sexta-feira, setembro 08, 2006

TEATRO GREGO - QUARTA PARTE

A TEOGONIA
Nos versos 510 a 516 da Teogonia, está contada a história de Prometeu segundo Hesíodo. Consta, nestes versos, que o primeiro atrito de Prometeu e Zeus, ocorreu quando o Titã dividiu um boi em duas partes, uma cabendo a Zeus e outra aos mortais. Na primeira parte, estavam carnes e vísceras cobertas com o couro. Na segunda, apenas ossos cobertos com a banha do animal. Zeus, atraído pela banha, escolheu a segunda e ao descobrir seu malogro, o rancor e a cólera lhe subiram a cabeça. Por conta disso, Zeus castigou os homens, negando-lhes a força do fogo infatigável. O fogo representando, simbolicamente, a inteligência do homem. Porém, a afronta definitiva de Prometeu ocorreu quando este roubou “o brilho longevisível do infatigável fogo em oca Férula” (Teogonia, 566) o entregando aos homens. Com este gesto, Prometeu reanimou a inteligência do homem, que antes era semelhante aos fantasmas dos sonhos. Por conta de os mortais obterem o fogo, Zeus armou uma armadilha: mandou o filho de Hera, o deus coxo e ferreiro Hefesto, plasmar, esculpir em gesso, uma mulher ideal, fascinante, ao qual os deuses presentearam com alguns atributos de forma a torná-la irresistível. Esta mulher foi batizada por Hermes como Pandora, (pan = todos, dora = presente) e ela recebeu de Atena a arte da tecelagem; de Afrodite o poder de sedução; de Hermes as artimanhas e assim por diante. Pandora foi dada de presente para o atrapalhado Epimeteu, que, ingenuamente, a aceitou, a despeito da advertência de seu irmão Prometeu. A vingança planejada por Zeus estava contida em uma jarra, que foi levada como presente de núpcias para Epimeteu e Pandora. Quando esta, por curiosidade feminina, abriu a jarra e rapidamente a fechou, escaparam todas as desgraças e calamidades da humanidade, restando na jarra apenas a esperança. Segundo Nietzsche, a esperança enganadora.
Quanto a Prometeu, Zeus mandou castigá-lo, prendendo-o pelas inquebráveis correntes de Hefesto no meio de uma coluna, e, após longo período de suplício, teve sua pena aumentada por um abutre de longas asas enviado por Zeus, que lhe comia o fígado imortal. Ao cabo do dia, chegava a negra noite por Prometeu ansiada, e seu fígado tornava a crescer. Teria sido assim eternamente se não fosse por intervenção de Héracles, que matou o abutre com o consentimento de Zeus.

A TRAGÉDIA PROMETEU ACORRENTADO
Conforme narrada alhures, o poeta Hesíodo relatou, em sua Teogonia, como Prometeu roubou o fogo escondido no Olimpo para entregá-lo aos homens e como Zeus o acorrentou a um penhasco, onde um abutre devorava diariamente seu fígado, que se reconstituía à noite. Lendas posteriores narram como Héracles matou o abutre e libertou Prometeu. Na Grécia, havia altares consagrados ao culto a Prometeu, sobretudo em Atenas. Nas lampadofórias (festas das lâmpadas) se reverenciavam ao mesmo tempo Prometeu, que roubara o fogo do céu, Hefesto, deus do fogo, e Atena, que tinha ensinado o homem a fazer o óleo de oliva. A tragédia Prometeu Acorrentado de Ésquilo foi a primeira a apresentá-lo como um rebelde contra a injustiça e a onipotência divina, imagem particularmente apreciada pelos poetas românticos, que viram nele a encarnação da liberdade humana levando o homem a enfrentar com orgulho seu destino. O mito, além de sua repercussão literária e artística, tem também ressonância profunda entre os pensadores. Simbolizaria o homem que, para beneficiar a humanidade, enfrenta o suplício inexorável; a grande luta das conquistas civilizadoras e da propagação de seus benefícios à custa de sacrifício e sofrimento, pois Prometeu, apesar de todas as desgraças abatidas sobre si e as vindouras anunciadas pelo mensageiro de Zeus, em nenhum momento demonstra estar arrependido de seu ato e sua determinação em resistir ao opressor é de extraordinária força e beleza: “Faça ele o que fizer!... Eu hei de viver!”. Nesse sentido, Prometeu se transforma no maior mito da inteligência revoltada.
A fala de Prometeu na tragédia de Ésquilo remete para ele a dívida dos mortais, pois assim que Zeus assumiu o trono, visou destruir os homens e Prometeu se opôs a esse projeto do Ajuntador de Nuvens, e ainda, livrou-os do desejo da morte, dando-lhes esperança no futuro; deu-lhes habilidade para construir casas de tijolos e madeira.

