terça-feira, agosto 15, 2006

POLÍTICA

Entrevista com H.H.

Fátima Bernardes: Candidata, no mês passado, a senhora disse que nãodiscutiria com o ministro das Relações institucionais, Tarso Genro,porque ele era um empregadinho do presidente Lula. A senhora consideraessa expressão ofensiva aos brasileiros, já que a maioria deles também éformada por empregados?

Heloísa Helena: Não, eu até me arrependo de ter usado o termoempregadinho por uma motivação óbvia. Eu respeito muito as pessoassimples e humildes que nasceram inclusive como eu. Mas eu não possoaceitar que os ministros, com tantos problemas que existem no Brasil, eujá disse várias vezes que eu não quero bater boca com ministro, acho queeles não podem se comportar como moleques de recado do presidente daRepública. Eles podem ter uma oportunidade civilizada, franca,qualificada de debater com o presidente da República e não ficar nobate-boca.

Fátima Bernardes: Além dessa expressão empregadinho, que a senhora atéhá de considerar meio preconceituosa, a senhora usou outras expressõescomo safados, lacaios, imbecis. Essas expressões não mostram uma certafalta de tranqüilidade?

Heloísa Helena: Não, sou uma pessoa absolutamente tranqüila, agora eunão sou uma pessoa fingida e dissimulada. Eu sei que no mundo dapolítica é um espaço muito sedutor para aqueles que abraçam pela frentee esfaqueiam pelas costas. E eu me sinto igualzinha à grande maioria dasmulheres brasileiras, que não aceitam a mentira, a vigarice política, atraição. Eu apenas posso ter o defeito de ser muito franca daquilo querealmente eu acredito. Agora, é inaceitável os ministros com tantosproblemas no Brasil, imagina, saírem por aí espalhando que eu vou tiraros estudantes das universidades, que mal estão nas universidades atravésde 200 mil bolsas do Pró-Uni, eu jamais retiraria. Quem teve umainfância como eu, quem passou a situação como eu passei, com uma mãecostureira, virando noites em uma máquina de costura pra levar meu irmãoa concluir medicina, eu enfermagem. Eu sou professora da universidade.Espalhar pelo Brasil, pelo Nordeste brasileiro que eu vou acabar com oBolsa Família, que muitas vezes é a única coisa de uma mãe pobre, um paipobre colocar na mesa do filho simplesmente porque eu digo que o BolsaFamília não pode ser um incentivo pra vivência dolorosa da gravidez naadolescência, tem que estar junto com escola integral para que a meninapossa escolher se vai ser uma cientista no futuro, uma bailarina, umamúsica ou esportista, junto com a capacitação profissional, com ainserção no mundo do trabalho, inclusão no emprego. Então agüentar issorealmente fica muito difícil.

William Bonner: Está esclarecida a questão do Bolsa Família.

Heloísa Helena: Eu só não tenho tolerância com quem é chegado a vigaricepolítica, ao banditismo, isso realmente eu não tenho tolerância.

William Bonner: A sua experiência num cargo executivo tem 14 anos. Foina prefeitura de Maceió como vice. A senhora se considera plenamentepreparada para exercer a presidência da República?

Heloísa Helena: Absolutamente preparada porque senão, sinceramente, eunão seria candidata.

William Bonner: A senhora considera que a experiência administrativa, aexperiência num cargo executivo não é necessária para o exercício dapresidência da República?

Heloísa Helena: Não, porque se fosse assim objetivamente teria umproblema grave em relação à eleição de várias pessoas. O FernandoHenrique que nunca tinha tido cargo executivo, o presidente Lula.

William Bonner: A senhora apontaria como exemplos positivos deadministração essas pessoas?

Heloísa Helena: Não, eu só digo uma coisa a você. Eu não sou mercadorade ilusão, não sou cínica e mentirosa, jamais disponibilizaria meu nomee o programa ao povo brasileiro se eu não me sentisse plenamentecapacitada de cumprir essa tarefa. Eu digo sempre duas coisas. Eu estouabsolutamente preparada para estar no Palácio do Planalto, enfrentandoos sabotadores do desenvolvimento econômico, viabilizando ademocratização da riqueza, a reforma tributária, a política de saúde, aeducação, a segurança pública, investimentos na indústria, no comércio,no que gera emprego e renda para o meu Brasil e se eu tiver que voltar àsala de aula eu também estarei lá de cabeça erguida tratando dos temasque são importantes na Universidade Federal de Alagoas.

