segunda-feira, agosto 28, 2006

FILOSOFIA

Fundamentos da História da Filosofia Contemporânea
anotações de aula do Prof. Emmanuel Carneiro Leão - ago/2005
Instituto de Filosofia do Mosteiro de São Bento

A Filosofia não é uma ciência, uma teoria ou disciplina do conhecimento, tal como nós os entendemos hoje em dia. Ao contrário! Toda ciência, teoria ou disciplina do conhecimento é que são, de alguma maneira, dependentes da Filosofia, quer se reconheçam ou não, quer se assumam ou não, como oriundos da Filosofia. A Filosofia também não constitui uma ideologia, concepção de vida ou visão de mundo. Mas não vale a inversão, pois uma ideologia, concepção de vida ou visão de mundo não podem prescindir de todo da Filosofia.
Foi o que, em 1949, no Congresso Nacional de Filosofia, reunido em Mendonza na Argentina, reconheceu o próprio Bertrand Russel com as seguintes palavras:
“...There is one matter of great philosophic importance in which a careful analysis of scientific inference leads, if I am not mistaken, to a conclusion which is unwelcome to me and, I believe, to almost all logical positivist. The conclusion is that uncompromising empiricism is untenable”
“…Existe um significado de grande importância filosófica, ao qual uma cuidadosa análise de inferência científica nos leva, se não estou errado, à conclusão que não é bem-vinda para mim e, acredito, para quase todos os positivistas lógicos. A conclusão é que um empirismo sem compromisso é insustentável.” ! - Actas del Primer Congresso Nacional de Filosofia, Mendonza, Argentina, 1949, p. 1219

Mas então que é Filosofia, se não for uma ciência, teoria ou disciplina do conhecimento nem ideologia, concepção de vida ou visão de mundo? – Antes de responder, pensemos um pouco o que nos leva a perguntar assim, isto é, o que nos torna esta pergunta não somente possível como, sobretudo, imperiosa!
Esta pergunta supõe aceitas, sem discussão, muitas coisas. Assim supõe que toda Filosofia, seja ou, ao menos, pretenda ser um exercício de conhecimento. Supõe do mesmo modo, que, além de conhecimento, já não sobre nada mais para a Filosofia ser. Supõe, igualmente, que tudo, que é, não possa deixar de ser alguma coisa, um quê, por isso se pergunta que é. Supõe, outrossim, que toda pretensão de conhecimento termine sempre ou com a produção de um conhecimento objetivo e então é ciência, ou, com a produção de uma ilusão transcendental ou empírica e então é ideologia. Supõe, por fim, que toda época tenha sua concepção de vida e visão de mundo.
Como se vê, não são poucas as suposições que sustentam aquela pergunta “que é, então, a Filosofia, se não for nem ciência nem ideologia. Mas e se todas estas suposições forem e estiverem a serviço de dicta dura, isto é, da ditadura da razão, seu raciocínio e sua racionalidade, muito bons, sem dúvida, para conhecer objetos, mas imprestáveis para pensar a realidade nas realizações do pensamento? Neste caso, com que cara ficaremos, ao perguntar: “mas então que é a Filosofia se não for nem conhecimento nem ideologia, nem concepção de vida, nem visão de mundo?” Será que ainda ficaremos com uma cara quando só nos restar a carranca intransigente da razão e sua ditadura? - Agora que sabemos das suposições e limites da pergunta, poderemos tentar respondê-la.
A Filosofia é uma experiência de Pensamento. Mas não é a única experiência de Pensamento. Outra experiência de Pensamento é o Mito e a Mística. Uma outra são os deuses e o extraordinário. Ainda uma outra é a Poesia e a Arte. A última, por ser no fundo a primeira experiência grega de Pensamento é a vida e morte.
Mas por que é tão importante, para se aprender a pensar e desenvolver a capacidade do Pensamento hoje, a Filosofia? Donde provém esta necessidade de estudar Filosofia num currículo de formação? Não seria muito mais vantajoso empenhar logo todas as forças e concentrar todo esforço em estudar o Pensamento atual a aprender a pensar o pensamento hoje? Que utilidade poderá trazer para nós, “filhos do carbono e do amoníaco”, todo o trabalho de penetrar no movimento por mais original que seja, do Pensamento na Filosofia, se mais de dois mil e quinhentos anos de história dela nos separam? O que há com a Filosofia que não consegue desvencilhar-se de seu princípio e deixar o passado passar? O que é que se nos dá de Pensamento nas relações entre Filosofia e História?
O Pensamento é um passado tão vigente que sempre está por vir. Qualquer esforço da Filosofia não deixa de ser um esforço pelo Pensamento. E por que? – Porque nenhum esforço filosófico, em qualquer hora, tanto outrora como agora, pode dis-pensar a força de futuro do Pensamento no passado. Por isso também toda Filosofia vive de pensar a História da Filosofia. É o que se tornou transparente desde Hegel. Por isso toda Filosofia inclui necessariamente, quer o saiba ou não, uma Filosofia da História. Na Introdução às Preleções de História da Filosofia, pergunta Hegel: como a Filosofia, que busca sempre a verdade, isto é, uma verdade una, necessária e imutável, pôde desdobrar-se numa multiplicidade de tantas filosofias? De fato o balcão da História oferece filosofia para todos os gostos e nos mostra que, onde um filósofo diz sim, outro diz não e vice-versa. Daí se dizer, é próprio do filósofo se contradizer a si mesmo e dos filósofos se contradizerem uns aos outros contra todas estas arremetidas da razão contra o Pensamento na Filosofia, a resposta de Hegel é dialética: a verdade não é a parte. As partes são passagens de que necessita a verdade para chegar a si mesma no todo. A verdade é o todo. Por ser e para ser o todo, a Verdade possui a tendência de se desenvolver e desenrolar nas peripécias de uma dialética, formando um fluxo de crescimento, o curso da História.
