quinta-feira, setembro 28, 2006

ELEIÇÕES PROPORCIONAIS 2006

ELEIÇÕES 2006
I.INTRODUÇÃO:
Pesquisa do Datafolha divulgada sexta-feira dia 27 de setembro de 2002, revelou que 59 % dos eleitores paulistas não sabem em que votar para deputado federal nas eleições daquele ano.
É possível que este também seja o retrato dos outros estados da Federação e na eleição corrente, pois as disputas proporcionais têm sido tratados com enorme desdém pelos eleitores, apesar se sua enorme importância, tendo em vista que, sem apoio no Congresso Nacional, o próximo Presidente da República terá dificuldade de implementar seu programa de Governo.
No Estado do Rio de Janeiro, segundo dados do TRE-RJ, divulgados pelos jornais, em 2002 havia 602 candidatos a deputado federal e 1.333 candidatos a deputado estadual.
Nas próximas linhas tentaremos explicar como funcionam as eleições para a Câmara dos Deputados.

II SISTEMAS ELEITORAIS:
A Constituição de 1988 consagra, em seus artigos 45 e 46, dois sistemas eleitorais: o majoritário e o da representação proporcional.
O majoritário em dois turnos é também denominado como Majoritário por Maioria Absoluta, que caracteriza as eleições para Presidência da República.
O majoritário simples caracteriza a eleição para o Senado Federal.

III O SISTEMA DE REPRESENTAÇÃO PROPORCIONAL:
O critério ou sistema proporcional de composição da Câmara dos Deputados indica quantos deputados federais cada Estado-membro da Federação e o Distrito Federal vão eleger proporcionalmente à sua população. É apurado antes da eleição. Deste falaremos em outra ocasião.
O sistema proporcional de eleição indica quantos deputados cada partido político vai eleger. Acredito que a melhor maneira de explicar este sistema é através de exemplos.
O Estado do Rio de Janeiro possui um total de 46 cadeiras a serem preenchidas na Câmara dos Deputados. Segundo o TRE-RJ, existem 10.213.508 eleitores cadastrados. Supondo que 80 % desses eleitores votem validamente, o que significa exclusão dos votos em branco, teremos aproximadamente 8.188.000 votos válidos no Estado, que divididos pelo n.º de cadeiras, obteremos um Quociente Eleitoral de 178.000.
Ex. 8.188.000 votos válidos : 46 vagas = 178.000 de quociente eleitoral (QE).

Vamos supor que no Rio de Janeiro os partidos A, B,C,D,E e F, disputem a eleição e que fique assim distribuídos os votos:

1) partido A 46 % dos votos válidos - 3.766.480 votos
2) partido B 27 % dos votos válidos - 2.210.760 votos
3) partido C 13 % dos votos válidos - 1.064.440 votos
4) partido D 7 % dos votos válidos - 573.160 votos
5) partido E 6 % dos votos válidos - 491.280 votos
6) partido F 1 % dos votos válidos - 82.000 votos

Nesta hipótese, assim ficarão distribuídas as cadeiras:

7) partido A - 3.766.480 votos : 178.000 (QE) =21 eleitos
8) partido B - 2.210.760 votos: 178.000 (QE) = 12 eleitos
9) partido C - 1.064.440 votos: 178.000 (QE) = 6 eleitos
10) partido D - 573.160 votos: 178.000 (QE) =3 eleitos
11) partido E - 491.280 votos: 178.000 (QE) =3 eleitos
12) partido F - 82.000 votos: 178.000 (QE) =0 eleitos

Neste caso, o partido F, que obteve 82.000 votos, não elegeria nenhum deputado por não haver atingido o quociente eleitoral ( QE); foram eleitos 45 deputados e restaria 01 vaga.
Existem vários métodos para solucionar as sobras eleitorais. No Brasil é utilizado a técnica da maior média eleitoral, que é a distribuição do resto, dividindo-se o n.º de votos de cada partido pelo n.º de cadeiras obtidas e somando-se mais um. A cadeira ficará com o partido político que obtiver a maior média eleitoral:

13) partido A - 3.766.480 votos : 21 cadeiras = 179.356,1
14) partido B - 2.210.760 votos: 12 cadeiras = 184.230,0
15) partido C - 1.064.440 votos: 6 cadeiras = 177.406,7
16) partido D - 573.160 votos: 3 cadeiras = 191.053,3
17) partido E - 491.280 votos: 3 cadeiras = 163.760,0

Neste exemplo, o partido político que conseguiu a maior média eleitoral foi o partido D, que ficará com a vaga restante para deputado federal.

IV. CONCLUSÃO:
Este método explica como o ex-deputado Lindberg, na época filiado ao PSTU, não foi reeleito em 1998, apesar de ultrapassar a marca dos 80 mil votos. Por analogia explica também como o Blandino, o Pipoqueiro, foi eleito para a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro pelo PRONA.
É importante salientar, que muitas vezes o partido político lança candidatos que não terão nenhuma chance de serem eleitos, mas que comporão o quociente eleitoral de forma a eleger os primeiros da lista, que quase sempre são os velhos conhecidos da política brasileira.

terça-feira, setembro 26, 2006

POESIA

A CHAVE

E de repente
Tudo se resume numa chave.


A chave de uma porta que não abre
Para o interior desabitado,
No solo que inexiste.
Mas esta chave existe.


Aperto-a duramente
Para ela sentir que estou sentindo
Sua força de chave.
O ferro emerge da fazenda submersa.
Que valem escrituras de transferência de domínio
Se tenho nas mãos a chave-fazenda
Com todos os seus bois e seus cavalos
E suas éguas e aguadas e abantesmas?S
e tenho nas mãos os barbudos proprietários oitocentistas
De que ninguém fala mais, e se falasse
Era para dizer: os Antigos?
(Sorrio, pensando: somos os ModernosProvisórios, ahistóricos...)


Os antigos passeiam nos meus dedos,
Eles são os meus dedos substitutos
Ou os verdadeiros?
Posso sentir o cheiro do suor dos guardamores,
O perfume-Paris das fazendeiras no domingo de missa.


Posso, não.
Devo.
Sou devedor do meu passado,
Cobrado pela chave.
Que sentido tem a água represada
No espaço onde as estacas do curral
Concentram o aboio do crepúsculo?
Onde a casa vige?
Quem, dissolve o existido, eternamente
Existindo na chave?


O menor grão de café
Derrama nesta chave o cafezal.
A porta principal ela é quem abre
Sem fechadura e gesto.
Abre para o imenso.
Vai me empurrando e me revela
O que não sei de mim e está nos outros.


O serralheiro não sabia
O ato de criação como é potente


E no criado se prolonga, ressoante.
Escuto a voz da chave, canavial,


Uva espremida, berne de bezerro,
Esperança de chuva, flor de milho,
O grilo, o sapo, a madrugada, a carta,
A mudez desatada na linguagem
Que só a terra fala no fino ouvido.


E aperto, aperto, e de apertá-la,
Ela se entranha em mim. Corre nas veias.
É dentro em nós que as coisas são,
Ferro em brasa - o ferro de uma chave.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, setembro 22, 2006

ELEIÇÕES 2006

PORTO ALEGRE - De maus modos também se morre. Essa frase tem vários significados. Entre eles, várias expressões de maus modos. Entre elas, a falta de atenção sobre o que acontece ao nosso redor. Nos últimos dias, uma série de "acontecimentos" aumentaram a temperatura do ambiente político brasileiro. As aspas que cercam os acontecimentos pretendem justamente chamar a atenção para o que pode estar, de fato, acontecendo. Uma mínima dose de razão prudencial recomenda uma certa dose de suspeita em relação à idéia de coincidência. A temperatura política aumentou desde a última sexta com as notícias do suposto envolvimento da gestão de José Serra no Ministério da Saúde, durante o governo FHC, com o esquema das sanguessugas e suas formidáveis ambulâncias super-faturadas. O "acontecimento" aí, rapidamente, sofreu uma transmutação: tornou-se uma "investigação sobre o suposto envolvimento de petistas em uma armação contra José Serra".

