quinta-feira, agosto 31, 2006

TEATRO GREGO - SEGUNDA PARTE

Espaço cênico grego:
Os teatros gregos eram construídos em áreas de terra batida, com degraus em semicírculo para abrigar a platéia em uma área chamada de "teatron" e o conjunto de edificações recebia o nome de "odeion". O palco era composto de tábuas, sobre uma armação de alvenaria, e o cenário era fixo, com três portas: no centro, a do palácio; à direita, a que levava à cidade; à esquerda, a que ia para o campo. Essa estrutura de palco permanecerá até o fim da Renascença. Na fase áurea, teatros, como o de Epidauro, perto de Atenas, já são de pedra e se situam em locais elevados, próximos aos santuários em honra a Dioníso.


Sófocles
Nasceu em 495 a.C e, provavelmente, faleceu em 406 a.C. Viveu durante o apogeu da cultura grega. Escreveu cerca de 120 peças, das quais, sete são conservadas até hoje, entre elas Antígona, Electra e Édipo-Rei. Nesta última, Édipo mata o pai e se casa com a própria mãe, Jocasta, cumprindo uma profecia. Inspirado nessa história, Sigmund Freud formulou o complexo de Édipo.

Eurípides
Nasceu em 484 a.C.e faleceu em 406 a.C. Foi contemporâneo de Sófocles e pouco se sabe sobre sua vida. Suas tragédias introduzem o prólogo explicativo e a divisão em cenas e episódios. É considerado o mais trágico dos grandes autores gregos. Em sua obra se destacam: Medeia, As troianas, Electra, Orestes e As bacantes.

Aristófanes
Viveu entre 450 a.C. a 388 a.C. Nasceu em Atenas. Sua vida é pouco conhecida, mas pelo que escreveu se deduz que teve boa educação. Sobrevivem, integralmente, onze de cerca de quarenta peças. Violentamente satírico, critica as inovações sociais e políticas e os deuses em diálogos inteligentes. Em Lisístrata, as mulheres fazem greve de sexo para forçar atenienses e espartanos a estabelecerem a paz; em As Nuvens, satiriza o filósofo Sócrates, de quem foi contemporâneo.

Ésquilo:
O que se sabe sobre sua vida é que teria nascido em 525 a.C. em Elêusis, perto de Atenas, e teria morrido em 456 a.C. na Sicília, em Gela. Nasceu no seio de uma família nobre ateniense, seu pai chamava-se Eufórion, e lutou contra os persas em Maratona (490 a.C.) e em Salamina (480 a.C.), destacando-se como guerreiro. É considerado o criador da tragédia grega, por ser o primeiro a fazer a transposição do ditirambo, que era uma narração lírica, para representação cênica, ou seja, teatro. Escreveu mais de noventa tragédias, das quais sete são conhecidas integralmente na atualidade, graças a uma antologia compilada na época do Imperador Adriano: As suplicantes, Os persas, Os sete contra Tebas, Prometeu acorrentado e a trilogia Orestia, da qual fazem parte Agamenon, As coéforas e Eumenides. Também devemos a ele a introdução de um segundo ator no interlúdio falado entre os tradicionais cantos corais das representações dionisíacas. A presença deste segundo personagem permitiu o diálogo / o conflito, sem o qual não haveria o desenvolvimento do teatro. Foi premiado cerca de doze vezes nos concursos dionisíacos. Com exceção de Os Persas, drama histórico que enaltece a vitória dos gregos nas guerras greco-pérsicas, o enredo de todas as outras peças se fundamenta em um ou mais dos grandes ciclos legendários da Mitologia Grega. Apresentou-se pela primeira vez nos concursos trágicos de Atenas de 500 a.C. a 499 a.C. com um drama cujo nome hoje desconhecemos; obteve a primeira vitória em 484 a.C., e depois foi vitorioso mais doze vezes. Já em vida seu prestígio era grande. A tradição registra pelo menos duas e talvez três viagens à Sicília, sede de algumas das mais poderosas cidades-estado da época, para apresentar suas peças: a primeira de 476 a.C. a 475 a.C., a segunda provavelmente entre 471 a.C e 456 a.C. e, com certeza, lá estava em 456 a.C., quando morreu. Seu túmulo tornou-se local de peregrinação e, em meados do século IV a.C., uma estátua sua foi colocada no centro do teatro de Dioniso, em Atenas.
Segundo Aristóteles, Ésquilo foi o primeiro que elevou de um a dois o número dos atores, diminuiu a importância do coro e fez do diálogo protagonista. Os temas de suas peças freqüentemente se distribuíam em trilogias, a Orestia é a única que chegou até nós completa. O enredo é simples e a ação estática, o estilo é elevado e grandioso, às vezes bombástico e um pouco pomposo. As peças mostram também o profundo sentimento religioso do autor e os personagens principais são sombrios e dominados por uma única meta (como a vingança, por exemplo), e suas características não variam ao longo do drama. As ações humanas têm conseqüências inevitáveis, pois sempre são guiadas pela fatalidade, pelo destino, ou pela vontade dos deuses. É visível a intenção moral dos dramas. Orgulho e atitudes desmesuradas são punidas, e o castigo inevitável pode se estender inclusive aos descendentes.
Nos detivemos um pouco mais em Ésquilo, pelo fato de ser este o autor da peça, baseada no mito de Prometeu, que é o objeto deste trabalho. Aos demais autores gregos, que reputamos de enorme importância, reservamos um espaço sucinto para biografia e exposição de suas idéias.

terça-feira, agosto 29, 2006

TEATRO GREGO

A FIGURA TRÁGICA E REBELDE DE PROMETEU

INTRODUÇÃO
Pretendemos, neste texto, principalmente, trabalhar o mito de Prometeu, narrado precipuamente na obra Teogonia do poeta Hesíodo e retomado no teatro grego por Ésquilo, sendo ainda objeto do diálogo Protágoras de Platão. Nesse sentido, este trabalho será estruturado da seguinte forma: de início uma pequena investigação acerca da criação do teatro grego, em seguida uma breve exposição acerca dos autores mais importantes, para nos deter em Ésquilo e sua obra Prometeu Acorrentado, e finalizaremos fazendo uma contextualização da obra dentro do teatro grego.

PEQUENO ESCORÇO DA ORIGEM DO TEATRO GREGO
No século VI a.C., na Grécia, surgiu o primeiro ator quando o corifeu Téspis se destacou do coro e, avançando até a frente do palco, declarou estar representando o deus Dioniso. Desta forma foi dado o primeiro passo para o teatro como o conhecemos hoje. Em 534 a.C., na cidade de Atenas, o tirano Pisístrato organizou o primeiro concurso dramático. Apresentavam-se comédias, tragédias e sátiras, de tema mitológico, em que a poesia se mesclava ao canto e à dança. O texto teatral grego retratou, de diversas maneiras, as relações entre os homens e os deuses. No primeiro volume da Arte poética, Aristóteles formulou as regras básicas para a arte teatral: a peça deveria respeitar as unidades de tempo, a trama deveria se desenvolver em 24 horas, de lugar, um só cenário e de ação, uma só história. A tragédia grega é filha da tradição religiosa - última fase da evolução pelo qual passaram os ditirambos, primitivamente cantados por numerosos conjuntos vocais, nas festas periódicas celebradas em honra de Dioniso - surgiu e floresceu no decurso do Século V a.C., no período em que a Grécia viveu a fase épica de sua existência, no qual ocorrera a expansão dos gregos para as ilhas e pelo litoral do Mar Egeu até à península itálica. Fortalecidos os governos e instituições, desenvolvida a navegação e o comércio, formada a democracia ateniense estava aberto o campo onde deveria florescer a tragédia, que, posteriormente, dará seu lugar à eloqüência dos sofistas e à filosofia. O tempo da tragédia passaria, como havia passado o tempo das rapsódias de Homero.

