terça-feira, novembro 14, 2006

A REBELIÃO DOS SENHORES
UM ESTUDO SOBRE O NAZI-FASCISMO ALEMÃO

“Quando nos calamos diante do mal, quando o sepultamos no fundo de nosso ser, de modo que nunca assome à superfície, então ele frutificará milhares de vezes no futuro.”
Alexander Soljenítsin in O Arquipélago Gulag


SUMÁRIO
BIBLIOGRAFIA............................................................VII
INTRODUÇÃO...............................................................1

I. CONTEXTO HISTÓRICO....................................6
1.1. A legalidade partidária..............................
1.2. A legalidade partidária em questão.............

II. O CONEXIONISMO TOTALITÁRIO. FASCISMO E NAZISMO......................................................................
2.1. O Fascismo.................................................
2.2. O Nazismo..................................................
2.3. O Totalitarismo.......................................
2.3. O pensamento arendtiano sobre o Totalitarismo.....................................................................

III. A DISCUSSÃO DOS ARGUMENTOS E OUTROS COMENTATADORES.....................................
3.1. O pensamento racial e a barbárie nazista............
3.2. NIETZSCHE e A Genealogia da Moral.................

IV. A REBELIÃO DOS SENHORES. A QUESTÃO MORAL E ÉTICA.............................................................

V . CONCLUSÃO............................................................


BIBLIOGRAFIA:
OBRAS
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. Cia das Letras, S.Paulo, 1989.
_______________. Eichman em Jerusalém. Cia das Letras, S.Paulo, 1996.
_______________. A dignidade da política. Relume-Dumará, Rio de Janeiro, 1993.
_______________. Responsabilidade e Julgamento. Cia das Letras, S.Paulo, 2004.
CAMUS, Albert. O Homem revoltado. Record, Rio de Janeiro, 1996.
DWORK, Déborah - JAN VAN PELT, Robert. O Holocausto. Imago, Rio de Janeiro, 2004.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX. Cia das Letras, São Paulo, 1996.
KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Graal, Rio de Janeiro, 1977.
MARCUSE, Herbert. Razão e Revolução. Paz e Terra, 4.ª ed., Rio de Janeiro, 1977.
NIETZSCHE, Friedrich. Col. Os Pensadores. Nova Cultural, São Paulo, 1996.
____________________. Genealogia da Moral. Cia das Letras, S.Paulo, 1998.
____________________. O crepúsculo dos ídolos. Relume-Dumará, Rio de Janeiro, 2000.
____________________. A Gaia Ciência. Cia das Letras, S.Paulo, 2002.
PRITCHARD, R. John. O incêndio do Reichstag. Ed. Renes Ltda., Rio de Janeiro, 1976.
STACKELBERG, Roderick. A Alemanha de Hitler. Imago, Rio de Janeiro, 2002.



INTRODUÇÃO

Passados exatos cinqüenta anos do horror da II Guerra Mundial, de Auschwitz, quando a poesia morreu, nas palavras de Primo Levi[1], sabemos o que é o fascismo? É o fascismo um movimento morto, pertencente à história e sem qualquer papel político contemporâneo? Quais suas conseqüências? É este um fenômeno aprisionado no passado?
São muitos os questionamentos acerca desse período histórico, principalmente porque, vendo todo o amontoado de cadáveres, destruição causada pela Guerra e o morticínio de judeus, ciganos e opositores do regime, nos perguntamos: como pôde o povo alemão maciçamente aderir ao regime hitlerista?
Como se justificar o comportamento da magistratura alemã aplicando as leis de Nuremberg[2], acobertando a violência do nazismo, que possivelmente não teria atingido tão facilmente seus objetivos se os juízes tivessem resistido às primeiras investidas inconstitucionais contra os opositores do governo e as instituições democráticas?
É importante salientar que todo o regime hitlerista se deu dentro do constitucionalismo existente[3], segundo alguns doutrinadores, sequer uma mudança foi realizada na Constituição de Weimar[4] durante seu governo.
Após uma longa meditação sobre o início desse trabalho de conclusão do curso, resolvemos iniciá-la com uma pergunta ao qual, advertimos ao leitor insensato, não pretendemos responder, apenas pontuar: que conseqüências éticas uma filosofia qualquer pode nos legar?
Pretendemos em seguida, dissertar sobre o tema relevando os aspectos político-históricos, com o norte sempre voltado para o problema que nos colocamos como ponto central de nosso Trabalho de Conclusão de Curso, que versará sobre o Nazismo.
Com efeito, a experiência nacional-socialista ocorrida na Alemanha entre 1933-1945 é um tema de aguda relevância e atualidade, pois como se pode explicar o fato de uma cultura nacional altamente fecunda e criativa produzir um barbarismo sem precedentes, como se o demônio houvesse intervindo diretamente naquele país, e ainda como se pode justificar Auschwitz[5], uma empresa criada e dedicada para mais nada além da morte?
Para nós, sobreviventes do Século XX, homens do século passado invadindo um século que não nos pertence, é muito difícil entender o colapso da civilização liberal, pois além do distanciamento cada vez maior de seus valores, como entender que se passe do domínio da lei, dos direitos constitucionais e liberdades civis para caminhar em direção ao holocausto e à barbárie, de forma constitucional e deliberada?
Este trabalho não possui o intuito de esgotar todo o tema, conforme dissemos alhures, apenas pontuar aspectos histórico-filosóficos do fascismo centrando nosso estudo mais sobre o nazismo alemão do que sobre o fascismo italiano. Para isso, faremos uma pequena análise histórica do período anterior à ascensão de Hitler à chancelaria do Reich, bem como do comportamento do povo e trabalharemos com alguns filósofos que se debruçaram sobre esse tema.
Outro aspecto relevante deve ser salientado: pretendemos focar nossos estudos basicamente sobre o fascismo padrão, ocorrido na Itália e o fascismo radical, na Alemanha, sem nos referirmos às diversas variações intermediárias. Nessa escolha, não levaremos em conta as mais diversas experiências fascistas, nos preocupando apenas com os fascismos que efetivamente se constituíram em regimes políticos, ou seja, que chegaram ao poder.
Nesse sentido, regimes como de Vichy na França ou Ustachi na Croácia[6] serão descartados. Apesar de termos ciência que alguns movimentos fascistas que não chegaram ao poder apresentam um perfil fascista melhor desenhado do que regimes estabelecidos, pois estes chegaram ao poder através de pactos e alianças com outras forças conservadoras, sendo obrigados a abrir mão de parte do seu ideário inicial. É o caso, por exemplo, do abandono da proposição da Segunda Revolução, por Mussolini, ou ainda do anticlericalismo do fascismo italiano, trocado pela concordata com o papa; ou, ainda, da eliminação da ala radical do nazismo, com o assassinato de Ernst Röhm[7] e o expurgo de 1934 dos quadros dirigentes da SA, por Hitler, em troca do apoio do exército e do grande capital, que ficou conhecido como “A noite das facas longas”[8]. Este fato pode ser explicado porque os movimentos fascistas que não alçaram o aparelho estatal apresentam na sua plenitude o ideário do fascismo, ainda não limitado por acordos ou exigências concretas do exercício do poder e da intermediação política.

I. CONTEXTO HISTÓRICO

I.1. A legalidade partidária

Segunda feira, 27 de fevereiro de 1933, a noite de Berlim é clara e gelada, a temperatura gira em torno dos seis graus centígrados e um vento gelado sopra forte do leste agitando o rio Spree. As ruas desertas, cobertas de neve, escondem, em sua calma aparente, um período histórico no qual a humanidade está preste a ingressar em um conflito sem paradigma. De repente, sirenes do Corpo de Bombeiros quebram o silêncio da noite e se pode ver toda a cúpula de vidro do Reichstag, a sede do Parlamento alemão, tomada de um brilho intenso, vermelho. As chamas consomem o prédio devorando simbolicamente os remanescentes da democracia alemã. A Alemanha, talvez sem tomar consciência disso, perde o coração de sua democracia parlamentar. Assistimos pesarosos, a morte da República de Weimar. No entanto, pouca gente na Alemanha chorou o fim da democracia parlamentar, cujos últimos anos haviam sido repletos de troca de gabinetes, eleições sucessivas, e governos sem maioria estável no Parlamento, após a crescente prosperidade e satisfação política experimentada entre 1924 e 1929, quando a Depressão de 1929, partindo dos Estados Unidos da América, chegou à Alemanha, trazendo uma crise econômica sem precedentes históricos, e o país mergulhou de 1929 a 1933 em um caos político e social. Entretanto, o “crash” de 1929 por si só não justifica a ascensão meteórica dos nazistas ao Poder, tampouco o genocídio perpetrado por estes e o Holocausto. Para entender a ascensão de Hitler, é preciso retornar no tempo. O incêndio do “Reichstag” terminou por iluminar o caminho do irracionalismo.
Alguns analistas apontam com um dos motivos de insatisfação do povo alemão à época, o fato de haver a Alemanha assinado um armistício, quando suas tropas ainda estavam situadas em solo inimigo, sem que seu território houvesse sido invadido pelas forças aliadas, o que levou a maioria dos alemães a crerem no mito “Dolchstoss”, cuja tradução significa que seu país havia sido apunhalado pelas costas por traidores coniventes, responsáveis tanto pela vitória dos inimigos, quanto pela formação da República de Weimar. Sofrendo com a Depressão econômica, o povo alemão exigia soluções e ansiava por estabelecer a hegemonia política e social na Europa Central. No plano interno, os alemães exigiam estabilidade; no plano externo, mudanças. Hitler surgiu nesse cenário com respostas simplistas, que seduziram o povo alemão e cimentaram sua subida à chefia do Estado: para o interior, propaganda e repressão; para o exterior, a Wermatch[9]. Entretanto, à luz dos recentes movimentos neonazistas que varreram a Europa na década de 1990, poderíamos duvidar se tais eventos históricos: a derrota alemã, o Tratado de Versalhes, a frustração política italiana em 1919, e a crise econômica de 1929, efetivamente explicaram o fascismo dos anos 1920-1930.
Esse confuso caos social e econômico provocou uma histeria reacionária, na qual o senso comunitário entrou em colapso durante o período da Depressão[10]. Nas desorientações sociais subseqüentes a 1930, uma desconfiança básica da democracia corroeu a alma da Nação, levando o povo alemão a crer que o Nazismo não seria pior que a democracia a que estava acostumado dentro da República de Weimar.