A realidade dos "acontecimentos" tem uma dimensão seletiva na mídia. Alguns "acontecimentos" são mais "acontecimentos" do que outros. E merecem qualificação diferenciada: as denúncias contra Serra rapidamente são descritas sob o guarda-chuva da "armação". Um desses "acontecimentos" merece atenção menor. O ministro da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage, disse sexta que os escândalos de corrupção investigados pela CGU começaram em governos anteriores. E acrescentou que as denúncias envolvendo ministros de governos passados, como José Serra, devem receber o mesmo tratamento das denúncias que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Lula, como o ex-ministro da Saúde, Humberto Costa. Esse "acontecimento" teve um destaque muito menor na mídia. No final de semana, as manchetes falavam das investigações da PF para apurar o envolvimento de petistas em uma "armação" contra Serra.

"Quadro de horror e opressão"
No final da tarde de domingo, somos informados de mais um "acontecimento". Três ministros do TSE tiveram seus telefones grampeados. Entre eles, o presidente do Tribunal, ministro Marco Aurélio Mello. Uma nota do TSE anuncia a convocação de uma coletiva para a manhã de segunda-feira. Antes do anúncio de qualquer investigação sobre o caso, o ministro já antecipa algumas opiniões na imprensa. "Se partiu de um particular, político ou do crime organizado, é condenável. Mas se partiu do Estado mostra que quadro de horror e opressão estamos vivendo. Um ministro do Supremo ser bisbilhotado é uma coisa inimaginável", declarou Marco Aurélio Mello à Agência Globo. A declaração do ministro mal consegue disfarçar sua visão sobre a conjuntura atual: estaríamos vivendo um quadro de horror e opressão. A caracterização do presidente do TSE não é exatamente nova.

Na semana passada, Marco Aurélio Mello declarou que a reeleição é péssima para a democracia. Se, por um lado, o instituto da reeleição é um problema sério que deve ser discutido, por outro, a declaração, no contexto da campanha eleitoral, significa que o presidente do TSE recomenda à população que não vote nos candidatos que disputam a reeleição, entre eles o presidente. Não custa lembrar: não é atribuição do presidente do TSE dizer à população em quem deve ou não votar. Tampouco é atribuição de um magistrado antecipar opiniões sobre uma investigação que ainda será iniciada. A pressa em indicar possíveis culpados indica uma ansiedade singular. Uma ansiedade em tornar um "acontecimento" o "quadro de horror e opressão que estamos vivendo". E qual é exatamente esse "quadro de horror e de opressão"? Do ponto de vista político, é o quadro de um cenário eleitoral que aponta para a reeleição do atual presidente do país.

Repetição e memória
Não é a primeira vez que esse quadro ocorre. E, em se tratando de repetições, a memória costuma ser uma boa conselheira. No dia 27 de setembro de 1998 a Folha de São Paulo publicou uma entrevista realizada com o então Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ilmar Galvão, onde este expressou publicamente seu apoio a reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso. O presidente do TSE afirmou: "Se eu fosse Congressista, nunca aprovaria a reeleição para Governador e Prefeito. Quando muito, para Presidente da República, em uma conjuntura como a atual, em que a permanência do Presidente da República é um fato indispensável para a manutenção e para consolidação do modelo econômico que foi implantado no Brasil." A entrevista não ganhou grande repercussão nos noticiários televisivos. A oposição exigiu que o ministro se retratasse publicamente, mas Galvão não se abalou com o episódio, limitando-se a dizer que havia sido mal interpretado pela imprensa.

Na época, a comissão de Defesa da Ética na Política da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgou nota oficial lamentando o ocorrido e manifestando temor pelo bom andamento das eleições. A comissão concluiu que cabia ao ministro Ilmar Galvão avaliar se o episódio havia abalado a necessária imparcialidade de sua atuação na condução das eleições. O caso foi de extrema gravidade, pois mostrou um Ministro do TSE, presidente da última instância judiciária eleitoral, declarando sua preferência eleitoral sem qualquer constrangimento. Não houve nenhum escarcéu na mídia, muito pelo contrário. Reinou o silêncio. O máximo que se viu foi um pedido de exame de consciência por parte da OAB. Nunca é demais lembrar: o papel da justiça eleitoral é trabalhar para garantir a licitude do pleito de forma imparcial e obedecendo a legalidade vigente. Esse princípio básico foi desrespeitado de forma escancarada. E ficou tudo por isso mesmo.

A geografia seletiva do mar de lama
Ficou tudo por isso mesmo. Essa é uma expressão familiar à história política do Brasil. Ao longo do século XX, o país teve duas experiências de governos com pendores populares, com todos os seus limites e contradições. Um deles acabou com o suicídio do presidente da República. O outro foi abortado por um golpe militar. A terceira dessas experiências, que estamos vivenciando agora, curiosamente experimenta alguns fenômenos que se repetiram nas duas primeiras. O "mar de lama" parece só vir à tona no país quando um governo com algum grau de comprometimento popular chega ao poder. Isso aconteceu também em escala regional. A mais importante experiência de um governo estadual de esquerda no país, o governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, foi atravessada por denúncias de corrupção e de envolvimento com "a máfia internacional da jogatina". Este governo enfrentou uma CPI da Segurança Pública, tão pródiga em denúncias quanto em falta de provas, o que resultou no arquivamento das primeiras pelo Ministério Público.

O quadro então é este. Qualquer governo que tenha um cheiro de esquerda, por mais tênue que seja, é logo acusado de estar patrocinando um "mar de lama". Os outros governos, com cheiro, gosto e cor de direita, seriam expressões de moralidade pública. Considerando o tempo histórico que uns e outros governaram esse país, chega-se à conclusão que os problemas do Brasil devem-se aos poucos anos que governos com algum pendor popular estiveram no poder. Neste domingo, o presidente nacional do PFL, o senador banqueiro Jorge Bornhausen (PFL/SC), defendeu a cassação do registro da candidatura do PT. Bornhausen que, recentemente, expressou o modesto desejo de "se ver livre desta raça por 30 anos", afirmou: "Como sempre, o PT vive no submundo do crime, da falcatrua, da chantagem e do uso do dinheiro público". Outro grande líder democrata do país, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL/BA), chamou o presidente Lula de "rato". Seu currículo de serviçal da ditadura militar e suas recentes declarações defendendo uma nova intervenção dos militares na vida política do país (clique AQUI para ver), devem ser vistos, talvez, como acidentes de percurso.

Mas o que a história do país mostra é que não há acidentes de percurso. Mostra que deve-se desconfiar daquilo que se apresenta como coincidência. Mostra que deve-se levar a sério esses últimos acontecimentos, com ou sem aspas, como uma boa maneira de dar conseqüência ao que está se passando ao nosso redor. A mescla de silêncio e seletividade midiática é um sinal de alerta mais do que suficiente. De maus modos também se morre. A falta de memória e a desatenção estão nessa tenebrosa lista, em que o golpismo se imiscui, para dizer quem pode e quem não pode, governar, e quem pode e quem não pode, ter direitos. Ao longo da história, a imprensa brasileira não sobrevoou esses "acontecimentos" como um anjo que olha, compassivo, os acontecimentos terrenos. Pelo contrário, sempre foi um protagonista ativo, com lado definido. O fato de silenciar sobre o engajamento escandaloso de um presidente do TSE em um processo eleitoral, como ocorreu durante o governo FHC, não é acidental. A única coisa acidental que pode haver aqui é a falta de atenção.

