sexta-feira, setembro 15, 2006

FILOSOFIA

CARTA SOBRE O HUMANISMO DE MARTIN HEIDEGGER

Introdução
Três questões foram levantadas pelo Prof. Carneiro Leão, em palestra em 2005, no Instituto de Teologia e Filosofia São Bento, que sob à luz do texto de Martin Heidegger, «Carta sobre o humanismo», bem como sobre o pensamento contemporâneo sobre a Ética. São elas:
a) a presença do valor e de um sentido na realização moderna;
b) comportar-se equivale a consumir o que?
c) a história dos comportamentos é a visita que o Real faz às decisões dos indivíduos?
Procuraremos dar uma resposta mediata, ou seja, aquela que se extrairá ao longo do texto de maneira indireta. A organização desta dissertação obedece fielmente àquela exposta no índice.
Prolegômenos
Iniciaremos nossa trabalho com a transcrição de um pequeno fragmento de Heráclito de Éfeso, trazido até nós por Clemente de Alexandria, e, conforme o decorrer da leitura, será justificado o motivo dessa escolha:

“ Se não se esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indescobrível o inacessível.”

Os fragmentos de Heráclito de Éfeso que chegaram até nossos dias, têm o aspecto de afirmações orais, expostas de forma concisa, em nada se assemelhando a excertos de uma obra redigida de forma contínua. Talvez, por esse motivo, o filósofo recebeu a alcunha de O obscuro ainda na Antigüidade. No entanto, grande parte do problema interpretativo da filosofia de Heráclito, decorre do fato de haver restado apenas fragmentos de sua obra, bem como porque esta foi escrita em uma língua cujo contexto foi perdido com o desaparecimento de sua cultura. Heráclito vai encontrar um paralelo em obscuridade apenas no Século XX, em Martin Heidegger, cuja insistência em apelar para a radicalização do pensamento metafísico o torna um dos filósofos mais enigmáticos de nosso tempo.
Não temos a pretensão de interpretar todos os aspectos da obra filosófica de Heidegger, tampouco temos capacidade para tal empreitada, apenas pontuaremos aspectos que nos pareceram mais relevantes, procurando dar ênfase às questões colocadas pelo Prof. Carneiro Leão.
É importante salientar ainda que, apesar da adesão de Heidegger ao Nazismo, nada encontramos em sua teoria que justifique a ideologia nazista, o que talvez justifique a completa ausência de referências dos teóricos nazistas à obra do autor de «Ser e Tempo», bem como a indiferença dada por Hitler à sua adesão, apesar de já ser o mesmo um filósofo de grande envergadura nesta época. Talvez essa indiferença se explique pelo fato de ser a ideologia nazista avessa à velha retórica liberal, desprezando o que eles denominavam como palavrório oco e vazio, uma ideologia voltada basicamente para a ação política.

Pequena biografia:
Martin Heidegger nasceu em Messkirch em 1889 e faleceu em maio de 1976 na cidade de Freiburg – imBreisgau. Foi aluno de Edmundo Husserl (1859-1938), criador do método fenomenológico, a quem substituiu na cátedra da Universidade de Freiburg em 1928, e de quem se afastou, posteriormente, após sua adesão ao nazismo. Alguns historiadores da Filosofia justificam esse afastamento pelo fato de ser seu antigo mestre de origem judia. Em 1933, após a ascensão de Hitler à chancelaria do Reich, Heidegger foi elevado ao cargo de Reitor da Universidade de Freiburg, cargo que ocupou por poucos meses, período ao qual, segundo alguns historiadores, teria destruído a liberdade acadêmica. Heidegger publicou várias obras, entre elas: «Ser e Tempo» (1927), seu maior e mais conhecido trabalho; «Que é Metafísica?» (1929); «Sobre o Humanismo» (1949); entre outras obras. Após sua aposentadoria em 1952, Heidegger passou a viver isolado em sua casa nas montanhas da Floresta Negra, comunicando-se apenas com restrito círculo de amigos e antigos discípulos.

Influências filosóficas:
Heidegger começou a se projetar entre os especialistas a partir de interpretações muito pessoais de alguns pensadores pré-socráticos, em especial, Heráclito, que defendia a imobilidade do Ser; e Parmênides, que inaugurou a Metafísica como a conhecemos, defendendo a tese da imobilidade do Ser. De certa forma, apesar do rompimento posterior, Heidegger recebeu influência de Husserl, e de Heinrich Rickert (1963-1936), neokantiano que se preocupava com a fundamentação metodológica da História, tendo sido aluno de ambos. Reconhece-se ainda a influência de Nietzsche, em sua crítica ao cristianismo e ao platonismo; de Kierkegaard; e, finalmente, de Wilhelm Dilthey, de quem herdou a idéia de superação da Metafísica..