I.2. A legalidade partidária em questão

De maio de 1932 até janeiro de 1933, quando Hitler ascendeu ao cargo de Chanceler, houve várias mudanças de Gabinete no Governo Alemão: Heinrich Brüning foi deposto em maio de 1932 e sucedido por Franz von Papen, que por sua vez foi deposto em novembro daquele ano pelo General Kurt von Schleicher; que também foi substituído em 30 de janeiro de 1933 pelo gabinete Hitler-Papen.
Os partidos democráticos haviam perdido o apoio popular. Havia uma enorme relutância em proteger a Constituição de Weimar. A Alemanha se tornara um país claustrofóbico, tocado por uma poderosa visão apocalíptica. As eleições de 1928 deram aos nazistas menos de um milhão de votos; em 1930, já dentro do período recessivo, as urnas deram a Hitler mais de seis milhões e quatrocentos mil votos, sendo o nono partido político mais votado. Em 1932, precisamente em março daquele ano, os nazistas colheram 11,3 milhões de votos; e em junho, 13,7 milhões de votos, 37 % dos votos possíveis, o que tornaram o Partido Nacional-socialista o maior partido político no Parlamento alemão.
Vieram as eleições de novembro de 1932, que trouxe uma surpresa para Hitler: o Partido Nacional-socialista recebeu 11,7 milhões de votos, o que representava 30 % do eleitorado. A corrida para o alto parecia ter chegado a um patamar estável. A Alemanha parecia cansada das campanhas ininterruptas de Hitler, a despeito da queda dos votos dos sociais-democratas e dos comunistas.
Hitler viu nessa ligeira queda de sua votação um mau agouro, e foi torturado pelo medo de que seu declínio pudesse se tornar tão meteórico quanto sua ascensão. Nesse momento, ele que havia conquistado apoio popular, em parte devido à sua recusa inicial de compor com os outros partidos, mudou de tática e iniciou as negociações para criar um governo de coalizão, precisamente no momento em que Papen e Hindenburg manobravam no sentido de estabelecer uma aliança entre o Partido Nacionalista e o Partido Nacional-socialista, para formar um governo de direita. Hitler aproveitou a oportunidade, aceitou um gabinete de coalizão e foi empossado chanceler em janeiro de 1933, enquanto Papen ocupava a vice-chancelaria.
Com a autoridade legal obtida constitucionalmente, os nazistas passaram a utilizar eficazmente os recursos civis e militares da Administração pública para fazer prevalecer seus objetivos políticos e exterminar os demais partidos políticos alemães. A oposição foi rapidamente dizimada e sua voz abafada. Quando o Reichstag ardeu, a imprensa gozava de ampla liberdade; na época do julgamento dos acusados, essa liberdade fora solapada, pois o absolutismo hitlerista exigia uma íntima conexão entre o povo e o partido político, com as massas políticas submetidas ao controle total do Führer, desse Javé de sombrios coturnos.
Os acontecimentos subseqüentes ao incêndio foram bastante esclarecedores da ideologia nazista. Logo em seguida, os partidos políticos de esquerda foram eliminados pelos terroristas nazistas, com os comunistas, que Hitler considerava seus maiores inimigos e maior ameaça, tendo sido os primeiros a desaparecerem. Com o incêndio do Reichstag, a bomba que pulverizou as muralhas frágeis do constitucionalismo alemão, a Alemanha estava pronta para a reforma hitlerista, pois as chamas do incêndio iluminaram o caminho dos nazistas quando estes partiram em busca de seus adversários políticos a fim de os destroçar. Imediatamente ao incêndio, Hitler conseguiu, de forma parlamentar, a aprovação da Lei de Autorização[11], uma lei de emergência, através da qual o gabinete ministerial poderia governar sem ter que submeter seus atos ao Parlamento, o que na prática lhe deu poderes para governar solitariamente através de suas diretivas. O monólogo do ditador havia começado[12].

II. O CONEXICIONISMO TOTALITÁRIO: FASCISMO E NAZISMO

Neste capítulo, procuraremos estudar o fascismo como gênero e espécie, através de um estudo separado do fascismo italiano e do nazismo alemão, e de modo geral, do totalitarismo.
O fascismo é um dos fenômenos políticos mais significativos do século XX, sendo um movimento reacionário que não se deixa reduzir aos conceitos de ditadura ou de autoritarismo. Direita é gênero, fascismo é espécie. Em sua essência, a ideologia da direita representa sempre as exigências de forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios, ou conservar determinado sistema sócio-econômico no qual tais forças são beneficiárias. Advém daí, o conservadorismo intrínseco da direita. Entretanto, nem todo movimento de direita é fascista.
Na Itália e Alemanha, que só realizaram a unificação nacional tardiamente, na segunda metade do século XIX, o fascismo foi o primeiro movimento conservador que se serviu de métodos modernos de propaganda, explorando essas possibilidades nos primórdios da sociedade de massas e assumiu tons, em grande medida, histéricos. Comparando as imagens dos políticos tradicionais da direita neste período, de fraque e cartola, com as imagens de Mussolini e Hitler discursando para centenas de milhares de pessoas, com discursos inflamados e cheios de vitalidade, que disfarçam o conteúdo social conservador de suas mensagens, percebe-se bem a diferença, o que reforça o caráter anti-liberal do fascismo e sua rejeição à retórica liberal. Por outro lado, a interpretação fascista da história, em contraponto à interpretação marxista da luta de classes, é outro aspecto a denunciar seu conservadorismo e seu ataque a Hegel, Marx e ao iluminismo, pois os fascistas viam na luta de classes um aspecto permanente e insuperável da existência humana. Para Mussolini, tudo que se precisava fazer era disciplinar as classes antagônicas por meio de um único agente possível, uma nova elite política enérgica e disposta a tudo.
Em oposição aos socialistas, que acreditavam ser a história movida por uma luta constante de classes antagônicas, os fascistas Irã realizar uma absorção do social pelo nacional, sendo este um de seus princípios básicos, e que se mostrou eficiente, tendo em vista que o fascismo conseguiu recrutar seus adeptos em todas as classes sociais. Como exemplo, podemos citar o fato de Mussolini ter conseguido fazer da nação italiana um mito, atribuindo-lhe uma realidade inexistente de nação explorada pelas grandes potências européias.
Finalmente, o fascismo nunca se preocupou com o desenvolvimento de uma reflexão filosófica, mas teremos que buscar suas bases conceituais e nos propomos neste tópico é buscá-las.


II.1. O Fascismo

A expressão fascismo deriva de uma antiga expressão latina fascio, que denominava o feixe de varas carregado pelos litores na antiga Roma e com os quais se aplicava a justiça. Desta forma, tal símbolo foi durante a Revolução Francesa, utilizado pelos jacobinos para simbolizar a liberdade e na Itália, durante o “Risorgimento” italiano[13], como simbolismo da unidade nacional.
No seu sentido atual, como símbolo de um movimento de extrema-direita, o fascio foi assumido pelo poeta futurista Filippo Marinetti[14] em 1917, com nítido sentido nacionalista e autoritário, ocorrendo uma migração de um símbolo até então típico da esquerda e dos movimentos trabalhistas para o campo da direita. Nesse sentido, denominamos de fascismo o conjunto de movimentos e regimes de extrema direita que dominou um grande número de países europeus desde o início dos anos 1920 até 1945. Assim, as expressões nazismo, nacional-socialismo, hitlerismo, recobririam uma só realidade política, os regimes de extrema-direita que dominaram vários países no período em questão. A denominação genérica fascismo decorre da primazia cronológica do regime italiano, estabelecido no poder em 1922, constituído em movimento político de identidade própria pouco antes, e do fato de ter servido de modelo à maioria dos demais regimes, bem como porque a tese da universalidade do fascismo implica na rejeição da exclusividade alemã do fenômeno, pois se reconhece como fascistas movimentos nacionalistas extremistas de estrutura hierárquica e autoritária e de ideologia antiliberal, antidemocrática e anti-socialista que fundaram ou intentaram fundar, após a I Guerra Mundial, regimes estatais autoritários. Neste último sentido, o fascismo, constitui um dos fenômenos centrais e mais característicos do período entre-guerras.
Assim, desde logo, apesar de focarmos nosso estudo sobre a Alemanha hitlerista, devemos nos afastar das posições que só reconhecem na Alemanha do III Reich a existência de um verdadeiro fascismo, ou que negam ao nazismo qualquer relação histórica ou política com os demais regimes autoritários, integráveis no desenho acima, que o antecederam ou lhe foram contemporâneos. Afirmaríamos, desta forma, que as especificidades do nazismo são históricas, de caráter nacional e não uma essencialidade, algo único em relação aos demais fenômenos fascistas, descaracterizados como tais ou considerados apenas autoritários, variantes da forma política das ditaduras. Os fascismos enquanto regimes autoritários antiliberais, antidemocráticos e anti-socialistas possuiriam suas próprias especificidades nacionais, suas histórias específicas, que, por sua vez, não descaracterizariam a universalidade e autonomia do fenômeno frente a outras formas de autoritarismo, tais como o bonapartismo e as ditaduras militares.

II.2. O Nazismo

O Nacional Socialismo ou Nazismo, foi o movimento totalitário triunfante na Alemanha, em muitos aspectos parecido com o Fascismo italiano, porém mais extremado, tanto como ideologia, quanto na ação política. Filosoficamente foi um movimento dentro da tradição de romantismo político, hostil ao racionalismo, ao liberalismo, aos ideais iluministas e aos princípios humanistas que fundamentavam a frágil democracia alemã. Com ênfase no instinto e no passado histórico, afirmava a desigualdade dos homens e das raças, os direitos de indivíduos excepcionais acima das normas e das leis universais, o direito dos fortes governarem os fracos, uma espécie de darwinismo social extremado, invocando as leis da natureza e da ciência que pareciam operar independentemente de todos os conceitos do bem e do mal. Demandava a obediência cega e incondicional dos subordinados aos seus líderes.
O partido nazista nasceu na Alemanha em 1919 e foi liderado por Adolf Hitler a partir de 1920. Um de seus objetivos era unir o povo de ascendência alemã à sua pátria histórica, mediante sublevações sob a fachada falsa de autodeterminação. Uma vez reunida, a raça alemã superior governaria os povos subjugados, com eficiência e a dureza requerida conforme seu grau de civilização. Umas de suas características mais marcantes, que o diferencia do Fascismo italiano, é a formulação das bases do Nacional-Socialismo com seus postulados de superioridade racial e cultural dos povos germânicos sobre todas as outras etnias européias, que terminaram por discriminar os judeus.
O partido nazista chegou ao poder na Alemanha em 1933 e constituiu um governo totalitário chefiado pelo seu único líder Adolf Hitler. Nos anos entre 1938 e 1945 o partido se expandiu com a implantação do regime fora da Alemanha, inicialmente nos enclaves de população alemã nos países vizinhos, depois nos países não germânicos conquistados. Como movimento de massa o Nacional Socialismo terminou em abril de 1945, quando Hitler cometeu suicídio para evitar cair nas mãos dos soldados soviéticos que ocuparam Berlim.


