quarta-feira, novembro 08, 2006

POLÍTICA

A crônica dos derrotados
Arnaldo Jabor passou todo o período eleitoral enfiando o cacete em Lula e no PT com seu peculiar estilo. Após o segundo turno, em sua primeira coluna publicada em 31/10/2006, Jabor, imaginando-se doente em coma após muitos anos, faz previsões catastróficas para o país após o segundo governo Lula, terminando com uma conclusão para lá de derrotista: “reencontramos nosso destino de toupeiras, de vira-latas...” Essa crônica beira a insanidade e, em certa medida, reflete bem o espírito do articulista naquele momento: desnorteado com a vitória acachapante de Lula e do PT, que elegeu um bom número de parlamentares e governadores, enterrou o PFL na Bahia e foi para o segundo turno levando sua militância novamente para as ruas.
A segunda crônica pós-eleitoral, publicada em 07/11/2006, não tão desvairada quanto à primeira, mas igualmente perniciosa, determina o destino de Lula: ou vai ser liberal como JK, ou será derrubado como Jango. Detecta o articulista que há dentro do Governo e do PT, uma luta intestina “entre um desenvolvimentismo sensato e a porra-louquice truculenta de “bolchevistas-dirceuzistas.” Escreve ainda que havia na constituição do PT dois grupamentos que se juntaram: os derrotados de 64 e 68 e os novos sindicalistas cujo resultado foi o mensalão, do qual Roberto Jefferson nos salvou!? Depois a trapalhada do dossiê Tabajara. Ou seja, de primeiro mandato de Lula somente sobraram mensalão e dossiê.
Jabor se sente autorizado a emitir julgamentos sobre qualquer assunto simplesmente porque escreve. Perfeito discípulo do garganta FHC, que vive detratando seus opositores os descredenciando: Tarso Genro não é um intelectual honesto, Marta Suplicy nunca foi boa de análises políticas, nhém nhém nhém, neo-bobos, etc. O articulista, que realizou importante trabalho quando cineasta, é um tagarela universal, um curioso incorrigível e um pedante de carteirinha, que, crendo-se informado acerca de tudo e opinando imediatamente sobre tudo, julgando com pressa e definitivamente, sem nenhuma honestidade intelectual ou rigor científico, tudo que acabou de acontecer, termina por prestar um desserviço aos que o lêem e ao país. É impressionante o fato de Jabor compreender tudo, “ele é o homem que sabe de tudo,” como o antigo bordão humorístico. Não possui nenhuma dúvida acerca de nada e compreende tão rapidamente os acontecimentos históricos que não tem tempo para pensar em nada. Creio que Arnaldo Jabor não está compreendendo nada. Suspeito que essa compreensão pelo faro, sempre bem informado acerca de tudo que ocorre nos bastidores da política, não passa do plano do entendimento muito característico dos ideólogos da Ralé, que termina reduzindo o fazer político à impotência, ou ao golpe direitista. Seus raciocínios são de uma simplicidade tacanha. Falando de Política, ele fala de Ética; quando se dirige à Ética, já é de Ontologia que ele está falando; quando se arrisca na Ontologia, está confundindo-a com a Poesia; e, quando resolve dizer qualquer coisa sobre Literatura, retornou à Política. É típico do articulista essa mobilidade, que chega a ser decepcionante para quem gosta de debater idéias.
As críticas no período eleitoral não fogem à regra: são bizantinas, não engendram o debate, são críticas vãs de quem não quer debater, escritas em um tom acima da média intelectual honesta e rigorosa, com estilo excessivo, prolixo, repetitivo ao extremo, que nos levam a crer que o articulista não entende nada de política. Falta-lhe cultura filosófica, deficiência que se reflete no que diz, confunde Apolônio de Tillia com Jesus Cristo. Jabor, assim como a elite brasileira, não pensa, e, pior, não sabe que não pensa. Deveria, se tivesse coragem para tanto, deixar o palco, largar a glória fácil da crítica midiática e vir para o andar de baixo, para a práxis política. Mas, sendo porta-voz de quem é, é perfeitamente compreensível que não aceite esse desafio, porque no fundo, ele despreza o povo brasileiro, acredita que o problema do Brasil é o povo que Deus colocou aqui.
É bastante sintomático que seu chefe não tenha se candidatado a nenhum cargo eletivo majoritário, mesmo que este saiba que não tem mais votos para se eleger Governador ou Senador pelo Estado de São Paulo. Restava-lhe uma eleição certa para Deputado Federal, porém isso seria decadência demais para o Príncipe dos Sociólogos Brasileiros. Em vista dos fatos, seu chefe optou pelo renome, deixando o articulista órfão, pois aquilo que sucede o renome, ou seja, a reputação, estava irremediavelmente perdida, em frangalhos. Levou Alckmin para o buraco.
Como diria um antigo professor meu: esse é o quadro. Jabor e FHC tentam levar desesperar a opinião pública, ou melhor a classe média, que tem o interesse público sempre desperto e que vê interesse em tudo ao mesmo tempo, ou seja, que não se interessa por nada em profundidade. Há clara intenção de se contrapor a vontade de 60 % do eleitorado brasileiro que votou em Lula. É golpe! Essa fala indeterminada dos dois, sem começo, meio, ou fim, contra um governo popular reeleito democraticamente após 19 meses de massacre na mídia, tenta cooptar os distraídos. Esse rumor surdo, incessante e instável, permeado de insanidade, autoriza uma leitura catastrófica: quer derrubar Lula. Sabem que perderam feio e que é provável não ter retorno ao status quo ante. O articulista onisciente sabe que emergiu, perigosa e penosamente, no teatro político brasileiro um novo ator. Com a palavra os 60 milhões de eleitores de Lula.

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