terça-feira, outubro 31, 2006

POESIA

Hoje se comemora o nascimento de Carlos Drummond de Andrade, nascido em 31/10/1902 em Itabira, Minas Gerais. Para não deixar passar em branco data tão importante, esse blog está postando um poema de autoria de CDA, que trata de um assunto bastante atual em face do acidente com o avião da Gol. Por outro lado, alertamos ao leitor para o fato de a morte de mais de uma centena de pessoas, segundo denúncias que circularam na rede, ter sido preterida no noticiário da maior emissora de televisão deste país, que preferiu fazer campanha política de forma ilegal e imoral, mostrando o dinheiro do dossiê. O último verso de Drummond deveria ter sido lido por Ali Kamel e seus pares na faculdade de jornalismo. Boa leitura.


MORTE NO AVIÃO

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.

Não morrerei agora. Um dia
inteiro se desata à minha frente.
Um dia como é longo. Quantos passos
na rua, que atravesso. E quantas coisas
no tempo, acumuladas. Sem reparar,
sigo meu caminho. Muitas faces
comprimem-se no caderno de notas.

Visito o banco. Para que esse dinheiro azul se algumas horas
mais, vem a polícia retirá-lo
do que foi meu peito e está aberto?
Mas não me vejo cortado e ensangüentado.
Estou limpo, claro, nítido, estival.
Não obstante caminho para a morte.
Passo nos escritórios. Nos espelho,
Nas mãos que apertam, nos olhos míopes, nas bocas
que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo.
Não me despeço, de nada sei, não temo:
a morte dissimula
seu bafo sua tática.

Almoço. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme.
É meu último peixe em meu último
garfo. A boca distingue, escolhe, julga,
absorve. Passa música no doce, um arrepio
de violino ou vento, não sei. Não é a morte.
É o sol. Os bondes cheios. O trabalho.
Estou na cidade grande e sou um homem
Na engrenagem. Tenho pressa. Vou morrer.
Peço passagem aos lentos. Não olho os cafés
Que retinem xícaras e anedotas,
Como não olho o muro do velho hospital em sombra.
Nem os cartazes. Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,
Embora vá morrer.

O dia na sua metade já rota não me avisa
Que começo também a acabar. Estou cansado.
Queria dormir, mas os preparativos. O telefone.
A fatura. A carta. Faço mil coisas
Que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos.
Comprometo-me ao extremo, combino encontros
A que nunca irei, pronuncio palavras vãs, minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.

Declino com a tarde, minha cabeça dói, defendo-me
A mão estende um comprimido: a água
Afoga a menos que dor, a mosca,
O zumbido...Disso não morrerei: a morte engana,
Como um jogador de futebol a morte engana,
Como os caixeiros escolhe
Meticulosa, entre doenças e desastres.

Ainda não é a morte, é a sombra
Sobre edifícios fatigados, pausa
Entre duas corridas. Desfalece o comércio atacado,
Vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros.
Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons,
mil outras profissões. A cidade
muda de mão, num golpe.

Volto à casa. De novo me limpo.
Que os cabelos se apresentem ordenados
E as unhas não lembrem a antiga criança rebelde.
A roupa sem pó. A mala sintética.
Fecho meu quarto. Fecho minha vida.
O elevador me fecha. Estou sereno.

Pela última vez miro a cidade.
Ainda posso desistir, adiar a morte, não tomar esse carro. Não seguir para.
Posso voltar, dizer: amigos,
Esqueci um papel, não há viagem,
Ir ao cassino, ler um livro.

Mas tomo o carro. Indico o lugar
Onde algo espera. O campo. Refletores.
Passo entre mármores, vidro, aço cromado.
Subo uma escada. Curvo-me. Penetro
No interior da morte.

A morte dispôs poltronas para o conforto
Da espera. Aqui se encontram
Os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
Pequenos serviços cercam de delicadeza
Nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
Meu fim particular e limitado,
Somos vinte a ser destruídos, morreremos vinte,
Vinte nos espatifaremos, é agora.