II.3. O Totalitarismo

Coube a oposição liberal italiana, entre 1923 e 1925, a caracterização do fascismo como um Estado Totalitário. Na verdade, a oposição apenas se apropriou de uma expressão proposta pelo próprio Mussolini, que em seu afã de elevar o Estado à posição de realidade última da nação, insistia em que espiritual ou materialmente não existiria qualquer atividade humana fora Estado. Neste sentido, segundo Mussolini o fascismo seria totalitário. Esta expressão foi retomada por Giovanni Amendola (1882-1926), líder da oposição liberal ao fascismo, que, em seu exílio na França, escreveu inúmeros artigos contra o espírito totalitário do fascismo e terminou por difundir o conceito. Fazendo com que em 1929, o Times londrino utilizasse a expressão para comparar os regimes de Mussolini com a Rússia soviética. Coube, entretanto, a Hermann Rauschning (1887-1982), membro importante do Partido Nazista, chegando a ser governador de Dantzig, a operacionalização do conceito. Rauschning, após entrar em conflito com a liderança de Hitler em 1934, emigrou para Suíça e depois para os EUA, dedicando-se a uma detalhada análise do nazismo alemão, utilizando-se amplamente da conceituação de totalitarismo.
Após Rauschning vários autores, como por exemplo, Karl Friedrich, Hannah Arendt e Raymond Aron, continuaram adotando o totalitarismo como base teórica de seus trabalhos. Um elemento recorrente na literatura que adota esse conceito é a ênfase nos procedimentos do conjunto do aparelho político, partido, Estado, forças armadas, polícia secreta, e na liderança e condução inconteste do grande líder, pautando-se sempre por uma ausência notável de qualquer análise da participação das chamadas massas populares. Enquanto um conceito amplo, difuso ou quase informe, as massas, sempre vistas como sinônimo de ralé, é descrita por esses autores como um elemento passivo no processo político, manipulável e capaz de furores coletivos. Para eles, tais condições específicas das massas é que propiciariam o domínio totalitário. Pontos comuns são facilmente localizados na prática exterior de regimes díspares para dar coerência a uma teoria que engloba em si elementos tão diferentes como socialismo e fascismo, capitalismo e ausência de propriedade privada, a política dita científica e o irracionalismo. Assim, por exemplo, à aniquilação da raça judia, com a elegia do arianismo, corresponderia a aniquilação da burguesia e a elegia ao proletariado.
Nesse sentido, com o fundo comum de mobilização das massas contra um inimigo comum objetivado, o Holocausto e o Arquipélago Gulag[15], seriam explicados como uma grande conspiração tramada para manter as massas em permanente estado de mobilização e à disposição do líder carismático, por exemplo, Hitler e Stálin.
Alguns autores vão dar ênfase na análise das engrenagens do regime e seus efeitos sobre o processo de decisão, o que na historiografia do fascismo denominamos de funcionalismo. Outros autores vão nortear suas análises no exercício da vontade do líder como a essência da dominação, o que denominamos intencionalismo. Porém, em ambos, o papel das massas populares, em especial da classe trabalhadora, é negligenciado. Para essas vertentes, a falta de uma verdadeira política levaria ao puro e agudo sentido de oportunismo, obrigando os regimes fascistas a lançarem mão de meios violentos, amparados em uma polícia secreta eficaz e em uma propaganda ideológica massiva. O resultado para as grandes massas seria a participação mecânica ou a militância fanática.

II.4. O pensamento arendtiano sobre o totalitarismo

Hannah Arendt, autora que advertimos, incluímos em nosso estudo entre os funcionalistas, vai fazer uma análise histórica dos motivos que levaram ao Totalitarismo. Para ela, do colapso da ordem feudal surgiu o conceito revolucionário de igualdade, segundo o qual não se podia mais tolerar uma nação dentro de outra, bem como uma segunda característica altamente significativa que seria a organização supranacional de todos os grupos europeus ligados à mesma corrente, em flagrante contraste aos seus “slogans” nacionalistas. A preocupação supranacional indicava claramente que visavam não apenas à conquista do poder político da nação, mas também almejavam – e já o haviam planejado – um governo intereuropeu acima de todas as nações.
Segundo Hanna, três décadas – de 1884 a 1914 – separam o século XIX – que terminou com a corrida dos países europeus para a África e com o surgimento dos movimentos de unificação nacional na Europa – do Século XX, que começou coma Primeira Guerra Mundial. É o período do Imperialismo, que surgiu quando a classe detentora da produção capitalista rejeitou as fronteiras nacionais como barreira à expansão econômica, expandindo-se para além das fronteiras, impulsionada pela supreprodução de capital e o surgimento do dinheiro “supérfluo”, causado pelo excesso de poupança, que já não podia ser produtivamente investido dentro das fronteiras nacionais, pois restava superada a capacidade nacional existente de produção e consumo. Após essa análise inicial, Arendt vai analisar aquilo que segundo ela seria mais antigo que o capital supérfluo, um outro subproduto da produção capitalista: o lixo humano, que a cada crise, seguindo-se invariavelmente a cada período de crescimento industrial, era eliminado permanentemente da sociedade produtiva. Esses elementos tornados ociosos de forma permanente, eram tão supérfluos para a comunidade como os donos do capital supérfluo. Ainda segunda a autora, durante todo o Século XX, reconheceu-se que ameaçavam a sociedade de tal modo que sua “exportação” foi promovida, ajudando, aliás, a povoar os domínios do Canadá e da Austrália, bem como os Estados Unidos da América. O fato novo no Imperialismo foi que essas duas forças supérfluas se uniram e abandonaram seus países de origem.
Logo em seguida, Arendt vai analisar a ralé, que para ela é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos de todas as classes sociais e, por este motivo, é comumente confundida com o povo, que também compreende todas as camadas sociais. No entanto, enquanto o povo em todas as revoluções luta por um sistema representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”, pelo “grande líder”, porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída e, principalmente, o Parlamento, onde não é representada. Excluída como é da sociedade e da representação política, a ralé recorre necessariamente à ação extraparlamentar como forma de pressão na busca de seus interesses e sempre vai recorrer à ação extraparlamentar. A ralé possuiria ainda como uma de suas características fundamentais, a inclinação de procurar as verdadeiras forças da vida política naqueles movimentos e influências que os olhos não vêem e que atuam por trás das cortinas. Nesse sentido, desde a Revolução Francesa três grupos vinham dividindo a honra duvidosa de serem, aos olhos da ralé européia, o pivô da política mundial: os judeus, os jesuítas e os maçons.
Arendt vai em seguida analisar o surgimento da ralé na organização capitalista, que para ela, foi observado desde cedo e seu crescimento foi notado por todos os grandes historiadores do Séc. XIX e o pessimismo histórico de Buckhardt a Spengler, deve-se essencialmente a essa observação. Para ela, o que esses historiadores, tristemente preocupados com o fenômeno em si, deixaram de perceber é que a ralé não podia ser identificada com o crescimento da classe trabalhista industrial e, certamente, não com o povo como um todo, pois era composta do refugo de todas as classes. Essa composição fazia parecer que a ralé e seus representantes haviam abolido as diferenças de classe e que aqueles que se haviam alienado da nação dividida em classes eram o próprio povo e não a sua distorção e caricatura. Os pessimistas históricos, segundo a autora, compreenderam a irresponsabilidade fundamental dessa nova camada social, e previram corretamente também a possibilidade de se converter a democracia em um despotismo, cujos tiranos surgiriam da ralé e dependeriam do seu apoio. Ainda segunda Arendt, o que eles não compreenderam é que a ralé não era apenas o refugo, mas também o subproduto da sociedade burguesa, gerado por ela diretamente e, portanto, nunca separável dela completamente. E por isso deixaram de notar a admiração cada vez maior da alta sociedade burguesa pelo submundo, que tão bem se percebe no Séc. XIX, seu recuo gradual e contínuo em todas as questões de moral e seu crescente gosto pelo cinismo anárquico, característico dos rebentos da ralé gerados pela sociedade. Diz ela que esse sentimento de parentesco, essa junção entre genitores e a prole, já expressa de modo clássico nas novelas de Balzac e o fato de as atitudes niilistas da ralé terem atração intelectual tão grande para a burguesia demonstra um relacionamento de princípios que vai muito além do próprio nascimento da ralé. Seguindo em sua análise, Arendt vai afirmar que o fato que o pecado original do acúmulo de capital requeria novos pecados para manter o sistema em funcionamento e isso foi mais eficaz para persuadir a burguesia a abandonar as coibições da tradição ocidental. E esse fato levou finalmente a burguesia alemã a arrancar a máscara da hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a escória, recorrendo expressamente a ela para defender os seus interesses de proprietários. Na Alemanha, onde a burguesia não atingira seu completo desenvolvimento até a última metade do Séc. XIX, sua ascensão foi acompanhada desde o início pelo crescimento de um movimento revolucionário da classe trabalhista, cuja tradição era tão antiga quanto à sua e essa conjuntura de riqueza supérflua criada pelo acúmulo excessivo de capital, levou a burguesia a requerer o auxílio da ralé para encontrar um investimento lucrativo e seguro, o que terminou por colocar em ação essa força subjacente da sociedade burguesa, oculta pelas tradições mais nobres e pela hipocrisia. Porém, essa massa, essa força política inicialmente isenta de princípios e numericamente grande, vai agir politicamente amparada por princípios totalitários.[16]

III. A DISCUSSÃO DOS ARGUMENTOS E OUTROS COMENTATADORES


III.1. O pensamento racial e a barbárie nazista

A Alemanha de Hitler cometeu o maior genocídio da História: cerca de seis milhões de judeus haviam sido mortos após o fim da guerra. Entretanto, entre as vítimas nazistas também figuravam ciganos, deficientes físicos e mentais, pacifistas, testemunhas de Jeová e adversários políticos, principalmente comunistas, além de quase três milhões de prisioneiros de guerra soviéticos e dezenas de milhões de perdas civis em todo o continente europeu. O poeta húngaro Miklós Radnóti, assassinado pelos nazistas em outubro de 1943, cunhou a expressão que melhor sintetiza o horror nazista: grandioso carnaval da morte.
Como entender os caminhos para os campos de extermínio, se os nazistas não deixaram sequer uma trilha de papel? Eichman em Jerusalém admitiu que o crime cometido contra o povo judeu foi o maior crime na História conhecida, que, no entanto, não podia ter agido de outra forma, bem como que não se sentia culpado, pois onde todos, ou quase todos são culpados, ninguém o é. A lei, na terra de Hitler, não escrita, mas que emanava da vontade do Füher era: matarás.
Tentando entender esse movimento assassino, tentaremos expor em breves linhas a origem do pensamento racial e sua influência sobre o nacional socialismo alemão e sua quase indiferença sobre os fascistas italianos até o desembarque aliado em terras italianas e a criação da República de Saló pelos nazistas.