E não foi somente Hegel que o percebeu. Heráclito já sabia e o sabia com um saber originário. Aristóteles também, Platão também, Sto. Agostinho também, Kant também, Schelling também, Nietzsche também, Heidegger também! Mas é um saber raro. Só os grandes pensadores o possuem. E o possuem, na medida em que o transformam na grandeza de outros endereços e novos caminhos de pensar. O destino do Pensamento em qualquer endereço ou caminho, é mantê-lo vivo da forma mais pura, isto é, na forma de um contínuo e diuturno questionamento. Por isso os filósofos nascem e morrem, como filósofos, num diálogo ininterrupto com seus antecessores e sucessores. Somente morrendo é que um filósofo e uma filosofia se tornam contemporâneos do Pensamento.
Constitui, pois, uma ignorância crassa do modo de dar-se do Pensamento na Filosofia pretender que um filósofo necessite, para sua Filosofia, da aprovação de seus pares. A aprovação só é indispensável ou para ser aprovado num concurso público ou para ser convidado como professor visitante ou para passar nos exames do final de curso. A análise sociológica, mesmo de uma pretensa “sociologie philosophante” é que confunde às vezes vigor de pensamento com a aprovação de um concurso. “Criticar”, no sentido de apontar deficiências, indicar erros, denunciar falhas, não faz parte da atividade constitutiva do pensamento. Qualquer crítica fica muito aquém do nível em que se move o pensamento. Toda crítica não passa do uso de parâmetros de dever ser disponíveis e já constituídos.
Ora o modo de dar-se e de ser do Pensamento é sempre constituinte e por isso consiste em ex-plicar. Todo pensamento se ex-plica, ao ex-plicar-se com os outros pensamentos. A ex-plicação é a única maneira de se respeitar um pensador como pensador. É o modo mais elevado de se considerar e levar a sério um pensamento. Mas não se deve confundir a ex-plicação do Pensamento com a ex-plicação do conhecimento e da ciência. Pois ex-plicar um pensamento é deixar surgir a profundeza de sua im-plicações com o real, é fazer emergir a vitalidade de sua a-plicação às realizações e assumir o vigor de suas complicações com a realidade.
Para o Pensamento, o critério consensual da verdade, a saber, que a essência da verdade esteja no consenso, é tão espirituoso como o esforço de se comparar o maior número possível de exemplares de uma edição de jornal para se confirmar a verdade de uma notícia. Nenhum filósofo, digno deste nome, está em diálogo de pensamento com seus contemporâneos. As diferenças entre as filosofias não atrapalham, estimulam o pensamento. Só se enreda na rede das diferenças quem tem dificuldade de pensar a identidade do pensamento, nas próprias tensões e oposições de seus níveis, endereços e exercícios.
E por que? – Nietzsche nos responde: a filosofia “não é algo que se torna, evolui e devém nem algo que passa, decorre e escoa.” “A Filosofia está toda se tornando, está toda evoluindo, está toda devindo. A Filosofia está sempre passando, está sempre decorrendo, está sempre escoando”. “Os seus excrementos são o seu alimento”. Um puro vir a ser é a vontade de todo ser e um eterno retorno do igual é o poder deste incessante querer ser. “Vontade de poder” e “eterno retorno do igual” perfazem o cúmulo da Filosofia porque são a Filosofia do cúmulo, no cúmulo e como cúmulo. Por isso no número 617 de suas anotações para a obra principal resume Nietzsche a dinâmica de realização do real com as seguintes palavras: “Recapitulação: imprimir ao vir a ser o caráter do ser é a suprema vontade de poder”. Mas se trata de uma “recapitulação” ontológica que impõe uma circularidade às realizações oriunda do advento da realidade na história das transformações. Esta circularidade é o cúmulo da reflexão no movimento de uma constante tomada de princípio. É o que nos diz com uma voz imemorial o N0 420: “Que tudo retorna é a máxima aproximação de um mundo do vir a ser ao mundo do ser – cúmulo da reflexão”.
O único motivo para se estudar a Filosofia é a necessidade extrema que temos de aprender novamente a pensar. Não de certo como os filósofos pensaram – o que seria impossível – mas de aprender a pensar, com o que os filósofos pensaram, a indigência de pensamento em que nos debatemos hoje no Fim da Filosofia!
Em 1996, o prof. Eugen Fink de Friburgo na Alemanha completava 60 anos. No discurso comemorativo, Heidegger pensa a situação atual da filosofia com as seguintes palavras:
“A Filosofia entrou hoje, num estágio da mais difícil provação. A Filosofia está se dissolvendo em ciências independentes e autônomas. São elas: a lógica, semântica, psicologia, antropologia, sociologia, politologia, poetologia, tecnologia. Junto com a dissolução nas ciências da Filosofia, uma integração das ciências de novo tipo está substituindo a Filosofia. O controle das ciências através de uma tendência básica vigente nelas mesmas, se realiza hoje no aparecimento do que se procura impor com o nome de cibernética. Este processo é promovido e acelerado pelo fato de lhe vir ao encontro um traço fundamental das próprias ciências modernas.
Numa única frase, Nietzsche expressou este traço essencial da ciência moderna, um ano antes do colapso mental de 1889. A frase é a seguinte:
‘O que distingue o século XIX não é a vitória da ciência, mas a vitória do método sobre a ciência’ No 466
O que se pensa aqui como método já não é o instrumento com que a pesquisa científica elabora objetos de fenômenos já dados. O método constitui a própria objetividade dos objetos, caso ainda se possa falar aqui de objeto, caso ainda possua “valência ontológica” partir de determinações da objetividade.