Ou quase. Primeiro a morte particular,
Restrita, silenciosa, do indivíduo.
Morro secretamente e sem dor,
Para viver apenas como pedaço de vinte,
E me incorporo todos os pedaços
Dos que igualmente vão perecendo calados.
Somos um em vinte, ramalhete
De sopros robustos prestes a desfazer-se.

E pairamos,
Frigidamente pairamos sobre os negócios
E os amores da região.
Ruas de brinquedo se desmancham,
Luzes se abafam; apenas
Colchão de nuvens, morros se dissolvem, apenas
Um tubo frio roça meus ouvidos,
Um tubo que se obtura: e dentro
Da caixa iluminada e tépida
Em conforto e solidão e calma e nada.

Vivo
Meu instante final e é como
Se vivesse há muitos anos
Antes e depois de hoje,
Uma contínua vida irrefreável,
Onde não houvesse pausas, síncopes, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cada vez maiores de ar.

Sou vinte na máquina
Que suavemente respira,
Ente placas estelares e remotos sopros de terra,
Sinto-me natural a milhares de metros de altura,
Nem ave nem mito,
Guardo consciência de meus poderes,
E sem mistificações eu vôo,
Sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
Ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
Carne em breve explodindo.

Ó brancura, serenidade sob a violência
Da morte sem aviso prévio,
Cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico,
Golpe vibrado no ar, lâmina de vento
No pescoço, raio
Choque estrondo fulguração
Rolamos pulverizados
Caio verticalmente e me transformo em notícia.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, outubro 28, 2006

POESIA

HOMENAGEM À ANA CRISTINA CESAR

Há 23 anos, em 29 de outubro de 1983, morria Ana Cristina Cesar, poeta da geração mimeógrafo surgida no Rio de Janeiro na década de setenta. Não vi no caderno literário de O Globo nenhuma referência a esta data. Talvez essa geração de escritores ainda não tenha sofrido uma avaliação mais isenta. Por este motivo, estou postando dois poemas de ACC e uma pequena homenagem que escrevi para ela em 1998. A poesia de ACC possui um toque de prosa simples, coloquial, com ritmo. Sua musicalidade intríseca agrada imensamente aos ouvidos. É bom lê-los em voz alta, respeitando rigorosamente a pontuação e a respiração do outro lado da letra - como do outro lado do espelho.


SETE CHAVES

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história
passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate
incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me
aconselhas como uma marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou
tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:É daqui que eu tiro versos, desta festa - com arbítrio
silencioso e origem que não confesso - como quem apaga
seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o
ponto e as luvas.

(...)

INVERNO EUROPEU

Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é
desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo
inicial.
Recomendo cautela. Não sou personagem do seu livro e nem
que você queira não me recorta no horizonte teórico da década
passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão
legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas?
Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e
indiscretíssima descalço as luvas ( no máximo ), à direita de
quem entra.

(...)

O poema abaixo foi escrito por mim em 1998, para homenagear esta poeta da geração anterior a minha, que influenciou meu modo de encarar e de escrever poesia.

TOP SECRET

É preciso ter a chave
Na mão, urgente

Para abrir esse cadeado
ìntimo, segredo

Top secret
Dou you believe it?

Ou o poema jardim
A chave, onde?

No sonho que se repete,
Nos barcos singrando o Rio,

Nos cavalos-faróis
Iluminando as margens.