O MITO POR PLATÃO:
O mito de Prometeu foi estudado também por Platão no diálogo Protágoras. Nesta obra, todas as criaturas vivas aparecem como obra de vários deuses, que as plasmaram inicialmente com terra, limo e fogo. A palavra latina homem está ligada a húmus (terra) e os gregos acreditavam que uma centelha divina de imortalidade percorria toda a Terra. São os outros deuses que incubem Prometeu e Epimeteu de dar aos seres as qualidades necessárias para se sustentarem quando viessem à luz. Epimeteu, por ser atrapalhado, torna-se um reversor dos benefícios de Prometeu aos homens, tanto em Hesíodo quanto em Platão. Protágoras continua a narrativa dizendo que Epimeteu pediu a seu irmão para que deixasse por sua conta a distribuição das qualidades, cabendo a Prometeu apenas uma revisão final.
Começa então a divisão compensatória de Epimeteu: a alguns dá força sem velocidade, a outros dá apenas velocidade. Tendo em vista o que conhecemos dos animais hoje, sabemos que é perfeitamente possível um animal ter força e velocidade ao mesmo tempo, como no caso de uma leoa ou guepardo.
Para algumas criaturas, Epimeteu deu armas. Aos que não a tinham, achou diferentes soluções, como asas para fugir aos pequenos animais. É certo que asas são um meio de transporte ideal para as fugas, mas também o são para a caça, como comprovam as aves rapinaces predadoras. As qualidades foram assim distribuídas para que houvesse um equilíbrio, e não viessem as espécies destruir umas às outras. Depois Epimeteu provê os seres com o necessário para sobreviverem no frio, os pêlos. Por último determinou o que cada um deveria comer, de acordo com a sua constituição: ervas, frutos, raízes e carne. Os que comiam carne, de acordo com o mito, se reproduziriam menos do que os herbívoros. Hoje sabemos que o número de filhotes faz parte de duas estratégias de perpetuação de espécie que independem do hábito alimentar. Na primeira, as mães têm filhotes em grande número, sendo que poucos chegarão na vida adulta. Na segunda, a mãe tem poucos filhotes, e se esforça para que todos atinjam a idade da reprodução. Um elefante herbívoro, por exemplo, tem apenas um filhote por vez, ao passo que uma armadeira predadora tem vários.
Epimeteu, por não refletir, termina a sua distribuição das qualidades, mas deixa de lado um ser: o homem. O que sobrou para o homem? Nada, permanecera nu e sem defesa. Estava se aproximando a hora determinada para que o homem chegasse à luz e Prometeu aparece para fazer sua parte. Não encontrando outra solução, Prometeu é obrigado a roubar o fogo de Hefesto e a sabedoria de Atena, deusa de olhos verde-mar. De posse dessas duas qualidades, o homem estava apto trabalhar o fogo nas suas diversas utilidades, e assim garantir a sobrevivência. Porém, a qualidade necessária para os homens se relacionarem entre si se encontrava nas mãos de Zeus: a política. E era proibido a Prometeu penetrar na Acrópole de Zeus, vigiada por temíveis sentinelas. Protágoras termina o mito dizendo que consta ter sido Prometeu morto por este crime, o que não é possível, pois Prometeu era imortal.

AS DIFERENÇAS
As diferenças entre as narrativas de Platão e Hesíodo são mais visíveis que as semelhanças. Por exemplo, em Hesíodo o trabalho é um castigo do Crônida aos mortais, Platão nos leva a crer que o trabalho é uma dádiva. O nascimento dos mortais em Hesíodo é bem anterior a Platão, se tomarmos como referência o roubo do fogo, que em Hesíodo se dá depois do nascimento dos homens. Em Ésquilo, o homem vive por séculos sem conseguir a aptidão necessária, antes de receber o fogo como presente. Isto representa a dificuldade de sobrevivência do homem nas eras primitivas, ou a miséria do homem na Idade do Ferro. Em Platão o homem já obtém a capacidade de trabalhar o fogo desde a sua criação, para ele a miséria consistindo na falta da arte política, indispensável para a fortificação dos homens em cidades e a instituição de um governo virtuoso baseado na justiça.