Talvez a Filosofia do tipo tradicional e de vigência correspondente venha a desaparecer do horizonte do homem da civilização técnica. Mas o Fim da Filosofia não é o Fim do Pensamento. Por isso torna-se premente a questão, se o Pensamento vai assumir a provação que tem diante de si e como o Pensamento vai sobreviver ao tempo de provação.
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Foi a Poesia que preparou. Entre os gregos o princípio do Pensamento na Filosofia ocidental.
Talvez, no porvir, seja o Pensamento no Fim da Filosofia que abrirá o espaço de tempo e de jogo para a Poesia, a fim de a palavra poética instalar de novo um mundo de palavra.”

O que Heidegger nos quer dizer e fazer pensar com estas palavras? - Ele nos recorda ao coração que o grande desafio de hoje é a indigência de Pensamento.
Para se perceber a indigência do Pensamento na Filosofia atual em fim de carreira, basta pensar o sentido que tem a inversão histórica entre filosofia e ciência. Ao longo de toda a história do Ocidente, o caminho da passagem correu sempre da Filosofia para as ciências, no plural a fim de preservar os vários sentidos da palavra. Em todas as épocas anteriores, qualquer abalo histórico sempre iniciou na Filosofia e se alastrou para as ciências. Hoje não. O sentido do movimento se inverteu. Por toda parte, o caminho que leva à Filosofia, já não é o caminho do Pensamento. A ciência tornou-se a passagem obrigatória de todos os caminhos da Filosofia. A grande maioria dos chamados filósofos de hoje não são pensadores, são parasitas da ciência. Quase todos vivem às expensas da ciência, dos milhões que rendem as descobertas científicas, quer se trate da matemática, física ou biologia, quer se trate da antropologia, sociologia ou psicologia. A decadência do Pensamento é de tal monta que se perderam até as condições de se reconhecer a decadência e identificá-la, como decadência. Ao contrário, hoje se toma a decadência por grandeza e florescimento. Vivemos a mescla de orgulho e medo, sensação de sucesso e ameaça que acompanham os resultados e as descobertas da técnica e ciência. Daí também as tentativas de controlar a angústia através de divisões e separações: separam-se as descobertas da técnica e da ciência da sua má utilização. Assim se acha que o controle da energia do átomo é um bem, apenas seu uso na produção de bombas atômicas é que é um mal. Ora, para sustar a avalanche e reverter o processo, não adianta muitos se chamarem, se considerarem e pretenderem ser filósofos. Para a Filosofia existir e sobreviver é preciso aprender novamente a pensar e não apenas repetir, em novos registros, o já pensado pela tradição histórica, nem derivar das descobertas, que sua aplicação tem proporcionado às ciências, perspectivas gerais de leitura e interpretação.
Sempre se repete hoje em dia que uma onda de progresso se expande por toda parte e se aponta para novas idéias e invenções revolucionárias nas diversas áreas da produção cultural, nas matemáticas, na lógica, na computação, na semântica, na medicina, nas teorias dos jogos, dos sistemas, das catástrofes, etc. A decadência chegou ao ponto de se pretender construir uma nova Filosofia com as últimas descobertas da ciência. A justificativa de tal pretensão diz no fundo o seguinte:
O conhecimento científico corre num ritmo tão veloz que, depois de dar algumas voltas em torno da terra, Gagarin, o primeiro homem a ir ao espaço exterior, disse, sem a menor cerimônia, numa entrevista à imprensa internacional: “não encontrei Deus em volta da terra. É que eu girava rápido demais”! Que indigência de pensamento! Neste nível não é possível nem mesmo perceber e muito menos pensar o problema de Deus no ateísmo e o problema do ateísmo na crença em Deus e no reconhecimento de sua presença! A entrevista foi lida, louvada e condenada em toda a grande imprensa do mundo. Só não foi pensada. Na bolsa do conhecimento, da ciência e da Filosofia, a cotação do Pensamento anda mesmo muito por baixo!
Alguns anos depois, uns astronautas americanos, após contornarem a lua pela primeira vez, comunicaram para o mundo estupefado que a terra azul era o astro mais bonito do universo. Eles ainda não tinham chegado nem mesmo à lua mas já sabiam que a terra azul era o astro mais bonito do universo. Como dá para se ver, o Pensamento não tem acompanhado o surto de evolução do conhecimento científico. Por isso a tese fundamental da última preleção de Heidegger na universidade de Friburgo foi: “O que mais nos faz pensar em nosso tempo, que dá tanto a pensar, é não se pensar”! – Nestas condições, não é de forma alguma para estranhar que o ritmo acelerado do progresso da ciência tenha aumentado consideravelmente o estado de confusão reinante. E não subiu apenas o desnível e, em conseqüência, a dificuldade de comunicação entre as elites culturais e o nível de conhecimento do povo. É muito pior do que isso. O tropel do progresso científico atropelou os pressupostos do Pensamento em todos os homens, nas elites mais ainda do que no povo!