III.2. As bases conceituais em Gobineau

Joseph-Arthur de Gobineau, que se dizia descendente dos Bourbons, nascido em 1816, publicou em 1853 seu livro “Essai sur l’inegalité dês races humaines” que cerca de cinqüenta anos depois se tornaria fundamental para as teorias nazistas da história. Gobineau acreditava que a raça humana estava fadada a desaparecer da face da Terra, profetizando a ruína e o fim da humanidade em uma catástrofe natural, bem como que a Revolução Francesa fora uma catástrofe para a França. Em sua opinião, as classes superiores francesas, as mais dignas, haviam abandonado o estado e o entregado às classes médias. Gobineau cria que a História era inteiramente determinada pela raça. Enquanto seu contemporâneo Karl Marx identificava a luta de classes como motor de mudança social, Gobineau afirmava que era a luta de raças. Na verdade, dava muita ênfase à desigualdade de raças, pois, para ele, cada uma das raças diferentes que compunham a civilização, possuía um fim e função que seria imutável, com um sub-grupo, os chamados brancos arianos, no topo dessa cadeia.
Trinta anos antes de Nietzsche, Gobineau se interessou pelo problema da decadência, havendo, contudo, uma diferença: Nietzsche vivia a experiência do declínio europeu, escrevendo concomitantemente com as atividades de Charles Baudelaire na França e de Richard Wagner na Alemanha, enquanto que Gobineau, herdeiro da nobreza francesa exilada, escreveu sua obra em um momento histórico no qual o destino da nobreza parecia traçado: o Terceiro estado era vitorioso e aos nobres somente restavam lastimações e saudosismo. Nesse sentido, é perfeitamente compreensível seu temor pelo futuro da aristocracia como casta, insistindo no caráter internacional desta, crendo que na origem do povo francês, os burgueses descendiam dos escravos galo-romanos, enquanto que a nobreza descendia dos invasores bárbaros, dos germanos.
Buscando reformular a idéia de que os melhores homens galgam, necessariamente, o topo da sociedade, tendo em vista que os nobres, classe da qual era oriundo, não tinham mais esperanças de recuperar sua antiga posição social, ele identificou a queda da aristocracia com a queda da França e com a queda da civilização ocidental e, finalmente, com a de toda a humanidade, chegando à tese central de sua obra: de que a queda da civilização se deve à degenerescência da raça e de que esta, ao conduzir ao declínio, é causada pela mistura do sangue, pois cria que qualquer que seja a mistura é a raça inferior que acaba prevalecendo. É fácil perceber que essas idéias transcendem o limite da teoria política para desaguar em racismo simplesmente. Na sua concepção de história, Gobineau descrevia o conflito entre raças fortes e raças fracas, no qual as primeiras conquistavam as segundas, porém as civilizações que criavam eram solapadas pela miscigenação, que terminavam, pela mistura do sangue, em degenerar as raças mais fortes e alçar as raças mais fracas ao Poder. O que Gobineau realmente procurou na política foi a definição e a criação de uma elite que substituísse a aristocracia, propondo em seu lugar, os arianos, que, segundo ele, corriam o risco de serem engolfados, através do sistema democrático, pelas classes não arianas. Hitler, deve ter ficado fascinado com as idéias de Gobineau, apesar de ser este último um pessimista social sinceramente sombrio, enquanto que, para o Ditador alemão, a civilização européia era o ápice do desenvolvimento humano, apoiada em uma base de sangue nórdico. A partir de um só evento político, a queda da nobreza, o conde de Gobineau extraiu duas conseqüências contraditórias, que irão influenciar fortemente o movimento nazista, que irá se estabelecer como elite racial: a decadência da raça humana e a formação de uma nova aristocracia natural.
Richard Wagner, o compositor alemão de O anel dos Nibelungos e outras obras imortais, acreditou assistir ao desmoronamento do Velho Mundo, quando os revolucionários franceses de Fevereiro de 1848 voltaram às barricadas para exigir liberdade de reunião, de imprensa e julgamento por júri popular. No entanto, quando a fumaça dos canhões se dissipou, ele pode verificar que nada havia mudado significativamente. De esperançoso, tornou-se frustrado. Obrigado a se exilar, Wagner pode refletir sobre o que dera errado. Concluiu que a burguesia alemã não reconheceu o valor da nação influenciada pelos judeus, que não podiam participar da comunidade européia, tampouco de sua cultura, pois eram incapazes de falar com correção as línguas de seus países adotivos e para ele, a língua era a alma da nação. Que é alemão, se perguntava para concluir: a cultura, não a economia estava no âmago da sociedade e a manipulação da língua e da arte pelos judeus era infinitamente mais perniciosa que o controle da economia. Para ele, o judeu comprara a alma alemã. Essas idéias serão repetidas à exaustão por um terrorista alemão após seu fracassado “Putch” da Cervejaria[17]. Em 1876, interessou-se pela obra do Conde e os dois se conheceram pouco depois, tornando-se amigos. O círculo de amizades do compositor expandiu a obra de Gobineau na Alemanha inventando a idéia de que, com seu sangue ariano, os alemães iriam salvar a civilização européia.
Nesse terreno fértil para o racismo, em uma sociedade que contava com o filósofo Friedrich Nietzsche entre seus filhos, que, como muitos de seus contemporâneos, lamentava viver em uma época de colapso geral, as idéias de Gobineau, com sua linguagem forte, não irão reverberar no vazio. Com efeito, para Nietzsche, o cristianismo produzira uma cultura média de mediocridade ao valorizar os desgraçados, os fracos, os mansos e brandos. Em contraste, passa ele a exigir um novo homem, altivo e poderoso, que evitasse essas doutrinas. É preciso, entretanto, salientar que os propagandistas nazistas arrostavam como verdade e saber vinha essencialmente de Gobineau e de uma interpretação seletiva, porém possível, de Nietzsche, pois este último, apesar ser um implacável opositor do judaísmo, opondo-se às religiões bíblicas em geral, não pode ser considerado como anti-semita, tendo em vista que, naquela altura da história, o racismo e o antijudaísmo ainda não haviam se fundido no anti-semitismo racial.


III.2. Nietzsche e A Genealogia da Moral

Escrevemos alhures que a doutrina nazista é inspirada em uma interpretação seletiva, porém possível de Nietzsche, pois este vai empreender uma crítica radical e mordaz à moral, que termina por se identificar com os valores niilistas de Hitler. Em Genealogia da Moral, com seu estilo apaixonado e ferino, fazendo uma análise histórica da moral, o filósofo afirma a incompatibilidade entre a vida e a moral, privilegiando a Grécia homérica, para ele momento em que predominaram os verdadeiros valores aristocráticos, quando a virtude, residindo na força e na potência, era a virtude do guerreiro belo e bom. Para Nietzsche, saudosista dos valores nobres, a moral dos senhores é sadia e voltada para os instintos da vida. Nesse sentido, Nietzsche irá se contrapor ao pensamento socrático-platônico e à tradição judaico-cristã, pois a moral que deriva daí é a moral dos escravos. Na luta de Roma contra Judéia, Roma sucumbiu sem sombra de dúvida, tendo em vista que a conduta moral que deriva do socratismo e do cristianismo é, sem si mesma, um sinal de decadência, pois deseja substituir o homem de carne e osso por seu reflexo, condena o universo das paixões em nome de um mundo harmonioso, totalmente imaginário. A filosofia de Nietzsche gira em torno de um deslocamento operado por ele: “Deus está morto”, logo, é preciso investir contra tudo que visa substituir falsamente. Ao contrário de que pensam seus críticos cristãos, Nietzsche não matou Deus, apenas o encontrou morto na alma de seu tempo, e nesse mundo liberto de Deus e das idéias morais, o homem se acha sozinho e sem senhor, e a partir desse momento, ele se torna responsável por tudo aquilo que vive, pois é em si mesmo que cabe encontrar a ordem e alei.
Nietzsche é de fato o profeta do niilismo. Com efeito, para ele o mundo marcha ao acaso, sem finalidade. Logo, Deus é inútil, já que ele nada quer. A partir desse momento, se não há finalidade, Deus, se o mundo não tem regras, nada é proibido, pois para proibir uma ação é preciso que haja um valor e um objetivo. Por outro lado, se nada é proibido, nada é permitido, pois igualmente é necessário um valor e um objetivo para escolher outra ação. O império da lei não é a liberdade, tampouco a disponibilidade absoluta, pois só há liberdade em um mundo codificado pelo possível e o impossível.
No entanto, na interpretação nazista, ao pedir que o indivíduo se inclinasse diante da eternidade da espécie e mergulhasse no grande ciclo do tempo, fez da raça uma particularidade da espécie e obrigou o indivíduo a se curvar diante desse deus sórdido. Com isso, trinta e três anos após sua morte, Hitler, em uma apropriação depravada, fez de sua teoria um desfile de mentiras e violência, que desembocou no terrível amontoado de cadáveres. A doutrina do super-homem levando às multidões mecanizadas que se espalharam pela Europa, à fabricação de subhomens, comandados por uma corja de incultos senhores. Mas ainda há uma ressalva: os assassinos não poderiam encontrar seus pretextos em Nietzsche? Tememos que sim, a partir de sua lógica revoltada, de seu niilismo consciente e arrebatador e de seu saudosismo aos valores aristocráticos e pré-socráticos, o nacional-socialismo alemão surge como um herdeiro transitório e renegado[18]. Porém, não desconhecemos o fato de sua irmã, Elisabeth, ao estruturar o arquivo pessoal do filósofo, haver reunido arbitrariamente suas notas e rascunhos, publicando Vontade de Potência como sua última e mais representativa obra. Também não desconhecemos que Ecce Homo, que se constitui em uma interpretação realizada pelo próprio filósofo acerca de sua obra, não se coaduna com o nacionalismo e o racismo alemão, pilares de sustentação da ideologia nazista. Finalmente, não desconhecemos os motivos de seu rompimento com Wagner e seu desprezo ao anti-semitismo. Entretanto, nos perguntamos: que conseqüências éticas pode nos legar uma filosofia, ao mesmo tempo antidemocrática e antitotalitária; ou a quem essa doutrina mais serviria, ao senhor ou ao escravo? Quando não desconhecemos o terrível fato de que a adoção de posições filosóficas irracionalistas, como no caso em tela, corresponde a adoção de posições políticas conservadoras e reacionárias, quer essas posições estejam ou não explícitas ou implícitas nas obras desses filósofos. Nietzsche investira contra Sócrates e Platão, contra Cristo, contra a Razão, a democracia e o socialismo, fazendo apologia de uma sociedade aristocrática, dividida entre senhores e escravos; Hitler investirá furiosamente contra o Iluminismo. A rebelião dos senhores havia começado e os judeus seriam arrastados para o centro dessas ideologias racistas, pela pretensão judaica de ser um povo eleito, único obstáculo realmente sério à igual ambição que encarnava o movimento de unificação étnica liderado pelos nazistas alemães. No entanto, o nazismo, em virtude da barbárie do Holocausto, ficou definitivamente marcado pelo anti-semitismo, pelo ódio ao judeu como uma ideologia estritamente racista, pois na Alemanha o anti-semitismo tomou aspecto de política de Estado, objetivo nacional. Entretanto, se não abstrairmos dos milhões de mortos - sabemos que é difícil - não entenderemos o movimento nazista que é tipicamente de direita[19].