terça-feira, outubro 24, 2006

POLÍTICA

A política dos tribunais ameaça governabilidade


O país vive hoje um momento em que estão sendo substituídas as "vivandeiras de quartel", que atuavam no passado, pelas atuais "vivandeiras de tribunal", diz o cientista político Renato Lessa, do Instituto Universitário de Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj).
Segundo ele, nos governos de João Goulart e de Juscelino Kubitschek havia aqueles que rondavam os quartéis para incitar os militares a golpes de Estado. Agora, o país vive o que Lessa chama de "tribunalização" do conflito político, com as "vivandeiras de tribunais" que podem ir buscar na Justiça a vitória que não tiverem nas urnas.
Para Lessa, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito no dia 29 de outubro, a disputa continuará, pois estão mobilizados os tribunais, com o Ministério Público e a Polícia Federal realizando investigações. "Vamos ter um descompasso entre a competição política e o resultado investigativo criminal e jurídico", diz.
Ele defende que, passadas as eleições, esse "jogo político tem de ser zerado, uma vez que juridicamente não pode zerar". Mas é taxativo: destaca que não está querendo livrar o PT, "que na melhor das hipóteses cometeu sandices, e na pior das hipóteses, crimes que precisam ser investigados".
Nesta entrevista, o cientista político comenta, também, o que considera erros e acertos das campanhas tucana e petista. Para ele, o Rio de Janeiro tem sido decisivo, com Geraldo Alckmin realizando alianças equivocadas e Lula conquistando o apoio da maioria dos partidos. A seguir, os principais pontos da entrevista concedida ao Valor:

Valor: O candidato do PSDB conquistou mais votos no primeiro turno do que os institutos apontavam. O que aconteceu agora?
Renato Lessa: Não deixou de ser um pouco surpreendente o desempenho de Alckmin no primeiro. Temos que recuar um pouco e entender o processo. Na construção da candidatura, o grão-tucanato não emprestou efetiva adesão. Não foi o primeiro time tucano que se apresentou para disputar a eleição. Havia um entendimento tácito de que oito anos tucanos seriam seguidos de oito anos do PT. Agora complicou um pouco, mas achava-se que se viveria este tipo de circulação. PSDB com PMDB e depois PT com PMDB, PMDB sempre, mas um pouco por aí. A modernidade política passaria por essa circulação entre PT e PSDB. O presidente bem avaliado, concorrendo no cargo, dá um diferencial de vantagem eleitoral extraordinário. Mesmo que não seja em função de coisas criminosas como a utilização da máquina pública, a própria exposição estabelece uma diferença. A imprensa tem que cobrir o presidente e o candidato, o que o coloca em exposição duas vezes mais do que o adversário. Tudo isso acenou para os tucanos um cenário de que a possibilidade de ganhar essa eleição era muito pequena. A despeito disso, Alckmin, obstinadamente, viu que aquela era a chance dele, agora em 2006 e não 2010, pois nas próximas eleições teria que se ver, no mínimo, com Aécio (Neves) e (José) Serra. Alckmin perseguiu obstinadamente, trabalhou, militou e impôs seu nome ao partido. Ainda assim, quando a campanha do segundo turno começa, a percepção tucana ainda é relativamente pessimista.

Valor: Por que dossiê perdeu o fôlego?
Lessa: O que incensa o Alckmin no final da campanha (do primeiro turno), do meu ponto de vista, foi a coleção de sandices que a outra campanha apresentou. A subida final na última hora do primeiro turno deu-se exatamente entre os eleitores indecisos. Ele não tirou votos do Lula. Os votos vieram da turma que estava esperando para ver. Essa turma que foi muito afetada pela ausência do Lula no debate (na televisão) e também pelo escândalo do dossiê, a presença da delinqüência na política que preocupa os eleitores, não só os mais conservadores, mais moralistas, mais udenistas, mas os eleitores republicanos que prezam a legalidade, até gente de esquerda que votou no Lula no passado. Esses indecisos são de uma turma que não se transformou em eleitor do Alckmin para toda vida. Entraram no processo eleitoral para forçar o segundo turno. Não pode ser entendida como eleitorado do Alckmin na segunda rodada. Podemos mencionar que foi um voto para que houvesse segundo turno.

Valor: Não seria lógico o Alckmin continuar crescendo no segundo turno?
Lessa: Não, começou uma outra eleição. Começou a campanha efetivamente. Antes foi uma corrida. Cada um na sua raia. Agora, vamos ter um confronto. Nesse confronto o PSDB entrou de maneira muito errada. O erro local foi no Rio de Janeiro. A aliança com Garotinho foi desastrosa. O discurso do diga-me com quem andas e eu direi quem és foi rapidamente desmoralizado. Foi substituído pelo discurso: apoio não se discute, apoio se aceita. Vale uma coisa ou outra? Comparativamente, a entrada do Lula no Rio de Janeiro foi a melhor possível. Conquistou o apoio do Sérgio Cabral (candidato a governador pelo PMDB e líder nas pesquisas) do PT, do PP, de (Francisco) Dornelles, Marcelo Crivella do PRB, PCdoB e um pedaço do PV, representado pela Apásia Camargo.