O fim da era da pedra no lago
Não custa lembrar então um fenômeno novo nesta relação da mídia com a sociedade. Um fenômeno apontado pelo jornalista Franklin Martins em recente entrevista à revista Caros Amigos. Segundo ele, estamos vivendo um fenômeno novo importantíssimo na vida política brasileira do qual as pessoas ainda não se deram conta: o fim da era da pedra no lago. Ele explica: "Nós tínhamos um padrão de comportamento que vem desde o final da luta contra a ditadura. Produzia-se um fenômeno político, a classe média formava uma opinião a respeito e essa opinião se estendia para a periferia. Como a pedra no lago: caiu a pedra na classe média, formando ondas concêntricas para os lados. A classe média era a dos chamados formadores de opinião, você os conquistava, tinha resolvido a parada. Ao que assistimos nessa crise do mensalão? A classe média formou a convicção de que o governo estava tomado por uma quadrilha, por uma bandidagem, etc. - não estou discutindo se isso é verdade ou não -, ela formou essa convicção, bateu a pedra no lago..."

"...as ondas começaram, daqui a pouco...bateu em algum lugar, tinha um dique, e as ondas começaram a voltar. Bateu onde? Bateu na classe C. É o pessoal que ganha de dois a cinco salários mínimos que olhou e disse: "Espera um instantinho, não é bem assim, eu penso um pouco diferente. Tem roubalheira? Tem. Roubou o governo? Roubou. O Lula é algum santo? Não. O Lula sabia? Acho até que sabia, mas é o seguinte: sempre foi assim e a minha vida está melhor hoje em dia, quero discutir isso também. O BNDES anunciou um plano para financiamento de 300.000 computadores até o valor unitário de 1.400 reais. Pra onde eles vão? Para a classe C. Seis milhões de pessoas foram incorporadas à classe C segundo as estatísticas, foi manchete de todos os jornais. Quer dizer, 10% do mercado brasileiro. Agora que estou melhorando de vida, vocês querem derrubar esse governo?"

Essa é a idéia. E é exatamente por isso que as próximas semanas devem ser pesadíssimas. Os advogados do PSDB apresentam nesta segunda, em Brasília, uma representação ao TSE contra o que consideram "interferência do governo no processo eleitoral". A ação será movida contra o presidente Lula, contra o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos e contra o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini. Para o PSDB, "há fatos suficientes para a cassação do registro da candidatura de Lula". Com o seu candidato estagnado nas pesquisas, tucanos e pefelistas devem partir para a radicalização nos próximos dias, tentando atingir a candidatura Lula. O objetivo não é necessariamente impedir a vitória de Lula, mas sim inviabilizar um segundo governo. A julgar pelo tiroteio verbal deste fim de semana e pelo surgimento de novas denúncias, acusações e "acontecimentos", os últimos dias da campanha eleitoral serão de tripa na calçada. Se alguém achava que a campanha seria marcada pela "apatia" pode se preparar para fortes emoções. Vai engrossar.

As elites brasileiras não toleram sequer um governo do PT que mistura um Bolsa Família com lucros inéditos aos bancos. As elites brasileiras não toleram não estar no poder. Não toleram a mínima possibilidade de perder espaço de poder. Por isso, nada está resolvido. Nada está ganho. Não há nenhuma vitória garantida. Atenção redobrada é o melhor antídoto contra os maus modos que continuam a nos espreitar.
Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior

quarta-feira, setembro 20, 2006

ELEIÇÕES 2006

Reproduzo abaixo dois artigos de analistas políticos sobre o acirramento do jogo eleitoral com as denúnicas da compra de um dossiê contra José Serra por petistas de São Paulo.

O VENENO PAULISTA
As pontas começam a se fechar e vai ficando claro que foi mesmo obra de petistas paulistas a tentativa tosca de comprar um dossiê contra os tucanos, por sinal também paulistas. Pontas que se unem:a) Lula estava em céu de brigadeiro mas o PT paulista destinado a sofrer umagrande derrota e a sair enfraquecido no eventual segundo Governo Lula. Oswaldo Bargas, que procurou a revista Epoca oferecendo denuncias contra os tucanos paulistas, é ligado ao PT paulista e á direção nacional.b) Paulistas e tucanos, como dizem, de um lado Lula, e de outro Aécio Neves, têm conturbado a vida política nacional com uma guerrilha particular entre eles. E nesta guerra, os petistas de SP estão levando a pior. Valeram-se do churrasqueiro Lorenzetti para comprar o dossiê com os préstimos deste Gedimar.c) E por que Gedimar falou que agiu a mando de Freud? Tudo indica que tentou proteger Lorenzetti, seu chefe imediato, ligado ao PT-SP. E resolveu mencionar o nome de um sujeito que viu no comitê, tratando de assuntos de segurança. Não sabia que este mesmo sujeito, aparentemente desimportante e modesto, era assessor direto do presidente, vinculado a sua segurança pessoal. Isso é o que está parecendo.d) Lula vai jogar os petistas que fizeram isso ao mar. Tarso Genro já deu entrevista neste sentido.e) Lula não deve sofrer grandes perdas eleitorais. Mas o PT, que estava a caminho de recuperar sua votação, fazendo uma boa bancada, por sair no prejuizo, depois de mais esta trapalhada. O PT é um péssimo feiticeiro. f) A Polícia Federal está de parabéns, embora ninguém queira reconhecer isso. Deu provas de independencia, ao abortar uma operação delituosa do partido do presidente. Este é crédito do Governo.g) os sanguessugas devem estar felizes. Poderão dizer que não aceitam a incriminação da CPI porque este Vedoim, como denunciante, não tem credibilidade.Aguardemos, o dia promete.


Tereza Cruvinel - 19/9/2006 - 16:58

A SITUAÇÃO POLÍTICA SE MEXEU. TERÁ SE MEXIDO TAMBÉM O QUADRO ELEITORAL?
13:11 19/09

O estado de ânimo das campanhas de Lula e Geraldo Alckmin ontem não poderia ser mais diferente. Entre tucanos e pefelistas, o clima era de excitação e torcida, com muita gente apostando que o escândalo da compra do dossiê contra José Serra é o empurrãozinho que faltava para levar, na undécima hora, a decisão para o segundo turno. Certa ou errada, a oposição avalia que voltou para o jogo. Está soltando foguetes pela ressurreição inesperada. Tem motivos.
Já entre os petistas, reinava o desconcerto e perplexidade. A versão oficial é de que o partido está sendo vítima de uma armação, mas esta explicação não conseguiu emplacar junto ao coração e às mentes da maioria dos militantes. Os laços internos esgarçaram-se de tal modo nos últimos 18 meses que ninguém bota mais a mão no fogo por ninguém. Gato escaldado tem medo de água fria, e no PT hoje em dia todo mundo desconfia de todo mundo. Apenas num ponto há unanimidade: pelo seu perfil e por sua fidelidade a Lula, a presença de Freud Godoy numa operação como essa não faz sentido – a menos que ele estivesse cumprindo ordens do próprio presidente, no que ninguém acredita. “Alguma coisa não fecha nessa história”, foi o que mais ouvi durante o dia de ontem de dirigentes petistas. Estão aturdidos.
De qualquer forma, tudo indica que Polícia Federal avançará rapidamente nas investigações. Tem em mãos o dinheiro, o dossiê, as gravações das conversas telefônicas e os presos em Cuiabá e em São Paulo. Com tantos elementos reunidos, não há motivo para que ela, em pouco tempo, não esteja em condições de informar à sociedade o que de fato aconteceu nesse episódio rocambolesco. A oposição, ao dirigir suas baterias contra Freud, pretende comprometer Lula – não é a toa que os jornais hoje lembram tanto relação entre Gregório Fortunato e Getúlio Vargas (vale lembrar que a história mostrou mais tarde que, por mais que parecesse inverossímil na época, Gregório não agiu a mando de Vargas). Já os governistas torcem para que Freud consiga enfraquecer a versão de que foi a eminência parda do episódio do dossiê.
De um jeito ou de outro, essa dúvida pode ser esclarecida em três tempos. Gedimar Passos, preso com a dinheirama no hotel em São Paulo, diz que recebeu todas as orientações de Freud há poucos dias. Onde? Quando? Exatamente em que circunstâncias? Freud nega. Ontem, na acareação, Gedimar preferiu ficar calado. Se Freud tiver um bom álibi, que desmonte a versão do outro, poderá se safar. Caso contrário, sua situação ficará muito complicada.
Fora da esfera policial, a dúvida é sobre o impacto do episódio no voto do eleitor. Os principais institutos de pesquisas estão em campo. O Datafolha divulga novos números hoje. Ontem à noite, no Canal Livre Eleições, da TV Bandeirantes, perguntei ao diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, se ele achava que o escândalo do dossiê poderia ser a “bomba atômica” capaz de alterar o quadro de estabilidade eleitoral que perdura há semanas, levando a decisão para o segundo turno. Ele respondeu que não, embora não descartasse a possibilidade de que o aprofundamento da crise possa gerar desdobramentos no ânimo de alguns segmentos do eleitorado. Mas até agora, explicou Coimbra, os levantamentos não captaram mudanças significativas nas intenções de voto. Está tudo como estava.
A conferir.