Fátima Bernardes: Vamos falar então do seu programa. O programa de seupartido falando de reforma agrária diz que não existe saída para o campobrasileiro sem a expropriação das grandes fazendas, sejam elasprodutivas ou não. A senhora vai tomar terras de proprietários ruraisque produzem e empregam?

Heloísa Helena: Eu não posso meu amor, porque a Constituição proíbe.Programa de partido se trata de objetivos estratégicos do partido. Nãotem nada a ver com programa de governo. Seria impossível fazer aexpropriação de terra, a não ser que tenha trabalho escravo ou plantaçãode maconha. Porque eu não sou favorável ao narcotráfico, pelo contrário,vai ter um combate implacável ao crime organizado se eu tiver a honra dechegar à presidência da República. Diferente. A Constituição do Brasil émuito clara. Porque eu tenho obrigação de conhecer a ordem jurídicavigente, a legislação do meu país. A Constituição do país é clara: terraimprodutiva passível de reforma agrária. A nossa proposta de reformaagrária, ela se trata no sentido de assentar 1 milhão de famílias quedaria 200 mil famílias, ou seja, 1 milhão de pessoas.

Fátima Bernardes: Não seria incoerente candidata, ter visto no programa,quer dizer, não pode levar o eleitor a pensar o seguinte. Que outrositens do seu programa, do partido que a senhora ajudou a fundar, asenhora poderia dizer que não pretende cumprir?

Heloísa Helena: Não. Veja só uma coisa. Talvez quem não é militante departido, não entenda muito isto. Os objetivos estratégicos de umpartido, por exemplo, eu sou uma socialista por convicção, eu digosempre que aprendi na bíblia antes de ler os clássicos da históriasocialista a ser uma socialista. Acho que nada de mais belo existe, amais bela declaração de amor à humanidade de cada um conforme suaspossibilidades e para cada um conforme sua necessidade. Objetivoestratégico é algo que você pensa em implementar em 30 anos, 40 anos.

William Bonner: Não necessariamente constitucionais candidatas.

Heloísa Helena: Claro. O programa de governo é outra coisa. Programa degoverno não pode estar distanciado da legislação em vigor do país.Qualquer questão, quer seja as relações internacionais do Brasil, aautodeterminação dos povos, o que está na área de segurança, de saúde,de educação, nada pode ser feito além daquilo que a legislação em vigorno país.

William Bonner: A senhora fala em socialismo. A senhora é uma socialistapor convicção. O P-Sol e a senhora defendem o socialismo, mas nãodefendem nenhum regime totalitário. E também não defendem uma formademocrática. Social-democracia também não é defendida pela senhora. Apergunta que se coloca é a seguinte: estamos no momento eleição. Qual omodelo de país que a senhora apresentaria como um exemplo para osbrasileiros e dissesse assim: “este é o modelo que o P-SOL defende parao Brasil”.

Heloísa Helena: Meu amor, olha, a transposição mecânica de experiênciashistóricas é uma fraude política e desonestidade intelectual que eujamais poderia compartilhar.

William Bonner: Mas na vida prática não há um modelo em vigor?

Heloísa Helena: Meu amor, deixa eu dizer uma coisa. Não há no planetaTerra nenhuma experiência socialista. Então seria desonestidadeintelectual da minha parte e desconhecimento de toda a tradiçãosocialista dizer que eu vou implementar o socialismo. O que eu digovárias vezes, eu não nego minhas convicções, acho inclusive que com essaestrutura anátomo-fisiológica eu não vou vivenciar a mais beladeclaração de amor à humanidade. Hoje eu luto pela democracia. Ademocratização da riqueza, das políticas sociais, da informação e dacultura. Da terra e do espaço bom, porque a democracia no Brasil nãoexiste.

William Bonner: Senadora, me permita. É o momento de esclarecer.

