terça-feira, setembro 26, 2006

POESIA

A CHAVE

E de repente
Tudo se resume numa chave.


A chave de uma porta que não abre
Para o interior desabitado,
No solo que inexiste.
Mas esta chave existe.


Aperto-a duramente
Para ela sentir que estou sentindo
Sua força de chave.
O ferro emerge da fazenda submersa.
Que valem escrituras de transferência de domínio
Se tenho nas mãos a chave-fazenda
Com todos os seus bois e seus cavalos
E suas éguas e aguadas e abantesmas?S
e tenho nas mãos os barbudos proprietários oitocentistas
De que ninguém fala mais, e se falasse
Era para dizer: os Antigos?
(Sorrio, pensando: somos os ModernosProvisórios, ahistóricos...)


Os antigos passeiam nos meus dedos,
Eles são os meus dedos substitutos
Ou os verdadeiros?
Posso sentir o cheiro do suor dos guardamores,
O perfume-Paris das fazendeiras no domingo de missa.


Posso, não.
Devo.
Sou devedor do meu passado,
Cobrado pela chave.
Que sentido tem a água represada
No espaço onde as estacas do curral
Concentram o aboio do crepúsculo?
Onde a casa vige?
Quem, dissolve o existido, eternamente
Existindo na chave?


O menor grão de café
Derrama nesta chave o cafezal.
A porta principal ela é quem abre
Sem fechadura e gesto.
Abre para o imenso.
Vai me empurrando e me revela
O que não sei de mim e está nos outros.


O serralheiro não sabia
O ato de criação como é potente


E no criado se prolonga, ressoante.
Escuto a voz da chave, canavial,


Uva espremida, berne de bezerro,
Esperança de chuva, flor de milho,
O grilo, o sapo, a madrugada, a carta,
A mudez desatada na linguagem
Que só a terra fala no fino ouvido.


E aperto, aperto, e de apertá-la,
Ela se entranha em mim. Corre nas veias.
É dentro em nós que as coisas são,
Ferro em brasa - o ferro de uma chave.


Carlos Drummond de Andrade

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