos.


NEGRO OLHAR

Quando ouço a tua voz perfume
Ao telefone, me pergunto quanto
Sobra de tempo na rua, ao lume
Negro da noite que desce tanto?

Quando ouço tua voz, negro olhar,
Parada no retrato amarelado,
Quanto tempo passei amando
Essa palidez no rosto quadrado?

É claro que estarás sempre
Em cada ponto de partida,
Corpo nu, olhos perdidos no ventre

Dia fugaz, sem destino como maconha.
Negro olhar, palidez na viagem sem ida.
Negro olhar, medo em mulher risonha.


NO ESCURO

No escuro quando te toco,
Sinto o vazio no espaço do teu corpo
Cravado e lacrado no teu medo.

No claro quando te vejo,
Vejo-te clara como a manhã
Que tenho diante dos olhos e que beijo,
Para alegrar no frio noturno
O retorno da nossa paixão.

De tarde, quando ainda não te tenho,
Sinto o mundo todo impreciso,
Tenho medo às vezes,
É preciso te pensar para conter
O passo dado pela velhice.

No escuro quando não,
Sinto a luz dos teus seios
E teu sorriso iluminado.


NOITE

A noite arrefece
Um morto-vivo

Apenas um na noite
Urbana do Rio de Janeiro

Suas palavras finais
Escritas em versos

Contêm gritos altos,
Prédios de corais,

Com olhos-de-mármore,
A noite recém-construída.


O CACTO

O cacto atravessara a madrugada
E jazia inerte sobre a rua.
Um cacto enorme e espinhoso,
Vermelho e maravilhoso.

Trouxeram guindastes, caminhões,
Tanques de guerra, mas nada o removia.
Pensaram em explodi-lo, mas a turma
Da Engenharia chegou a conclusão
De que isso abalaria os prédios vizinhos
E ele ficou lá, atrapalhando o trânsito
Até o meio-dia, quando um garoto,
Desses de colégio, sugeriu ao Prefeito:
“Porque não fazem uma ponte sobre ele?”

E o viaduto foi feito.
Mas um dia ventou tanto que o cacto
Rolou para o lado e o derrubou.
Mas o Prefeito já era outro,
E o garoto de colégio
Havia morrido de meningite
Dois anos antes.


O DEFUNTO
Para Carlos Drummond de Andrade

I
O verso manco e flavo te iludiu
Na enorme noite, plena, sideral, expectante.
Caminhavas ereto e sob teus pés
Reluziam mundos, favelas,
Caldo de homens e dejetos
No escuro de Deus, ou dejetos de Deus?
O verso era de ouro ou latão ilusão?

Atravessas a noite no cais
Sob teus pés nunca se criou limo,
Cogumelo tua pele em fotossíntese,
Teu caos em sete faces
Sete mortes abertas pela faca das correntes.

II
Jamais fostes ilusão ou serpentina
Era o macróbio ansiando o leito eterno,
A morte eterna, social.
Mas atravessavas as ruas soltas
E te embriagavas de anônimos transeuntes
Como um Deus, eras Zeus?
Deus dos santos, Javé anfitrião?
Nada respondes.
O verso era ilusão, de pó,
Teu poema, humana travessia.

O leito úmido calafeta a solidão
Dos versos mancos, marcados
Versos mancos com sofreguidão
Transformam-se em sono.

III
As memórias atulham
Os entulhos escorrem pelo chapéu
Onde outrora escorria mel
Hoje há desencontro.

O verso escorre, a noite morre
Experiências e temas são abordados
Mas a tarde é o bastante
E a noite não resolve o grito,
E a morte é um castigo da ilusão
De um verso perdido, flavo, revolução.

IV
O entardecer já não basta
E ao amanhecer tomas o trem sem direção
A cada poste telegráfico rompes a comunicação
Graficamente, poeta te calas
Favelas te olham
As vezes te pedem coisas,
Em outras desejam te dar
Mas o verbo já faz parte do leito espiralado.

