segunda-feira, setembro 18, 2006

FILOSOFIA

A EXISTÊNCIA DE DEUS NA FILOSOFIA TOMISTA

Introdução
O presente estudo é focado sobre a Questão 2 da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, que trata da existência de Deus em três artigos.
Segundo o Aquinate: “O objeto principal da doutrina sagrada está em transmitir o conhecimento de Deus não apenas quanto ao que ele é em si mesmo, mas também enquanto é o princípio e o fim das coisas.” Diante desse pequeno intróito, cabe-nos uma advertência: trata-se claramente de um artigo de fé, em vista de não fornecer a razão humana elementos confiáveis para apreensão de tamanho objeto.

As questões levantadas
Logo em seguida, Tomás de Aquino questiona quanto à essência divina: Deus existe? Fundamentadas nesta pergunta, ele formula mais três questionamentos, que deverão ser respondidos logo a seguir.
A primeira questão é: a existência de Deus é evidente por si mesma?
O aquinate responde afirmativamente a esta pergunta. Antes, porém, ele trabalha o conceito de evidente: “É evidente por si aquilo cujo conhecimento nos é natural.” Em seguida, ele cita Damasceno que diz que o conhecimento de Deus está naturalmente infundido em todos. Como ele considera evidente o conhecimento que nos é natural e o conhecimento de Deus está naturalmente infundido no homem, ele fecha o silogismo concluindo que a existência de Deus é evidente por si.
Não vou discutir se ele está certo ou errado em sua conclusão. Aparentemente, e, logicamente, o raciocínio está correto.
Em seguida, o Aquinate se refere ao argumento ontológico de Santo Anselmo, afirmando que se conclui pela evidência da existência de Deus pelo fato de não podermos encontrar um nome para algo que lhe seja superior: “Este nome [Deus] significa algo acima do qual não se pode conceber um maior; ora, o que existe na realidade e no intelecto é maior que aquilo que existe só no intelecto. Assim, ao se compreender este nome, Deus, ele existe em nosso espírito e conseqüentemente na realidade.”
Kant, contrapondo-se a Descartes, que havia se apropriado do argumento de Santo Anselmo, já apontou as falhas deste.
Tomás de Aquino após essas premissas, responde que: “Algo pode ser evidente por si de duas maneiras: seja em si mesma e não para nós, seja em si mesmo e para nós. Uma proposição é evidente por si se o predicado está incluído na razão do sujeito.” Em seguida, ele conclui que sendo as definições de sujeito e predicado conhecidas por todos: “esta proposição será evidente por si para todos.”
Finalmente, diz ele: “Digo, portanto, que a proposição Deus existe, enquanto tal, é evidente por si, porque nela o predicado é idêntico ao sujeito. Deus é seu próprio Ser (...). Mas como não conhecemos a essência de Deus esta proposição não é evidente para nós; precisa ser demonstrada por meio do que é conhecido para nós, ainda que por sua própria natureza seja menos conhecido, isto é, pelos efeitos.”
A segunda questão colocada é: é possível demonstrar a existência de Deus?
O aquinate inicia sua exposição considerando, aparentemente apenas, que é impossível demonstrar a existência de Deus, por considerar tal investigação como objeto da fé e não da ciência, sendo indemonstráveis aqueles. Continua ele em sua exposição, concluindo que falta o termo médio da demonstração, pois apenas não sabemos o que é Deus, apenas o que ele não é. Como terceiro argumento contra essa tese, o Aquinate diz que sendo Deus infinito causa e suas obras finitas efeito, como não se pode demonstrar uma causa por um efeito que não lhe é proporcional, segue-se que não se pode demonstrar a existência de Deus.
Entretanto, apesar de serem fortes os argumentos contrários, ele vai trabalhar com a afirmação de ser possível demonstrar a existência de Deus do seguinte modo: primeiramente, ele diz que existe dois tipos de demonstração: uma pela causa, que parte do que é anterior de modo absoluto; outra pelo efeito, que parte do que é anterior para nós. Nesse sentido, “por qualquer efeito podemos demonstrar a existência de sua causa se pelo menos os efeitos dessa causa são conhecidos para nós, porque os efeitos dependem da causa, estabelecida a existência do efeito, segue-se necessariamente a preexistência de sua causa. Por conseguinte, se a existência de Deus não é evidente para nós, pode ser demonstrada pelos efeitos por nós conhecidos.”
Em seguida, Tomás de Aquino vai negar que a existência de Deus seja artigo de fé, mas preâmbulos dos artigos, o que do nosso ponto de vista soa obscuro, confuso. Para ele, a fé pressupõe o conhecimento natural e “nada impede que aquilo que, por si, é indemonstrável e compreensível, seja recebido como objeto de fé por aquele que não consegue apreender a demonstração.”
Tentando justificar sua fé por meio da razão, o Aquinate envereda pelo caminho da lógica aristotélica, dizendo que “para provar que algo existe, deve-se tomar o termo médio não «o que é», mas «o que significa o nome», porque a pergunta «o que é», segue a pergunta «se existe». Ora, os nomes de Deus lhe são dados de acordo com seus efeitos (...), assim, ao demonstrar a existência de Deus por seus efeitos, podemos tomar como meio termo o que significa o nome de Deus.”
A terceira e última questão colocada é: Deus existe?
Novamente o Aquinate inicia sua busca de resposta pela via negativa, ou seja, expondo as opiniões contrárias à existência de Deus.
A primeira ordem de raciocínio é a seguinte:
a) de dois contrários, se um é infinito, o outro deixa de existir totalmente;
b) se o nome de Deus se trata de um bem infinito, se Deus existisse, não haveria nenhum mal;
c) ora, o mal se encontra no mundo;
d) logo, Deus não existe.
Em seguida, Tomás de Aquino afirma que se pode provar a existência de Deus por cinco vias: a primeira parte do movimento, pois tudo que move é movido por outro, concluindo que é necessário chegar ao primeiro motor, que não é movido por nenhum outro: Deus; a segunda via parte da razão de causa eficiente; a terceira é tomada do possível e do necessário; a quarta se toma dos graus que se encontram nas coisas; e a quinta, tomada do governo das coisas.

Apreciação crítica
As “provas” da existência de Deus de Tomás de Aquino pressupõem o que se pretende provar. Em outras palavras, o ponto de partida dessas “provas”, a rigor, não é o ponto de partida, mas de chegada. Tomás de Aquino procura elaborar argumentos sofisticados que possam provar a existência de Deus, fato que ele já cria aprioristicamente. Na verdade, não há interrogação.
Por outro lado, o Deus que se encontra ao final das cinco vias não é o Deus Cristão, mas um deus filosófico, produto de uma construção metafísica, pois nenhuma semelhança há com o Cristo, com sua divindade.
Finalmente, é interessante salientar que a inspiração aristotélica é evidente, o que torna seus argumentos paradoxais, pois a filosofia aristotélica é uma filosofia pagã por excelência.

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