sexta-feira, agosto 18, 2006

DE HOMEROS AOS ELEATAS - PARTE IX

PARMÊNIDES DE ELÉIA
Parmênides nasceu em Eléia no ano 540 a.C., ano de fundação desta cidade, e faleceu em 470 a.C. Não devemos economizar palavras para elogiá-lo, pois já era o filósofo reconhecido na Antigüidade como um sábio importante, sendo considerado ainda a maior figura de sua escola, talvez o mais profundo pensador entre todos os pré-socráticos; o primeiro metafísico, aquele que vai definir os caminhos da filosofia, a quem Platão denomina de “Grande” no diálogo “O sofista”. Foi discípulo de Xenófanes, a quem não seguiu, juntando-se ao pitagórico Amínias, sendo creditado a este o fato de haver Parmênides se convertido à vida contemplativa, apesar de haver em sua doutrina poucos indícios de qualquer preocupação pitagórica, ou que essas idéias permanecessem em seu espírito na maturidade.
Há informações de que Parmênides teria estabelecido leis para os cidadãos de Eléia, o que pode significar ter ocupado posição de destaque em sua cidade, que era uma fundação recente dos jônicos emigrados da Ásia Menor. Teria visitado Atenas, juntamente com Zenão, seu discípulo preferido, onde teria encontrado o jovem Sócrates, que teria se deslocado para fora dos muros da cidade para ouvirem o tratado de Zenão.
Dos fragmentos que ainda restam de seu único «tratado», escrito em forma de poema em hexâmetros, que chegaram até nós graças a Sexto Empírico, que conservou o proêmio, e a Simplício, que transcreveu outros extratos, e ainda a Aristóteles que na Física, reproduz dois terços que se referem à metafísica de Parmênides e um terço à sua física, perfazendo em um total de seis páginas. Seus dotes de escritor, a quase unanimidade, são considerados reduzidos, e sua luta para submeter suas idéias filosóficas, sumamente abstratas, a uma forma métrica, resultou quase sempre em grande obscuridade, particularmente sintática. No entanto, sua argumentação é rigorosa, dedutiva, que introduz algo radicalmente novo, dando vida à filosofia, pouco havendo em seus antecessores que deixem pistas sobre a influência sofrida por ele.
O poema se divide em três partes:
Primeira parte ou Proêmio; a segunda parte ou Caminho da Verdade; e a terceira parte, o Caminho da Opinião.
A primeira parte do poema conta a história, em forma alegórica, de uma revelação recebida por ele da deusa Dyke, que o recepciona da seguinte forma: “ Ó jovem, tu que vieste à minha morada (...) convém que tudo aprendas, tanto o ânimo inabalável da rotunda verdade, como as opiniões dos mortais, em que não há verdadeira confiança. Todavia, aprenderás isto também, como aquilo em que se acredita deve sê-lo sem qualquer dúvida, fazendo passar todas as coisas através de tudo.” Nesta recepção da deusa está contida, a verdade, aquilo que realmente existe, que pode ser pensado, pois o «Ser» está no pensamento, o pensar sendo da mesma natureza do «Ser»; bem como o «Não-ser», que é a via do erro, derivada do conhecimento sensível. Em poucas palavras, Parmênides afirma que a sensação deve ser afastada para se pensar o «Ser», deve-se usar a razão sem nenhuma contribuição dos sentidos, sendo que em qualquer investigação há sempre duas possibilidades logicamente coerentes que se excluem mutuamente: a de que o objeto de investigação existe, ou inexiste. Em bases epistemológicas ele rejeita esta segunda alternativa como ininteligível. Conforme ensina Kirk1, “o principal objetivo de Parmênides nestes versos é o de reivindicar o conhecimento de uma verdade não alcançada pelo comum dos mortais.” Parmênides, para usar uma expressão atual, procura abandonar o senso comum, para se dirigir por uma via de pensamento que o conduziria à uma compreensão transcendente da imutável verdade, bem como da opinião dos mortais.