V
O verso manco te perdeu
No teu abandono ainda podes sorrir
E de escárnio rolas pelos degraus de Proust
E de Nava, verso de coxa flava
E patas que dantes inflamavam.
Poderia dar adeus em reticências
Aos nômades poetas dar às costas
E esfumaçar, mas teu abandono
Também já é parte do leito
E o verso defunto no fundo do ataúde
Sorri dente de ouro, ou marfim
Pele de cetim, ou diamante.

VI
O defunto passeia diante dos meus dedos
Meus são versos poucos de amplitude,
De milharal, de pó-de-ferro,
De montanhas submersas, pulverizadas.
Já não importa, a palavra é cacto
Existir é cristal, nem morrer é o bastante.

Perdeu-se a poesia
Perderam-se as palavras
Ora perdidas, ora desencontradas
Já não sofrem, mas pulsam em degredo
Dejetos fazem ruir velhos castelos
E acasteladas são pálidas vestais
Do início do outro século
Mas mentir já não podes, ou não sabes?

VII
O verso era de ouro,
O defunto que passeava pela praia
Em um econômico inverno, flácido, lúcido
Lucidez? Ou divagação?
Já não importa saber se o verso
Era manco, cristal ou mal
Versos maus atacam, indiferença.

Macróbio, macróbio, macabro
Bruxo medieval das palavras
Que o vento esqueceu,
Tu és esquecimento
Cimento sobre o jardim
Cimento sobre mim.

VIII
O verso era de tolos ouros
Cristais, ou sais demais em um mar de jasmim
Mas jaz em mim aquele ragtime
Que os negros dançavam suados em New Orleans
Que nos exportavam como se os baticuns
Fossem mais importantes que nossos negros tantãs.

O verso era manco de tanto ouro,
Hoje é Minas, é Itabira, é solidão.


O DUQUE

O duque pernoitou à sombra
Ao amanhecer estava morto.
Corpo flácido, desbotado,
Sangrando um mar verde-oliva,

De massacres e batalhas
Vencidas, perdidas.
O preço alto de suas medalhas lá está:
Vidas aos milhares – milharal.


O NAUFRÁGIO

Cai a noite no mar
Os braços do náufrago
Lembram suicidas
Que mergulham dos prédios
Árvores decepadas
Operários enterrados
Em minas de carvão
Velhos enterrados
Em asilos
E loucos galopando
Em cavalos-de-fogo
No pátio do hospício
À beira-mar.


OLHO CEGO

O transcendente
Anterior olho,
Olho partido,
Olho cego, furado.
Na escuridão
Brilha o alfinete no pano.
- CHEGA!!!


OMEROS VERSOS
À Sheila Dardari

De New York City à luz
Tudo sozinho fiz,
Caminhei pelas ruas,
Tua janela escura,
Meu peito remando nuvens,
Nuvens nuas, solidão.
Vi-me sem você a te amar.

Teu olhar flutua, afliges,
Pululas insetívora,
Inseto que vou atraído.
Tudo que vistes à lua
Atirastes-me odisseus mares,
Para perdido de mim te encontrar.

No mar do Rio de Janeiro,
Tu calipso alucinas, verniz
Dos remos às águas da baía
E eu perdido sem luz no mar,
Nas meigas salsas de Iemanjá.
Na janela você espera
Meu navio voltar.


OS VERSOS MAIS TRISTES

Eu deveria ler os versos mais tristes nesta noite.
Os versos que chegam desesperados
Com minha falta de amor,
Preso que fico no passado,
Ou em um rosto refletido na água.

Que valeria ler sobre essas tristezas?
Sobre saudades alheias, ou vagos vazios existenciais?
Não tenho respostas, tampouco as procuro.
Posso ler as coisas mais doloridas nesta noite,
Mas as palavras marcadas nos papéis
Somente alimentariam meu sono sem sonhos.

Vou ler os versos mais tristes nesta noite,
Os versos mais lidos, como tantãs repetidos,
Os versos que traduzam o infinito medo e anseio,
O finito amor, que se estanca de repente
Na rua deserta e cheia de lixo,
Com um mendigo entocado,
Olhos e corpo em posição de bicho.


PARÓDIA

Quando nasci, um anjo torto,
Desses que dormem bêbados
Pelas ruas, disse-me:
- Vai cara até onde desisti.