AUTORES GREGOS
Os grandes autores de tragédia grega são: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, além de Aristófanes. Dos autores de que se possuem peças inteiras, Ésquilo, em Prometeu Acorrentado trata das relações entre os homens, os deuses e o Universo. Sófocles, em Édipo-Rei e Eurípides, em Medeia, retratam o conflito das paixões humanas. Do final do século IV a.C. até o início do século III a.C., destacam-se a "comédia antiga" de Aristófanes, Lisístrata, que satiriza as tradições e a política atenienses; e a "comédia nova", que com Menandro, O misantropo critica os costumes. Nas próximas postagens, falaremos, separadamente, um pouco sobre cada um deles.

segunda-feira, agosto 28, 2006

FILOSOFIA

Fundamentos da História da Filosofia Contemporânea
anotações de aula do Prof. Emmanuel Carneiro Leão - ago/2005
Instituto de Filosofia do Mosteiro de São Bento

A Filosofia não é uma ciência, uma teoria ou disciplina do conhecimento, tal como nós os entendemos hoje em dia. Ao contrário! Toda ciência, teoria ou disciplina do conhecimento é que são, de alguma maneira, dependentes da Filosofia, quer se reconheçam ou não, quer se assumam ou não, como oriundos da Filosofia. A Filosofia também não constitui uma ideologia, concepção de vida ou visão de mundo. Mas não vale a inversão, pois uma ideologia, concepção de vida ou visão de mundo não podem prescindir de todo da Filosofia.
Foi o que, em 1949, no Congresso Nacional de Filosofia, reunido em Mendonza na Argentina, reconheceu o próprio Bertrand Russel com as seguintes palavras:
“...There is one matter of great philosophic importance in which a careful analysis of scientific inference leads, if I am not mistaken, to a conclusion which is unwelcome to me and, I believe, to almost all logical positivist. The conclusion is that uncompromising empiricism is untenable”
“…Existe um significado de grande importância filosófica, ao qual uma cuidadosa análise de inferência científica nos leva, se não estou errado, à conclusão que não é bem-vinda para mim e, acredito, para quase todos os positivistas lógicos. A conclusão é que um empirismo sem compromisso é insustentável.” ! - Actas del Primer Congresso Nacional de Filosofia, Mendonza, Argentina, 1949, p. 1219

Mas então que é Filosofia, se não for uma ciência, teoria ou disciplina do conhecimento nem ideologia, concepção de vida ou visão de mundo? – Antes de responder, pensemos um pouco o que nos leva a perguntar assim, isto é, o que nos torna esta pergunta não somente possível como, sobretudo, imperiosa!
Esta pergunta supõe aceitas, sem discussão, muitas coisas. Assim supõe que toda Filosofia, seja ou, ao menos, pretenda ser um exercício de conhecimento. Supõe do mesmo modo, que, além de conhecimento, já não sobre nada mais para a Filosofia ser. Supõe, igualmente, que tudo, que é, não possa deixar de ser alguma coisa, um quê, por isso se pergunta que é. Supõe, outrossim, que toda pretensão de conhecimento termine sempre ou com a produção de um conhecimento objetivo e então é ciência, ou, com a produção de uma ilusão transcendental ou empírica e então é ideologia. Supõe, por fim, que toda época tenha sua concepção de vida e visão de mundo.
Como se vê, não são poucas as suposições que sustentam aquela pergunta “que é, então, a Filosofia, se não for nem ciência nem ideologia. Mas e se todas estas suposições forem e estiverem a serviço de dicta dura, isto é, da ditadura da razão, seu raciocínio e sua racionalidade, muito bons, sem dúvida, para conhecer objetos, mas imprestáveis para pensar a realidade nas realizações do pensamento? Neste caso, com que cara ficaremos, ao perguntar: “mas então que é a Filosofia se não for nem conhecimento nem ideologia, nem concepção de vida, nem visão de mundo?” Será que ainda ficaremos com uma cara quando só nos restar a carranca intransigente da razão e sua ditadura? - Agora que sabemos das suposições e limites da pergunta, poderemos tentar respondê-la.
A Filosofia é uma experiência de Pensamento. Mas não é a única experiência de Pensamento. Outra experiência de Pensamento é o Mito e a Mística. Uma outra são os deuses e o extraordinário. Ainda uma outra é a Poesia e a Arte. A última, por ser no fundo a primeira experiência grega de Pensamento é a vida e morte.
Mas por que é tão importante, para se aprender a pensar e desenvolver a capacidade do Pensamento hoje, a Filosofia? Donde provém esta necessidade de estudar Filosofia num currículo de formação? Não seria muito mais vantajoso empenhar logo todas as forças e concentrar todo esforço em estudar o Pensamento atual a aprender a pensar o pensamento hoje? Que utilidade poderá trazer para nós, “filhos do carbono e do amoníaco”, todo o trabalho de penetrar no movimento por mais original que seja, do Pensamento na Filosofia, se mais de dois mil e quinhentos anos de história dela nos separam? O que há com a Filosofia que não consegue desvencilhar-se de seu princípio e deixar o passado passar? O que é que se nos dá de Pensamento nas relações entre Filosofia e História?
O Pensamento é um passado tão vigente que sempre está por vir. Qualquer esforço da Filosofia não deixa de ser um esforço pelo Pensamento. E por que? – Porque nenhum esforço filosófico, em qualquer hora, tanto outrora como agora, pode dis-pensar a força de futuro do Pensamento no passado. Por isso também toda Filosofia vive de pensar a História da Filosofia. É o que se tornou transparente desde Hegel. Por isso toda Filosofia inclui necessariamente, quer o saiba ou não, uma Filosofia da História. Na Introdução às Preleções de História da Filosofia, pergunta Hegel: como a Filosofia, que busca sempre a verdade, isto é, uma verdade una, necessária e imutável, pôde desdobrar-se numa multiplicidade de tantas filosofias? De fato o balcão da História oferece filosofia para todos os gostos e nos mostra que, onde um filósofo diz sim, outro diz não e vice-versa. Daí se dizer, é próprio do filósofo se contradizer a si mesmo e dos filósofos se contradizerem uns aos outros contra todas estas arremetidas da razão contra o Pensamento na Filosofia, a resposta de Hegel é dialética: a verdade não é a parte. As partes são passagens de que necessita a verdade para chegar a si mesma no todo. A verdade é o todo. Por ser e para ser o todo, a Verdade possui a tendência de se desenvolver e desenrolar nas peripécias de uma dialética, formando um fluxo de crescimento, o curso da História.