A segunda parte do poema está inscrita no seguinte fragmento: “Anda daí e eu te direi (e tu tratas de levares as minhas palavras contigo, depois de as teres escutado) os únicos caminhos da investigação em que importa pensar. Um «aquilo» que é e que «lhe» é impossível não ser, é a via da Persuasão (por ser companheira da verdade); o outro, «aquilo» que não é e que é forçoso se tomar que não exista, esse te declaro eu que é uma vereda totalmente indiscernível, pois não poderás conhecer o que não é – tal não é possível – nem exprimi-lo por palavras.” Neste fragmento, o “Caminho da Verdade”, a deusa começa especificando as únicas vias de investigação logicamente consideráveis. Trata-se de uma peça de metafísica dedutiva, começando com premissas que ele supõe verdadeiras, que o levam a conclusão, que devem ser aceitas. Parmênides coloca em oposição dois caminhos excludentes, dos quais apenas um é aceitável. Uma maneira de reconstruir esse argumento é a seguinte: «o «Ser» (ou ente) É, e não pode não ser; o «Não-ser» não é, e não pode ser.» Esse postulado possui dois princípios: o Princípio de Identidade, conforme o mesmo, segundo o mesmo, descreve uma coisa que é ela mesma; e o Princípio de Contradição, pelo qual uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Em certo sentido, Parmênides está se contrapondo a Heráclito, pois para ele não há mudança, há imobilidade. Outrossim, há possibilidade, inferida através do fragmento, de conhecer o «Ser».
Tentando ser mais didáticos, exporemos um outro modo de reconstruir o argumento, apesar de ser um modo menos complexo, que poderá nos dar uma visão aproximada de sua tese.
Outro modo:
1) o ente existe, ou o ente não existe;
2) se é possível pensar o ente, este pode existir;
3) nada não pode existir;
4) daí, se se pode pensar no ente, este não é nada;
5) se se pode pensar no ente, este, necessariamente, tem que ser alguma coisa;
6) podemos concluir que se se pode pensar no ente, o ente, necessariamente, tem que existir.
Alguns esclarecimentos se fazem necessários para que possamos continuar nossa exegese:
1.º esclarecimento: os passos 1, 2, 3 e 6 são retirados do próprio texto;
2.º esclarecimento: os passos 4 e 5 devem ser fornecidos pelo intérprete para que o silogismo esteja completo;
3.º esclarecimento: o passo 1 tem que ser necessariamente verdadeiro, o mesmo acontecendo com o passo 2, pois a viabilidade de ser pensado (pensamento não tem conteúdo sensível) constitui condição suficiente para a possibilidade lógica.
4.º esclarecimento: o passo 3 é inaceitável, pois se nos afigura por certo impossível conhecer ou mostrar o que não existe. Com o intuito de validá-lo, teremos que interpretar «nada» como nome próprio de alguma coisa, bem como o nome de algo que não pode existir.
Aqui temos um problema de difícil solução, pois parece que Parmênides quis dizer que é impossível conhecer ou dar a conhecer uma coisa ou outra que não tenha atributos, ou não possui predicados verdadeiramente seus. Infere-se esta conclusão de outro fragmento no qual ele diz textualmente: “É indizível e impensável o que não é.” Para ele, se alguma coisa nasce, então, não deve ter previamente existido, pois teríamos que dizer dela anteriormente: «não é». Entretanto, a premissa proíbe essa interpretação, portanto, não há nascimento, pois «nascer» deve ser interpretado como «chegar a existir» e na premissa não é significa o que não existe, pois ele entende a não-existência como sendo absolutamente nada, ou seja, algo sem atributos, sequer «algo», tendo em vista que existir é efetivamente ser uma coisa ou outra, o que torna alguma coisa real é o fato de esta possuir predicados verdadeiramente seus.
Sendo o não-existente incognoscível, Parmênides conclui que a via negativa é, nas palavras da deusa, indiscernível, pois, para usar um exemplo bastante conhecido, a proposição: “Mr. Pickwick2 não existe” é totalmente incapaz de exprimir em pensamento genuíno, ao contrário, se ela fosse verdadeira nos seria dado conhecer tal sujeito. Entretanto, esta possibilidade última não prevalece, a menos que o sujeito exista, o que a proposição nega.”