IV. A REBELIÃO DOS SENHORES. A QUESTÃO MORAL E ÉTICA

Para entender como se tornou possível o hitlerismo e o assassinato em massa, expusemos nas linhas acima, um breve retrato das ideologias que o geraram. Entretanto, devemos admitir não foi nada fácil esse caminho, e tememos não termos sidos felizes, pois a ideologia nazista se caracteriza mais como uma atividade política prática do que como uma teoria política. Isso não quer dizer que não haja uma teoria política subjacente, que a sedimente, mas apenas que Hitler e Mussolini não eram teóricos de gabinete e, sim, homens práticos, envolvidos com a luta política cotidiana.[20]
O fascismo italiano e o nazismo alemão surgiram após a Primeira Guerra Mundial, com características semelhantes. Na Alemanha, o saldo da guerra havia sido desastroso, do ponto de vista econômico e social: desemprego, proletarização da classe média, inflação galopante, humilhação pela derrota e assinatura de um tratado de paz aviltante, alto custo de vida. A crise econômica se recrudesceu após a Grande Depressão de 1929, favorecendo a ascensão de Hitler à chancelaria do Reich alemão, que assume o cargo fazendo severas críticas ao Liberalismo, em um posicionamento contrário à liberdade do individualismo, que enfraquecia o Estado. Na verdade, o movimento nazista apenas aparentava ter um caráter revolucionário, pois em seu interior, são as forças conservadoras que se manifestam em alianças políticas com grupos ligados à grande indústria monopolista e capital financeiro, cujos interesses serão atendidos. Em troca, o Estado cuida da manutenção da ordem. Tal característica vai levar alguns filósofos marxistas, como por exemplo, Leandro Konder, a identificar no fascismo um movimento do capital financeiro, com a classe média fornecendo os elementos que formarão os quadros político-partidários. Para Konder, “o fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração de capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara “modernizadora”, guiada pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com o procedimentos nacionalistas-formais de tipo manipulatório.” Prossegue o autor, “o fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, anti-socialista, antioperário. Seu crescimento em um país pressupõe condições históricas especiais, pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar as base das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes a influência junto às massas); e pressupõe também as condições da chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, isto é, a existência do capital financeiro.”[21] Konder é levado, ao investigar quais setores sociais que financiaram o fascismo, à conclusão de que o capital financeiro estaria por trás desse movimento, tendo em vista que lhe coube, após o fim da Grande Guerra, a liderança na luta pela conservação do capitalismo e a correspondente atualização do sistema, que somente poderia ser salvo por meio de reformas que suprimissem certos estorvos remanescentes da fase de livre competição e que acentuassem a concentração de capital, aprofundando a interdependência entre os monopólios e um estado forte. Em outras palavras, o capitalismo liberal teria que dar lugar ao capitalismo monopolista de Estado.
O deputado Antônio Gramsci, em debate direto com Mussolini no Parlamento italiano, resumiu de forma brilhante o desnudamento do fascismo como um movimento conservador: o fascismo só entrava em choque agudo com os outros partidos e representações burguesas, como, por exemplo, a maçonaria, porque queria estabelecer o monopólio da representação classista. Primeiro lhes quebrava as pernas e, depois, fazia o acordo com eles em condições de evidente superioridade. No entanto, como entender o racismo e a fúria insana com que Hitler investe contra a França e a URSS em um ataque frontal aos ideais iluministas, reconhecidos tanto pelo Liberalismo quanto pelo Socialismo? Chegamos ao momento crucial de nosso trabalho, oxalá sejamos felizes nesse intuito: fazer a conexão entre o Iluminismo e sua reação tardia: Hitler, o passado expulso pela porta que retorna pela janela.
Os filósofos do Iluminismo como Diderot, Voltaire e Rousseau queriam construir uma sociedade radicalmente baseada na Razão, contrários à tradição, confiantes no poder da razão humana para construir um mundo melhor. Os ideais iluministas: tolerância religiosa, confiança no poder da razão livre, oposição à autoridade excessiva, naturalismo, entusiasmo pelas técnicas e pelo progresso se tornaram bandeiras de lutas empunhadas pelos revolucionários franceses de 1789. Com exceção de Rousseau, que preconizava o ideal do bom selvagem em contraponto à civilização, o pensamento iluminista é demasiadamente racionalista. O Iluminismo é a ideologia de uma classe em ascensão, a burguesia, que prejudicada pelo direito divino dos reis, pelas leis e costumes vigentes de uma sociedade decadente e feudal, vai apelar para a razão humana, universalizando seus interesses de classe revolucionária, utilizando-se da Filosofia como subjacente aos seus interesses políticos. No entanto, o Iluminismo ao se espraiar, ao universalizar seu racionalismo, acabará por criar duas correntes que se contestarão, duas linhas que se bifurcam para não mais se tocarem: ao levar a burguesia ao Poder, sua crítica gerará Marx e sua Revolução proletária de Outubro. Em certo sentido, Marx é filho de Rousseau, assim como a Revolução Russa é uma revolução iluminista, pois forjada sobre os princípios da liberdade e da igualdade política, que constituíram as bases teóricas dos jacobinos franceses, e inspiraram os bolcheviques de Lênin. Se Rousseau vai inspirar Lênin, Voltaire vai inspirar os ideais do Liberalismo e, por volta de 1860, uma nova palavra adentrara com força à enciclopédia: capitalismo.
Após 1914 e o fim da “Belle Epoque”, nenhum partido político mais antigo estava preparado para receber as massas populares, exauridas pela guerra, pela falta de perspectivas, e não avaliou corretamente a crescente importância de seu número e a influência política de seus líderes[22]. Esse erro político talvez seja explicado por suas posições seguras no Parlamento e por suas representações garantidas nos cargos e instituições do Estado, o que, com certeza davam a sensação de maior proximidade com o poder do que as massas. Os velhos partidos aristocráticos ou burgueses julgavam que o Estado permaneceria sempre senhor inconteste de todos os instrumentos de violência e que o Exército seria sempre a suprema instituição do Estado-nação, um elemento decisivo de resolução para todas as crises domésticas. Hindenburg, um junker[23], não escondia o seu desprezo a Hitler e os velhos partidos alemães se sentiam à vontade para ridicularizarem as numerosas formações paramilitares que surgiam sem qualquer apoio oficial, como por exemplo, os baderneiros camisas marrons das SA[24]. O colapso desse sistema partidário europeu que sustentava o liberalismo ocorreu de modo espetacular com a subida de Hitler e Mussolini ao poder.
Outros pilares das democracias européias e do socialismo soviético serão atacados: Hegel e Marx. Por um lado, o fascismo sempre alardeou que o seu ódio não era dirigido contra determinadas classes, mas contra o sistema de classes em si, o qual denunciavam como criação de Marx. Marx acreditava que na fase da história em que vivia, a humanidade estava preparada para por fim à luta de classes e criar o comunismo. Mussolini, ao contrário, cria que a luta de classes era um aspecto permanente da existência humana e que se precisava somente domesticá-la através da ação disciplinadora de uma elite de novo tipo, disposta a tudo, que ele mesmo encarnava; bem como que Marx se tinha fixado demasiadamente no confronto entre proletariado e burguesia, deixando de lado um aspecto importante: a luta entre nações capitalistas e nações proletárias, entre as quais incluía a Itália, que havia chegado atrasada à partilha do mundo levada a efeito pelas potências imperialistas. Nesse sentido, Mussolini fez da nação italiana - uma sociedade marcada por conflitos internos profundos entre o norte industrializado e o sul agrário, dividida em classes antagônicas e com uma unificação tardia - um mito, atribuindo-lhe uma unidade idealizada e fictícia, por meio do qual ocorreu a absorção do social pelo nacional. Essa fórmula veio a se tornar um dos pilares das várias espécies de fascismos, adquirindo influência em escala internacional, levando Hitler a adotá-la, com adoção desse mito se mostrando eficiente, pois tanto o fascismo italiano quanto o nazismo alemão lograram êxito em recrutar elementos em todas as classes sociais, mesmo entre aquelas que só poderiam perder com suas políticas.[25]