Franklin Martins

segunda-feira, setembro 18, 2006

FILOSOFIA

A EXISTÊNCIA DE DEUS NA FILOSOFIA TOMISTA

Introdução
O presente estudo é focado sobre a Questão 2 da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, que trata da existência de Deus em três artigos.
Segundo o Aquinate: “O objeto principal da doutrina sagrada está em transmitir o conhecimento de Deus não apenas quanto ao que ele é em si mesmo, mas também enquanto é o princípio e o fim das coisas.” Diante desse pequeno intróito, cabe-nos uma advertência: trata-se claramente de um artigo de fé, em vista de não fornecer a razão humana elementos confiáveis para apreensão de tamanho objeto.

As questões levantadas
Logo em seguida, Tomás de Aquino questiona quanto à essência divina: Deus existe? Fundamentadas nesta pergunta, ele formula mais três questionamentos, que deverão ser respondidos logo a seguir.
A primeira questão é: a existência de Deus é evidente por si mesma?
O aquinate responde afirmativamente a esta pergunta. Antes, porém, ele trabalha o conceito de evidente: “É evidente por si aquilo cujo conhecimento nos é natural.” Em seguida, ele cita Damasceno que diz que o conhecimento de Deus está naturalmente infundido em todos. Como ele considera evidente o conhecimento que nos é natural e o conhecimento de Deus está naturalmente infundido no homem, ele fecha o silogismo concluindo que a existência de Deus é evidente por si.
Não vou discutir se ele está certo ou errado em sua conclusão. Aparentemente, e, logicamente, o raciocínio está correto.
Em seguida, o Aquinate se refere ao argumento ontológico de Santo Anselmo, afirmando que se conclui pela evidência da existência de Deus pelo fato de não podermos encontrar um nome para algo que lhe seja superior: “Este nome [Deus] significa algo acima do qual não se pode conceber um maior; ora, o que existe na realidade e no intelecto é maior que aquilo que existe só no intelecto. Assim, ao se compreender este nome, Deus, ele existe em nosso espírito e conseqüentemente na realidade.”
Kant, contrapondo-se a Descartes, que havia se apropriado do argumento de Santo Anselmo, já apontou as falhas deste.
Tomás de Aquino após essas premissas, responde que: “Algo pode ser evidente por si de duas maneiras: seja em si mesma e não para nós, seja em si mesmo e para nós. Uma proposição é evidente por si se o predicado está incluído na razão do sujeito.” Em seguida, ele conclui que sendo as definições de sujeito e predicado conhecidas por todos: “esta proposição será evidente por si para todos.”
Finalmente, diz ele: “Digo, portanto, que a proposição Deus existe, enquanto tal, é evidente por si, porque nela o predicado é idêntico ao sujeito. Deus é seu próprio Ser (...). Mas como não conhecemos a essência de Deus esta proposição não é evidente para nós; precisa ser demonstrada por meio do que é conhecido para nós, ainda que por sua própria natureza seja menos conhecido, isto é, pelos efeitos.”
A segunda questão colocada é: é possível demonstrar a existência de Deus?
O aquinate inicia sua exposição considerando, aparentemente apenas, que é impossível demonstrar a existência de Deus, por considerar tal investigação como objeto da fé e não da ciência, sendo indemonstráveis aqueles. Continua ele em sua exposição, concluindo que falta o termo médio da demonstração, pois apenas não sabemos o que é Deus, apenas o que ele não é. Como terceiro argumento contra essa tese, o Aquinate diz que sendo Deus infinito causa e suas obras finitas efeito, como não se pode demonstrar uma causa por um efeito que não lhe é proporcional, segue-se que não se pode demonstrar a existência de Deus.
Entretanto, apesar de serem fortes os argumentos contrários, ele vai trabalhar com a afirmação de ser possível demonstrar a existência de Deus do seguinte modo: primeiramente, ele diz que existe dois tipos de demonstração: uma pela causa, que parte do que é anterior de modo absoluto; outra pelo efeito, que parte do que é anterior para nós. Nesse sentido, “por qualquer efeito podemos demonstrar a existência de sua causa se pelo menos os efeitos dessa causa são conhecidos para nós, porque os efeitos dependem da causa, estabelecida a existência do efeito, segue-se necessariamente a preexistência de sua causa. Por conseguinte, se a existência de Deus não é evidente para nós, pode ser demonstrada pelos efeitos por nós conhecidos.”
Em seguida, Tomás de Aquino vai negar que a existência de Deus seja artigo de fé, mas preâmbulos dos artigos, o que do nosso ponto de vista soa obscuro, confuso. Para ele, a fé pressupõe o conhecimento natural e “nada impede que aquilo que, por si, é indemonstrável e compreensível, seja recebido como objeto de fé por aquele que não consegue apreender a demonstração.”
Tentando justificar sua fé por meio da razão, o Aquinate envereda pelo caminho da lógica aristotélica, dizendo que “para provar que algo existe, deve-se tomar o termo médio não «o que é», mas «o que significa o nome», porque a pergunta «o que é», segue a pergunta «se existe». Ora, os nomes de Deus lhe são dados de acordo com seus efeitos (...), assim, ao demonstrar a existência de Deus por seus efeitos, podemos tomar como meio termo o que significa o nome de Deus.”
A terceira e última questão colocada é: Deus existe?
Novamente o Aquinate inicia sua busca de resposta pela via negativa, ou seja, expondo as opiniões contrárias à existência de Deus.
A primeira ordem de raciocínio é a seguinte:
a) de dois contrários, se um é infinito, o outro deixa de existir totalmente;
b) se o nome de Deus se trata de um bem infinito, se Deus existisse, não haveria nenhum mal;
c) ora, o mal se encontra no mundo;
d) logo, Deus não existe.
Em seguida, Tomás de Aquino afirma que se pode provar a existência de Deus por cinco vias: a primeira parte do movimento, pois tudo que move é movido por outro, concluindo que é necessário chegar ao primeiro motor, que não é movido por nenhum outro: Deus; a segunda via parte da razão de causa eficiente; a terceira é tomada do possível e do necessário; a quarta se toma dos graus que se encontram nas coisas; e a quinta, tomada do governo das coisas.