Os pressupostos ao pensamento vinham servindo séculos afora de suporte e sustentáculo não apenas para as convenções e instituições do Ocidente mas para a própria vitalidade da convivência e o vigor de criação em todos os campos da atividade histórica dos homens. As experiências que o pensamento faz do espaço, do tempo e movimento, da lei, do paradigma e destino, as integrações da natureza, história e sociedade, a força de reunião do uno e múltiplo, a identidade conquistada através das tensões da diferença, tudo isto se esboroou e dissolveu, deixando todos os padrões de comportamento nas ações, reações e omissões à deriva, sem rumo nem amparo, sem continente nem horizonte. Substituindo as experiências do Pensamento, o conhecimento objetivo não dá indicações nem oferece parâmetros para se viver num vazio vazio, isto é, num vazio desprovido até mesmo da exigência de rumos e referências. Sem as experiências do Pensamento, não temos perspectivas para encontrar caminhos num mar em que tudo é relativo e mutante, em que as mudanças se sucedem em alta velocidade, embora sempre com a promessa do absoluto nas transformações e da segurança nas soluções. É esta experiência a importância que nos traz a Filosofia com um modo de vida criativo e livre. Pois nos momentos de seu vigor originário ela sempre se sentiu em casa no vazio sem exigências de parâmetros e padrões e, ao invés de horror, sempre experimentou um elã criativo no não saber do Pensamento. Para a experiência do Pensamento originário se inverte nosso senso de amparo. Amparo já não é ter em cima tetos, telhados, coberturas, ou possuir embaixo solo, cimento e asfalto ou dispor no meio de correntes, trancas e trincos. É viver sem nenhum teto para a cabeça, sem nenhum solo para os pés, sem nenhum esteio para as mãos. É o sentimento que antecede a passagem do Evangelho:
“As raposas têm covas e as aves do céu têm ninhos mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Mt, 8-20
Não é que se tenha de fazer um transplante da Filosofia para tudo nos dias de hoje. Isto é impossível. Nossos modos de sentir e hábitos de conhecimento nô-lo impediriam. A Filosofia está profunda e intrinsecamente tecida na língua natural e ligada à cultura ocidental, isto é, às instituições, instâncias e costumes que se tornam hoje cada vez mais estranhos e exóticos, mas por outro lado, temos uma necessidade imperiosa de desaprender muitas coisas e aprender outras tantas com a estranheza do Pensamento na Filosofia. Os filósofos têm a vantagem de um modo de falar e dizer que, justamente por ser desconcertante e paradoxal, se torna tão educativo, tanto para nosso saber como para nosso não saber. Muitas são as possibilidades de pensar e modos de comunhão ainda não explorados que os pensadores e filósofos têm para oferecer: acuidade, inspiração e humor mas sobretudo um sentido de arte e beleza, um senso de absurdo e contradição que, ao mesmo tempo, exaspera a razão e deleita o pensamento. Pois o próprio do Pensamento é a força original de virar pelo avesso tanto o racional como o irracional e dissolver o que se nos afigura constituir os princípios mais caros à racionalidade e a exclusividade de valor do binômio moderno racional-real. O Pensamento na Filosofia Grega por exemplo é a mais radical compaixão pela humanidade do homem, de que se tem notícia, sem concessões nem reservas, sem sentimentalismos ou pieguismos. O filósofo originário não quer ser salvo nem quer salvar ninguém por isso não busca nenhum messias e nenhuma doutrina de salvação. Não tem religião. A língua grega não possui nenhuma palavra própria para dizer religião. Religião é um étimo latino e designa uma experiência romana. Mas não quer isto dizer que o grego seja ateu. Apenas seus deuses não são salvadores e sua experiência histórica não inclui nenhuma missão redentora nem individual nem racional nem universal.
A aprendizagem da Filosofia passa sempre pelas obras dos grandes pensadores. Mas uma leitura com o propósito de aprender a pensar não poderá ser ideológica. Não se estudam os filósofos para sair repetindo as atitudes que tomaram, as posições que defenderam ou as respostas que deram. Em toda leitura e interpretação de um texto está em jogo a capacidade de pensar de quem lê e interpreta. “A Filosofia não é uma doutrina, a filosofia é uma atividade”, diz Wittgenstein no No 5.217 do Tratado Lógico-Filosófico. E qual é a atividade da Filosofia? – É a atividade de aprender e ensinar a pensar. A tarefa do pensador não é construir respostas nem formular teorias. É examinar as irrupções das diversas teorias e muitas respostas em seus respectivos pressupostos de sustentação. Na conhecida formulação socrática, “sei que não sei”, este “que” não tem função nem categorial nem transcendental, seja integrante seja causal. Indica simplesmente a conjuntura histórica da existência, em que se dá e exerce a liberdade do Pensamento: em tudo que sabe, o pensador não somente sabe que não sabe. A formulação não visa apenas a constatar um fato e sua aceitação por parte de Sócrates. Fala de uma realização e modo de ser, a realização e o modo de ser do filósofo. O pensador em tudo e sobretudo vive o não saber. Pois pensar não é saber. É não saber. Quando se pensa não se pretende saber e quando se pretende saber, não se pensa. Desde o Poema de Parmênides, o pensador-filósofo é aquele que não cessa de questionar as raízes em que se encontram e desencontram, numa encruzilhada da verdade, os caminhos do ser, do não ser e do parecer.
No mesmo dia do colapso mental nas ruas de Turim, Nietzsche explicitou num bilhete a seu amigo Jorge Brandes as relações do Pensamento, vigentes em todo estudo de Filosofia, com três verbos: “entdecken”, “finden” e “verieren”, “descobrir”, “encontrar” e “perder”. É o seguinte o teor do bilhete:
“Turim, 04.01.1889
Caro Jorge,
Depois de me teres descoberto, não foi difícil me encontrar: a dificuldade agora é me perder...O Crucificado”.
Neste bilhete, um dos chamados “bilhetes da loucura”, “Wahnzetteln”, Nietzsche não está falando de suas obras mas do Pensamento e do modo extraordinário de operar do Pensamento, isto é, de como o Pensamento se põe em obra, age e trabalha. Os verbos não se referem apenas a Nietzsche e seus escritos mas aos pensadores de todos os tempos e a suas obras, qualquer que seja a situação individual , ideológica ou política de cada um.