É importante salientar ainda que a falsidade do passo 3 não torna, dedutivamente, todo argumento inválido. Ao contrário, pois, não constituindo este uma versão do termo médio excluído, como por exemplo o passo 1 é, torna-o dedutivamente válido. Finalmente, para sairmos de sua lógica e entrarmos em outros aspectos de sua filosofia, apesar da impossibilidade do passo 3, que, insistimos, dedutivamente não invalida o argumento, a conclusão, ou o passo 6 como o denominamos até aqui, é uma falsa conclusão, mesmo que não possa ser evitada, uma vez aceitas as premissas.
Há alguns outros esclarecimentos colocados em outros fragmentos pelo próprio eleata, que dificultam um pouco mais esta primeira via, tais como: “É impossível para [isso] não ser.” E, “é forçosos que [isso] não seja.” Plotino, citado por Gilson, vai interpretar da seguinte forma: “Pois a mesma coisa é ser objeto do pensamento e existir”, ou seja, pensar e existir são a mesma coisa e o nada (não-ser) não pode sequer ser pensado.
Em outro fragmento, trazido até nós por Simplício, poderemos analisar o «erro dos mortais» referido no Proêmio. Diz o fragmento: “Forçoso é que o que se pode dizer seja, pois lhe é dado ser; e não ao que nada é. Isto te ordeno que ponderes, pois é este o primeiro caminho da investigação, do qual te afasto, logo, pois, daquele, em que vagueiam os mortais que nada sabem, gente dicéfala; é que a incapacidade lhes dirige no peito o pensamento errante, e são levados simultaneamente surdos e cegos, aturdidos, em hordas sem discernimento, que julgam que «Ser» e «Não-ser» são a mesma coisa; e que o caminho que todos eles seguem é reversível.” Este fragmento é conhecido como «Erro dos mortais», bem como de «O caminho da opinião». A rigor, é uma síntese que Parmênides faz de sua argumentação contra a via negativa. Aqui ele afirma que qualquer objeto de pensamento deve ser um objeto real. Em seguida, há uma advertência contra a via de investigação seguida pelos mortais, o caminho errado. É interessante notar que nenhuma referência a este caminho foi feita no fragmento anterior, pois neste a deusa estava a especificar alternativas logicamente coerentes entre o que o investigador racional deve decidir.
Após este fragmento, tendo nos advertido do caminho «não é», nossa única esperança como investigador é seguir pelo caminho é: “De um só caminho nos resta falar: o do que é. Nesse caminho há indícios em grande número de que o que é ingênito e imperecível existe, por ser completo, de uma só espécie, inabalável e perfeito.”
Em outros momentos, o poema envereda pela Física propriamente dita, já bastante tratada nos manuais de filosofia. Nesta, a interpretação mais aceita é a de que não há possibilidades ilimitadas de exploração, o que uma leitura apressada do texto pode inferir. Ao contrário, Parmênides consegue reduzir essa infinitude de possibilidades a apenas uma, tendo em vista que esses indícios aqui referidos constituem na verdade, em outros pressupostos formais que qualquer assunto possível de investigação deverá satisfazer. Para finalizarmos este aspecto de nossa pequena dissertação acerca do pensamento parmenidiano, devemos retornar à afirmação feita alhures, de que o fragmento «O caminho da verdade», apesar de dedutivamente perfeito, termina com uma falsa conclusão: “se se pode pensar o ente, o ente, necessariamente, tem que existir.” Temos o dever de alertar o leito que isso em nada desmerece o pensamento do filósofo de Eléia, ao contrário, o torna mais notável por sua disposição de confiar em um argumento estritamente dedutivo e sustentar suas conclusões, por mais implausíveis que sejam, pois, em certo sentido, continuando o passo em direção ao abismo dado por Tales de Mileto um século antes, aqui se assinala o nascimento da verdadeira filosofia, ou um de seus aspectos mais importantes. Essa metafísica dedutiva reaparecerá na história da filosofia sempre como um fracasso3, em vista da implausibilidade de suas conclusões, bem como porque a razão não nos pode fornecer premissas válidas de modo a inferir a natureza da realidade. Nesse sentido, olhando pelo retrovisor em tempos pós-Galileu, Newton, Einstein, Planck e nosso refúgio nas etceteras, é simplesmente notável que essa tentativa tenha começado tão cedo e com tão pouco ambiente para lhe explicar o surgimento. Estudando Parmênides, compreende-se o tom referencial com o qual Platão e Aristóteles se referiam a ele.