E não foi somente Hegel que o percebeu. Heráclito já sabia e o sabia com um saber originário. Aristóteles também, Platão também, Sto. Agostinho também, Kant também, Schelling também, Nietzsche também, Heidegger também! Mas é um saber raro. Só os grandes pensadores o possuem. E o possuem, na medida em que o transformam na grandeza de outros endereços e novos caminhos de pensar. O destino do Pensamento em qualquer endereço ou caminho, é mantê-lo vivo da forma mais pura, isto é, na forma de um contínuo e diuturno questionamento. Por isso os filósofos nascem e morrem, como filósofos, num diálogo ininterrupto com seus antecessores e sucessores. Somente morrendo é que um filósofo e uma filosofia se tornam contemporâneos do Pensamento.
Constitui, pois, uma ignorância crassa do modo de dar-se do Pensamento na Filosofia pretender que um filósofo necessite, para sua Filosofia, da aprovação de seus pares. A aprovação só é indispensável ou para ser aprovado num concurso público ou para ser convidado como professor visitante ou para passar nos exames do final de curso. A análise sociológica, mesmo de uma pretensa “sociologie philosophante” é que confunde às vezes vigor de pensamento com a aprovação de um concurso. “Criticar”, no sentido de apontar deficiências, indicar erros, denunciar falhas, não faz parte da atividade constitutiva do pensamento. Qualquer crítica fica muito aquém do nível em que se move o pensamento. Toda crítica não passa do uso de parâmetros de dever ser disponíveis e já constituídos.
Ora o modo de dar-se e de ser do Pensamento é sempre constituinte e por isso consiste em ex-plicar. Todo pensamento se ex-plica, ao ex-plicar-se com os outros pensamentos. A ex-plicação é a única maneira de se respeitar um pensador como pensador. É o modo mais elevado de se considerar e levar a sério um pensamento. Mas não se deve confundir a ex-plicação do Pensamento com a ex-plicação do conhecimento e da ciência. Pois ex-plicar um pensamento é deixar surgir a profundeza de sua im-plicações com o real, é fazer emergir a vitalidade de sua a-plicação às realizações e assumir o vigor de suas complicações com a realidade.
Para o Pensamento, o critério consensual da verdade, a saber, que a essência da verdade esteja no consenso, é tão espirituoso como o esforço de se comparar o maior número possível de exemplares de uma edição de jornal para se confirmar a verdade de uma notícia. Nenhum filósofo, digno deste nome, está em diálogo de pensamento com seus contemporâneos. As diferenças entre as filosofias não atrapalham, estimulam o pensamento. Só se enreda na rede das diferenças quem tem dificuldade de pensar a identidade do pensamento, nas próprias tensões e oposições de seus níveis, endereços e exercícios.
E por que? – Nietzsche nos responde: a filosofia “não é algo que se torna, evolui e devém nem algo que passa, decorre e escoa.” “A Filosofia está toda se tornando, está toda evoluindo, está toda devindo. A Filosofia está sempre passando, está sempre decorrendo, está sempre escoando”. “Os seus excrementos são o seu alimento”. Um puro vir a ser é a vontade de todo ser e um eterno retorno do igual é o poder deste incessante querer ser. “Vontade de poder” e “eterno retorno do igual” perfazem o cúmulo da Filosofia porque são a Filosofia do cúmulo, no cúmulo e como cúmulo. Por isso no número 617 de suas anotações para a obra principal resume Nietzsche a dinâmica de realização do real com as seguintes palavras: “Recapitulação: imprimir ao vir a ser o caráter do ser é a suprema vontade de poder”. Mas se trata de uma “recapitulação” ontológica que impõe uma circularidade às realizações oriunda do advento da realidade na história das transformações. Esta circularidade é o cúmulo da reflexão no movimento de uma constante tomada de princípio. É o que nos diz com uma voz imemorial o N0 420: “Que tudo retorna é a máxima aproximação de um mundo do vir a ser ao mundo do ser – cúmulo da reflexão”.
O único motivo para se estudar a Filosofia é a necessidade extrema que temos de aprender novamente a pensar. Não de certo como os filósofos pensaram – o que seria impossível – mas de aprender a pensar, com o que os filósofos pensaram, a indigência de pensamento em que nos debatemos hoje no Fim da Filosofia!
Em 1996, o prof. Eugen Fink de Friburgo na Alemanha completava 60 anos. No discurso comemorativo, Heidegger pensa a situação atual da filosofia com as seguintes palavras:
“A Filosofia entrou hoje, num estágio da mais difícil provação. A Filosofia está se dissolvendo em ciências independentes e autônomas. São elas: a lógica, semântica, psicologia, antropologia, sociologia, politologia, poetologia, tecnologia. Junto com a dissolução nas ciências da Filosofia, uma integração das ciências de novo tipo está substituindo a Filosofia. O controle das ciências através de uma tendência básica vigente nelas mesmas, se realiza hoje no aparecimento do que se procura impor com o nome de cibernética. Este processo é promovido e acelerado pelo fato de lhe vir ao encontro um traço fundamental das próprias ciências modernas.
Numa única frase, Nietzsche expressou este traço essencial da ciência moderna, um ano antes do colapso mental de 1889. A frase é a seguinte:
‘O que distingue o século XIX não é a vitória da ciência, mas a vitória do método sobre a ciência’ No 466
O que se pensa aqui como método já não é o instrumento com que a pesquisa científica elabora objetos de fenômenos já dados. O método constitui a própria objetividade dos objetos, caso ainda se possa falar aqui de objeto, caso ainda possua “valência ontológica” partir de determinações da objetividade.
Talvez a Filosofia do tipo tradicional e de vigência correspondente venha a desaparecer do horizonte do homem da civilização técnica. Mas o Fim da Filosofia não é o Fim do Pensamento. Por isso torna-se premente a questão, se o Pensamento vai assumir a provação que tem diante de si e como o Pensamento vai sobreviver ao tempo de provação.
. . . . . . . . . . .
Foi a Poesia que preparou. Entre os gregos o princípio do Pensamento na Filosofia ocidental.
Talvez, no porvir, seja o Pensamento no Fim da Filosofia que abrirá o espaço de tempo e de jogo para a Poesia, a fim de a palavra poética instalar de novo um mundo de palavra.”

