terça-feira, outubro 03, 2006

POESIA

No dia 31/10/1902, Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira. Não vejo na mídia nenhuma referência ao nosso Poeta Maior. Esse blog pretende, durante o decorrer do mês de outubro, publicar textos do próprio, bem como outras homenagens. Iniciamos hoje com um poema escrito em 1987 para homenagear nosso querido Drummond.

O DEFUNTO
Para Carlos Drummond de Andrade
I
O verso manco e flavo te iludiu
Na enorme noite, plena, sideral, expectante.
Caminhavas ereto e sob teus pés
Reluziam mundos, favelas,
Caldo de homens e dejetos
No escuro de Deus, ou dejetos de Deus?
O verso era de ouro ou latão ilusão?

Atravessas a noite no cais
Sob teus pés nunca se criou limo,
Cogumelo tua pele em fotossíntese,
Teu caos em sete faces
Sete mortes abertas pela faca das correntes.

II
Jamais fostes ilusão ou serpentina
Era o macróbio ansiando o leito eterno,
A morte eterna, social.
Mas atravessavas as ruas soltas
E te embriagavas de anônimos transeuntes
Como um Deus, eras Zeus?
Deus dos santos, Javé anfitrião?
Nada respondes.
O verso era ilusão, de pó,
Teu poema, humana travessia.

O leito úmido calafeta a solidão
Dos versos mancos, marcados
Versos mancos com sofreguidão
Transformam-se em sono.

III
As memórias atulham
Os entulhos escorrem pelo chapéu
Onde outrora escorria mel
Hoje há desencontro.

O verso escorre, a noite morre
Experiências e temas são abordados
Mas a tarde é o bastante
E a noite não resolve o grito,
E a morte é um castigo da ilusão
De um verso perdido, flavo, revolução.

IV
O entardecer já não basta
E ao amanhecer tomas o trem sem direção
A cada poste telegráfico rompes a comunicação
Graficamente, poeta te calas
Favelas te olham
As vezes te pedem coisas,
Em outras desejam te dar
Mas o verbo já faz parte do leito espiralado.

V
O verso manco te perdeu
No teu abandono ainda podes sorrir
E de escárnio rolas pelos degraus de Proust
E de Nava, verso de coxa flava
E patas que dantes inflamavam.

Poderia dar adeus em reticências
Aos nômades poetas dar às costas
E esfumaçar, mas teu abandono
Também já é parte do leito
E o verso defunto no fundo do ataúde
Sorri dente de ouro, ou marfim
Pele de cetim, ou diamante.

VI
O defunto passeia diante dos meus dedos
Meus são versos poucos de amplitude,
De milharal, de pó-de-ferro,
De montanhas submersas, pulverizadas.
Já não importa, a palavra é cacto
Existir é cristal, nem morrer é o bastante.

Perdeu-se a poesia
Perderam-se as palavras
Ora perdidas, ora desencontradas
Já não sofrem, mas pulsam em degredo
Dejetos fazem ruir velhos castelos
E acasteladas são pálidas vestais
Do início do outro século
Mas mentir já não podes, ou não sabes?

VII
O verso era de ouro,
O defunto que passeava pela praia
Em um econômico inverno, flácido, lúcido
Lucidez? Ou divagação?
Já não importa saber se o verso
Era manco, cristal ou mal
Versos maus atacam, indiferença.

Macróbio, macróbio, macabro
Bruxo medieval das palavras
Que o vento esqueceu,
Tu és esquecimento
Cimento sobre o jardim
Cimento sobre mim.

VIII
O verso era de tolos ouros
Cristais, ou sais demais em um mar de jasmim
Mas jaz em mim aquele ragtime
Que os negros dançavam suados em New Orleans
Que nos exportavam como se os baticuns
Fossem mais importantes que nossos negros tantãs.

O verso era manco de tanto ouro,
Hoje é Minas, é Itabira, é solidão.


Celso Gomes

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