Só se poderá corresponder ao Pensamento de um pensador se se conseguir ler a sua escritura numa leitura libertadora de nosso próprio pensamento, isto é, numa leitura que nos liberte o pensamento para a liberdade de pensar. Não existe um método de leitura nem uma filosofia que nos proporcione as condições para uma compreensão criadora dos textos dos filósofos. Nem a própria Filosofia de um filósofo nos garante uma leitura livre de seus escritos. Pois toda obra criadora, caso seja realmente criadora, isto é, uma obra, que nos liberte a capacidade de pensar, transcende sua própria filosofia, ultrapassa seus próprios parâmetros, remetendo-nos para fora e para além da posição fundamental em que ela mesmo se planta. O único sentido de uma obra filosófica é precisamente rasgar novos horizontes, é desencadear novos impulsos, é instaurar novo princípio em que os recursos, os caminhos e padrões da obra se apresentem superados e insuficientes, se mostrem exauridos e ultrapassados pelo novo nascimento histórico. Instituindo novos parâmetros de questionamento, uma obra de pensamento cria novas regras de leitura. Ora, toda explicação, no sentido do conhecimento e não a ex-plicação própria do Pensamento, recorre ao já existente, remete para o já sabido. Por isso também fica excluído de qualquer explicação tudo que for libertador e criativo, tudo que inaugurar uma transição histórica. E não é somente isto. O predomínio destas explicações destila por toda parte uma compulsão de repetir a que nada poderá resistir, como se já não pudesse haver nenhuma criatividade e tudo se reduzisse à miragem de um deserto monótono e incapaz tanto de viver como de morrer.
Este sentido de Pensamento que Nietzsche atribui a toda leitura das obras dos Pensadores, dá às contribuições da Filosofia uma outra autoridade e uma renovada dignidade de criação, sobretudo para nós hoje imersos num processo de transição e respirando o ar de um novo milênio. Numa famosa preleção de 1935 publicada em 1953, fala Heidegger da necessidade atual de se aprender a pensar com a Filosofia:

“Justamente porque nos devemos aventurar na grande e longa missão de demolir um mundo envelhecido e construir um outro verdadeiramente novo, isto é, histórico, temos de saber a tradição. E temos de sabê-la mais isto é, de modo mais comprometido e rigoroso do que todas as épocas anteriores e revoluções passadas. Só o mais radical saber histórico nos pôe diante do que há de extraordinário em nossa tarefa e nos há de preservar contra uma nova explosão de mera repetição e estéril imitação.”

O que se trata de ultrapassar hoje, o que se tem de superar agora não é determinada interpretação do sujeito. É determinar o homem como sujeito. Esta determinação caracteriza os tempos modernos e alcança hoje na expansão essencial da técnica uma força planetária. É tão profundo seu vigor histórico que permite a concepções diferentes e até contrárias reivindicar, com o mesmo direito, a linhagem da modernidade. Idealismo e realismo, materialismo e espiritualismo, racionalismo e existencialismo, capitalismo e socialismo têm em comum a necessidade histórica de não se desenvolverem nem se afrontarem senão plantados no solo de um mesmo niilismo, do niilismo em que o mistério da realidade e do realizar-se no tempo já não é nada e o nada se reduz sempre a algo simplesmente negativo, à mera ausência de qualquer coisa. Centro de um mundo quase que só feito de sujeito e objeto, de funções e operações, a com-posição da técnica se vai tornando o fundamento comum de todos os sistemas e organizações modernas, o tema de todo humanismo, cristão, ateu ou indiferente, a meta de todas as revoluções, capitalistas ou comunistas.
No império das funções politônicas em que hoje nos batemos e debatemos, a Filosofia nos faz ver a urgência de se pensar a questão de fundo de toda existência atual: será que continuaremos prisioneiros da insurreição da técnica e condenados para sempre a desenvolver, sem nem mesmo pressentir, suas conseqüências monstruosas, as muitas ideologias de esquerda, direita e do centro? Ou os tormentos que nos atormentam nas tormentas de hoje não poderão vir a transformar-se de repente no prelúdio, por mais doloroso que seja, de uma nova “ aurora dos dedos de rosa” ou no fênix de uma outra ressurreição? – Com estas esperanças animando-nos o Pensamento, devemos começar o esforço de aprender a pensar, estudando Filosofia. É um começo, estranho e curioso, como todo começo essencial. Pois é um começo que, quando realmente começa, faz a experiência e descobre que já tinha desde sempre começado! É que, em nenhum começo, se poderá confundir começo com princípio. Começo não é princípio. Começo é alavanca. Remete-nos ao empuxo e arranque com que uma coisa começa. Enquanto princípio é origem. Remete-nos à fonte donde uma coisa brota. O começo, mal começa, e já está superado. Desaparece e fica para trás nas peripécias do processo de criar e produzir. O princípio, ao contrário, surge e se impõe ao longo de todo o processo, pois só alcança plenitude no fim. Começo é o princípio em busca de realização, fim é o princípio plenamente realizado como princípio. Quem começa muito, que inicia muitas coisas, nunca chega ao princípio. É que nós, seres finitos, somos sempre definidos. Temos necessidade de definições. Nunca poderemos começar com o princípio. E por que não? – Porque já estamos sempre imersos no princípio. Por isso mesmo, para sabermos que estamos onde estamos, temos que começar invariavelmente com o início, com algo, portanto, que nos descubra o princípio, que nos mostre a origem, que nos desvele a fonte. É esta espécie de começo, é este tipo de início que nos proporciona a Filosofia quando nos surpreendemos num esforço de aprender a pensar. Pois o estudo da filosofia é o esforço que fazemos para entrar e tomar posse do que já nos é sempre dado: a capacidade de pensar. Colocamos o estudo da Filosofia no começo para chegar onde desde sempre estamos, no princípio do Pensamento. O caminho mais longo, tão longo que dura toda a vida, é aquele que nos leva ao mais próximo, tão próximo que nós o somos, e a última caminhada a que nos deixa no princípio, no príncípio do que somos e não somos. Só se compreende o que se aprende. Pois aprender é esvaziar-se de todo contingente e de qualquer conteúdo e assim abrir-se e manter-se aberto para o estranho e não sabido, para o outro, a diferença e o desconhecido. Por isso só aprende quem pensa. Pois pensar significa acolher o mistério da realidade irrompendo nas realizações do real. Para se compreender, portanto, o sentido, isto é, a necessidade e urgência da Filosofia nos dias de hoje, temos de aprender a pensar nas relações entre Pensamento e Filosofia dentro da experiência humana de todos nós.
