sábado, outubro 28, 2006

POESIA

HOMENAGEM À ANA CRISTINA CESAR

Há 23 anos, em 29 de outubro de 1983, morria Ana Cristina Cesar, poeta da geração mimeógrafo surgida no Rio de Janeiro na década de setenta. Não vi no caderno literário de O Globo nenhuma referência a esta data. Talvez essa geração de escritores ainda não tenha sofrido uma avaliação mais isenta. Por este motivo, estou postando dois poemas de ACC e uma pequena homenagem que escrevi para ela em 1998. A poesia de ACC possui um toque de prosa simples, coloquial, com ritmo. Sua musicalidade intríseca agrada imensamente aos ouvidos. É bom lê-los em voz alta, respeitando rigorosamente a pontuação e a respiração do outro lado da letra - como do outro lado do espelho.


SETE CHAVES

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história
passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate
incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me
aconselhas como uma marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou
tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:É daqui que eu tiro versos, desta festa - com arbítrio
silencioso e origem que não confesso - como quem apaga
seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o
ponto e as luvas.

(...)

INVERNO EUROPEU

Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é
desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo
inicial.
Recomendo cautela. Não sou personagem do seu livro e nem
que você queira não me recorta no horizonte teórico da década
passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão
legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas?
Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e
indiscretíssima descalço as luvas ( no máximo ), à direita de
quem entra.

(...)

O poema abaixo foi escrito por mim em 1998, para homenagear esta poeta da geração anterior a minha, que influenciou meu modo de encarar e de escrever poesia.

TOP SECRET

É preciso ter a chave
Na mão, urgente

Para abrir esse cadeado
ìntimo, segredo

Top secret
Dou you believe it?

Ou o poema jardim
A chave, onde?

No sonho que se repete,
Nos barcos singrando o Rio,

Nos cavalos-faróis
Iluminando as margens.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home