Por outro lado, o ataque a Hegel é frontal, pois a filosofia política deste se fundava na suposição de que a sociedade civil poderia ser mantida em funcionamento sem renunciar aos direitos e liberdades essenciais do indivíduo. Para ele, que tecia a natureza transitória de todas as formas históricas em uma teia da razão em desenvolvimento, o conteúdo do transitório continuava presente na instituição final da liberdade. O fascismo, cujas raízes estão mergulhadas no antagonismo entre a crescente monopolização industrial, o sistema democrático, o capital supérfluo e as massas desorientadas, vai estabelecer o controle totalitário de todas as relações sociais e individuais, buscando a adesão das massas pela propaganda, ou pelo terror. Logo em seguida, a aparente anarquia do mercado liberal é eliminada e o trabalho é tornado compulsório, e em alguns casos, como por exemplo, dos judeus, é simplesmente escravo.
A cultura que estava ligada ao Idealismo alemão e a Hegel, bem como ao ideário iluminista, que dava relevo à liberdade do indivíduo - mesmo que formalmente - e aos direitos privados - mesmo que dos proprietários dos meios de produção - será solapada, de modo que haverá perdas das garantias constitucionais. O homem alemão, no regime hitlerista, não terá mais a sociedade e o estado como garantidores de sua pessoa privada. Ao contrário, a sociedade amalgamada pelo totalitarismo vai se tornar um terreno minado a serviço da burocracia partidária que se constituíra como herdeira da velha classe capitalista liberal no controle do aparelho estatal alemão. Hitler vai demolir todo o arcabouço liberal da cultura, abolindo os domínios em que o indivíduo podia lutar pela igualdade jurídica e pela liberdade contratual. Nesse sentido, é compreensível o ataque a Hegel, pois a teoria política deste, subordinava o Estado, considerado como o mais alto estágio da vida social dos homens, ao direito absoluto da razão, e ainda é compreensível o desdém dos nazistas à República de Weimar, porque esta, considerada um sistema racional completo, com direitos, deveres e liberdades bem demarcados e reconhecidos, não poderia servir aos objetivos do novo regime autoritário. Na verdade, Hitler pretendia se desfazer, logo que possível, dessa forma de Estado, tendo em vista que o movimento que liderava pretendia governar diretamente, sem a intermediação do Estado, pela vontade emanada do Führer, sem as mediações que considerava desnecessárias de formas políticas às quais teriam que ceder um mínimo de garantias legais. Isso vai explicar, após a tomada do Estado alemão, o emaranhado administrativo de jurisdições superpostas, com autoridades estatais e partidárias competindo entre si, compatíveis com o darwinismo que reinava no interior do movimento nacional-socialista, que culminou com a perda de importância da burocracia estatal, à medida que aumentava o poder dos membros do partido[26]. Veja-se por exemplo o caso de Eichman, um apagado membro do partido, que terá jurisdição sobre a chamada questão judaica e solução final acima de Hans Frank, Governador da Polônia ocupada pelos nazistas.
Apesar de ser um movimento mais ligado à prática política do que a teoria, alguns ideólogos nazistas, em especial Alfred Rosenberg[27] e Carl Schmitt[28], procuravam desacreditar Hegel, pois criam que este pertencia à mesma linha filosófica que levara à Revolução Francesa de 1789 e à crítica marxista do sistema capitalista. Em Hegel, criticavam o fato de sua filosofia do estado sustentar idéias progressistas do liberalismo, o que se tornava incompatível com o estado totalitário que tinham em mente. O estado racional de Hegel, governado por leis válidas e universalmente aceitas, professando a proteção dos direitos individuais, vai se tornar o ícone contra o qual investirão esses ideólogos, pois ao sustentar o liberalismo econômico e o individualismo, terá que ser esmagado quando essa forma econômica que busca cimentar for liquidada. A tríade hegeliana, ou melhor, seus estágios da família, da sociedade civil e do estado, nos quais Hegel dividia a vida social dos homens, terá que desaparecer para, em seu lugar, poder nascer o estado totalitário. O indivíduo não deve possuir direitos, pois todos os direitos e deveres emanam da comunidade[29]. Não há mais estado e sociedade, apenas Estado, movimento fascista – que se confunda com o partido nazista – e o povo[30]. Atacando Hegel, esses ideólogos irão desconstruir seu estado como realidade política última, substituindo-o pelo movimento e liderança nazistas e, em contraponto ao Idealismo alemão, que protestava contar a sujeição do indivíduo às formas políticas e sociais dominantes, esses ideólogos vão colocar a necessidade da luta, a disciplina nacional, os códigos de honra, requerendo do homem alemão uma atitude heróica de sacrifício. Nesse sentido, esse sistema somente garantia a existência da ordem social pela conscrição forçada de todo indivíduo ao processo econômico, pelo sufocamento do livre desenvolvimento das forças produtivas. A idéia de bem estar individual, que norteava os iluministas, dará lugar à exigência do sacrifício, estimulado em benefício exclusivo da burocracia partidária.
Por outro lado, o movimento socialista, calcado em Marx, que também contestava o liberalismo, não o fazia em conjunto com as forças políticas de direita, pois era um movimento calcado nos valores do Iluminismo, da Razão. Entretanto, as forças que derrubaram os regimes liberais eram majoritariamente de direita, hostis às instituições políticas liberais e tendentes ao nacionalismo. Como característica comum à essas forças, pode-se apontar o fato de todas resistirem ao individualismo liberal e à ameaça do socialismo, possuindo como rumor, como pano de fundo, uma nostalgia melancólica de uma sociedade cavalheiresca e feudal. No entanto, o fascismo possuía uma peculiaridade que o diferenciava dos demais movimentos de direita: a mobilização das massas populares - o que era deplorado pelos partidos conservadores de modo geral, e ainda, possuía ramificações que o tornavam um movimento supranacional. Hitler era popular na Alemanha, Papen, odiado pelo povo alemão. Hitler e Mussolini eram grandes oradores e a propaganda política foi fundamental para o crescimento eleitoral tanto dos nazistas alemães, quanto dos fascistas italianos.
Os fascistas, apesar de denunciarem a emancipação liberal e serem reticentes quanto à cultura moderna, não eram de modo alguns tradicionalistas, no sentido que Franco, Churchill e Hindenburg. Nesse sentido, podemos afirmar que os fascistas eram os contra-revolucionários da Revolução Iluminista[31], conceito no qual incluímos todas as revoluções burguesas desde a Revolução Gloriosa até a Revolução Proletária Russa de 1917, pois, o Idealismo alemão, principalmente Hegel, Adam Smith e Marx, cimentaram suas bases e, talvez, assim, justifique-se o motivo pelo qual Hitler vai abrir uma segunda frente na Guerra, invadindo a URSS, em detrimento da opinião contrária de seus generais, que lhe sugeriam cautela. Seu ódio ao socialismo o faz movimentar na direção das fronteiras com a Rússia socialista, a maior e mais eficiente máquina de guerra montada na História.
Por outro lado, se não houvesse ocorrido uma expansão do movimento operário após a Grande Guerra, é possível que o fascismo não lograsse êxito, fazendo parte do folclore político, pois o fascismo também surge como uma resposta ao perigo que representa uma revolução operária como a Revolução de Outubro[32]. Eric Hobsbawm foi muito feliz em sua expressão: Lênin engendrou Mussolini e Hitler. Deveríamos acrescentar: sem o desejar. Contudo, não se deve entender o fascismo simplesmente como uma resposta do capital financeiro ao movimento operário. Esta tese, defendida por Leandro Konder, não explica o fato de haver o fascismo logrado seu êxito justamente naqueles países em que a unificação nacional foi realizada tardiamente e onde a classe politicamente dirigente havia se colapsado sem influência ou hegemonia. Nos países onde as classes econômicas permaneceram coesas, por exemplo, a Inglaterra, apesar da simpatia inicial de Churchill pelo fascismo, este não foi muito longe, não foi necessário.