Antes de tudo, é necessário assumir em nosso modo de ser e incorporar em nossa atitude que não é possível nem ensinar nem estudar o Pensamento. Só é possível mesmo aprender a pensar. Ensino e estudo, disciplina e esforço são processos de aquisição de conhecimento. E por que? Seria mesmo possível separar ensino, estudo e conhecimento para um lado e aprendizagem, compreensão e pensamento para outro? Não se trata disto. É que no Pensamento já estamos, nos movemos e somos desde sempre. O Pensamento não é objeto de estudo. É o modo de viver dos homens. Justamente por não se poder separar ser homem de pensar (“ser e pensar são o mesmo” – ver Parmênides) por isso é que não se pode ensinar e estudar o Pensamento. Mas se o Pensamento não pode ser objeto de estudo, não quer isto dizer que não se possa estudar os pensamentos dos pensadores. Muito pelo contrário. Significa apenas que o estudo é necessário e indispensável mas não é bastante nem suficiente. Além do estudo, deve-se ainda favorecer o Pensamento, deixando-se arrastar e fluir na correnteza da realidade com a esperança de ser transformado pela realidade mas sem expectativas nem pretensões de determinar como deve ser o real.
Pois, diferente das expectativas, esperança é confiança na entrega e consignação da realidade, enquanto expectativa se alimenta da frustração de não se ter aceito a realidade e busca por isso substituir o real. O modo de o Pensamento difundir-se e o processo de sua expansão estão mais para contágio e infecção do que para esforço e disciplina. Por isso também não há mestres no Pensamento. Todos são discípulos. Mestre só de obras e de conhecimento. Ninguém é dono do Pensamento. O Pensamento é que domina os pensadores com a sutileza de sua fragilidade. Todas as grandes coisas da vida, como a bondade, a inocência, a liberdade, não tem poder de impor-se nem força para defender-se. É o que acontece também com o Pensamento. Corre em Friburgo na Alemanha a estória de um livro de Filosofia. Heidegger queria presentear um amigo com o Tratado de Schelling sobre a liberdade. Empacotou o livro com muito cuidado e foi despacha-lo pelo correio. O funcionário perguntou se havia no pacote alguma coisa de quebrar. Heidegger respondeu: “claro, o Pensamento. É um livro de Filosofia.”
À delicadeza visceral do Pensamento o homem do Ocidente se recomenda desde Hesíodo. No prólogo da Teogonia, o poeta canta a fragilidade delicada das musas. A que apelos de pensamento correspondem as musas dentro da experiência grega de pensamento? Trata-se de um étimo relacionado com a raiz indo-européia: men- que diz a experiência de ação de uma força explosiva. Desta raiz se deriva o substantivo to menos=fúria, o furor, o furacão, a alma, o espírito, o coração, o núcleo, o último, o centro, a coragem, a ousadia, o vigor. A articulação com a raiz dhé, que significa: por e empenhar, forma o tema, men+dhe, indicando a experiência de se aplicar e uma força de concentração e expansão em alguma coisa. Por isso manthano, diz aplicar o espírito e, portanto, aprender, e he menthere diz a aplicação da força de concentração do espírito em alguma coisa, daí o sentido que tem a palavra de cuidado e preocupação.
As musas designam assim a experiência de forças se concentrando no sentido e se interiorizando (afundando) no último das coisas. As musas regem o Pensamento em todas as suas formas. São elas que lhe constituem a essência e o vigor do ser. Nasceram em nove noites de amor de Zeus com Mnemosine, a força da interioridade e condensação. Não é de se admirar que as musas existam no plural para possibilitar todos os modos de pensar: poesia, persuasão, sabedoria, história, matemática, astronomia. Somente um espírito rude, prepotente e voraz, como o espírito moderno, pode ver nas musas apenas confusão e fantasia. Na experiência originária dos gregos, as musas são também a fonte da verdade do real e a revelação da realidade. Hesíodo nos diz que recebeu das próprias musas a missão de demonstrá-lo:
“Pastores rudes, más línguas, somente ventres, sabemos dizer muitas coisas falsas como reais mas sabemos também, quando queremos, dizer a verdade em forma de mito.”
Esta fragilidade essencial impede que o Pensamento se possa transmitir diretamente com a moça. A essência do Pensamento é tão sutil e delicada que não agüenta transplante e resiste à transferência. Ela se dá vivificando um modo de ser e alimentando uma vida. Assim ele vive, por excelência, na vida de pensar dos grandes pensadores e, por abreviatura, na vida expontânea de todos os homens. Se ninguém pode dar Pensamento a ninguém, todos têm a possibilidade de abrir-se e expor-se ao Pensamento, como faz a flor da manhã aos raios de sol. Neste sentido, estudar é necessário mas não basta. O estudo vem da razão e, como tudo que é racional, não pode nem morrer nem viver. Aprender é vivo e, como toda vida, precisa morrer continuamente para viver. Estudar é o meio de conhecer. Ora, conhecer é poder e um poder tão poderoso que se pretende dispensar de ser o que conhece. Para o conhecimento ser o que conhece é perigoso. Traz o perigo de comprometer a isenção e neutralidade do conhecimento. Por isso o conhecimento têm de ser racional e arrancado de toda possibilidade de viver e morrer. Em latim arrancar se diz ab-strahere e arrancado, ab-stractum. Para arrancar-se da alternativa de vida e morte, o conhecimento se torna abstrato. Abstrato quer dizer, em primeiro lugar e antes de tudo, fora da possibilidade de morrer e viver para poder estar todo dentro da segurança do poder. O ideal de todo conhecimento é muito mais conhecer sem ser do que conhecer sem sujeito. Neste sentido, o conhecimento visa a conhecer o amor sem amar, busca conhecer a meditação sem meditar, quer conhecer o pensamento sem pensar.