Dicotomia Heidegger – Carnap:
Para compreender melhor a obra de Heidegger, é preciso situá-lo na vertente de uma idéia que nasceu com Dilthey e se bifurcou em dois traços antagônicos, que ainda hoje correm paralelos sem esperança de confluência. Com efeito, Dilthey, um pensador filho de um século historicista,em sua obra inacabada «Introdução às Ciências do Espírito», começou a fundamentar as ciências particulares do homem, da sociedade e da história, buscando o fundamento e a conexão da experiência humana independente da Metafísica. Cria o filósofo, que os sistemas dos metafísicos haviam decaído e que, apesar disso, continuava a Vontade a exigir, como sempre, que propósitos firmes guiassem a vida dos homens em sociedade. Para Dilthey, o princípio fundamental das ciências do espírito não se confunde com o princípio que rege as ciências da natureza, pois as primeiras têm como escopo a realidade social, havendo compreensão, as forças emocionais operam; enquanto que nas ciências da natureza, ao contrário, toma o cientista o fenômeno para explicá-lo, ordenando-o habitualmente segundo a causalidade da lei que o governa. Nesse sentido, concluiu o filósofo que somente o homem é compreensível ao homem, ferindo de morte a Metafísica, criando a necessidade de superá-la.
Dois filósofos tomaram para si esta tarefa, seguindo caminhos que se bifurcam em dois sentidos separados por barreiras intransponíveis: Heidegger e Carnap.
Para Carnap, em seu ensaio «Superação da Metafísica pela Análise Lógica da Linguagem» publicado em 1932, a Metafísica se constituiria de proposições destituídas de sentido, bem como porque a análise lógica dessas proposições levaria à sua superação. Realizada esta tarefa, o pensamento neopositivista envereda pelo caminho do pensamento lógico e da Filosofia das Ciências. A filosofia não teria que fazer indagações sobre o Ser, pondo ou alimentando problemas metafísicos, dos quais não é possível dizer que sejam verdadeiros ou falsos, apenas destituídos de sentido. Mesmo a Ética seria algo que desborda do campo específico da pesquisa científica, porquanto depende de cada indivíduo, de seus pendores e inclinações singulares, de emoções variáveis e imprevisíveis, sem garantia de verificabilidade.
Heidegger, por sua vez, por influência de Nietzsche e Kierkegaard, moldou outra forma de superação da Metafísica. Convenceu-se ele que toda a história da Ontologia não passava de uma Teologia, cujos principais responsáveis por essa degeneração seriam os teólogos escolásticos, que teriam trivializado a Ontologia, passando a trabalhar com um conceito de Ser vazio e abstrato, e que, com os neokantianos, caíra em uma Teoria do Conhecimento. Enquanto o neopositivismo joga toda sua força em promover a atividade científica, Heidegger vê no esvaziamento da Metafísica um signo de esquecimento do Ser e busca impedir que a Razão se instrumentalize inteiramente e perca a visão do todo.

Pequena análise de «Ser e Tempo»:
Em 1927, Heidegger publicou seu maior e mais conhecido trabalho, embora inacabado: «Ser e Tempo». Nesta obra, ele reflete sobre o problema do Ser, empregando o método fenomenológico herdado de Husserl, que busca abordar os objetos de conhecimento tais como estes se apresentam à consciência humana. Nesse sentido, Heidegger vai colocar como ponto de partida para sua reflexão aquele Ser que se dá de forma imediata ao conhecimento: o próprio homem. O caminho que leva ao Ser, diz ele, passa pelo homem, à medida em que este está sozinho para se interrogar acerca de si mesmo. Constituída como via de acesso para a descoberta do ser, a análise da existência humana constitui o conteúdo da obra.

