quinta-feira, novembro 30, 2006

CINEMA

DURVAL DISCOS


Recomendo o filme DURVAL DISCOS de Anna Muylaert. A sinopse do jornal O Globo é simples: “Comédia dramática. Apesar de já ter chegado aos 40 anos, Durval ainda mora com a mãe em casa conjugada à sua loja de discos de vinil em São Paulo. O filmes ganha nuanças diferentes com a chegada de uma empregada e o posterior sumiço dela e todas as conseqüências disso.” Para o crítico J.B., ainda segundo o mesmo jornal, o filme é um equívoco total, quer se original e consegue ser perdido. “Quer divertir e irrita.”
Não se deixe levar por essa crítica tão destrutiva e fora de lugar. O filme é ótimo. Durval, o personagem que dá nome à película é um vendedor de discos de vinil, os antigos elepês, que resiste às mudanças, como por exemplo: se vestir conforme os anos 90; cortar os cabelos; e passar a vender cedês. O personagem parece um adolescente dos anos 70, mas envelhecido e decadente. Conforme narra a sinopse, apesar passar dos 40 anos, Durval ainda mora com a mãe, com a qual divide um universo fechado, claustrofóbico e empoeirado. A rotina dos dois é radicalmente alterada pela empregada, e a situação daí para frente se modifica drasticamente. O que até então parecia uma comédia romântica, torna-se pesado, com uma atmosfera carregada, mas ainda assim ágil. O personagem principal, sem perceber, vai se tornando prisioneiro de uma situação para o qual visivelmente não estava preparado.
Gostaria de traçar um contraponto entre DURVAL DISCOS e ALTA FIDELIDADE do diretor Stephen Frears, com John Cusak como ator principal. Neste último, o protagonista também é um vendedor de discos fracassado, sem projetos e entediado, que, abandonado pela namorada, busca saídas para o impasse que se formou entre seu futuro sem projetos e a perda das referências do passado. A diferença entre ambos é que ALTA FIDELIDADE é norte-americano e DURVAL DISCOS é o Brasil. Fracassado aos 40 anos, resistindo bravamente ao novo (à globalização?). O drama do personagem de Cusak é existencial, o de Durval também é, mas a saída para ambos é completamente diferente: um pela reconciliação com a namorada e com o futuro; o outro pela demolição do passado, do seu mundo, sem substituto visível, ou viável. Durval é o Brasil que fracassou como país, dependente de investimentos externos, sem conseguir um desenvolvimento sustentado em suas próprias forças internas, elegendo um Presidente de esquerda, porém com os braços amarrados pelo Capital internacional.
Nada tenho contra a reconciliação amorosa do personagem capital de ALTA FIDELIDADE, mas o drama de Durval é o drama do Brasil, que não conseguiu crescer, que precisa ser demolido para se construir de novo, como querem alguns setores do PT, ou tijolo por tijolo num desenho lógico, como parece querer outros setores do Partido de Lula.
Durval, no final do filme, antecipando metaforicamente o Brasil, dá uma respirada longa de alívio pelo rompimento com aquele mundo cinzento. “Você não está entendendo,” diz a mãe de Durval repetidas vezes, que, ao romper as correntes invisíveis que o aprisionavam naquele cosmo doentio, pratica o ato necessário para seu amadurecimento como homem. DURVAL DISCOS é a metáfora do Brasil, que, como metáfora, precisa também romper as amarras invisíveis que o prendem ao passado. Termino recomendando os dois filmes, que já estão disponíveis em algumas locadoras: DURVAL DISCOS e ALTA FIDELIDADE, o segundo, um filme divertido, sensível e alegre. O primeiro, uma reflexão bastante inteligente acerca do Brasil.

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