terça-feira, agosto 01, 2006

DE HOMERO AOS ELEATAS - PARTE III

A Escola Jônica antiga:
A filosofia começa na Jônia, região da Ásia Menor ocupada pelos gregos em data anterior à conquista dos persas, que, entretanto, deixaram que sua cultura prosseguisse. Em Mileto, colônia grega incrustada em território cercado por outros povos, surgiram os três representantes dessa escola: Tales de Mileto; Anaximandro; e Anaxímenes de Mileto.

Tales de Mileto:
O primeiro filósofo viveu entre os anos de 624 e 546 aC. E se dedicou ao estudo da matemática e da Astronomia, sendo provável que tenha viajado ao Egito, de onde teria trazido novos conhecimentos matemáticos. Segundo a tradição, é provável que Tales tenha previsto o eclipse do sol de 25 de maio de 585 a.C. Para ele, o fenômeno já era científico, enquanto para seus contemporâneos, continuava sobrenatural. Admirado pelos homens de sua época, foi incluído na lista dos Sete Sábios da Grécia do tempo do arconte Damásias (582 a.C.), ao lado de Sólon e outros. Para Tales, primeiro a usar o logos, o elemento primordial, do qual tudo se constitui, é a água. Essa doutrina nos chegou através de uma longa citação de Aristóteles em seu livro Metafísica, tendo em vista que não restaram fragmentos de sua lavra. Parte do fragmento diz que “nada se gera e nada se corrompe e que a mesma substância permanece...”
Apesar de não determinar corretamente a especificidade do primeiro elemento, sua maneira de abordar o problema estava correta. Os seus sucessores, ou retornaram à sua hipótese, como por exemplo Hípon, ou a substituíram por outras, apelando para elementos conhecidos ar, terra, fogo, ou elementos mais abstratos. É correto afirmar que Tales é monista materialista, pois concentra no primeiro elemento toda a realidade, ao passo que o dualismo estabelece como elementos originários e irredutíveis entre si, um corpo material e uma alma espiritual.

Anaximandro de Mileto:
Sucessor imediato de Tales em Mileto, teria nascido em Mileto no ano de 610 e morrido em 545 a.C. Escreveu um livro: Sobre a Natureza, do qual resta um pequeno fragmento, além das referências doxográficas. Propôs como primeiro princípio, com o qual se forjaria todo o existente, um elemento, que denominou abstratamente de indefinido, que não tem limites, determinado, conformação, o "apeíron", que assumindo as formas, faria surgir as coisas, como por exemplo: a água. Nesse sentido, Anaximandro se recusa a identificar a matéria básica, subjacente, com qualquer um dos quatro elementos tradicionais: terra, ar, fogo e água. Seu elemento primordial não é captado pelos sentidos, tampouco está jogado no tempo, em outras palavras, não é temporal.
Em Anaximandro, o princípio da realidade não pode ser captado pelo material e da indeterminação se originam todas as coisas. De seu pequeno fragmento: “segundo a necessidade, porquanto impõem pena e vingança um do outro por suas injustiças, segundo a avaliação do tempo” - podemos interpretar que Anaximandro está se referindo à inevitabilidade das mudanças que ocorrem no mundo, pois todos estamos submetidos ao decreto do tempo. Por outro lado, estamos nos primórdios da filosofia, há escassez de conceitos, ao se referir à pena e vingança, castigo e retribuição, devemos interpretar sob a lei do vir-a-ser, devir, tudo está jogado no tempo. Nesse sentido, esse castigo, essa morte, não possui o sentido religioso da tradição judaico-cristã, ou mesmo abraâmica, mas o sentido de que se tudo parte do "apeíron", para ele deverá retornar. A vida seria esse caminhar para a morte como um castigo, assim como no verão o mundo é dominado pelo calor, que é uma usurpação, pela qual uma penalidade deve ser cumprida: o domínio pelo frio, que implica outro ato de injustiça e mais uma penalidade, e assim por diante, pois tudo que parte do "apeíron" está no tempo, o "apeíron" não. Anaximandro é um filósofo monista, assim como Tales o era. Seu elemento indeterminado é precursor da futura teoria aristotélica da matéria ou forma, ou hilemorfismo.
Se Tales é considerado como o primeiro filósofo, Anaximandro, que deixou mais material para estudo, podemos concluir, tentou explicar todos os aspectos da realidade e da experiência humana.

Anaxímenes:
Discípulo de Anaximandro, Anaxímenes nasceu em Mileto no ano 585 a.C., vindo a falecer em 528 a.C. Posteriormente à sua morte, sua cidade, que estava sob domínio persa, no ano de 494 a.C. foi destruída pelo dominador para reprimir uma rebelião. Ele é o terceiro e último representante da Escola jônica antiga e escreveu um livro, do qual se conservam três pequenos fragmentos em Plutarco e Aécio. Como elemento primordial de todas as coisas, elegeu o filósofo o ar, cuja indeterminação inicial seria determinada sucessivamente pelas formas mais densas e compactas. Pela rarefação se formaria o fogo, pela condensação os demais seres. Cria o filósofo que o princípio de tudo era o ar infinito, pois além deste ser mais dado às transformações, poderia ocupar todos os espaços e a ele se amoldar.

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