V. CONCLUSÃO

É preciso retornar ao início deste trabalho, quando expusemos as condições psico-sociais que alçaram Hitler ao comando do jovem Estado alemão, para entender que havia, no contexto dos países no qual o Fascismo logrou êxito, um enorme descrédito com o velho Estado liberal, com uma massa de cidadãos vagando sem rumo, sem sentido, desencantados, descontentes, sem paradigmas, abandonados à própria sorte, que era pouco, à espera da face de seu salvador.
No entanto, é preciso ainda retornar à pergunta fundamental desse trabalho: quais conseqüências éticas que uma filosofia qualquer pode nos legar? Sem dúvida o pensamento racista de Gobineau é um dos precursores fundamentais do Nazismo alemão. Entretanto, chegamos à conclusão que o nazismo alemão é ainda um herdeiro renegado de Nietzsche. Nas linhas seguintes tentaremos fazer a conexão dessa filosofia niilista com o nazismo.
Nietzsche acreditava que a cultura ocidental, a partir de Sócrates e Platão, havia se tornado logocêntrica, ou seja, tudo e todos para que sejam como são, devem aparecer medidos pela razão. Para ele, desde o momento em que tudo que é, para ser, precisou passar pelo crivo da razão, a máxima de Hegel – todo real é racional – passou a valer como dogma indiscutível na história do ocidente. Nietzsche acreditava que não somente o real passou a ser aquilo que diz a razão, como esta passou a corrigi-lo, modificando-o e o aperfeiçoando, caso ele não correspondesse ao que deve ser. A conseqüência que se intui daí é que a razão também passou a dizer e determinar todas as transformações necessárias ao real para que ele se identifique com o teor daquilo que ela diz que o real deve ser para ser plenamente ele mesmo. Nesse sentido, há o desembocar em uma crença ilimitada no iluminismo no progresso do homem e do mundo, a partir do desenvolvimento progressivo das ciências, que são sintomas desse racionalismo ocidental.
No aforismo 125 de A Gaia Ciência[33], Nietzsche anuncia a morte de Deus, apontando uma certeza da crise do Século XIX, ou melhor, a exposição de uma evidência que permeia a cultura ocidental desse século, na qual se manifesta a derrocada do paradigma racional. Para ele, está morto este “Deus-razão”, significando dizer que a crença desenfreada na razão foi quebrada, e com esta quebra, partiu-se da mesma forma a ética até então vigente. A morte de Deus é a morte dos valores interelacionados que fundamentam a cultura ocidental, tais como: a moral cristã, a metafísica medieval, o liberalismo político-econômico, etc. Ainda como conseqüência da morte de Deus, há uma evidenciação do fenômeno do niilismo, indicando que a cultura dominante será a cultura dominada pelo Nada, onde impera a falta total de sentido e de valores na sustentação do destino do ocidente e de sua cultura. Não há mais parâmetros para nada. Conforme as palavras de Ivan Karamazov, personagem do romance Os Irmãos Karamazov de Dostoievski: “se Deus não existe, tudo é permitido.” Nesse sentido, nesse niilismo moral, as normatizações não amedrontam mais os homens e não há mais absurdos, pois se o niilismo é a palavra de ordem, está justificado o amontoado de mentiras e de falsificações de informações, que forjarão, que sedimentarão o caminho do Holocausto. A partir da constatação da morte de Deus, Nietzsche passa a praticar a negação metódica, diferentemente de Descartes, que praticava a dúvida metódica, procurando destruir tudo aquilo que esconde o niilismo dos ídolos que escamoteiam essa morte. Segundo ele, aquele que quiser ser criador no bem e no mal, deverá, em primeiro lugar, destruir os valores. Nesse sentido, o mundo marcha ao acaso, não possui finalidade[34] e Deus é inútil, tendo em vista que ele nada quer. Outrossim, privado da vontade divina, o mundo fica igualmente privado de unidade e finalidade.
Em seguida, Nietzsche investirá contra Sócrates e Cristo, afirmando que a conduta moral tal como exposta pelo filósofo grego e como recomenda o cristianismo é em si mesma um sinal de decadência, pois quer substituir o homem de carne e osso por seu reflexo, condenando o universo das paixões em nome de um mundo harmonioso, totalmente imaginário. Para ele, essa moral tradicional nada mais é que um caso especial de imoralidade. Nesse mundo liberado de Deus e das idéias morais, o homem se encontra sozinho e sem senhor. A partir desse momento, o homem se torna responsável por tudo aquilo que vive, o que paradoxalmente, é um aspecto positivo e sua doutrina. Se nada é verdadeiro, se o mundo não tem regras, assiste razão a Karamazov e nada é proibido, pois para proibir uma ação é necessário que haja um valor e um objetivo, e ao mesmo tempo, nada é permitido, pois também é necessário que haja um valor e um objetivo para escolher uma outra ação. O que se extrai daí é simples: o predomínio absoluto da lei não deságua em liberdade, porém em escravidão, pois se o destino humano não for orientado por um valor superior, mas pelo acaso, o homem marchará pelas trevas e a liberdade se tornará uma prisão voluntária de multidões mecanizadas. Nietzsche, não encontrando grandeza em Deus, não crê que ela será encontrada em nenhum lugar, sendo necessário negá-la ou criá-la.
Em certo sentido, o niilismo de Nietzsche vai desembocar em uma exaltação do mal como fatalidade, e ainda como fatalidade, trinta e três anos após sua morte, suas idéias irão autorizar, mesmo que de forma incidental, os ideais políticos daquelas multidões assustadoras de braços erguidos que se multiplicaram pela Europa a partir da Alemanha. Entretanto, não podemos deixar de sublinhar que, apesar desta conseqüência ética, há certa injustiça em legar à doutrina do super-homem a fabricação metódica de cadáveres, pois Nietzsche, um pensador aristocrático, cria que se deve duvidar de um homem que tivesse necessidade de razões para ser honesto e possuía como inimigo mortal o fanatismo, que terminou sendo umas das características mais fundamentais de sua descendência impura.
Nietzsche, mesmo que involuntariamente, teria legitimado Hitler, pois se a salvação do homem não se realiza em Deus, ela deve se dar na Terra; já que o mundo não tem rumo, o homem deve dar-lhe esse rumo, que culmine em um tipo superior de humanidade. Nietzsche anunciava o século XX, alertado pela lógica do niilismo, e sabia, que uma de suas conseqüências era o império, pois imaginava um sistema cujo único valor residia na divindade do homem. Acreditamos que Nietzsche preparava esse império, pois o nietzschismo, teoria da vontade de poder individual, estava condenado a se inscrever em uma vontade de poder total, tendo em vista que nada seria sem o império desse mundo. A esse respeito, o nazismo é apenas um herdeiro transitório, a decorrência do niilismo, erguido contra a condição humana e seu criador, afirmando o nada de qualquer moral. Rival do criador, Hitler vai procurar construir um reino puramente terrestre, em suas palavras, um Reich de 1.000 anos, em que reinaria as regras de sua escolha. Nesse sentido, o sonho profético de Nietzsche acaba suscitando, após a cidade de Deus ser arrasada, um Estado irracional e terrorista, construído sobre as bases de uma idéia de que nada tem sentido, que a história nada mais é do que o acaso da força.
Hitler e Mussolini, ao decidirem deificar o irracional ao invés de divinizar a razão, ao construírem um Estado baseado na idéia de que nada tinha sentido que a história nada mais era do que o acaso da força, perderam a guerra. Perderam? Talvez, pessoalmente sim. No entanto, o fascismo italiano terminou por unificar o Estado italiano e o liberalismo, após o fim da guerra, estava morto, e ainda, o fenômeno fascista surgiu como uma possibilidade da moderna sociedade de massas e não apenas de um período histórico determinado e já findo da aventura humana. Vide os recentes movimentos neonazistas europeus. Por outro lado, todos os movimentos que geraram a guerra desaguaram em um enorme fortalecimento do Estado e em um gigantismo do Poder Executivo, que terminou por abarcar funções inerentes ao Legislativo e ao Judiciário. Gostaria de terminar expondo um trecho de Camus: “Hitler era a história em estado puro.”[35] Acrescentando, em seguida “sete milhões de judeus assassinados, sete milhões europeus deportados ou assassinados, dez milhões de vítimas da guerra não seriam suficientes para que a história o julgasse: ela está acostumada com assassinos.”[36]

NOTAS:
[1] Primo Levi (Turim, 31/07/1919 – 11/04/1987) - Escritor e químico italiano, foi um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Juntou-se ainda jovem às forças da resistência, mas foi rapidamente capturado pelos nazistas e enviado para um campo de trabalho forçado, onde passou por situações inimagináveis para qualquer ser humano. Apesar do flagelo físico e psicológico sofrido durante um tempo em que foi prisioneiro, Levi nunca perdeu a sua dignidade, mantendo os seus ideais e não se deixando levar pelas intenções do inimigo, motivo este que o próprio diz ser a causa da sua sobrevivência. Escreveu memórias, contos, poemas, e novelas, sendo mais conhecido por seu trabalho sobre o Holocausto.

[2] Em 15 de setembro de 1935 foram decretadas por Hitler a Lei de Cidadania do Reich, a Lei de Proteção do Sangue e da Honra Alemãs e o Primeiro Regulamento para a Lei de Cidadania do Reich - este em 14 de novembro de 1935. O conjunto dessas três leis ficou conhecido como as Leis de Nuremberg, por meio das quais a condição judaica foi transformada em uma sub-condição humana na Alemanha e os judeus foram desprovidos de qualquer vestígio de direitos civis.


[3] O Estado da democracia social adquiriu na Alemanha de 1919 uma estrutura mais elaborada, que veio a ser retomada em vários países após o trágico interregno nazi-fascista e a 2ª Guerra Mundial, representando efetivamente a melhor defesa da dignidade humana, complementando os direitos civis e políticos com os direitos econômicos e sociais.

[4] A Constituição Alemã de 1919 foi instituidora da primeira república alemã. Foi dita de Weimar em homenagem à cidade da Saxônia onde foi elaborada e votada. Esta Constituição surgiu como um produto da grande guerra de 1914-1918, que encerrou o século XIX. Votada ainda no rescaldo da derrota alemã, apenas sete meses após o armistício, e sem que divisassem com clareza os novos valores sociais, e promulgada imediatamente após o colapso de uma civilização, ela ressentiu-se desde o início, em sua aplicação, dos tumultos e incertezas inerentes ao momento histórico em que foi concebida, não podendo deixar de apresentar ambigüidades e imprecisões.

[5] Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polônia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. Os campos se localizavam no território dos municípios de Auschwitz e Birkenau.
O número total de mortes produzidas em Auschwitz-Birkenau está ainda em debate, mas se estima que entre um milhão e um milhão e meio de pessoas morreram ali.
Como todos os outros campos de concentração, os campos de Auschwitz eram dirigidos pela SS comandada por Heinrich Himmler. Os comandantes do campo foram Rudolf Hoess até o verão de 1943, seguiu-lhe Artur Leibehenschel e Richard Baer. Hoess deu uma descrição detalhada do funcionamento do campo durante seu interrogatório ao final da Segunda Guerra Mundial, detalhe que complementou em sua autobiografia. Ele foi executado em 1947 em frente da entrada do forno crematório de Auschwitz I.
Durante os anos de operação do campo, perto de 700 prisioneiros tentaram escapar do campo, dos quais 300 tiveram êxito. A pena aplicada por tentativa de fuga era geralmente a morte por inanição. Geralmente, as famílias dos escapados eram presas e "internadas" em Auschwitz para serem exibidas como advertência a outros prisioneiros.
A entrada de Auschwitz I tinha (e ainda hoje as tem) as cínicas palavras "Arbeit macht frei" (o trabalho liberta). Os prisioneiros do campo saíam a trabalhar durante o dia para as construções do campo com música de marcha tocada por uma orquestra.
As SS geralmente selecionavam prisioneiros, chamados kapos, para fiscalizar o resto. Todos os prisioneiros do campo realizavam trabalhos e exceto nas fábricas de armas, no domingo se reservava para limpeza com duchas e não tinha trabalho. As fortes condições de trabalho unido à desnutrição e pouca higiene faziam que a taxa de mortalidade entre os prisioneiros fora muito grande.
Ali se encerraram centenas de milhares de judeus e ali também se executaram mais de um milhão de judeus e ciganos.
[6] - Regimes políticos montados a partir da ocupação dos territórios destes países pelo Exército alemão.
[7] . Ernst Röhm era capitão do exército imperial alemão. Com o colapso do Império Alemão e o tratado de Versalhes se uniu a Hitler nos primórdios do Partido Nazista e chefiou a SA até A Noite das Facas Longas, quando foi preso e assassinado.