Sobre o Humanismo:
As questões colocadas por Heidegger na parte publicada de «Ser e Tempo», que deveriam ser respondidas em outras seções, jamais o foram, fato que levou alguns intérpretes a falar de um segundo Heidegger, bastante diferente do primeiro, de maneira que não seria mais a existência humana a porta de entrada para o Ser, mas, ao contrário, este é quem torna possível a abertura para a compreensão da existência humana, ocorrendo um deslocamento, em seu pensamento, da problemática da existência humana para reflexões acerca do próprio Ser. O traço marcante das reflexões de Heidegger nesse momento, seria uma penetração cada vez mais incisiva no universo da linguagem, que para ele, seria o elemento mais característica da essência humana. A linguagem é a base do Real, sobre o qual os fenômenos se expõem com clareza. Heidegger procurará mostrar em seguida, que as relações das coisas existentes é provisória e atrelada ao tempo em que ocorrem. Nesse sentido, o fenômeno, ao se manifestar no tempo, portaria o sentido do Ser. Ao passo que a linguagem, proporcionaria ao homem, em sua existência ao lado do Ser, a oportunidade de entendimento desse Ser presente no tempo. O tempo teria a possibilidade de trazer o Ser à luz, pois possui condição necessária para a manifestação do próprio Ser no tempo, não como objeto tradicional das ciências e da filosofia, mas na forma de uma subjetividade entrelaçada, na qual sujeito e objeto se mesclam em um pensamento originário, o que demonstra uma tentativa, em certa medida pioneira, de tentar superar a relação sujeito x objeto, no qual a Teoria do Conhecimento havia se detido, apontando algumas dificuldades que essa dicotomia proporcionava à compreensão metafísica do Ser.
Diante de sua pública adesão ao Nazismo até o final da guerra, bem como diante do fato de Heidegger, até aquele momento não haver escrito uma obra de caráter explicitamente humanista e ética, Jean Beaufet, existencialista francês que tentava relacionar a obra do filósofo alemão ao Existencialismo francês, apesar de este último sempre haver se mantido desvinculado dessa corrente filosófica – sobretudo por causa do papel fundamental exercido pelo conceito de Nada entre os franceses – escreveu uma carta a Heidegger, pedindo que este pensador esclarecesse qual o significado se poderia dar ao humanismo abalado por duas guerras mundiais sucessivas. «Sobre o Humanismo» é a resposta do filósofo alemão à essas indagações. Em linhas gerais, o filósofo da Floresta Negra irá propor, tendo por fundamento o fragmento de Heráclito que abre essa dissertação, que a Ética abandone o moralismo superficial e o legalismo dos códigos para buscar sua raiz na morada do próprio ser humano.
Logo na abertura da Carta, diz Heidegger: “Nós não pensamos ainda a essência da ação de modo suficientemente decisivo. Só se conhece o agir como produção de um efeito, cuja efetividade se avalia pela sua utilidade. Ora, a essência da ação é consumar. Consumar significa desdobrar alguma ciosa na plenitude de sua essência, conduzi-la a essa plenitude, producere. Por isso só pode ser consumado propriamente o que já está sendo...” Nessa introdução, ao pensar a essência do agir, esse tema da Ética é relacionado ao consumir e produzir que só pode se realizar naquilo que já é o próprio Ser. No pensamento o homem pode estabelecer a relação do Ser consigo mesmo, pois pensar seria o engajamento em uma ação que leva à verdade do ser. Para ele, a filosofia ocidental deveria abandonar a pretensão de conhecer os objetos e os entes de modo científico, afastando-se da concepção de pensamento prático oriunda de Platão e Aristóteles. Para ele, somente quando o pensamento sai de seu elemento próprio é que a técnica passa a ser valorizada como atividade cultural e a filosofia se transforma em uma técnica de explicação das causas últimas, o que se constitui em uma crítica a Aristóteles, que buscava as causas últimas das coisas, o primeiro motor.
Ainda para ele, a essência do homem não se resume em ser este um animal que pensa, porém ao homem cabe proteger a verdade do Ser e, por conta disso, o Ser não se pode identificar como ente, tal como tem sido feito pela filosofia ocidental. Heidegger supõe ainda, que o homem pode pensar a verdade do Ser a partir da existência. Todavia, para pensar o Ser e experimentar sua essência, é preciso retornar às questões originárias da história do Ser, revelando sua metafísica, um forte apelo à tradição clássica que se concretizaria pela volta ao pensamento originário grego, aos pré-socráticos.
O humanismo para Heidegger é aquele que “pensa a humanidade do homem desde a proximidade do Ser” devendo se voltar não para o ente humano, mas para sua existência autêntica na verdade do Ser-no-mundo, concebido como uma clareira. A Ética, para ele, surge a partir de Platão, pois os antigos pensadores gregos não a conheciam. O ethos – palavra grega da qual derivou a Ética – é traduzida geralmente por morada ou costume. Isso significa que o homem é a morada do Ser. Ao pensamento cabe a tarefa de edificar essa morada, onde o homem habitaria a verdade. O pensar originário seria esse agir que supera a noção prática e o produzir, uma vez que ele consome o mínimo do Ser, ao pronunciá-lo em seu meio: a linguagem.

Apreciação crítica:
No decorrer do século passado a filosofia de Heidegger gerou muitas controvérsias, com alguns seguidores, como por exemplo, os existencialistas franceses, outrossim, muitas críticas lhe foram feitas, principalmente pelos neohegelianos, inspirados em sua adesão ao Nazismo. A crítica feita por estes últimos deriva do problema do Ser, que para eles se resume em mero exercício verbal, inútil e inconseqüente, pois, conforme ensinara Hegel, o Ser não passa de abstração do entendimento, tendo em vista que a realidade seja natureza, ou história, não é Ser, mas vir-a-ser.

3 Comments:

Blogger Márcia Mérida said...

Beleza de post Celso!!!!!
Um abraço,
Emy Neto.

1:06 AM  
Blogger Emy Neto said...

Agora como eu próprio, ou dito de outra forma, com meu próprio e-mail!!!!
Emy Neto.

1:09 AM  
Blogger Emy Neto said...

Tomara que agora o post apareça!!!!
Um abraço Celso!!!!
Emy Neto.

1:16 AM  

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