Valor: Foi a confrontação dos discursos que aumentou a diferença pró-Lula na pesquisa do Datafolha?
Lessa: Acho que um problema grave ficou claro no debate, que foi a extrema agressividade do Alckmin. Antes de tudo, tem um aspecto fundamental de tratar-se de um debate onde participa o presidente da República. As pesquisas qualitativas mostraram que não houve aceitação, apesar da euforia tucana do tipo "nós batemos nele". O eleitorado não acompanhou esse tipo de avaliação. (...)

Valor: E Lula, por outro lado, lucra ao investir no discurso da proteção?
Lessa: Exatamente. Ele diz: nós já incluímos 11,5 milhões e vamos incluir mais. Fala que as pessoas estão comendo. As coisas estão acontecendo. Vi na imprensa as curvas de famílias que ainda estão na área de indigência e pobreza. Chegam no pico em 2002 e depois caem. Política não é só fantasia. Alguma coisa aconteceu, sobretudo na população pobre, que gerou a percepção "nunca antes neste país" - para pegar o bordão do Lula que ele adora -, alguma coisa foi revertida. Está longe de ser um paraíso, a situação continua desastrosa, estamos ainda na terceira divisão. As denúncias de corrupção acabam passando longe.
(...)

Valor: Na sua opinião, o discurso do PT de que o governo FHC dilapidou o patrimônio da nação está sensibilizando o eleitor?
Lessa: Aí tem o uso do terror na política. Isso acontece em qualquer campanha, é inevitável. Mas tem o fato de que as privatizações foram feitas, algumas delas, de maneira muito rápida e não se tem claro uma percepção do custo benefício disso. O eleitor acha que alguém colocou a mão no dinheiro da privatização. A idéia da privatização, do jeito que foi feita, foi com ânimo bolchevique de direita de mercado, de convencidos que eram portadores da modernidade. O governo (Margaret) Thatcher não privatizou desse jeito. Ela segmentou no tempo. O eleitor do Lula vê no Estado um agente de organização da sociedade, de normatização. Para eleitor pobre do Lula, isso significa malha de proteção. Para os de nível universitário, significa uma concepção de Estado nacional.

Valor: O senhor acha que Lula, eleito presidente, pode vir a enfrentar problemas de governabilidade?
Lessa: Antes disso quero voltar atrás. Não é só o desempenho eleitoral do Alckmin, não se deve apenas ao que ele está fazendo, mas também a como a oposição ao Lula, de um modo geral, está se comportando. A gente tinha no Brasil as vivandeiras de quartel, a turma de direita de quando tinha um governo populista. Começavam a rondar os quartéis para incitar os militares a darem um golpe, na época do Juscelino e depois, na do Jango. Agora temos uma outra figura, as vivandeiras dos tribunais, que querem a tribunalização do conflito político. Não estou querendo livrar o PT, que, na melhor das hipóteses, cometeu sandices, e na pior, crimes que precisam ser investigados. Mas o discurso da oposição é marcado fundamentalmente para a tribunalização da política. Sugere a criação das vivandeiras de tribunais, que vão buscar na Justiça a vitória que não vão ter nas urnas. Eles têm razão, em grande medida, sobre os que estão acusando, coisas graves aconteceram, mas não significa dizer que os resultados da tribunalização da política são resultados bons. Podem ser terríveis. É um dilema política e ético de não pequena monta: levar a eleição para o tribunal. A eleição vai acabar no dia 29 de outubro e essa pendência vai continuar. Os tribunais estão mobilizados a dizer coisas, o Ministério Público e a Política Federal estão investigando. Vamos ter um descompasso entre a competição política e o resultado investigativo criminal e jurídico. O que vai valer ao final? O presidente vai ser eleito pelo voto popular e seu mandato será confirmado? Essa é uma situação muito grave, que viola o hábito da democracia. O candidato que tem mais votos governa. O que está se colocando agora? O que tem mais votos ganha a eleição, mas governará se os tribunais assim o decidirem. É uma questão difícil, porque esse tipo de consideração que estou fazendo não é para dar margem a pensar que eles não fizerem nada. Fizeram efetivamente. Mas é para chamar a atenção de que existem duas linguagens diferentes. A linguagem jurídica tem que ter um apego inegociável com a idéia de verdade. Quando se começa o processo jurídico, o que se quer é a verdade. Punir quem fez as coisas e absolver quem não fez. A dinâmica política não tem a ver com a verdade, e sim com história política, coalizão, estabilidade e base para poder governar. Quando essas duas coisas andam juntas, maravilha. Mar de almirante. Mas nem sempre ficam juntas. A pergunta que fica para o futuro imediato é como o país vai ser governado.