Os edifícios criavam becos
Onde mendigos dormiam
Cobertos por jornais.
Certo dia alguém
Tocou fogo nas cobertas
E os pobres fugiram
Espavoridos buscando mar.

Quando morri,
Outro anjo torto,
Escondido em um hidrante
Diferente do primeiro
Nada me disse.


POEMA QUE NÃO ACONTECEU


Era domingo, soldados passeavam
Cativos em uniformes verdes,
Civis a paisano passeavam cativos
Pelos parques e cinemas,
Pelos bares e teatros, pelos cemitérios,
Onde o mundo jazia parado pardo,
Sem fim nem começo domingo.


POÉTICA

Noite, anoiteço
Rezo a Deus
Sem compromisso
Porque Deus
É omisso
Não diz se existe
Ou inexiste.

Dia, amanheço
Na antemanhã
Vozes-de-galos
Despertam,
Fatos atravessam
Com outras vozes
De pássaros, de homens.


PONTE

Fujo da poesia
Como o diabo
Foge da cruz.

Gosto dela
Como um bêbado
De se atirar
Da ponte.


PORTO ESTRANGEIRO

As brumas me envolvem
Em silêncio inverno
Um braço de mar ou rio
Invade o porto
Um navio me roça
A pele no cais, pés
Sinto o sangue dos países
Pulsando em palavras
Estranhas ao ouvido
Entranhas ao olvido.

Caminho com receio
Brumas cobrem toda
Extensão portuária
Ouço e não compreendo
Vozes que se conversam
Mãos trabalhando vejo
Dotadas de olhos nus
Eu não enxergo um palmo
Diante do meu nariz.
Atravesso o posto.

Ouço o apito surdo
De um navio mouro urge
Quase posso tocar
As brumas envolvem
As garças, armazéns
E as ruas-cais portuárias
Imerso espectro
Estrelas se ocultam
Nem sei se é noite, dia
Nem sei se existo, via.


PROUSTIANA

Componho meu destino lavando a memória.
Ela veio no meu sonho tomar banho de rio.
Na noite escura havia uma lua muito mais brilhante.

Tiramos as roupas e a jogamos na relva macia,
Mergulhamos na fluidez desconhecida, vazia,
Que, como o tempo escorria, como o tempo, propício.

Ela veio em mim suave, em mim duro,
O mundo desmoronou, virou caos, algo
Tão confuso que a natureza era impossível.

A natureza dos nossos corpos o rio lavou,
Líquidos e os filhos que não podiam ter sido
E o amor que não podia ser lido.

Componho meu destino, nuvens cobrem as estrelas
Que sei existirem, que sei resistirem
A esse torpor de não poder nadar correnteza acima.

O orvalho despencou sobre as roupas e o frio queimou
Nossos corpos nus à beira da infância.
Que roupas cobririam o que nossos rostos denunciavam?


RETALHOS

Na praça, a mendiga costurava
Seu vestido de retalhos.
Em volta: pombos, ônibus.

Retalhos coloridos
Absortos em suas mãos inúteis.
Retalhos, pombos, ônibus.


SERÁ QUE ELA CHEGA A TEMPO NO CAIS?

No porto
A beleza do mar é
Triste de dar dó,
Aliás, tudo que é belo
É essencialmente melancólico.
Há um conteúdo
De águas penadas dentro,
Como há em um homem
Que perdeu tudo que possuía,
Atravessou o oceano
E olha, debruçado no cais
Desconhecido,
O mar que bate
Nas pedras,
Como se as ondas
Fossem trazer para ele,
Aquele beijo que já se perdeu
Nas caravelas do seu esquecimento.
SEREIA

Seria ela a flor-de-pedra
Sem espinhos?
O luar mais alto
É o mais vagabundo,
Em pinhos
Inibe notas musicais.

Seria ela a sereia
Daquele sonho?
Eu, Odisseus
Desamarrado
Do Mastro.


SONHOS CALHORDAS

A aranha tece lentos, os fios da paciência.
A mosca zumbe nosso prato de sopa.
Dormentes, vamos no trem para a oficina,
Fabricar nossas desilusões e os sonhos

Dos calhordas do Rubem Braga.
Nosso nariz cheirando o podre
Odor das máquinas poluindo os rios
E a noite na baía de Guanabara.