Apreciação crítica
As “provas” da existência de Deus de Tomás de Aquino pressupõem o que se pretende provar. Em outras palavras, o ponto de partida dessas “provas”, a rigor, não é o ponto de partida, mas de chegada. Tomás de Aquino procura elaborar argumentos sofisticados que possam provar a existência de Deus, fato que ele já cria aprioristicamente. Na verdade, não há interrogação.
Por outro lado, o Deus que se encontra ao final das cinco vias não é o Deus Cristão, mas um deus filosófico, produto de uma construção metafísica, pois nenhuma semelhança há com o Cristo, com sua divindade.
Finalmente, é interessante salientar que a inspiração aristotélica é evidente, o que torna seus argumentos paradoxais, pois a filosofia aristotélica é uma filosofia pagã por excelência.

sexta-feira, setembro 15, 2006

FILOSOFIA

CARTA SOBRE O HUMANISMO DE MARTIN HEIDEGGER

Introdução
Três questões foram levantadas pelo Prof. Carneiro Leão, em palestra em 2005, no Instituto de Teologia e Filosofia São Bento, que sob à luz do texto de Martin Heidegger, «Carta sobre o humanismo», bem como sobre o pensamento contemporâneo sobre a Ética. São elas:
a) a presença do valor e de um sentido na realização moderna;
b) comportar-se equivale a consumir o que?
c) a história dos comportamentos é a visita que o Real faz às decisões dos indivíduos?
Procuraremos dar uma resposta mediata, ou seja, aquela que se extrairá ao longo do texto de maneira indireta. A organização desta dissertação obedece fielmente àquela exposta no índice.
Prolegômenos
Iniciaremos nossa trabalho com a transcrição de um pequeno fragmento de Heráclito de Éfeso, trazido até nós por Clemente de Alexandria, e, conforme o decorrer da leitura, será justificado o motivo dessa escolha:

“ Se não se esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indescobrível o inacessível.”

Os fragmentos de Heráclito de Éfeso que chegaram até nossos dias, têm o aspecto de afirmações orais, expostas de forma concisa, em nada se assemelhando a excertos de uma obra redigida de forma contínua. Talvez, por esse motivo, o filósofo recebeu a alcunha de O obscuro ainda na Antigüidade. No entanto, grande parte do problema interpretativo da filosofia de Heráclito, decorre do fato de haver restado apenas fragmentos de sua obra, bem como porque esta foi escrita em uma língua cujo contexto foi perdido com o desaparecimento de sua cultura. Heráclito vai encontrar um paralelo em obscuridade apenas no Século XX, em Martin Heidegger, cuja insistência em apelar para a radicalização do pensamento metafísico o torna um dos filósofos mais enigmáticos de nosso tempo.
Não temos a pretensão de interpretar todos os aspectos da obra filosófica de Heidegger, tampouco temos capacidade para tal empreitada, apenas pontuaremos aspectos que nos pareceram mais relevantes, procurando dar ênfase às questões colocadas pelo Prof. Carneiro Leão.
É importante salientar ainda que, apesar da adesão de Heidegger ao Nazismo, nada encontramos em sua teoria que justifique a ideologia nazista, o que talvez justifique a completa ausência de referências dos teóricos nazistas à obra do autor de «Ser e Tempo», bem como a indiferença dada por Hitler à sua adesão, apesar de já ser o mesmo um filósofo de grande envergadura nesta época. Talvez essa indiferença se explique pelo fato de ser a ideologia nazista avessa à velha retórica liberal, desprezando o que eles denominavam como palavrório oco e vazio, uma ideologia voltada basicamente para a ação política.

Pequena biografia:
Martin Heidegger nasceu em Messkirch em 1889 e faleceu em maio de 1976 na cidade de Freiburg – imBreisgau. Foi aluno de Edmundo Husserl (1859-1938), criador do método fenomenológico, a quem substituiu na cátedra da Universidade de Freiburg em 1928, e de quem se afastou, posteriormente, após sua adesão ao nazismo. Alguns historiadores da Filosofia justificam esse afastamento pelo fato de ser seu antigo mestre de origem judia. Em 1933, após a ascensão de Hitler à chancelaria do Reich, Heidegger foi elevado ao cargo de Reitor da Universidade de Freiburg, cargo que ocupou por poucos meses, período ao qual, segundo alguns historiadores, teria destruído a liberdade acadêmica. Heidegger publicou várias obras, entre elas: «Ser e Tempo» (1927), seu maior e mais conhecido trabalho; «Que é Metafísica?» (1929); «Sobre o Humanismo» (1949); entre outras obras. Após sua aposentadoria em 1952, Heidegger passou a viver isolado em sua casa nas montanhas da Floresta Negra, comunicando-se apenas com restrito círculo de amigos e antigos discípulos.

Influências filosóficas:
Heidegger começou a se projetar entre os especialistas a partir de interpretações muito pessoais de alguns pensadores pré-socráticos, em especial, Heráclito, que defendia a imobilidade do Ser; e Parmênides, que inaugurou a Metafísica como a conhecemos, defendendo a tese da imobilidade do Ser. De certa forma, apesar do rompimento posterior, Heidegger recebeu influência de Husserl, e de Heinrich Rickert (1963-1936), neokantiano que se preocupava com a fundamentação metodológica da História, tendo sido aluno de ambos. Reconhece-se ainda a influência de Nietzsche, em sua crítica ao cristianismo e ao platonismo; de Kierkegaard; e, finalmente, de Wilhelm Dilthey, de quem herdou a idéia de superação da Metafísica..

Dicotomia Heidegger – Carnap:
Para compreender melhor a obra de Heidegger, é preciso situá-lo na vertente de uma idéia que nasceu com Dilthey e se bifurcou em dois traços antagônicos, que ainda hoje correm paralelos sem esperança de confluência. Com efeito, Dilthey, um pensador filho de um século historicista,em sua obra inacabada «Introdução às Ciências do Espírito», começou a fundamentar as ciências particulares do homem, da sociedade e da história, buscando o fundamento e a conexão da experiência humana independente da Metafísica. Cria o filósofo, que os sistemas dos metafísicos haviam decaído e que, apesar disso, continuava a Vontade a exigir, como sempre, que propósitos firmes guiassem a vida dos homens em sociedade. Para Dilthey, o princípio fundamental das ciências do espírito não se confunde com o princípio que rege as ciências da natureza, pois as primeiras têm como escopo a realidade social, havendo compreensão, as forças emocionais operam; enquanto que nas ciências da natureza, ao contrário, toma o cientista o fenômeno para explicá-lo, ordenando-o habitualmente segundo a causalidade da lei que o governa. Nesse sentido, concluiu o filósofo que somente o homem é compreensível ao homem, ferindo de morte a Metafísica, criando a necessidade de superá-la.
Dois filósofos tomaram para si esta tarefa, seguindo caminhos que se bifurcam em dois sentidos separados por barreiras intransponíveis: Heidegger e Carnap.
Para Carnap, em seu ensaio «Superação da Metafísica pela Análise Lógica da Linguagem» publicado em 1932, a Metafísica se constituiria de proposições destituídas de sentido, bem como porque a análise lógica dessas proposições levaria à sua superação. Realizada esta tarefa, o pensamento neopositivista envereda pelo caminho do pensamento lógico e da Filosofia das Ciências. A filosofia não teria que fazer indagações sobre o Ser, pondo ou alimentando problemas metafísicos, dos quais não é possível dizer que sejam verdadeiros ou falsos, apenas destituídos de sentido. Mesmo a Ética seria algo que desborda do campo específico da pesquisa científica, porquanto depende de cada indivíduo, de seus pendores e inclinações singulares, de emoções variáveis e imprevisíveis, sem garantia de verificabilidade.
Heidegger, por sua vez, por influência de Nietzsche e Kierkegaard, moldou outra forma de superação da Metafísica. Convenceu-se ele que toda a história da Ontologia não passava de uma Teologia, cujos principais responsáveis por essa degeneração seriam os teólogos escolásticos, que teriam trivializado a Ontologia, passando a trabalhar com um conceito de Ser vazio e abstrato, e que, com os neokantianos, caíra em uma Teoria do Conhecimento. Enquanto o neopositivismo joga toda sua força em promover a atividade científica, Heidegger vê no esvaziamento da Metafísica um signo de esquecimento do Ser e busca impedir que a Razão se instrumentalize inteiramente e perca a visão do todo.