CONCLUSÃO
A dívida que assumimos com os antigos helenos pertence à espécie daquelas que não se extinguem, tampouco são amortizadas apesar dos séculos e milênios fluírem. Entre as criações gregas das quais somos mais devedores, avulta o teatro, e dentro desse, a poesia dramática em sua forma definitiva: a tragédia, proveniente das festas dionísias. Se a Grécia continua viva entre nós, tal fato se deve a tudo que este povo produziu de belo e perene.
Dentre as obras perenes produzidas pelos helenos, destaca-se a tragédia Prometeu Acorrentado, obra de extraordinária beleza. Os personagens desta peça são vítimas impotentes da fatalidade inexorável, apesar de o personagem principal dar provas de uma coragem que toca as raias do sublime, resistindo à inquirição do mensageiro de Zeus em respostas claras e de audaciosa ironia. Com efeito, Prometeu, demonstrando uma altivez incomum, permanece impassível diante das ameaças de Zeus, que queria que ele clarificasse uma profecia. “Eu não consentiria em trocar minha miséria por tua escravidão.” Diz ele ao mensageiro de Zeus que o avisara das novas agruras que passaria ao se negar a revelar as predições. Logo em seguida, após Hermes profetizar que seu sofrimento só terminaria quando um deus quisesse ficar em seu lugar, demonstra conhecer esses vaticínios e renova suas forças em uma crença inesgotável no futuro e na Razão (“Eu hei de viver!”), e ainda demonstra ter ciência de que o dia de sua liberdade haveria de chegar. Com efeito, após anos de tortura e sofrimento, Héracles, passando por ali, viu o exato momento em que a ave divina destroçava o fígado de Prometeu. O herói lançou sobre ela uma flecha e depois libertou o Titã das pesadas correntes. No entanto, faltava cumprir ainda uma última exigência de Zeus. Quíron, um centauro, antes imortal, aceitou morrer por Prometeu. Mesmo assim, o Senhor dos deuses obrigou o Titã a usar um anel com uma pedra, retirada do Cáucaso, encrustada, para significar que seu inimigo continuava preso à montanha.
Outro aspecto importante da obra é o diálogo entre Prometeu e Io. O primeiro condenado à eterna imobilidade, a segunda, condenada a se mover eternamente, em louca disparada, fugindo do moscardo que a aflige; ambos vítimas da iniqüidade e da prepotência. Apenas um parêntese: Prometeu, ao contrário de Io, não é uma vítima inocente, pois Prometeu acorrentado ao penedo nos confins da Cítia, representa o eterno mártir, ao mesmo tempo que herói lúcido (“Nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim.”) e revoltado contra os deuses que o afligem (“Ah! Vejam a injustiça que suporto!”).
É preciso analisar esta obra dentro do contexto do teatro grego e da hipótese de ser este uma reação da tradição às mudanças em curso trazidas pela Filosofia. Nesse sentido, é compreensível que Aristófanes vá satirizar Sócrates na peça As Nuvens, pois este último lançava o descrédito sobre a tradição religiosa dos helenos, que fundamentava as instituições políticas. Em última instância, Sócrates ao colocar em cheque esses valores e esses mitos, termina por atacar as bases do status quo e Aristófanes, defensor desses valores, o teria utilizado como protótipo dos filósofos que especulavam sobre o fenômeno da natureza. É importante salientar que Sócrates terminou condenado a morte, acusado de impiedade, que em outras palavras significa não respeitar os deuses, leia-se: a tradição religiosa.
Prometeu partilha da mesma sorte que Sócrates, pois sua acusação é de desrespeitar os deuses e seu crime, amar a Humanidade. No entanto, Prometeu Acorrentado, apesar de contextualizado dentro da tradição, contraditoriamente, possui muita semelhança com a história de Sócrates, representante maior da filosofia grega. Ambos, apesar da punição imposta, não abrem mão de suas crenças e caminham soberbos, um para a morte iminente, o outro para o suplício sem fim, querendo demonstrar com isso que existem valores superiores à própria vida. Valores que, se devassados, pouco importa que a vida continue, pois perdera seu sentido último.
A peça termina com um comovente brado de Prometeu, que já ouve o fragor da horrenda catástrofe que se avizinha: “Com efeito, não foi uma ameaça apenas: a terra põe-se a tremer... O soturno ronco já se faz ouvir (...) Ó minha augusta mãe... vede que injustos tormentos me fazem sofrer!”

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