Não amarás até quando? Ou matarás
Tua paciência no barulhento balanço
Do trem, dos sinais férreos, finais, lúdicos?

Fim da tarde, a aranha empapuçada
Tece fios noturnos, operários voltam,
O cadáver da mosca balança ao vento.


SOS POEMA

Você enquanto
Por tanto tempo
Por quanto gosto
Rosto no vento
Portando cartazes
De lindas roupas
Dentro das estradas
Cartazes, roupas, guerrilhas.

Você enquanto
Santo sudário
Rosto no tempo
Mantendo lá dentro
Um ruído de máquinas locomotivas.

Você enquanto
Mãos acenando
Para o leste,
Aviões e canhões
Lutam pela solidão
Lá dentro,
O inefável pedido
De socorro.


STOP
I
Meu coração é um músculo cansado.
Melhor é pará-lo como um automóvel,
stop.

O maquinista abandonou o trem.
O trem segue seu caminho em direção.

O coração bate calado, dentro.
Expressivo, quieto, escancarada dor.

A dor moureja nos pastos onde se combate
A noite é uma negra serpente sem sonhos.

O coração febril mente, rola a noite sem latidos ou canhões.

II
Um poema é isto: grafia e forma.
- Não há conflito fora do leitor.


SUBTERRÂNEO

Onde pus meu corpo?
Na Avenida Rio Branco
Abaixo das neuroses,
No caminho de vidro, no obelisco,
No Aterro, terror?
Deus! Onde pus o amor?


TIROS

Tiros
Alvejam pássaros
brancos
peitos sangram
tombam do céu
alguns caem no mar
outros distantes
um cai na avenida
transforma-se
terno e gravata
trabalha na Bolsa.


TORRES GÊMEAS

New York City (Reuters),
Gêmeas idênticas
Genes falhos
Lábios e palatos fendidos
Leporinos lábios
Fendas, fendas
Feições de lebres
Defeito facial
Impacto local total
Órgãos estendidos
Hospital, lesão lábio-palatal
Língua sutil, inconsútil
Gêmeos geneticamente idênticos
Gêmeas falhas
Faces ocidental e oriental
Faces da mesma incapacidade.


TRISTES

Tristes são cabelos ao vento
Tristes são os sonhos.

O resto é luar, ou sinos
Sinos da manhã
Tênis à meia-noite.

Em derredor,
Todos os prédios em construção.


VERBO INTRANSITIVO

Noite, de novo anoiteço
Rezo a Deus, adormeço.

Bebo enchendo olhos-de-nuvem
Choro até transformá-las

Em copos d’água
Amo até provar

Que a morte é a última
Forma intransitiva de amar.


ÍNDICE:

1) Adivinhação;
2) Alunar;
3) Another Side;
4) Aventura;
5) Bar Esperança;
6) Beira do Caminho;
7) Bomba Doméstica;
8) Brusca Poesia;
9) Cantiga de Esponsais;
10) Cantiga de Ninar;
11) Caravelas;
12) Chuva;
13) Declives;
14) Desejos;
15) Down;
16) E;
17) Elegia;
18) Furta-Cor;
19) Galo Galo;
20) Galos;
21) Heterônimos;
22) Inventário;
23) Jornais Velhos;
24) Lábios Secretos;
25) Lumiar;
26) Lustra;
27) Madrinha;
28) Meninos Eu Vi;
29) Minas;
30) Nado;
31) Negro Olhar;
32) No Escuro;
33) Noite;
34) O Cacto;
35) O Defunto;
36) O Duque;
37) O Naufrágio;
38) Olho Cego;
39) Omeros Versos;
40) Os Versos Mais Tristes;
41) Paródia;
42) Poema Que Não Aconteceu;
43) Poética;
44) Ponte;
45) Porto Estrangeiro;
46) Proustiana;
47) Retalhos;
48) Será que ela chega a tempo no cais?
49) Sereia;
50) Sonho dos Calhordas;
51) SOS Poema;
52) Stop;
53) Subterrâneo;
54) Tiros;
55) Torres Gêmeas;
56) Tristes;
57) Verbo Intransitivo.