Pequena análise de «Ser e Tempo»:
Em 1927, Heidegger publicou seu maior e mais conhecido trabalho, embora inacabado: «Ser e Tempo». Nesta obra, ele reflete sobre o problema do Ser, empregando o método fenomenológico herdado de Husserl, que busca abordar os objetos de conhecimento tais como estes se apresentam à consciência humana. Nesse sentido, Heidegger vai colocar como ponto de partida para sua reflexão aquele Ser que se dá de forma imediata ao conhecimento: o próprio homem. O caminho que leva ao Ser, diz ele, passa pelo homem, à medida em que este está sozinho para se interrogar acerca de si mesmo. Constituída como via de acesso para a descoberta do ser, a análise da existência humana constitui o conteúdo da obra.

Sobre o Humanismo:
As questões colocadas por Heidegger na parte publicada de «Ser e Tempo», que deveriam ser respondidas em outras seções, jamais o foram, fato que levou alguns intérpretes a falar de um segundo Heidegger, bastante diferente do primeiro, de maneira que não seria mais a existência humana a porta de entrada para o Ser, mas, ao contrário, este é quem torna possível a abertura para a compreensão da existência humana, ocorrendo um deslocamento, em seu pensamento, da problemática da existência humana para reflexões acerca do próprio Ser. O traço marcante das reflexões de Heidegger nesse momento, seria uma penetração cada vez mais incisiva no universo da linguagem, que para ele, seria o elemento mais característica da essência humana. A linguagem é a base do Real, sobre o qual os fenômenos se expõem com clareza. Heidegger procurará mostrar em seguida, que as relações das coisas existentes é provisória e atrelada ao tempo em que ocorrem. Nesse sentido, o fenômeno, ao se manifestar no tempo, portaria o sentido do Ser. Ao passo que a linguagem, proporcionaria ao homem, em sua existência ao lado do Ser, a oportunidade de entendimento desse Ser presente no tempo. O tempo teria a possibilidade de trazer o Ser à luz, pois possui condição necessária para a manifestação do próprio Ser no tempo, não como objeto tradicional das ciências e da filosofia, mas na forma de uma subjetividade entrelaçada, na qual sujeito e objeto se mesclam em um pensamento originário, o que demonstra uma tentativa, em certa medida pioneira, de tentar superar a relação sujeito x objeto, no qual a Teoria do Conhecimento havia se detido, apontando algumas dificuldades que essa dicotomia proporcionava à compreensão metafísica do Ser.
Diante de sua pública adesão ao Nazismo até o final da guerra, bem como diante do fato de Heidegger, até aquele momento não haver escrito uma obra de caráter explicitamente humanista e ética, Jean Beaufet, existencialista francês que tentava relacionar a obra do filósofo alemão ao Existencialismo francês, apesar de este último sempre haver se mantido desvinculado dessa corrente filosófica – sobretudo por causa do papel fundamental exercido pelo conceito de Nada entre os franceses – escreveu uma carta a Heidegger, pedindo que este pensador esclarecesse qual o significado se poderia dar ao humanismo abalado por duas guerras mundiais sucessivas. «Sobre o Humanismo» é a resposta do filósofo alemão à essas indagações. Em linhas gerais, o filósofo da Floresta Negra irá propor, tendo por fundamento o fragmento de Heráclito que abre essa dissertação, que a Ética abandone o moralismo superficial e o legalismo dos códigos para buscar sua raiz na morada do próprio ser humano.
Logo na abertura da Carta, diz Heidegger: “Nós não pensamos ainda a essência da ação de modo suficientemente decisivo. Só se conhece o agir como produção de um efeito, cuja efetividade se avalia pela sua utilidade. Ora, a essência da ação é consumar. Consumar significa desdobrar alguma ciosa na plenitude de sua essência, conduzi-la a essa plenitude, producere. Por isso só pode ser consumado propriamente o que já está sendo...” Nessa introdução, ao pensar a essência do agir, esse tema da Ética é relacionado ao consumir e produzir que só pode se realizar naquilo que já é o próprio Ser. No pensamento o homem pode estabelecer a relação do Ser consigo mesmo, pois pensar seria o engajamento em uma ação que leva à verdade do ser. Para ele, a filosofia ocidental deveria abandonar a pretensão de conhecer os objetos e os entes de modo científico, afastando-se da concepção de pensamento prático oriunda de Platão e Aristóteles. Para ele, somente quando o pensamento sai de seu elemento próprio é que a técnica passa a ser valorizada como atividade cultural e a filosofia se transforma em uma técnica de explicação das causas últimas, o que se constitui em uma crítica a Aristóteles, que buscava as causas últimas das coisas, o primeiro motor.
Ainda para ele, a essência do homem não se resume em ser este um animal que pensa, porém ao homem cabe proteger a verdade do Ser e, por conta disso, o Ser não se pode identificar como ente, tal como tem sido feito pela filosofia ocidental. Heidegger supõe ainda, que o homem pode pensar a verdade do Ser a partir da existência. Todavia, para pensar o Ser e experimentar sua essência, é preciso retornar às questões originárias da história do Ser, revelando sua metafísica, um forte apelo à tradição clássica que se concretizaria pela volta ao pensamento originário grego, aos pré-socráticos.
O humanismo para Heidegger é aquele que “pensa a humanidade do homem desde a proximidade do Ser” devendo se voltar não para o ente humano, mas para sua existência autêntica na verdade do Ser-no-mundo, concebido como uma clareira. A Ética, para ele, surge a partir de Platão, pois os antigos pensadores gregos não a conheciam. O ethos – palavra grega da qual derivou a Ética – é traduzida geralmente por morada ou costume. Isso significa que o homem é a morada do Ser. Ao pensamento cabe a tarefa de edificar essa morada, onde o homem habitaria a verdade. O pensar originário seria esse agir que supera a noção prática e o produzir, uma vez que ele consome o mínimo do Ser, ao pronunciá-lo em seu meio: a linguagem.

Apreciação crítica:
No decorrer do século passado a filosofia de Heidegger gerou muitas controvérsias, com alguns seguidores, como por exemplo, os existencialistas franceses, outrossim, muitas críticas lhe foram feitas, principalmente pelos neohegelianos, inspirados em sua adesão ao Nazismo. A crítica feita por estes últimos deriva do problema do Ser, que para eles se resume em mero exercício verbal, inútil e inconseqüente, pois, conforme ensinara Hegel, o Ser não passa de abstração do entendimento, tendo em vista que a realidade seja natureza, ou história, não é Ser, mas vir-a-ser.

quinta-feira, setembro 14, 2006

POESIA

NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito engomadinha, e na primeira esquina passa um caminhão,
Salpica-lhe o paletó ou a calça de uma
nódoa de lama:

É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,
as virgens cem por cento e as amadas que
envelheceram sem maldade.


Manuel Bandeira

terça-feira, setembro 12, 2006

POESIA

O silêncio de Pascal

“O silêncio desses espaços
infinitos me apavora
os pensamentos estraçalhados de
Pascal
são a crise de uma consciência
excepcional
no limiar de uma nova era
o místico Pascal
contempla o céu estrelado
numa vã espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
àquela solidão de estrela”
( leopardi via haroldo de campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão cósmica de Pascal
é o pendant do vazio
de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
Pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo o que tinha que dizer
pela boca da história.

Paulo Leminski

segunda-feira, setembro 11, 2006

POESIA

Prometi que o blog também conteria poesia, e hoje, 11/09/2006, cinco anos após a explosão das torres gêmeas, publico o poema visionário de Drummond.


ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
Onde formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
Sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
E preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
Ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
E sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
E te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com ele conversas
Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitísssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
E adiar para o outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattam.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, setembro 08, 2006

TEATRO GREGO - QUARTA PARTE

A TEOGONIA
Nos versos 510 a 516 da Teogonia, está contada a história de Prometeu segundo Hesíodo. Consta, nestes versos, que o primeiro atrito de Prometeu e Zeus, ocorreu quando o Titã dividiu um boi em duas partes, uma cabendo a Zeus e outra aos mortais. Na primeira parte, estavam carnes e vísceras cobertas com o couro. Na segunda, apenas ossos cobertos com a banha do animal. Zeus, atraído pela banha, escolheu a segunda e ao descobrir seu malogro, o rancor e a cólera lhe subiram a cabeça. Por conta disso, Zeus castigou os homens, negando-lhes a força do fogo infatigável. O fogo representando, simbolicamente, a inteligência do homem. Porém, a afronta definitiva de Prometeu ocorreu quando este roubou “o brilho longevisível do infatigável fogo em oca Férula” (Teogonia, 566) o entregando aos homens. Com este gesto, Prometeu reanimou a inteligência do homem, que antes era semelhante aos fantasmas dos sonhos. Por conta de os mortais obterem o fogo, Zeus armou uma armadilha: mandou o filho de Hera, o deus coxo e ferreiro Hefesto, plasmar, esculpir em gesso, uma mulher ideal, fascinante, ao qual os deuses presentearam com alguns atributos de forma a torná-la irresistível. Esta mulher foi batizada por Hermes como Pandora, (pan = todos, dora = presente) e ela recebeu de Atena a arte da tecelagem; de Afrodite o poder de sedução; de Hermes as artimanhas e assim por diante. Pandora foi dada de presente para o atrapalhado Epimeteu, que, ingenuamente, a aceitou, a despeito da advertência de seu irmão Prometeu. A vingança planejada por Zeus estava contida em uma jarra, que foi levada como presente de núpcias para Epimeteu e Pandora. Quando esta, por curiosidade feminina, abriu a jarra e rapidamente a fechou, escaparam todas as desgraças e calamidades da humanidade, restando na jarra apenas a esperança. Segundo Nietzsche, a esperança enganadora.
Quanto a Prometeu, Zeus mandou castigá-lo, prendendo-o pelas inquebráveis correntes de Hefesto no meio de uma coluna, e, após longo período de suplício, teve sua pena aumentada por um abutre de longas asas enviado por Zeus, que lhe comia o fígado imortal. Ao cabo do dia, chegava a negra noite por Prometeu ansiada, e seu fígado tornava a crescer. Teria sido assim eternamente se não fosse por intervenção de Héracles, que matou o abutre com o consentimento de Zeus.

A TRAGÉDIA PROMETEU ACORRENTADO
Conforme narrada alhures, o poeta Hesíodo relatou, em sua Teogonia, como Prometeu roubou o fogo escondido no Olimpo para entregá-lo aos homens e como Zeus o acorrentou a um penhasco, onde um abutre devorava diariamente seu fígado, que se reconstituía à noite. Lendas posteriores narram como Héracles matou o abutre e libertou Prometeu. Na Grécia, havia altares consagrados ao culto a Prometeu, sobretudo em Atenas. Nas lampadofórias (festas das lâmpadas) se reverenciavam ao mesmo tempo Prometeu, que roubara o fogo do céu, Hefesto, deus do fogo, e Atena, que tinha ensinado o homem a fazer o óleo de oliva. A tragédia Prometeu Acorrentado de Ésquilo foi a primeira a apresentá-lo como um rebelde contra a injustiça e a onipotência divina, imagem particularmente apreciada pelos poetas românticos, que viram nele a encarnação da liberdade humana levando o homem a enfrentar com orgulho seu destino. O mito, além de sua repercussão literária e artística, tem também ressonância profunda entre os pensadores. Simbolizaria o homem que, para beneficiar a humanidade, enfrenta o suplício inexorável; a grande luta das conquistas civilizadoras e da propagação de seus benefícios à custa de sacrifício e sofrimento, pois Prometeu, apesar de todas as desgraças abatidas sobre si e as vindouras anunciadas pelo mensageiro de Zeus, em nenhum momento demonstra estar arrependido de seu ato e sua determinação em resistir ao opressor é de extraordinária força e beleza: “Faça ele o que fizer!... Eu hei de viver!”. Nesse sentido, Prometeu se transforma no maior mito da inteligência revoltada.
A fala de Prometeu na tragédia de Ésquilo remete para ele a dívida dos mortais, pois assim que Zeus assumiu o trono, visou destruir os homens e Prometeu se opôs a esse projeto do Ajuntador de Nuvens, e ainda, livrou-os do desejo da morte, dando-lhes esperança no futuro; deu-lhes habilidade para construir casas de tijolos e madeira.

O MITO POR PLATÃO:
O mito de Prometeu foi estudado também por Platão no diálogo Protágoras. Nesta obra, todas as criaturas vivas aparecem como obra de vários deuses, que as plasmaram inicialmente com terra, limo e fogo. A palavra latina homem está ligada a húmus (terra) e os gregos acreditavam que uma centelha divina de imortalidade percorria toda a Terra. São os outros deuses que incubem Prometeu e Epimeteu de dar aos seres as qualidades necessárias para se sustentarem quando viessem à luz. Epimeteu, por ser atrapalhado, torna-se um reversor dos benefícios de Prometeu aos homens, tanto em Hesíodo quanto em Platão. Protágoras continua a narrativa dizendo que Epimeteu pediu a seu irmão para que deixasse por sua conta a distribuição das qualidades, cabendo a Prometeu apenas uma revisão final.
Começa então a divisão compensatória de Epimeteu: a alguns dá força sem velocidade, a outros dá apenas velocidade. Tendo em vista o que conhecemos dos animais hoje, sabemos que é perfeitamente possível um animal ter força e velocidade ao mesmo tempo, como no caso de uma leoa ou guepardo.
Para algumas criaturas, Epimeteu deu armas. Aos que não a tinham, achou diferentes soluções, como asas para fugir aos pequenos animais. É certo que asas são um meio de transporte ideal para as fugas, mas também o são para a caça, como comprovam as aves rapinaces predadoras. As qualidades foram assim distribuídas para que houvesse um equilíbrio, e não viessem as espécies destruir umas às outras. Depois Epimeteu provê os seres com o necessário para sobreviverem no frio, os pêlos. Por último determinou o que cada um deveria comer, de acordo com a sua constituição: ervas, frutos, raízes e carne. Os que comiam carne, de acordo com o mito, se reproduziriam menos do que os herbívoros. Hoje sabemos que o número de filhotes faz parte de duas estratégias de perpetuação de espécie que independem do hábito alimentar. Na primeira, as mães têm filhotes em grande número, sendo que poucos chegarão na vida adulta. Na segunda, a mãe tem poucos filhotes, e se esforça para que todos atinjam a idade da reprodução. Um elefante herbívoro, por exemplo, tem apenas um filhote por vez, ao passo que uma armadeira predadora tem vários.
Epimeteu, por não refletir, termina a sua distribuição das qualidades, mas deixa de lado um ser: o homem. O que sobrou para o homem? Nada, permanecera nu e sem defesa. Estava se aproximando a hora determinada para que o homem chegasse à luz e Prometeu aparece para fazer sua parte. Não encontrando outra solução, Prometeu é obrigado a roubar o fogo de Hefesto e a sabedoria de Atena, deusa de olhos verde-mar. De posse dessas duas qualidades, o homem estava apto trabalhar o fogo nas suas diversas utilidades, e assim garantir a sobrevivência. Porém, a qualidade necessária para os homens se relacionarem entre si se encontrava nas mãos de Zeus: a política. E era proibido a Prometeu penetrar na Acrópole de Zeus, vigiada por temíveis sentinelas. Protágoras termina o mito dizendo que consta ter sido Prometeu morto por este crime, o que não é possível, pois Prometeu era imortal.