Vivemos na época do conhecimento, o que vale dizer: por toda parte grassa a obsessão pelo poder e por segurança. Daí nosso primeiro cuidado, ao visitar os pensadores e nos encontrar com a Filosofia é uma atitude de disponibilidade: não ir para estudar e conhecer, mas ir para aprender a pensar. Esta é a semente que vai florescer e transformar-se em árvore de pensamento. Quando, onde e em quem de nós, vai transformar-se em árvore, não podemos saber, só podemos mesmo esperar. Como nos diz Heráclito no fragmento 18:
“Se não se espera, não se encontrará o inesperado, sendo sem caminhos de encontro nem vias de acesso.”
A disposição de aprender a pensar constitui, pois, a semente de nossa esperança em todo contato com o Pensamento da Filosofia.
Muitas são as diferenças entre a atitude de aprender e a atitude de estudar. Quem vai estudar quer mais conhecimentos e informações para saber mais, para poder mais, para segurar-se mais. Quem vai aprender quer esvaziar-se mais e desaprender mais para arriscar-se mais e ser mais. Se não se apostar a vida, não se aprende nada. Quando se estuda, cresce o receituário, isto é, o repertório das receitas, aumentam, em conseqüência, as possibilidades de fazer. Quando se aprende, crescem as possibilidades de ser e realizar-se, aumentam, em conseqüência, as possibilidades de viver e morrer.
Alguém que se aproxima da Filosofia para estudar, vem repleto de perguntas e com muita curiosidade. As respostas vão aumentar o acervo das informações. Esta é outra diferença entre aprender e estudar. Pois alguém que se achega aos pensadores para aprender a pensar, só traz uma única pergunta, só tem um único propósito. Muitas perguntas provêm da voracidade insaciável do conhecimento. Qualquer resposta recebida só servirá mesmo para gerar mais perguntas. A voracidade do saber é como a Hidra de Lerna, cada resposta se transforma em muitas novas perguntas. Assim a resposta à pergunta: “quem criou o mundo?”, se for, por exemplo, Deus, transforma-se logo em mais perguntas: “E Deus existe?” “Quem é Deus?” “Deus não é uma ideologia?” “Não resulta do sentimento oceânico do inconsciente?” “Por que e para que Deus criou o mundo?” “Antes de criar o mundo, o que Deus fazia?” E se a resposta for: “o mundo não foi criado, sempre existiu”, a situação não melhora. Logo se pergunta se a eternidade do mundo é compatível com a entropia? Se não há contradição entre o tempo no mundo e a eternidade do mundo? Se não existe uma proporção constante entre a quantidade de massa e a duração do mundo? E se a resposta for: “o mundo vem do acaso” : “Nosso número saiu na loteria de Monte Carlo”, como escreveu Jacques Monod em “Acaso e Necessidade”. Esta resposta não desencadeia menor avalanche de perguntas: “Não existe correspondência entre causa e efeito?” “O acaso não supõe a necessidade, para ser acaso?” “Pode-se transferir, sem mais, mecanismo de um nível para outro?” “A probabilidade não exige sempre a possibilidade?” “Pressupor simplesmente a possibilidade de o acaso criar alguma coisa não equivale a admitir provado o que se deve provar?”
Como se pode ver, ter muitas perguntas a fazer aos Filósofos não é sinal de sabedoria mas de confusão. Significa que se está perdido girando em círculo pela periferia da vida. Na periferia existem sempre muitos pontos a serem discutidos mas todos dispostos em círculo: uma pergunta leva a outra que puxa outra e assim ao infinito. Aristóteles já dizia que, em todo movimento de remissão e regresso sem fim, o círculo deixa de ser virtuoso para se tornar vicioso. Por isso: “é preciso parar” o vício e interromper o malefício. Sem o poder de concentração e a dinâmica de reunião de uma força de unidade não se dá nem acontece nenhum movimento. Não adianta multiplicar os vagões ao infinito. Sem o poder de reunião e a força de aglutinação da locomotiva o trem não anda. É o que acontece com as nossas perguntas girando em círculo pela periferia do pensamento na Filosofia.
Para se encontrar com o pensamento, deve-se ter uma pergunta apenas: a pergunta que brota da unidade de nosso próprio ser. Por isso é importante deixar a periferia e ir para o centro da vida. Pois somente no centro a pergunta é essencial. No centro todo nosso ser se transforma numa única pergunta. E por isso mesmo, centro e periferia não são duas coisas, são uma e a mesma coisa. Pois todo nosso ser é pergunta. Ser todo pergunta em qualquer estudo da Filosofia é a única maneira de se aprender a pensar com o que pensaram os pensadores
Para se encontrar com o Pensamento na Filosofia, deve-se chegar com uma pergunta apenas: com a pergunta pela essência de tudo que é e não é, pergunta esta que brota da unidade transitiva de nosso próprio ser. Para tanto, é importante transformar a periferia indo para o centro da vida e da morte. Somente no centro, a pergunta é essencial. No centro, todo nosso ser se transforma e reduz todas as perguntas numa única pergunta, pois todo o nosso ser se torna e se faz somente pergunta. Ser todo pergunta em qualquer esforço e em cada estudo é a única maneira de se aprender a pensar com o que pensaram os pensadores.
