segunda-feira, setembro 11, 2006

POESIA

Prometi que o blog também conteria poesia, e hoje, 11/09/2006, cinco anos após a explosão das torres gêmeas, publico o poema visionário de Drummond.


ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
Onde formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
Sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
E preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
Ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
E sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
E te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com ele conversas
Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitísssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
E adiar para o outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattam.

Carlos Drummond de Andrade

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