O que Heidegger nos quer dizer e fazer pensar com estas palavras? - Ele nos recorda ao coração que o grande desafio de hoje é a indigência de Pensamento.
Para se perceber a indigência do Pensamento na Filosofia atual em fim de carreira, basta pensar o sentido que tem a inversão histórica entre filosofia e ciência. Ao longo de toda a história do Ocidente, o caminho da passagem correu sempre da Filosofia para as ciências, no plural a fim de preservar os vários sentidos da palavra. Em todas as épocas anteriores, qualquer abalo histórico sempre iniciou na Filosofia e se alastrou para as ciências. Hoje não. O sentido do movimento se inverteu. Por toda parte, o caminho que leva à Filosofia, já não é o caminho do Pensamento. A ciência tornou-se a passagem obrigatória de todos os caminhos da Filosofia. A grande maioria dos chamados filósofos de hoje não são pensadores, são parasitas da ciência. Quase todos vivem às expensas da ciência, dos milhões que rendem as descobertas científicas, quer se trate da matemática, física ou biologia, quer se trate da antropologia, sociologia ou psicologia. A decadência do Pensamento é de tal monta que se perderam até as condições de se reconhecer a decadência e identificá-la, como decadência. Ao contrário, hoje se toma a decadência por grandeza e florescimento. Vivemos a mescla de orgulho e medo, sensação de sucesso e ameaça que acompanham os resultados e as descobertas da técnica e ciência. Daí também as tentativas de controlar a angústia através de divisões e separações: separam-se as descobertas da técnica e da ciência da sua má utilização. Assim se acha que o controle da energia do átomo é um bem, apenas seu uso na produção de bombas atômicas é que é um mal. Ora, para sustar a avalanche e reverter o processo, não adianta muitos se chamarem, se considerarem e pretenderem ser filósofos. Para a Filosofia existir e sobreviver é preciso aprender novamente a pensar e não apenas repetir, em novos registros, o já pensado pela tradição histórica, nem derivar das descobertas, que sua aplicação tem proporcionado às ciências, perspectivas gerais de leitura e interpretação.
Sempre se repete hoje em dia que uma onda de progresso se expande por toda parte e se aponta para novas idéias e invenções revolucionárias nas diversas áreas da produção cultural, nas matemáticas, na lógica, na computação, na semântica, na medicina, nas teorias dos jogos, dos sistemas, das catástrofes, etc. A decadência chegou ao ponto de se pretender construir uma nova Filosofia com as últimas descobertas da ciência. A justificativa de tal pretensão diz no fundo o seguinte:
O conhecimento científico corre num ritmo tão veloz que, depois de dar algumas voltas em torno da terra, Gagarin, o primeiro homem a ir ao espaço exterior, disse, sem a menor cerimônia, numa entrevista à imprensa internacional: “não encontrei Deus em volta da terra. É que eu girava rápido demais”! Que indigência de pensamento! Neste nível não é possível nem mesmo perceber e muito menos pensar o problema de Deus no ateísmo e o problema do ateísmo na crença em Deus e no reconhecimento de sua presença! A entrevista foi lida, louvada e condenada em toda a grande imprensa do mundo. Só não foi pensada. Na bolsa do conhecimento, da ciência e da Filosofia, a cotação do Pensamento anda mesmo muito por baixo!
Alguns anos depois, uns astronautas americanos, após contornarem a lua pela primeira vez, comunicaram para o mundo estupefado que a terra azul era o astro mais bonito do universo. Eles ainda não tinham chegado nem mesmo à lua mas já sabiam que a terra azul era o astro mais bonito do universo. Como dá para se ver, o Pensamento não tem acompanhado o surto de evolução do conhecimento científico. Por isso a tese fundamental da última preleção de Heidegger na universidade de Friburgo foi: “O que mais nos faz pensar em nosso tempo, que dá tanto a pensar, é não se pensar”! – Nestas condições, não é de forma alguma para estranhar que o ritmo acelerado do progresso da ciência tenha aumentado consideravelmente o estado de confusão reinante. E não subiu apenas o desnível e, em conseqüência, a dificuldade de comunicação entre as elites culturais e o nível de conhecimento do povo. É muito pior do que isso. O tropel do progresso científico atropelou os pressupostos do Pensamento em todos os homens, nas elites mais ainda do que no povo!
Os pressupostos ao pensamento vinham servindo séculos afora de suporte e sustentáculo não apenas para as convenções e instituições do Ocidente mas para a própria vitalidade da convivência e o vigor de criação em todos os campos da atividade histórica dos homens. As experiências que o pensamento faz do espaço, do tempo e movimento, da lei, do paradigma e destino, as integrações da natureza, história e sociedade, a força de reunião do uno e múltiplo, a identidade conquistada através das tensões da diferença, tudo isto se esboroou e dissolveu, deixando todos os padrões de comportamento nas ações, reações e omissões à deriva, sem rumo nem amparo, sem continente nem horizonte. Substituindo as experiências do Pensamento, o conhecimento objetivo não dá indicações nem oferece parâmetros para se viver num vazio vazio, isto é, num vazio desprovido até mesmo da exigência de rumos e referências. Sem as experiências do Pensamento, não temos perspectivas para encontrar caminhos num mar em que tudo é relativo e mutante, em que as mudanças se sucedem em alta velocidade, embora sempre com a promessa do absoluto nas transformações e da segurança nas soluções. É esta experiência a importância que nos traz a Filosofia com um modo de vida criativo e livre. Pois nos momentos de seu vigor originário ela sempre se sentiu em casa no vazio sem exigências de parâmetros e padrões e, ao invés de horror, sempre experimentou um elã criativo no não saber do Pensamento. Para a experiência do Pensamento originário se inverte nosso senso de amparo. Amparo já não é ter em cima tetos, telhados, coberturas, ou possuir embaixo solo, cimento e asfalto ou dispor no meio de correntes, trancas e trincos. É viver sem nenhum teto para a cabeça, sem nenhum solo para os pés, sem nenhum esteio para as mãos. É o sentimento que antecede a passagem do Evangelho:
“As raposas têm covas e as aves do céu têm ninhos mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Mt, 8-20
Não é que se tenha de fazer um transplante da Filosofia para tudo nos dias de hoje. Isto é impossível. Nossos modos de sentir e hábitos de conhecimento nô-lo impediriam. A Filosofia está profunda e intrinsecamente tecida na língua natural e ligada à cultura ocidental, isto é, às instituições, instâncias e costumes que se tornam hoje cada vez mais estranhos e exóticos, mas por outro lado, temos uma necessidade imperiosa de desaprender muitas coisas e aprender outras tantas com a estranheza do Pensamento na Filosofia. Os filósofos têm a vantagem de um modo de falar e dizer que, justamente por ser desconcertante e paradoxal, se torna tão educativo, tanto para nosso saber como para nosso não saber. Muitas são as possibilidades de pensar e modos de comunhão ainda não explorados que os pensadores e filósofos têm para oferecer: acuidade, inspiração e humor mas sobretudo um sentido de arte e beleza, um senso de absurdo e contradição que, ao mesmo tempo, exaspera a razão e deleita o pensamento. Pois o próprio do Pensamento é a força original de virar pelo avesso tanto o racional como o irracional e dissolver o que se nos afigura constituir os princípios mais caros à racionalidade e a exclusividade de valor do binômio moderno racional-real. O Pensamento na Filosofia Grega por exemplo é a mais radical compaixão pela humanidade do homem, de que se tem notícia, sem concessões nem reservas, sem sentimentalismos ou pieguismos. O filósofo originário não quer ser salvo nem quer salvar ninguém por isso não busca nenhum messias e nenhuma doutrina de salvação. Não tem religião. A língua grega não possui nenhuma palavra própria para dizer religião. Religião é um étimo latino e designa uma experiência romana. Mas não quer isto dizer que o grego seja ateu. Apenas seus deuses não são salvadores e sua experiência histórica não inclui nenhuma missão redentora nem individual nem racional nem universal.
A aprendizagem da Filosofia passa sempre pelas obras dos grandes pensadores. Mas uma leitura com o propósito de aprender a pensar não poderá ser ideológica. Não se estudam os filósofos para sair repetindo as atitudes que tomaram, as posições que defenderam ou as respostas que deram. Em toda leitura e interpretação de um texto está em jogo a capacidade de pensar de quem lê e interpreta. “A Filosofia não é uma doutrina, a filosofia é uma atividade”, diz Wittgenstein no No 5.217 do Tratado Lógico-Filosófico. E qual é a atividade da Filosofia? – É a atividade de aprender e ensinar a pensar. A tarefa do pensador não é construir respostas nem formular teorias. É examinar as irrupções das diversas teorias e muitas respostas em seus respectivos pressupostos de sustentação. Na conhecida formulação socrática, “sei que não sei”, este “que” não tem função nem categorial nem transcendental, seja integrante seja causal. Indica simplesmente a conjuntura histórica da existência, em que se dá e exerce a liberdade do Pensamento: em tudo que sabe, o pensador não somente sabe que não sabe. A formulação não visa apenas a constatar um fato e sua aceitação por parte de Sócrates. Fala de uma realização e modo de ser, a realização e o modo de ser do filósofo. O pensador em tudo e sobretudo vive o não saber. Pois pensar não é saber. É não saber. Quando se pensa não se pretende saber e quando se pretende saber, não se pensa. Desde o Poema de Parmênides, o pensador-filósofo é aquele que não cessa de questionar as raízes em que se encontram e desencontram, numa encruzilhada da verdade, os caminhos do ser, do não ser e do parecer.
No mesmo dia do colapso mental nas ruas de Turim, Nietzsche explicitou num bilhete a seu amigo Jorge Brandes as relações do Pensamento, vigentes em todo estudo de Filosofia, com três verbos: “entdecken”, “finden” e “verieren”, “descobrir”, “encontrar” e “perder”. É o seguinte o teor do bilhete:
“Turim, 04.01.1889
Caro Jorge,
Depois de me teres descoberto, não foi difícil me encontrar: a dificuldade agora é me perder...O Crucificado”.
Neste bilhete, um dos chamados “bilhetes da loucura”, “Wahnzetteln”, Nietzsche não está falando de suas obras mas do Pensamento e do modo extraordinário de operar do Pensamento, isto é, de como o Pensamento se põe em obra, age e trabalha. Os verbos não se referem apenas a Nietzsche e seus escritos mas aos pensadores de todos os tempos e a suas obras, qualquer que seja a situação individual , ideológica ou política de cada um.
Só se poderá corresponder ao Pensamento de um pensador se se conseguir ler a sua escritura numa leitura libertadora de nosso próprio pensamento, isto é, numa leitura que nos liberte o pensamento para a liberdade de pensar. Não existe um método de leitura nem uma filosofia que nos proporcione as condições para uma compreensão criadora dos textos dos filósofos. Nem a própria Filosofia de um filósofo nos garante uma leitura livre de seus escritos. Pois toda obra criadora, caso seja realmente criadora, isto é, uma obra, que nos liberte a capacidade de pensar, transcende sua própria filosofia, ultrapassa seus próprios parâmetros, remetendo-nos para fora e para além da posição fundamental em que ela mesmo se planta. O único sentido de uma obra filosófica é precisamente rasgar novos horizontes, é desencadear novos impulsos, é instaurar novo princípio em que os recursos, os caminhos e padrões da obra se apresentem superados e insuficientes, se mostrem exauridos e ultrapassados pelo novo nascimento histórico. Instituindo novos parâmetros de questionamento, uma obra de pensamento cria novas regras de leitura. Ora, toda explicação, no sentido do conhecimento e não a ex-plicação própria do Pensamento, recorre ao já existente, remete para o já sabido. Por isso também fica excluído de qualquer explicação tudo que for libertador e criativo, tudo que inaugurar uma transição histórica. E não é somente isto. O predomínio destas explicações destila por toda parte uma compulsão de repetir a que nada poderá resistir, como se já não pudesse haver nenhuma criatividade e tudo se reduzisse à miragem de um deserto monótono e incapaz tanto de viver como de morrer.
Este sentido de Pensamento que Nietzsche atribui a toda leitura das obras dos Pensadores, dá às contribuições da Filosofia uma outra autoridade e uma renovada dignidade de criação, sobretudo para nós hoje imersos num processo de transição e respirando o ar de um novo milênio. Numa famosa preleção de 1935 publicada em 1953, fala Heidegger da necessidade atual de se aprender a pensar com a Filosofia:

“Justamente porque nos devemos aventurar na grande e longa missão de demolir um mundo envelhecido e construir um outro verdadeiramente novo, isto é, histórico, temos de saber a tradição. E temos de sabê-la mais isto é, de modo mais comprometido e rigoroso do que todas as épocas anteriores e revoluções passadas. Só o mais radical saber histórico nos pôe diante do que há de extraordinário em nossa tarefa e nos há de preservar contra uma nova explosão de mera repetição e estéril imitação.”

O que se trata de ultrapassar hoje, o que se tem de superar agora não é determinada interpretação do sujeito. É determinar o homem como sujeito. Esta determinação caracteriza os tempos modernos e alcança hoje na expansão essencial da técnica uma força planetária. É tão profundo seu vigor histórico que permite a concepções diferentes e até contrárias reivindicar, com o mesmo direito, a linhagem da modernidade. Idealismo e realismo, materialismo e espiritualismo, racionalismo e existencialismo, capitalismo e socialismo têm em comum a necessidade histórica de não se desenvolverem nem se afrontarem senão plantados no solo de um mesmo niilismo, do niilismo em que o mistério da realidade e do realizar-se no tempo já não é nada e o nada se reduz sempre a algo simplesmente negativo, à mera ausência de qualquer coisa. Centro de um mundo quase que só feito de sujeito e objeto, de funções e operações, a com-posição da técnica se vai tornando o fundamento comum de todos os sistemas e organizações modernas, o tema de todo humanismo, cristão, ateu ou indiferente, a meta de todas as revoluções, capitalistas ou comunistas.
No império das funções politônicas em que hoje nos batemos e debatemos, a Filosofia nos faz ver a urgência de se pensar a questão de fundo de toda existência atual: será que continuaremos prisioneiros da insurreição da técnica e condenados para sempre a desenvolver, sem nem mesmo pressentir, suas conseqüências monstruosas, as muitas ideologias de esquerda, direita e do centro? Ou os tormentos que nos atormentam nas tormentas de hoje não poderão vir a transformar-se de repente no prelúdio, por mais doloroso que seja, de uma nova “ aurora dos dedos de rosa” ou no fênix de uma outra ressurreição? – Com estas esperanças animando-nos o Pensamento, devemos começar o esforço de aprender a pensar, estudando Filosofia. É um começo, estranho e curioso, como todo começo essencial. Pois é um começo que, quando realmente começa, faz a experiência e descobre que já tinha desde sempre começado! É que, em nenhum começo, se poderá confundir começo com princípio. Começo não é princípio. Começo é alavanca. Remete-nos ao empuxo e arranque com que uma coisa começa. Enquanto princípio é origem. Remete-nos à fonte donde uma coisa brota. O começo, mal começa, e já está superado. Desaparece e fica para trás nas peripécias do processo de criar e produzir. O princípio, ao contrário, surge e se impõe ao longo de todo o processo, pois só alcança plenitude no fim. Começo é o princípio em busca de realização, fim é o princípio plenamente realizado como princípio. Quem começa muito, que inicia muitas coisas, nunca chega ao princípio. É que nós, seres finitos, somos sempre definidos. Temos necessidade de definições. Nunca poderemos começar com o princípio. E por que não? – Porque já estamos sempre imersos no princípio. Por isso mesmo, para sabermos que estamos onde estamos, temos que começar invariavelmente com o início, com algo, portanto, que nos descubra o princípio, que nos mostre a origem, que nos desvele a fonte. É esta espécie de começo, é este tipo de início que nos proporciona a Filosofia quando nos surpreendemos num esforço de aprender a pensar. Pois o estudo da filosofia é o esforço que fazemos para entrar e tomar posse do que já nos é sempre dado: a capacidade de pensar. Colocamos o estudo da Filosofia no começo para chegar onde desde sempre estamos, no princípio do Pensamento. O caminho mais longo, tão longo que dura toda a vida, é aquele que nos leva ao mais próximo, tão próximo que nós o somos, e a última caminhada a que nos deixa no princípio, no príncípio do que somos e não somos. Só se compreende o que se aprende. Pois aprender é esvaziar-se de todo contingente e de qualquer conteúdo e assim abrir-se e manter-se aberto para o estranho e não sabido, para o outro, a diferença e o desconhecido. Por isso só aprende quem pensa. Pois pensar significa acolher o mistério da realidade irrompendo nas realizações do real. Para se compreender, portanto, o sentido, isto é, a necessidade e urgência da Filosofia nos dias de hoje, temos de aprender a pensar nas relações entre Pensamento e Filosofia dentro da experiência humana de todos nós.
Antes de tudo, é necessário assumir em nosso modo de ser e incorporar em nossa atitude que não é possível nem ensinar nem estudar o Pensamento. Só é possível mesmo aprender a pensar. Ensino e estudo, disciplina e esforço são processos de aquisição de conhecimento. E por que? Seria mesmo possível separar ensino, estudo e conhecimento para um lado e aprendizagem, compreensão e pensamento para outro? Não se trata disto. É que no Pensamento já estamos, nos movemos e somos desde sempre. O Pensamento não é objeto de estudo. É o modo de viver dos homens. Justamente por não se poder separar ser homem de pensar (“ser e pensar são o mesmo” – ver Parmênides) por isso é que não se pode ensinar e estudar o Pensamento. Mas se o Pensamento não pode ser objeto de estudo, não quer isto dizer que não se possa estudar os pensamentos dos pensadores. Muito pelo contrário. Significa apenas que o estudo é necessário e indispensável mas não é bastante nem suficiente. Além do estudo, deve-se ainda favorecer o Pensamento, deixando-se arrastar e fluir na correnteza da realidade com a esperança de ser transformado pela realidade mas sem expectativas nem pretensões de determinar como deve ser o real.
Pois, diferente das expectativas, esperança é confiança na entrega e consignação da realidade, enquanto expectativa se alimenta da frustração de não se ter aceito a realidade e busca por isso substituir o real. O modo de o Pensamento difundir-se e o processo de sua expansão estão mais para contágio e infecção do que para esforço e disciplina. Por isso também não há mestres no Pensamento. Todos são discípulos. Mestre só de obras e de conhecimento. Ninguém é dono do Pensamento. O Pensamento é que domina os pensadores com a sutileza de sua fragilidade. Todas as grandes coisas da vida, como a bondade, a inocência, a liberdade, não tem poder de impor-se nem força para defender-se. É o que acontece também com o Pensamento. Corre em Friburgo na Alemanha a estória de um livro de Filosofia. Heidegger queria presentear um amigo com o Tratado de Schelling sobre a liberdade. Empacotou o livro com muito cuidado e foi despacha-lo pelo correio. O funcionário perguntou se havia no pacote alguma coisa de quebrar. Heidegger respondeu: “claro, o Pensamento. É um livro de Filosofia.”
À delicadeza visceral do Pensamento o homem do Ocidente se recomenda desde Hesíodo. No prólogo da Teogonia, o poeta canta a fragilidade delicada das musas. A que apelos de pensamento correspondem as musas dentro da experiência grega de pensamento? Trata-se de um étimo relacionado com a raiz indo-européia: men- que diz a experiência de ação de uma força explosiva. Desta raiz se deriva o substantivo to menos=fúria, o furor, o furacão, a alma, o espírito, o coração, o núcleo, o último, o centro, a coragem, a ousadia, o vigor. A articulação com a raiz dhé, que significa: por e empenhar, forma o tema, men+dhe, indicando a experiência de se aplicar e uma força de concentração e expansão em alguma coisa. Por isso manthano, diz aplicar o espírito e, portanto, aprender, e he menthere diz a aplicação da força de concentração do espírito em alguma coisa, daí o sentido que tem a palavra de cuidado e preocupação.
As musas designam assim a experiência de forças se concentrando no sentido e se interiorizando (afundando) no último das coisas. As musas regem o Pensamento em todas as suas formas. São elas que lhe constituem a essência e o vigor do ser. Nasceram em nove noites de amor de Zeus com Mnemosine, a força da interioridade e condensação. Não é de se admirar que as musas existam no plural para possibilitar todos os modos de pensar: poesia, persuasão, sabedoria, história, matemática, astronomia. Somente um espírito rude, prepotente e voraz, como o espírito moderno, pode ver nas musas apenas confusão e fantasia. Na experiência originária dos gregos, as musas são também a fonte da verdade do real e a revelação da realidade. Hesíodo nos diz que recebeu das próprias musas a missão de demonstrá-lo:
“Pastores rudes, más línguas, somente ventres, sabemos dizer muitas coisas falsas como reais mas sabemos também, quando queremos, dizer a verdade em forma de mito.”
Esta fragilidade essencial impede que o Pensamento se possa transmitir diretamente com a moça. A essência do Pensamento é tão sutil e delicada que não agüenta transplante e resiste à transferência. Ela se dá vivificando um modo de ser e alimentando uma vida. Assim ele vive, por excelência, na vida de pensar dos grandes pensadores e, por abreviatura, na vida expontânea de todos os homens. Se ninguém pode dar Pensamento a ninguém, todos têm a possibilidade de abrir-se e expor-se ao Pensamento, como faz a flor da manhã aos raios de sol. Neste sentido, estudar é necessário mas não basta. O estudo vem da razão e, como tudo que é racional, não pode nem morrer nem viver. Aprender é vivo e, como toda vida, precisa morrer continuamente para viver. Estudar é o meio de conhecer. Ora, conhecer é poder e um poder tão poderoso que se pretende dispensar de ser o que conhece. Para o conhecimento ser o que conhece é perigoso. Traz o perigo de comprometer a isenção e neutralidade do conhecimento. Por isso o conhecimento têm de ser racional e arrancado de toda possibilidade de viver e morrer. Em latim arrancar se diz ab-strahere e arrancado, ab-stractum. Para arrancar-se da alternativa de vida e morte, o conhecimento se torna abstrato. Abstrato quer dizer, em primeiro lugar e antes de tudo, fora da possibilidade de morrer e viver para poder estar todo dentro da segurança do poder. O ideal de todo conhecimento é muito mais conhecer sem ser do que conhecer sem sujeito. Neste sentido, o conhecimento visa a conhecer o amor sem amar, busca conhecer a meditação sem meditar, quer conhecer o pensamento sem pensar.
Vivemos na época do conhecimento, o que vale dizer: por toda parte grassa a obsessão pelo poder e por segurança. Daí nosso primeiro cuidado, ao visitar os pensadores e nos encontrar com a Filosofia é uma atitude de disponibilidade: não ir para estudar e conhecer, mas ir para aprender a pensar. Esta é a semente que vai florescer e transformar-se em árvore de pensamento. Quando, onde e em quem de nós, vai transformar-se em árvore, não podemos saber, só podemos mesmo esperar. Como nos diz Heráclito no fragmento 18:
“Se não se espera, não se encontrará o inesperado, sendo sem caminhos de encontro nem vias de acesso.”
A disposição de aprender a pensar constitui, pois, a semente de nossa esperança em todo contato com o Pensamento da Filosofia.
Muitas são as diferenças entre a atitude de aprender e a atitude de estudar. Quem vai estudar quer mais conhecimentos e informações para saber mais, para poder mais, para segurar-se mais. Quem vai aprender quer esvaziar-se mais e desaprender mais para arriscar-se mais e ser mais. Se não se apostar a vida, não se aprende nada. Quando se estuda, cresce o receituário, isto é, o repertório das receitas, aumentam, em conseqüência, as possibilidades de fazer. Quando se aprende, crescem as possibilidades de ser e realizar-se, aumentam, em conseqüência, as possibilidades de viver e morrer.
Alguém que se aproxima da Filosofia para estudar, vem repleto de perguntas e com muita curiosidade. As respostas vão aumentar o acervo das informações. Esta é outra diferença entre aprender e estudar. Pois alguém que se achega aos pensadores para aprender a pensar, só traz uma única pergunta, só tem um único propósito. Muitas perguntas provêm da voracidade insaciável do conhecimento. Qualquer resposta recebida só servirá mesmo para gerar mais perguntas. A voracidade do saber é como a Hidra de Lerna, cada resposta se transforma em muitas novas perguntas. Assim a resposta à pergunta: “quem criou o mundo?”, se for, por exemplo, Deus, transforma-se logo em mais perguntas: “E Deus existe?” “Quem é Deus?” “Deus não é uma ideologia?” “Não resulta do sentimento oceânico do inconsciente?” “Por que e para que Deus criou o mundo?” “Antes de criar o mundo, o que Deus fazia?” E se a resposta for: “o mundo não foi criado, sempre existiu”, a situação não melhora. Logo se pergunta se a eternidade do mundo é compatível com a entropia? Se não há contradição entre o tempo no mundo e a eternidade do mundo? Se não existe uma proporção constante entre a quantidade de massa e a duração do mundo? E se a resposta for: “o mundo vem do acaso” : “Nosso número saiu na loteria de Monte Carlo”, como escreveu Jacques Monod em “Acaso e Necessidade”. Esta resposta não desencadeia menor avalanche de perguntas: “Não existe correspondência entre causa e efeito?” “O acaso não supõe a necessidade, para ser acaso?” “Pode-se transferir, sem mais, mecanismo de um nível para outro?” “A probabilidade não exige sempre a possibilidade?” “Pressupor simplesmente a possibilidade de o acaso criar alguma coisa não equivale a admitir provado o que se deve provar?”
Como se pode ver, ter muitas perguntas a fazer aos Filósofos não é sinal de sabedoria mas de confusão. Significa que se está perdido girando em círculo pela periferia da vida. Na periferia existem sempre muitos pontos a serem discutidos mas todos dispostos em círculo: uma pergunta leva a outra que puxa outra e assim ao infinito. Aristóteles já dizia que, em todo movimento de remissão e regresso sem fim, o círculo deixa de ser virtuoso para se tornar vicioso. Por isso: “é preciso parar” o vício e interromper o malefício. Sem o poder de concentração e a dinâmica de reunião de uma força de unidade não se dá nem acontece nenhum movimento. Não adianta multiplicar os vagões ao infinito. Sem o poder de reunião e a força de aglutinação da locomotiva o trem não anda. É o que acontece com as nossas perguntas girando em círculo pela periferia do pensamento na Filosofia.
Para se encontrar com o pensamento, deve-se ter uma pergunta apenas: a pergunta que brota da unidade de nosso próprio ser. Por isso é importante deixar a periferia e ir para o centro da vida. Pois somente no centro a pergunta é essencial. No centro todo nosso ser se transforma numa única pergunta. E por isso mesmo, centro e periferia não são duas coisas, são uma e a mesma coisa. Pois todo nosso ser é pergunta. Ser todo pergunta em qualquer estudo da Filosofia é a única maneira de se aprender a pensar com o que pensaram os pensadores
Para se encontrar com o Pensamento na Filosofia, deve-se chegar com uma pergunta apenas: com a pergunta pela essência de tudo que é e não é, pergunta esta que brota da unidade transitiva de nosso próprio ser. Para tanto, é importante transformar a periferia indo para o centro da vida e da morte. Somente no centro, a pergunta é essencial. No centro, todo nosso ser se transforma e reduz todas as perguntas numa única pergunta, pois todo o nosso ser se torna e se faz somente pergunta. Ser todo pergunta em qualquer esforço e em cada estudo é a única maneira de se aprender a pensar com o que pensaram os pensadores.
Mas como é que uma metamorfose desta se dá e acontece em concreto? – Sem dúvida, somente quando e na medida em que tudo que somos e não somos, tudo que temos e não temos, se sintonizar com o apelo e responder ao advento da realidade nas peripécias biográficas e históricas de nossa essência de Midas do ser e argonautas da verdade. O adjetivo con-creto, com que hoje designamos a experiência do real e sua realização na história da realidade, provém, por derivação, do verbo latino: con-crescere (=crescer junto com; condensar, coagular, coalhar, combinar). É um verbo composto da preposição: cum (= com, junto com, em conjunto ou companhia de) e do infinitivo: crescere (= crescer, aumentar, desenvolver-se). Con-crescere diz o processo de crescer em e num conjunto, isto é, na totalidade do real, e de desenvolver-se integrado no universo das realizações. Con-creto designa, pois, tudo que estiver integrado neste nível de crescer e comprometido com o desenvolvimento da realidade. Pois crescer não é aumentar de tamanho apenas nem subir os degraus de uma escada e nada mais.
Parmênides nos diz em seu Poema Filosófico que uma integração real e um compromisso com a realidade constitui o “coração intrépido da verdade de circularidade perfeita”
“Mas se impõe às mãos a necessidade que te deixes vencer em todas e por todas as realizações e por isso aceites o coração da verdade de circularidade perfeita!”
Ao longo destes mais de dois mil e quinhentos anos de história, este convite para pensar de Parmênides têm mobilizado pensadores e filósofos de todos os tempos. É que todo pensamento procede de um núcleo de força e identidade a partir do qual e para o qual pensa o pensador. Mas nesta identidade não está em jogo uma verdade imutável a ser dita e possuída de uma vez para sempre. Está em jogo uma verdade a ser sempre de novo conquistada e dita. No dizer de Heidegger é “ein Zudenkendes und Zu-sagendes”: “alguma coisa para se pensar e dizer” cada vez. Trata-se de algo com o qual e pelo qual o pensador não cessa de empenhar-se e lutar, o que novamente Heidegger chamou “das strittige des Deukeus”, “o contencioso do pensamento” e os gregos chamaram “o próprio da sabedoria”, como veremos mais adiante. Na avalanche do pensamento, o círculo não é vicioso, como o regresso ao infinito a que se referia Aristóteles. É ao contrário, virtuoso. Traz consigo a virtude própria do pensamento. O grego convida o aprendiz de pensador não a evitar, mas a entrar no círculo: “das Entscheidende ist nicht aus dem Zirkel heraus-, sondern in ihn nach der rechten Weise hineinzukommen.”(SZ, 153): “o decisivo não é sair mas entrar no círculo da maneira devida”. É conhecida também a caracterização de Henri Bergson da intuição filosófica:
“Un philosophe digne de ce nom n’a jamais dit qu’une seule chose; au plutôt a-t-il che ché de la dire qu’il ne la dite de véritablement. Et il n’a dit qu’une sende chose parce qu’il n’a vi qu’um seul point; fut-ce moins une vision qu’un contact.”
“Um filósofo digno deste nome nunca disse senão uma só coisa: ou melhor tentou dizê-la mais do que verdadeiramente a disse. E não disse senão uma só coisa porque não viu senão um só ponto: mesmo que fosse menos uma visão do que um contato.”
Bérgson H., La mature et lê monvant, Paris, Alcau, 1939, p. 43
A passagem de Parmênides, “do coração intrépido da verdade de circularidade perfeita”, é mesmo provocante. Leva-nos a pensar que o tema central e a reflexão nuclear de uma Filosofia qualquer ainda não constituem o coração de um pensamento. Na qualidade de tema e reflexão, já resultam de um esforço de tematizar e de um trabalho de refletir. E tematizar e refletir são tentativas do pensamento de falar e dizer ao nível e por meio do discurso de uma língua. Ora o dizer do discurso se nutre de um contato pré-discursivo com uma verdade que, frente à reflexão temática, é tão originário que se torna uma fonte de inteligibilidade e compreensão. O caráter desconhecido e misterioso deste contato impôs, ao longo da história do Ocidente, toda uma série de registros diferentes para evocá-lo. Com indicar uma diversidade de estilos, a diferença de registros afirma sobretudo uma identidade radical, um além ou aquém do discurso, uma experiência primigênea de doação, a partir da qual fala o filósofo, não de certo para abandoná-la e sim para manter-se fiel e abrir espaço ao silêncio da Linguagem.
O que é esta Linguagem sempre em silêncio? – Nós não podemos saber. O que podemos talvez seja dizer que a Linguagem não pode ser um quê. E por um motivo simples e bem claro. É justamente a Linguagem que, retraindo-se, nos possibilita perguntar e colocar qualquer pergunta. Estamos sempre imersos no retraimento da Linguagem. Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar sobre a Linguagem. Mas se trata de uma impossibilidade positiva. Pois é na sua experiência oblíqua que nos apercebemos da Linguagem em todas as nossas línguas e discursos. Não apenas é impossível falar sobre a Linguagem. Também não carece fazê-lo. E por quê? – Porque sobre tudo e em tudo que se fale, é preservando esta impossibilidade que a Linguagem nos possibilita falar. Destarte, a Linguagem é na palavra de Heráclito, o Ethos, a estância onde o extraordinário não somente limita como também visita o homem. Por esta estância passam todos os caminhos de compreensão dos discursos; nesta estância se instala todo diálogo de pensamento entre pensadores; a partir desta estância poderemos hoje aprender de novo a pensar com o que os pensadores pensaram nas reflexões de suas filosofias.
Na perspectiva da língua instalada pela e como estância da Linguagem, todo pensamento é um texto. Um texto é um sistema de signos de uma língua, em que alguns sempre de novo recorrem numa cadência regular, isto é, instalada e regida por regras. Pela regularidade, os signos recursivos parecem desempenhar uma função ativamente hipotática e por isso mesmo se nos afiguram palavras-chave de todo o texto.