Valor: Mas qual é a saída?
Lessa: Tem que zerar esse jogo politicamente. Claro que juridicamente não pode ser zerado. O que pode gerar no país um processo de investigação do passado que não tem fim. Evidentemente que vão descobrir coisas, porque a relação entre dinheiro e política neste país está estragada há muito tempo. Não estou dizendo isso para naturalizar a delinqüência não, é que é preciso gerar condições políticas para que haja governo. Os termos da adequação não sei como podem ser feitos, mas é fundamental esse tipo de arranjo para que o jogo normal da política continue, com o governo fazendo e a oposição criticando.


Valor: Uma vez, Fernando Henrique Cardoso disse que o PT e o PSDB estão fadados a liderar o atraso, cada qual com seus aliados de direita. O senhor acha que um e outro estão agora fadados a seguirem apartados política afora?
Lessa: Os dois partidos têm horizontes comuns. Não há nada que impeça programaticamente, de maneira muito forte, que PT e PSDB possam fazer uma aliança. O Aécio seria uma solução natural para essa aproximação. Desparoquializa a disputa entre PT e PSDB, tem sensibilidade para a demanda moderna de crescimento e, além disso, é mineiro, tem a tradição republicana estatal. Aécio pode fazer uma síntese interessante, se deixarem ele concorrer em 2010. Vai depender da cozinha tucana. A bola está com os tucanos.
HeloisaMagalhães
19/10/2006

quinta-feira, outubro 19, 2006

POLÍTICA

O 1º GOLPE DE ESTADO JÁ HOUVE. E O 2º?


Paulo Henrique Amorim
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias


Um golpe de Estado levou a eleição para o segundo turno.

É o que demonstra de forma irrefutável a reportagem de capa da revista Carta Capital que está nas bancas (“A trama que levou ao segundo turno”), de Raimundo Rodrigues Pereira. E merecia um sub-titulo: “A radiografia da imprensa brasileira”.

Fica ali demonstrado:

1) As equipes de campanha de Alckmin e de Serra (da empresa GW) chegaram ao prédio da Polícia Federal, em São Paulo, antes dos presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos;
2) O delegado Edmilson Bruno tirou fotos do dinheiro de forma ilegal e a distribuiu a jornalistas da Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, do jornal O Globo e da rádio Jovem Pan;
3) O delegado Bruno contou com a cumplicidade dos jornalistas para fazer de conta que as fotos tinham sido roubadas dele;
4) O delegado Bruno procurou um repórter do Jornal Nacional para entregar as fotos: “Tem de sair à noite na tevê., Tem de sair no Jornal Nacional”;
5) Toda a conversa do delegado com os jornalistas foi gravada;
6) No dia 29, dois dias antes da eleição, dia em que caiu o avião da Gol e morreram 154 pessoas, o Jornal Nacional omitiu a informação e se dedicou à cobertura da foto do dinheiro;
7) Ali Kamel, “uma espécie de guardião da doutrina da fé” da Globo, segundo a reportagem, recebeu a fita de audio e disse: “Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos não a temos”, diz Kamel, segundo a reportagem
8) A Globo omitiu a informação sobre a origem da questão: 70% das 891 ambulancias comercializadas pelos Vedoin foram compradas por José Serra e seu homem de confiança, e sucessor no Ministério da Saúde, Barjas Negri.
9) A Globo jamais exibiu a foto ou o vídeo (clique aqui) em que aparece Jose Serra, em Cuiabá, numa cerimônia de entrega das ambulâncias com a fina flor dos sanguessugas;
10) A imprensa omitiu a informação de que o procurador da República Mario Lucio Avelar é o mesmo do “caso Lunus”, que detonou a candidatura Roseana Sarney em 2002, para beneficiar José Serra. ( A Justiça, depois, absolveu Roseana de qualquer crime eleitoral. Mas a campanha já tinha morrido.)
11) Que o procurador é o mesmo que mandou prender um diretor do Ibama que depois foi solto e ele, o procurador, admitiu que não deveria ter mandado prender;
12) Que o procurador Avelar mandou prender os suspeitos do caso do dossiê em plena vigência da lei eleitoral, que só deixa prender em flagrante de delito.
13) Que o Procurador Avelar declarou: “Veja bem, estamos falando de um partido político (o PT) que tem o comando do país. Não tem mais nada. Só o País. Pode sair de onde o dinheiro ?”
14) A reportagem de Raimundo Rodrigues Pereira conclui: “Os petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes que possam ter cometido.”


Na mesma edição da revista Carta Capital, ao analisar uma pesquisa da Vox Populi, que Lula tem 55%, contra 45% de Alckmin, Mauricio Dias diz: “ ... dois fatos tiraram Lula do curso da vitória (no primeiro turno). O escândalo provocado por petistas envolvidos na compra do dossiê da familia Vedoin ... e secundariamente o debate promovido pela TV Globo ao qual o presidente não compareceu.”

Quer dizer: o golpe funcionou.

Mino Carta, o diretor de redação da Carta Capital, diz em seu blog, aqui no IG (http://blogdomino.blig.ig.com.br/), que houve uma reedição do golpe de 89, dado com a mão de gato da Globo, para beneficiar Collor contra Lula. “A trama atual tem sabor igual, é mais sutíl, porém. Mais velhaca,” diz Mino.

Permito-me acrescentar outro exemplo.

Em 1982, no Rio, quase tomaram a eleição para Governador de Leonel Brizola. Os militares, o SNI, e a Policia Federal (como o delegado Bruno, agora, em 2006) escolheram uma empresa de computador para tirar votos de Brizola e dar ao candidato dos militares, Wellington Moreira Franco. O golpe era quase perfeito, porque contava também com a cumplicidade de parte de Justiça Eleitoral e, com quem mais? Quem mais?

O golpe contava com as Organizações Globo (tevê, rádio e jornal, como agora) que coonestaram o resultado fraudulento e preparam a opinião pública para a fraude gigantesca.

Que só não aconteceu, porque Brizola “ganhou a eleição duas vezes: na lei e na marra”, como, modestamente, escrevi no livro “Plim-Plim – a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, editora Conrad, em companhia da jornalista Maria Helena Passos.

Está tudo pronto para o segundo golpe.

O Procurador Avelar está lá.

Quantos outros delegados Bruno há na Policia Federal (de São Paulo, de São Paulo !).

A urna eletrônica no Brasil é um convite à fraude. Depende da vontade do programador. Não tem a contra-prova física do voto do eleitor. Brizola aprendeu a amarga lição de 82 e passou resto da vida a se perguntar: “Cadê o papelzinho ?”, que permite a recontagem do voto ?

E se for tudo parar na Justiça Eleitoral? O presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello já deixou luminosamente claro, nas centenas de entrevistas semanais que concede a quem bater à sua porta, que é favor da candidatura Alckmin.

E o segundo golpe? Está a caminho. As peruas da GW já saíram da garagem.

domingo, outubro 15, 2006

POESIA

Seguindo as homenagens ao nosso poeta maior, postamos, dele, este poema.

PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
Labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vem cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

CDA





terça-feira, outubro 03, 2006

POESIA

No dia 31/10/1902, Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira. Não vejo na mídia nenhuma referência ao nosso Poeta Maior. Esse blog pretende, durante o decorrer do mês de outubro, publicar textos do próprio, bem como outras homenagens. Iniciamos hoje com um poema escrito em 1987 para homenagear nosso querido Drummond.

O DEFUNTO
Para Carlos Drummond de Andrade
I
O verso manco e flavo te iludiu
Na enorme noite, plena, sideral, expectante.
Caminhavas ereto e sob teus pés
Reluziam mundos, favelas,
Caldo de homens e dejetos
No escuro de Deus, ou dejetos de Deus?
O verso era de ouro ou latão ilusão?

Atravessas a noite no cais
Sob teus pés nunca se criou limo,
Cogumelo tua pele em fotossíntese,
Teu caos em sete faces
Sete mortes abertas pela faca das correntes.

II
Jamais fostes ilusão ou serpentina
Era o macróbio ansiando o leito eterno,
A morte eterna, social.
Mas atravessavas as ruas soltas
E te embriagavas de anônimos transeuntes
Como um Deus, eras Zeus?
Deus dos santos, Javé anfitrião?
Nada respondes.
O verso era ilusão, de pó,
Teu poema, humana travessia.

O leito úmido calafeta a solidão
Dos versos mancos, marcados
Versos mancos com sofreguidão
Transformam-se em sono.

III
As memórias atulham
Os entulhos escorrem pelo chapéu
Onde outrora escorria mel
Hoje há desencontro.

O verso escorre, a noite morre
Experiências e temas são abordados
Mas a tarde é o bastante
E a noite não resolve o grito,
E a morte é um castigo da ilusão
De um verso perdido, flavo, revolução.

IV
O entardecer já não basta
E ao amanhecer tomas o trem sem direção
A cada poste telegráfico rompes a comunicação
Graficamente, poeta te calas
Favelas te olham
As vezes te pedem coisas,
Em outras desejam te dar
Mas o verbo já faz parte do leito espiralado.

V
O verso manco te perdeu
No teu abandono ainda podes sorrir
E de escárnio rolas pelos degraus de Proust
E de Nava, verso de coxa flava
E patas que dantes inflamavam.

Poderia dar adeus em reticências
Aos nômades poetas dar às costas
E esfumaçar, mas teu abandono
Também já é parte do leito
E o verso defunto no fundo do ataúde
Sorri dente de ouro, ou marfim
Pele de cetim, ou diamante.

VI
O defunto passeia diante dos meus dedos
Meus são versos poucos de amplitude,
De milharal, de pó-de-ferro,
De montanhas submersas, pulverizadas.
Já não importa, a palavra é cacto
Existir é cristal, nem morrer é o bastante.

Perdeu-se a poesia
Perderam-se as palavras
Ora perdidas, ora desencontradas
Já não sofrem, mas pulsam em degredo
Dejetos fazem ruir velhos castelos
E acasteladas são pálidas vestais
Do início do outro século
Mas mentir já não podes, ou não sabes?

VII
O verso era de ouro,
O defunto que passeava pela praia
Em um econômico inverno, flácido, lúcido
Lucidez? Ou divagação?
Já não importa saber se o verso
Era manco, cristal ou mal
Versos maus atacam, indiferença.

Macróbio, macróbio, macabro
Bruxo medieval das palavras
Que o vento esqueceu,
Tu és esquecimento
Cimento sobre o jardim
Cimento sobre mim.

VIII
O verso era de tolos ouros
Cristais, ou sais demais em um mar de jasmim
Mas jaz em mim aquele ragtime
Que os negros dançavam suados em New Orleans
Que nos exportavam como se os baticuns
Fossem mais importantes que nossos negros tantãs.

O verso era manco de tanto ouro,
Hoje é Minas, é Itabira, é solidão.


Celso Gomes