[8] - Noite do dia 30 de Junho de 1934, quando Hitler desencadeou uma onda de assassinatos em massa contra os chefes da SA. Cerca de 150 chefes nazistas perderam a vida foram assassinado e líderes políticos como Hindenburg e Von Papen foram mantidos presos.
[9] Exército alemão.

[10] Crise econômica desencadeada a partir de 1929, quando da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, refletindo a crise mais geral do capitalismo liberal e da democracia liberal.

[11] No poder, Hitler conseguiu rapidamente que o Parlamento aprovasse uma lei que lhe permitia governar por meio de decretos. Em seguida, com base nessa lei, ordenou a dissolução de todos os partidos, com exceção do Partido Nazista.

[12] Como contraponto, gostaria de sugerir a leitura do discurso do personagem de Charles Chaplin parodiando Hitler no filme “O Grande ditador”.
[13] O “Risorgimento” é o período da história italiana ao fim do qual se deu a unificação da Itália sob a Casa de Sabóia, com a anexação ao Reino da Sardenha, da Lombardia, do Vêneto, do Reino das Duas Sicílias, do Ducado de Módena e Régio, do Grão-Ducado da Toscana, do Ducado de Parma e dos Estados Pontifícios. Na primeira fase do Risorgimento (1848-1849), desenvolveram-se vários movimentos revolucionários e uma guerra contra a Áustria, mas se concluiu sem modificação do status quo. A segunda fase em 1859-1860 levou muito adiante o processo de unificação e se concluiu com a declaração do Reino da Itália. A unificação se completou com a anexação de Roma, capital dos Estados Pontifícios, em 20 de setembro de 1870.

[14] Filippo Tommaso Marinetti (Bellagio - Itália, 22/12/1876 – Alexandria – Egito, 02/12/1944). Escritor, ideólogo, poeta e editor italiano. Foi o iniciador do movimento futurista, o chamado Futurismo, cujo manifesto publicou no jornal parisiense Lê Figaro em 20/02/1909.
[15] Após a Revolução de Outubro, a Rússia, entre 1918-1920, mergulhou numa violentíssima guerra civil entre os bolcheviques e os brancos (as forças czaristas), ampliada ainda mais pela intervenção de diversas potências estrangeiras. Todavia, verificou-se que, no após-guerra, o regime soviético vitorioso resolveu intensificar sua política prisional. Muitos dos primeiros campos visavam servir de laboratório ideológico, voltado a demonstrar a notável capacidade de regeneração desenvolvida pelo novo sistema, capaz de reinserir os criminosos, por meio do trabalho produtivo, na sociedade revolucionada. Stalin, inspirando-se no exemplo de Pedro, o Grande, que lançara mão do trabalho forçado para construir São Petersburgo, a partir de 1703, não demorou em fazer o mesmo. Assim, toda a antiga política czarista dos trabalhos forçados coletivos foi ressuscitada pelo novo regime só que reciclada e posta a serviço da Grande Causa. Resultou disso que, a partir de 1928, a Comissão Yanson, que transferira do Comissariado da Justiça para a OGPU (Polícia Secreta) a supervisão sobre o "degredo administrativo", decidiu batizar os campos como ITL (Ispravitelno trudovye lagerya), simplesmente campos de trabalho corretivo. As instalações existentes na ilha de Solovetsky, no Mar Branco, situado na região semipolar da URSS, foram então apontadas como um campo-modelo, arquétipo do que, desde então, foi construído no restante do país. Todo o Arquipélago Gulag surgiu dali, daquela célula prisional boiando num mar glacial. Para justificar a lotação cada vez maior deles, Stalin apelou para a justificação ideológica de que conforme o socialismo avançava por todo o país, maior era a resistência das forças contrárias a ele. Situação que o obrigava a ser ainda mais duro do que comumente era. Uma enorme rede de "campos de reeducação" espalhou-se pela Rússia Soviética, alcançando inclusive as remotas áreas da Ásia Central, como os desertos do Cazaquistão. E, claro, pelas margens da imensa estrada-de-ferro que cortava a conhecida Sibéria, a velha pátria dos degredados russos, dos antigos condenados a katorga dos tempos do czar (os condenados ao trabalho forçado).Com as prisões em massa desencadeadas e o encarceramento de milhares de suspeitos de "sabotagem" e atividades "anti-socialistas", em geral ex-membros da elite soviética e quadros médios do Partido Comunista, estima-se que o GULAG tenha abrigado, entre 1936-1940, dois milhões de prisioneiros.

[16]- Para esse estudo utilizamos amplamente de ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo, Cia das Letras, S.Paulo, 1989.
[17]Tentativa de Golpe de estado nazista liderada por Hitler em 1923.
[18] O passado do Império Romano, a glória dos impérios germânicos, as falanges hunas, ou a reconstrução do império marítimo espanhol e português foram temáticas capazes de ancorar a identidade histórica dos movimentos fascistas, que se apoderaram da história e a utilizaram sem qualquer escrúpulo.
[19] - Para Konder, direita é o gênero, do qual o fascismo é espécie. Diz ele que, em sua essência, a ideologia da direita representa sempre a existência ( e as exigências) de forças sociais emprenhadas em conservar determinados privilégios, isto é, em conservar determinado sistema sócio-econômico que garanta o estatuto de propriedade de que tais forças são beneficiárias. Daí, conclui ele, o conservadorismo da direita.
[20] G.Gentile, teórico do fascismo italiano proclamou que a prática, não importando forma ela pudesse assumir, era a verdade como tal. Segundo ele, a única realidade é o ato do pensamento. Nega-se qualquer aceitação de um mundo natural e histórico separado e exterior a este ato. Na ideologia fascista, essa identificação do pensamento com a ação, termina por evitar que haja a dicotomia pensamento-realidade. A teoria se torna prática, os fascistas louvam o antiintelectualismo e vão elaborando um processo de destruição de todas as leis e padrões racionais, um processo de destruição do Estado, substituídos pelo Partido totalitário e único, que vai tentar controlar todo o pensamento crítico e independente, substituindo o apelo à Razão pelo apelo aos fatos. Para Gentile, nenhuma verdade é reconhecida fora da prática.
[21] Leandro Konder, Introdução ao Fascismo, Graal, 3.ª ed. Pág. 21
[22] “O fascismo foi o primeiro movimento conservador que, com seu pragmatismo radical, serviu-se de métodos modernos de propaganda, sistematicamente, explorando as possibilidades que começavam a ser criadas por aquilo que viria a ser chamado de sociedade de massas de consumo dirigido.” Leandro Konder, Introdução ao Fascismo, pág. 17.

[23] Antiga classe proprietária de terras na Prússia.
[24]Milícia paramilitar nazista liderada por Ernst Rohm, antigo companheiro de Hitler, assassinado no expurgo de 1934, conhecido como “A Noite das Facas Longas”.
[25] “O recurso fascista ao mito só pode ser eficaz porque, em sua evolução, o capitalismo havia ingressado em sua fase imperialista: nos países capitalistas mais adiantados, o capital bancário havia se fundido com o capital industrial, constituindo o capital financeiro; as condições criadas nesses países exigiram deles a exportação sistemática de capitais, acentuou-se a competição em torno da exploração colonialista; e, no bojo da guerra imperialista de 1914-1918, difundiram-se em alguns países acentuados ressentimentos nacionais, análogos, à primeira vista, às mágoas dos povos explorados.” Obra cit pág. 12.
[26] Alguns historiadores chamam a atenção para o fato de que após 1937 não ter ocorrido mais nenhuma reunião ministerial do Gabinete Papen-Hitler.
[27]Teórico racial nazista.
[28]Constitucionalista, estudioso da Constituição de Weimar, aderiu ao nazismo, tornando-se um de seus principais ideólogos,
[29]Essa comunidade não é mais uma união de indivíduos livres e conscientes, mas uma entidade natural, que subordina o indivíduo completamente, pois está unificada pelo sangue e pelo solo, não se sujeitando a nenhuma norma ou valor racional.

[30] Há uma enorme distância entre as concepções hegeliana e nazista de povo. Hegel entende o povo como parte integrante do Estado que não conhece sua própria vontade, pois para ele, o povo ainda não atingiu a consciência política completa, faltando-lhe conhecimento de seus verdadeiros interesses, constituindo-se em um elemento passivo do Estado. Hegel entende ainda que uma sociedade racional pressupõe sempre que o povo tenha deixado de existir sob forma de massas e se tenha transformado em uma associação de indivíduos livres e conscientes de suas necessidades. Os nazistas não vão permitir ao povo um papel político, pois entendem que esse papel deve ser representado pela pessoa individual do líder, fonte de toda lei e direito.
[31] Esse conteúdo universalista da ideologia fascista se refletiu na eficaz teia de identidades e colaboração, inclusive de intervenção salvadora, como na Guerra Civil Espanhola e, posteriormente na Hungria, entre os diversos regimes e movimentos fascistas, muitas vezes superando adversidades históricas e nacionais. Foi assim entre a Itália e o fascismo croata, húngaro e austríaco, ou entre a Alemanha e a Itália. Como coerência interna, por outro lado, a mesma fala dos agentes, embora exclusivamente voltadas para o processo interno de fascistização de cada país, apontava seguidamente para as mesmas características, tais como: antiliberalismo, antidemocratismo e anti-socialismo. Tal coerência, com as práticas políticas repressivas daí decorrentes marcam claramente um perfil comum dos regimes no poder em Berlin, Roma, Madrid ou Budapeste.

[32]Foi esta coerência interna do fascismo que permitiu o surgimento da resistência antifascista, cuja condição prévia para reunir liberais, católicos, comunistas e socialistas foi, exatamente, o discurso unificado do fascismo, sua face anti-universalista, contrária a herança européia-iluminista.
[33] - NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, Cia das Letras, S.Paulo, 2002.
[34] Nietzsche cria que o mundo não persegue nenhum fim, ou seja é fortuito, casual, acidental. Logo, posso concluir que o mundo é divino. É interessante perceber que por esse viés, posso introduzir a divindade do homem, tendo em vista que se existe um Deus, como suportar o fato de não sê-lo. Aí surge uma angústia, que não é o objetivo desse Trabalho.
[35] Camus, Albert, O Homem revoltado, Record, Rio de Janeiro, 1996, pág.217.
[36] Ibidem

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