Mas como é que uma metamorfose desta se dá e acontece em concreto? – Sem dúvida, somente quando e na medida em que tudo que somos e não somos, tudo que temos e não temos, se sintonizar com o apelo e responder ao advento da realidade nas peripécias biográficas e históricas de nossa essência de Midas do ser e argonautas da verdade. O adjetivo con-creto, com que hoje designamos a experiência do real e sua realização na história da realidade, provém, por derivação, do verbo latino: con-crescere (=crescer junto com; condensar, coagular, coalhar, combinar). É um verbo composto da preposição: cum (= com, junto com, em conjunto ou companhia de) e do infinitivo: crescere (= crescer, aumentar, desenvolver-se). Con-crescere diz o processo de crescer em e num conjunto, isto é, na totalidade do real, e de desenvolver-se integrado no universo das realizações. Con-creto designa, pois, tudo que estiver integrado neste nível de crescer e comprometido com o desenvolvimento da realidade. Pois crescer não é aumentar de tamanho apenas nem subir os degraus de uma escada e nada mais.
Parmênides nos diz em seu Poema Filosófico que uma integração real e um compromisso com a realidade constitui o “coração intrépido da verdade de circularidade perfeita”
“Mas se impõe às mãos a necessidade que te deixes vencer em todas e por todas as realizações e por isso aceites o coração da verdade de circularidade perfeita!”
Ao longo destes mais de dois mil e quinhentos anos de história, este convite para pensar de Parmênides têm mobilizado pensadores e filósofos de todos os tempos. É que todo pensamento procede de um núcleo de força e identidade a partir do qual e para o qual pensa o pensador. Mas nesta identidade não está em jogo uma verdade imutável a ser dita e possuída de uma vez para sempre. Está em jogo uma verdade a ser sempre de novo conquistada e dita. No dizer de Heidegger é “ein Zudenkendes und Zu-sagendes”: “alguma coisa para se pensar e dizer” cada vez. Trata-se de algo com o qual e pelo qual o pensador não cessa de empenhar-se e lutar, o que novamente Heidegger chamou “das strittige des Deukeus”, “o contencioso do pensamento” e os gregos chamaram “o próprio da sabedoria”, como veremos mais adiante. Na avalanche do pensamento, o círculo não é vicioso, como o regresso ao infinito a que se referia Aristóteles. É ao contrário, virtuoso. Traz consigo a virtude própria do pensamento. O grego convida o aprendiz de pensador não a evitar, mas a entrar no círculo: “das Entscheidende ist nicht aus dem Zirkel heraus-, sondern in ihn nach der rechten Weise hineinzukommen.”(SZ, 153): “o decisivo não é sair mas entrar no círculo da maneira devida”. É conhecida também a caracterização de Henri Bergson da intuição filosófica:
“Un philosophe digne de ce nom n’a jamais dit qu’une seule chose; au plutôt a-t-il che ché de la dire qu’il ne la dite de véritablement. Et il n’a dit qu’une sende chose parce qu’il n’a vi qu’um seul point; fut-ce moins une vision qu’un contact.”
“Um filósofo digno deste nome nunca disse senão uma só coisa: ou melhor tentou dizê-la mais do que verdadeiramente a disse. E não disse senão uma só coisa porque não viu senão um só ponto: mesmo que fosse menos uma visão do que um contato.”
Bérgson H., La mature et lê monvant, Paris, Alcau, 1939, p. 43
A passagem de Parmênides, “do coração intrépido da verdade de circularidade perfeita”, é mesmo provocante. Leva-nos a pensar que o tema central e a reflexão nuclear de uma Filosofia qualquer ainda não constituem o coração de um pensamento. Na qualidade de tema e reflexão, já resultam de um esforço de tematizar e de um trabalho de refletir. E tematizar e refletir são tentativas do pensamento de falar e dizer ao nível e por meio do discurso de uma língua. Ora o dizer do discurso se nutre de um contato pré-discursivo com uma verdade que, frente à reflexão temática, é tão originário que se torna uma fonte de inteligibilidade e compreensão. O caráter desconhecido e misterioso deste contato impôs, ao longo da história do Ocidente, toda uma série de registros diferentes para evocá-lo. Com indicar uma diversidade de estilos, a diferença de registros afirma sobretudo uma identidade radical, um além ou aquém do discurso, uma experiência primigênea de doação, a partir da qual fala o filósofo, não de certo para abandoná-la e sim para manter-se fiel e abrir espaço ao silêncio da Linguagem.
O que é esta Linguagem sempre em silêncio? – Nós não podemos saber. O que podemos talvez seja dizer que a Linguagem não pode ser um quê. E por um motivo simples e bem claro. É justamente a Linguagem que, retraindo-se, nos possibilita perguntar e colocar qualquer pergunta. Estamos sempre imersos no retraimento da Linguagem. Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar sobre a Linguagem. Mas se trata de uma impossibilidade positiva. Pois é na sua experiência oblíqua que nos apercebemos da Linguagem em todas as nossas línguas e discursos. Não apenas é impossível falar sobre a Linguagem. Também não carece fazê-lo. E por quê? – Porque sobre tudo e em tudo que se fale, é preservando esta impossibilidade que a Linguagem nos possibilita falar. Destarte, a Linguagem é na palavra de Heráclito, o Ethos, a estância onde o extraordinário não somente limita como também visita o homem. Por esta estância passam todos os caminhos de compreensão dos discursos; nesta estância se instala todo diálogo de pensamento entre pensadores; a partir desta estância poderemos hoje aprender de novo a pensar com o que os pensadores pensaram nas reflexões de suas filosofias.
Na perspectiva da língua instalada pela e como estância da Linguagem, todo pensamento é um texto. Um texto é um sistema de signos de uma língua, em que alguns sempre de novo recorrem numa cadência regular, isto é, instalada e regida por regras. Pela regularidade, os signos recursivos parecem desempenhar uma função ativamente hipotática e por isso mesmo se nos afiguram palavras-chave de todo o texto.

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