terça-feira, agosto 22, 2006

POLÍTICA

O "EFEITO PEDRA NO LAGO" JÁ ERA

por Franklin Martins

Ainda é cedo para fazer um balanço do impacto dos primeiros dias da propaganda eleitoral na TV sobre o ânimo do eleitor. Mas, a julgar pelas primeiras pesquisas, o quadro é de estabilidade.
Lula segue numa posição muito confortável. Segundo o Ibope, tem 47% das intenções de voto, contra 21% de Alckmin e 12% de Heloísa Helena. Se as eleições fossem hoje, Lula ganharia com folga no primeiro turno, com 57% dos votos válidos contra 43% de todos seus adversários, somados.
A análise dos números mostra que a força de Lula vem do apoio maciço dos setores mais pobres da população. Na chamada classe E, que ganha até 1 salário mínimo por mês, o presidente colhe 59% das intenções de voto; na D, com renda de 1 a 2 SM, sua marca é de 52 pontos; na C, situada na faixa de 2 a 5 SM, de 44%; na B, de 5 a 10 SM, 38%; na A, acima de 10 SM, a única em que perde para Alckmin, o índice de Lula é de 24%, contra 39% do tucano. Registre-se que os segmentos C, D e E, somados, alcançam 85% do eleitorado. Na classe E, Lula vence Alckmin na proporção de 4 a 1; na D, de 3 a 1; na C, de 2 a 1.
Esses números apontam para um nítido descolamento político entre os pobres e a classe média, o que é uma absoluta novidade no Brasil pós-ditadura militar. Durante os últimos 25 anos, pobres e remediados marcharam juntos eleitoralmente - a classe média na frente e os pobres atrás, é claro. Foi o período do chamado "efeito pedra no lago". Atirada a pedra, ou seja, ocorrido o fato político, produziam-se ondas concêntricas a partir dos formadores de opinião - leia-se, a classe média - que, depois de algum tempo, terminavam chegando as margens do lago, ou seja, à imensa maioria pobre da população. Prevalecia no país um comportamento político-eleitoral razoavelmente homogêneo, apesar das nuanças de ritmo e de discurso. Foi assim na luta pelas diretas, no apoio à Nova República, no impeachment de Collor, no suporte ao Plano Real e ao governo FH. Foi assim também na vitória de Lula em 2002.
Entretanto, na última crise, a do mensalão, isso não se repetiu. Aliás, pensando bem, não se repetiu também no plebiscito sobre o desarmamento. Nesses dois episódios, ao contrário, as ondas provenientes do centro toparam com um dique, situado, grosso modo, nas proximidades da classe C. Não só não chegaram às margens do largo, como, bloqueadas, retornaram ao centro, afetando e confundindo os formadores de opinião tradicionais. Resumindo, a classe média típica, mais presente no Brasil próspero, foi para um lado; o povão, para o outro. Certo ou errado, o povão acha que melhorou de vida com Lula e não quer descer do bonde que, na sua opinião, está transportando-o para dias menos difíceis.
O núcleo duro desse novo comportamento político está na chamada classe C (entre 2 e 5 SM), que, na verdade, não é uma classe, mas uma confluência de diversos setores, que vão desde a classe operária dos setores de ponta da economia até a classe média tradicional empobrecida, passando pelos segmentos da população que até há pouco tempo estavam abaixo da linha pobreza e ingressaram recentemente no mercado e no mundo da cidadania. É o pessoal que se beneficia do ProUni, do computador de R$ 1.400 comprado a crédito, do micro-crédito etc.
Trata-se de um fenômeno relativamente novo na praça, uma esfinge que desafia os especialistas em marketing eleitoral. Acostumados a décadas de "efeito da pedra no lago", eles têm agora que se adaptar a uma nova situação, onde as margens também têm algo a dizer para o centro, e a formação da opinião pública revela-se bem mais complexa e contraditória do que antes.
Em outras colunas voltarei ao assunto, que não tem só a ver com a política. Tem implicações muito mais vastas. Afeta também o mercado, a imprensa, os negócios, o mundo da cultura e do entretenimento O certo é que há algo novo no ar. Ou melhor, no lago.

segunda-feira, agosto 21, 2006

O GRANDE DITADOR

Nesses tempos de Bush, reproduzo abaixo a parte final do filme O Grande Ditador, dirigido e estrelado por Charles chaplin para parodiar Adolf Hitler. Qua falta nos faz um gênio, uma voz dissonante em meio ao totalitarismo, principalmente da imprensa, que taxa de imbecil um escritor iraniano que critica abertamente os EUA e Israel.

O último discurso
de “O Grande Ditador”