AS DIFERENÇAS
As diferenças entre as narrativas de Platão e Hesíodo são mais visíveis que as semelhanças. Por exemplo, em Hesíodo o trabalho é um castigo do Crônida aos mortais, Platão nos leva a crer que o trabalho é uma dádiva. O nascimento dos mortais em Hesíodo é bem anterior a Platão, se tomarmos como referência o roubo do fogo, que em Hesíodo se dá depois do nascimento dos homens. Em Ésquilo, o homem vive por séculos sem conseguir a aptidão necessária, antes de receber o fogo como presente. Isto representa a dificuldade de sobrevivência do homem nas eras primitivas, ou a miséria do homem na Idade do Ferro. Em Platão o homem já obtém a capacidade de trabalhar o fogo desde a sua criação, para ele a miséria consistindo na falta da arte política, indispensável para a fortificação dos homens em cidades e a instituição de um governo virtuoso baseado na justiça.

CONCLUSÃO
A dívida que assumimos com os antigos helenos pertence à espécie daquelas que não se extinguem, tampouco são amortizadas apesar dos séculos e milênios fluírem. Entre as criações gregas das quais somos mais devedores, avulta o teatro, e dentro desse, a poesia dramática em sua forma definitiva: a tragédia, proveniente das festas dionísias. Se a Grécia continua viva entre nós, tal fato se deve a tudo que este povo produziu de belo e perene.
Dentre as obras perenes produzidas pelos helenos, destaca-se a tragédia Prometeu Acorrentado, obra de extraordinária beleza. Os personagens desta peça são vítimas impotentes da fatalidade inexorável, apesar de o personagem principal dar provas de uma coragem que toca as raias do sublime, resistindo à inquirição do mensageiro de Zeus em respostas claras e de audaciosa ironia. Com efeito, Prometeu, demonstrando uma altivez incomum, permanece impassível diante das ameaças de Zeus, que queria que ele clarificasse uma profecia. “Eu não consentiria em trocar minha miséria por tua escravidão.” Diz ele ao mensageiro de Zeus que o avisara das novas agruras que passaria ao se negar a revelar as predições. Logo em seguida, após Hermes profetizar que seu sofrimento só terminaria quando um deus quisesse ficar em seu lugar, demonstra conhecer esses vaticínios e renova suas forças em uma crença inesgotável no futuro e na Razão (“Eu hei de viver!”), e ainda demonstra ter ciência de que o dia de sua liberdade haveria de chegar. Com efeito, após anos de tortura e sofrimento, Héracles, passando por ali, viu o exato momento em que a ave divina destroçava o fígado de Prometeu. O herói lançou sobre ela uma flecha e depois libertou o Titã das pesadas correntes. No entanto, faltava cumprir ainda uma última exigência de Zeus. Quíron, um centauro, antes imortal, aceitou morrer por Prometeu. Mesmo assim, o Senhor dos deuses obrigou o Titã a usar um anel com uma pedra, retirada do Cáucaso, encrustada, para significar que seu inimigo continuava preso à montanha.
Outro aspecto importante da obra é o diálogo entre Prometeu e Io. O primeiro condenado à eterna imobilidade, a segunda, condenada a se mover eternamente, em louca disparada, fugindo do moscardo que a aflige; ambos vítimas da iniqüidade e da prepotência. Apenas um parêntese: Prometeu, ao contrário de Io, não é uma vítima inocente, pois Prometeu acorrentado ao penedo nos confins da Cítia, representa o eterno mártir, ao mesmo tempo que herói lúcido (“Nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim.”) e revoltado contra os deuses que o afligem (“Ah! Vejam a injustiça que suporto!”).
É preciso analisar esta obra dentro do contexto do teatro grego e da hipótese de ser este uma reação da tradição às mudanças em curso trazidas pela Filosofia. Nesse sentido, é compreensível que Aristófanes vá satirizar Sócrates na peça As Nuvens, pois este último lançava o descrédito sobre a tradição religiosa dos helenos, que fundamentava as instituições políticas. Em última instância, Sócrates ao colocar em cheque esses valores e esses mitos, termina por atacar as bases do status quo e Aristófanes, defensor desses valores, o teria utilizado como protótipo dos filósofos que especulavam sobre o fenômeno da natureza. É importante salientar que Sócrates terminou condenado a morte, acusado de impiedade, que em outras palavras significa não respeitar os deuses, leia-se: a tradição religiosa.
Prometeu partilha da mesma sorte que Sócrates, pois sua acusação é de desrespeitar os deuses e seu crime, amar a Humanidade. No entanto, Prometeu Acorrentado, apesar de contextualizado dentro da tradição, contraditoriamente, possui muita semelhança com a história de Sócrates, representante maior da filosofia grega. Ambos, apesar da punição imposta, não abrem mão de suas crenças e caminham soberbos, um para a morte iminente, o outro para o suplício sem fim, querendo demonstrar com isso que existem valores superiores à própria vida. Valores que, se devassados, pouco importa que a vida continue, pois perdera seu sentido último.
A peça termina com um comovente brado de Prometeu, que já ouve o fragor da horrenda catástrofe que se avizinha: “Com efeito, não foi uma ameaça apenas: a terra põe-se a tremer... O soturno ronco já se faz ouvir (...) Ó minha augusta mãe... vede que injustos tormentos me fazem sofrer!”

terça-feira, setembro 05, 2006

TEATRO GREGO -TERCEIRA PARTE

O MITO DE PROMETEU
A figura trágica e rebelde de Prometeu, um dos símbolos da humanidade, constitui-se entre os mitos gregos mais presentes na cultura ocidental. Foi descrito na literatura clássica grega, principalmente, em Hesíodo, tendo surgido nas duas obras do poeta, Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Nesta última, o mito foi recontado e complementado. Afora Hesíodo, outra obra importante, a tragédia Prometeu Acorrentado de Ésquilo, foi dedicada a ele. Porém, nesta última o mito não está completo, pois começa no instante em que Hefesto e Cratos castigam o titã, a mando de Zeus. Prometeu, em diversas partes dessa obra, se refere aos fatos que o levaram a ser acorrentado, como para atualizar os ouvintes dos motivos que o levaram até ao penedo, onde passará seus dias de pena. A tragédia fazia parte de uma trilogia, mas as outras duas partes se perderam.
O nome Prometeu, segundo a etimologia popular, teria vindo da conjunção das palavras gregas pró (antes) e manthánein (saber, ver), ou seja, equivaleria a prudente ou previdente. Embora, como afirma Ésquilo, Prometeu não supusesse o teor do castigo de Zeus ao desafiá-lo, ainda assim lhe é atribuído um caráter oracular, por ter proferido um vaticínio sobre a queda de Zeus. Alguns outros mitógrafos atribuem a teoria desta previsão à Têmis. A profecia diz que o filho da nereida Tétis e de Zeus destronaria o pai. Por causa disso, Zeus desiste de seduzir a nereida e se apressa a lhe dar um esposo mortal, que acabou sendo Peleu, pai de Aquiles. Este cuidado de Zeus também se verifica quando ele engole a mãe de Atena, Métis (sabedoria, astúcia), sua primeira esposa, para que não nascesse dela um filho mais poderoso que o pai. Engolindo-a ainda grávida, o ajuntador de nuvens termina por gestar Atena, deusa da sabedoria, que nasce da cabeça do pai. Alguns teóricos interpretam esse nascimento como a atenuação dos instintos animais do homem e o surgimento da Razão.