Heloísa Helena: Por isso que eu estou esclarecendo. A democracia não seconsolida porque nós estamos falando o que pensamos. A democracia de umpaís não se consolida quando 48% de toda a riqueza produzidanacionalmente ela é apropriada por 0,005% das famílias brasileiras.Então quando eu digo que é importante baixar a taxa de juros para quenós tenhamos 60 ou 70 bilhões de dinheiro novo e limpo, não para colocarnas peças íntimas de vestuário masculino, comprar parlamentação de sugaou mensaleiro, mas para investigar no que dinamiza a economia local,gera empregos, gera renda, possibilitar a educação. Veja que coisamaravilhosa, tem lógica um país que investe dez vezes mais pagando jurosda dívida do que toda área da educação? A educação infantil - que écreche, escola - ensino fundamental, ensino profissionalizante, educaçãode jovens e adultos, ensino médio, produção de ciência e tecnologia quevocês estavam a pouco falando das incubadoras para a nossa juventude.Existe democracia num país onde mais da metade dos jovens brasileirospassam o dia todo sem fazer nada, nem estudam, nem trabalham?

Fátima Bernardes: Candidata, vamos voltar à questão. Este ano que passouagora com integrantes de declarações suas. Os integrantes do movimentoMLST invadiram e depredaram o prédio do Congresso. A senhora semanifestou num discurso no plenário contrária àquela ação, mas ao mesmotempo disse que o endereço estava errado. Que o endereço seria o Paláciodo Planalto do outro lado da praça.

Heloísa Helena: O endereço não para destruição de prédios públicos.

Fátima Bernardes: A senhora é favorável à invasão de prédios públicos?

Heloísa Helena: Minha filha, deixa eu dizer uma coisa. Veja, eu tive umfilho que passou 15 dias em coma com traumatismo craniano. Imagina comoeu me sentiria se fosse o meu filho que fosse apedrejado comparalelepípedo, tivesse um traumatismo craniano ou se fosse o meu filho,o fotógrafo jogado por uma escada que ficasse andando nos corredores doSenado em uma cadeira de rodas.

William Bonner: A sua condenação à violência foi enfática, senadora, noseu discurso. Mas a pergunta é específica sobre a invasão de prédiospúblicos.

Heloísa Helena: Não, a ocupação de prédios públicos... eu, se tiver ahonra de chegar ao Palácio do Planalto, isto não vai acontecer, porque aocupação de terras improdutivas ou de espaços públicos só se dá quandoos governos são tão incompetentes, irresponsáveis e insensíveis, quemontam um mapa da reforma agrária conforme a violência.

Fátima Bernardes: Candidata, é muito difícil a senhora prometer que nãovai haver invasão de prédios públicos.

Heloísa Helena: Eu estou dizendo que eu vou antecipar.

Fátima Bernardes: Mas a reforma agrária não se faz no primeiro dia,candidata.

Heloísa Helena: Mas eu tenho que entender mais de reforma agrária do quevocê, danadinha.

Fátima Bernardes: Longe de mim, eu me coloco aqui no papel de umeleitor, de um telespectador em dúvida apenas.

Heloísa Helena: Você tem razão, porque não é fácil, você ter que fazertodo o processo de desapropriação, você tem que analisar, eu sei que temtodo um processo de desapropriação, mas tenha certeza, o problema dasocupações de terra no Brasil, da violência no campo, eu digo pra você,com a sinceridade de uma mãe. O problema é que os governos passam afazer a desapropriação de terra, os assentamentos que não sãoassentamentos, são verdadeiras favelas rurais, porque reforma agrárianão é só a distribuição de terra. É saneamento agrícola, é crédito,infra-estrutura, é impossível as pessoas permanecerem nas favelas ruraiscomo está acontecendo no país.

Fátima Bernardes: Para que a gente não deixe de fazer um fecho para asua entrevista, eu gostaria que a senhora dissesse em 30 segundos para oeleitor o que a senhora considera um bom governo.

Heloísa Helena: Um governo que possa acolher as crianças brasileiras e ajuventude brasileira, do mesmo jeito que eu, mãe, acalento os meuspróprios filhos. E eu quero também agradecer o carinho, a delicadeza, asflores e os beijinhos que a gente tem recebido nas nossas caminhadaspelo Brasil. É uma luta que tem que fazer nascer um Davi por dia nosnossos corações, nós estamos firmes, fé em Deus e fé na luta do povosempre.

Comentário: HH estava histriônica tentando passar uma imagem de equilíbrio que não condiz com o que dela conhecemos no Congresso Nacional. No entanto, a máscara caiu em alguns momentos, quando não deixou que seus entrevistadores fizessem apartes, ou quando não respondia ao perguntado, apelando pela religiosidade e pelo fato de ser filha de pobre e mãe. Esse discurso está ultrapassado. Entretanto, não se deixou encurralar como o candidato do PSDB.
Nota: faltou uma pergunta sobre a cassação do Luiz Estevão.

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