Gastamos longas linhas para expormos nosso raciocínio sobre a metafísica dedutiva de Parmênides. Esperamos ser mais sucintos para expor o que chamaremos de sua Física, pela qual ele estabelecerá os critérios e sua definição do Ser.

O Ser
Parmênides tratou do «Ser» como objeto da inteligência, declarou-o imutável e decidiu pela unidade do Ser. Em linhas gerais, para o filósofo de Eléia, o «Ser» é:
a) ingênito e imperecível: o «Ser» assim é, pois o que é, não pode nascer e nem perecer. Aqui duas reflexões são postas pelo filósofo: como e de onde nasceu o «Ser»? Ele parte do princípio de que a única resposta razoável é: da não-existência. No entanto, ele rejeita tal assertiva, pois do «Não-ser» nada pode advir. Logo, conclui ele, o ser deve, necessariamente, ser ingênito e imperecível:
b) uno e contínuo: pretende o filósofo dizer que o que é contínuo o é em qualquer direção que ocupe. Há nesta afirmação uma negação implícita da existência do «Ser» no tempo;
c) imutável: seus fragmentos sugerem que é impossível para o que «É», nascer ou morrer. Nesse sentido, o que «É» existe imutável nas cadeias do seu limite. A noção de limite empregada por Parmênides é obscura, pois se a entendermos como limite espacial, teríamos que circundar o «Ser». Porém, talvez limite seja uma expressão metafórica para dizer «determinação», conforme o entendimento de alguns intérpretes. Nesse sentido, poderíamos perguntar: Parmênides estará dizendo que o que é não tem potencialidade para ser diferente? Se a resposta for afirmativa, o problema estará solucionado.
d) perfeito: é justo que o «Ser» assim seja, pois o que é de nada necessita, do contrário, de tudo careceria.

Conclusão:
Parmênides fez do «Ser», objeto da inteligência, conquanto o objeto dos sentidos seriam as qualidades sensíveis. Essa distinção referente à especificidade do conhecimento o colocará em oposição ao sensismo dos sofistas. Fazendo seu estudo do «Ser», Parmênides destaca a oposição entre este e o «Nada». Em função desse modo particular de encarar a realidade, o filósofo de Eléia irá discutir o problema da mutação, pois de onde o elemento novo procederia? Ou do «Ser», ou do «Nada». Concluindo ele que do primeiro não poderia se originar, tendo em vista que o «Ser» já é o seu «Ser», e o que se retirasse dele, já existiria; e ainda que não poderia advir do «Não-ser», pois este, sendo nada, nada poderia nele ser gerado. Em suma, para Parmênides o «Ser» não pode ser criado por algo, pois isso implicaria a existência de outro «Ser»;tampouco criado a partir do «Nada», pois implicaria a existência do «Não-ser», ou seja, o «Ser» simplesmente é. Esse problema se perenizou na Filosofia. Heráclito contesta a imutabilidade do «Ser»; Aristóteles acredita haver no «Ser» aquilo que atualmente já é ato e aquilo que está em potência para ser; Hegel tentará incluir o próprio «Nada» na estrutura do ente; e, finalmente, Sartre afirmará o ato sem a potência.
Os eleatas que o sucederam não tentaram conciliar sua doutrina monista da imutabilidade do «Ser» com a constatação óbvia de que a Natureza está em constante mutação. Ao contrário, tentaram provar que o movimento é impossível, uma ilusão do conhecimento sensível. A seguir, exporemos os paradoxos de Zenão de Eléia, seu principal discípulo, que foi a tentativa mais eficiente de comprovação das teses parmenidianas.

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