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Charles Chaplin

sexta-feira, agosto 18, 2006

DE HOMERO AOS ELEATAS - PARTE FINAL

ZENÃO DE ELÉIA
Zenão nasceu na cidade de Eléia no ano 490 a.C. e veio a falecer em 430 a.C., sendo considerado o segundo em importância para a Escola Eleata, destacando-se, principalmente, por sua dialética e retórica, sendo famosos seus paradoxos, criados para provar a imutabilidade do «Ser», retomando o pensamento central de Parmênides, colocando o «Ser» como objeto de inteligência. Para Zenão, com efeito, o «Ser» é visto pela inteligência como Uno e Imutável, ao contrário do que é captado pelos sentidos, que são subjetivos. Seus paradoxos, que preferimos denominar argumentos, são citados por Aristóteles, que tenta respondê-los em sua Física.
Segundo os historiadores antigos da Filosofia, Zenão teria escrito quatro livros que desapareceram, restando apenas fragmentos destas obras. Platão, no diálogo Parmênides, diz, pela boca de Sócrates, que Zenão sustenta, no fundo, a mesma tese de Parmênides e todos seus argumentos buscam defender as teses de seu mestre, em face daqueles que delas escarneciam, fazendo-as ridículas e contraditórias. Contra a pluralidade do «Ser», Zenão afirma que a grandeza ou se compõe de unidades distintas, ou é um contínuo, composto de partes indistintas. No primeiro caso, a grandeza termina por se compor de não-grandezas, e, na segunda hipótese, conterá um número infinito de partes reais, crescendo ao infinito. Ainda contra a pluralidade, Zenão afirma que, como número, se a grandeza é real, as coisas realmente distintas formarão um número finito, ou bem sua distinção, supondo intermediários, deve supor outros intermediários, que supõem outros, ao infinito. Afirma ainda, que se a multiplicidade for real, as coisas deveriam ser exteriores umas às outras, ocupando cada uma um lugar real, que por sua vez deverá estar em um lugar, ao infinito. Por exemplo: esta mesa, sobre a qual escrevemos, está no ar que a circunda, que esta na sala, que está em nossa casa, e assim por diante, em uma regressão infinita. Para enterrar de vez a pluralidade, Zenão afirma que se esta fosse real, a relação numérica entre um alqueire de milho, um grão de milho e a décima parte desse grão deveria, o que não acontece, encontrar-se na relação de sons que produzem ao cair no chão.
São muitos complexos esses argumentos, mas tentaremos decifra-los.
Zenão, em outras palavras, quer dizer que se tentamos produzir uma pluralidade de coisas mediante divisão, teremos que, finalmente, chegar às coisas que são únicas em sentido absoluto. Nesse sentido, argumentou que as unidades em questão não poderiam ter tamanho, uma vez que qualquer coisa que tenha tamanho tem que ser capaz, em princípio, de ser dividida ad infinitum, e não pode, por conseguinte, ser uma unidade em sentido absoluto. Logo, se não possuem tamanho, não fazem diferentes as coisas quando adicionadas ou subtraídas delas, sendo, por conseguinte, para todos os efeitos, não existentes. Diríamos hoje: virtuais.
Zenão deve ter dado muito que pensar em sua época com esses argumentos tão sofisticados. Entretanto, podemos questioná-lo, pois através da divisão teremos que chegar à unidade em sentido absoluto necessariamente? Por outro lado, a divisão ad infinitum pode ser considerada completa se deságua em partes que têm tamanhos finitos, de modo que somadas novamente produzam algo de tamanho infinito. Verifica-se o sofisma quando ele diz que uma coisa é infinitamente divisível, pois não podemos considerar completa a divisão, de modo a resultar em partes de tamanho finito e não em pequenez infinita.
Zenão é mais conhecido pelos seus quatro argumentos contra a possibilidade do movimento, que chegaram até nós, embora alguns filósofos da Antigüidade afirmem que havia, no mínimo, quarenta desses argumentos. Tornou-se muito comum, na História da Filosofia, organizar os quatro argumentos em dois pares: o primeiro par {Dicotomia e Aquiles e a Tartaruga}; e o segundo par {A seta e as Fileiras Móveis, também conhecido como Estádio}. Ambos dizem respeito à possibilidade do movimento, baseados na presunção de que as coisas são divisíveis ao infinito.
Na «Dicotomia», o discípulo de Parmênides argumenta que o móvel se movendo do ponto [A] para o ponto [B], deverá em primeiro lugar, antes de atingir o termo de sua trajetória, ultrapassar a metade do percurso, que denominaremos ponto [C]. Antes, porém, de atingir o ponto [C], o móvel deverá atingir a metade da trajetória [A-C] e assim por diante, ao infinito. Ele quer demonstrar que a propriedade fundamental da extensão é a divisibilidade, pois só não é divisível o inextenso.
No argumento «Aquiles», semelhante ao primeiro, postula-se uma corrida entre o maior herói da Guerra de Tróia e uma tartaruga, na qual esta última teria recebido uma vantagem proporcional à sua lentidão em comparação ao herói. Se Aquiles deve partir de um ponto [A] para um ponto [B], ele tem que, precipuamente, chegar ao meio-termo da trajetória, o ponto [C], que é o ponto de partida do quelônio, que, neste momento, terá se movido para o ponto [D]. Quando o herói atingir o ponto [D], a tartaruga terá chegado em [E], meio-termo da trajetória [C-B], e assim por diante. Desta maneira, o maior dos aqueus nunca poderá alcançá-la, apesar de a distância sempre diminuir.
Zenão quer demonstrar que o movimento, que implica espaço, envolve a seguinte alternativa: ou o espaço é infinitamente divisível, e, nesse caso, o movimento é impossível, pois seria necessário um tempo infinito para percorrer as etapas intermediárias em número infinito; ou, então, o espaço não é infinitamente divisível compondo-se de pontos indivisíveis. Nesse caso, o espaço composto de pontos inextensos não existiria e o movimento seria impossível.
Aceitas essas premissas, há saída? Não nos desesperemos ainda.
O outro argumento é a «Flecha». Nas palavras de Aristóteles: “O terceiro argumento que acabamos de mencionar, pretende que a flecha, ao ser projetada, esteja em repouso. É a conseqüência da suposição de que o tempo seja composto de instantes; se se recusa esta hipótese, não há mais o silogismo. Zenão comete um paralogismo: pois, se toda coisa – diz ele – está num dado momento em repouso ou em movimento (mas nada está em movimento) quando está em um espaço igual a si mesmo, o que é projetado está sempre no momento presente (e toda coisa em um lugar a si mesma está no momento presente), a flecha projetada estará sempre imóvel.”
Aristóteles é de solar clareza.
O último argumento é o «Estádio». Não nos deteremos nele por crermos que já apresentamos seus argumentos de forma a levar-nos a uma conclusão satisfatória.

Conclusão:
O que Zenão pretende?
Vários filósofos ao longo da História da Filosofia se debruçaram sobre esses argumentos, que reputamos: são complexos e sofisticados. É consensual que o que ele pretende, defendendo a tese central de Parmênides, não é provar como este a unidade e a imobilidade do «Ser», pois esta prova já havia sido feita pelo seu mestre, mas mostrar as contradições que se acham implícitas na posição daqueles que contestam as teses eleatas, aqueles que sustentavam a tese da pluralidade, da mutabilidade e da mobilidade do «Ser».
Alguns problemas, entretanto, surgem ao lermos atentamente seus paradoxos. Não pretendemos esclarecê-los, pois não é esta a tarefa primordial deste blog, mas, apenas, apontá-los.
O pressuposto dos argumentos é a divisibilidade infinita do espaço e do tempo. Se o espaço é infinitamente divisível, para percorrê-lo é necessário um tempo também infinito. Ora, o espaço, enquanto tal, é contínuo, e o tempo, ininterrupto.
O outro problema está relacionado ao movimento, um dado da experiência sensível que Zenão não pretende negar enquanto evidência para os sentidos, mas, apenas, mostrar que o movimento não é verdadeiro porque inclui a contradição que ele aponta. No entanto, o que significa se mover? Não seria estar e não estar ao mesmo tempo no mesmo lugar, estar não estando, deixando de estar? Ora, o movimento real consiste em percorrer o espaço infinito no tempo infinito. Há claramente um vício de argumentação, que, no entanto, não invalida toda a tese, pois o móvel – a flecha – precisamente porque está em movimento percorre sem interrupção o espaço não dividido, embora divisível, e o percorre em um tempo também contínuo e individido, embora também divisível, pois se ocorressem paradas em cada instante, não haveria um movimento único, porém vários movimentos.
Conta-se que um de seus detratores, procurando demonstrar seu equívoco, atravessou, com uma seta apontada para diante à mão, um enorme anfiteatro. Entretanto, não lembramos atualmente seu nome, mas Zenão, assim como os eleatas, são precursores da Física Moderna.
Escrevemos em momento anterior que sua contradição não invalida sua tese, porque primeiramente, a flecha apesar de em movimento, está em repouso em relação a si mesma, ou seja, se fosse possível um «Ser em si» da flecha, poderíamos afirma que ela estava em repouso em relação a si mesma e em movimento em relação a outros seres. Por outro lado, quanto ao tempo, não podemos rejeitar a premissa de que o mesmo seja composto de instantes, pois apesar da aparente infinitude do escorrer temporal, do instante em que a flecha abandona o arco se dirigindo ao alvo e o atinge, este tempo poderá ser contado, medido, e, mesmo que aparentemente ele tenha possibilidades infinitas de divisão, na realidade estará limitado. Nesse sentido, a divisão será limitada e a premissa autorizada.

DE HOMEROS AOS ELEATAS - PARTE IX

PARMÊNIDES DE ELÉIA
Parmênides nasceu em Eléia no ano 540 a.C., ano de fundação desta cidade, e faleceu em 470 a.C. Não devemos economizar palavras para elogiá-lo, pois já era o filósofo reconhecido na Antigüidade como um sábio importante, sendo considerado ainda a maior figura de sua escola, talvez o mais profundo pensador entre todos os pré-socráticos; o primeiro metafísico, aquele que vai definir os caminhos da filosofia, a quem Platão denomina de “Grande” no diálogo “O sofista”. Foi discípulo de Xenófanes, a quem não seguiu, juntando-se ao pitagórico Amínias, sendo creditado a este o fato de haver Parmênides se convertido à vida contemplativa, apesar de haver em sua doutrina poucos indícios de qualquer preocupação pitagórica, ou que essas idéias permanecessem em seu espírito na maturidade.
Há informações de que Parmênides teria estabelecido leis para os cidadãos de Eléia, o que pode significar ter ocupado posição de destaque em sua cidade, que era uma fundação recente dos jônicos emigrados da Ásia Menor. Teria visitado Atenas, juntamente com Zenão, seu discípulo preferido, onde teria encontrado o jovem Sócrates, que teria se deslocado para fora dos muros da cidade para ouvirem o tratado de Zenão.
Dos fragmentos que ainda restam de seu único «tratado», escrito em forma de poema em hexâmetros, que chegaram até nós graças a Sexto Empírico, que conservou o proêmio, e a Simplício, que transcreveu outros extratos, e ainda a Aristóteles que na Física, reproduz dois terços que se referem à metafísica de Parmênides e um terço à sua física, perfazendo em um total de seis páginas. Seus dotes de escritor, a quase unanimidade, são considerados reduzidos, e sua luta para submeter suas idéias filosóficas, sumamente abstratas, a uma forma métrica, resultou quase sempre em grande obscuridade, particularmente sintática. No entanto, sua argumentação é rigorosa, dedutiva, que introduz algo radicalmente novo, dando vida à filosofia, pouco havendo em seus antecessores que deixem pistas sobre a influência sofrida por ele.
O poema se divide em três partes:
Primeira parte ou Proêmio; a segunda parte ou Caminho da Verdade; e a terceira parte, o Caminho da Opinião.
A primeira parte do poema conta a história, em forma alegórica, de uma revelação recebida por ele da deusa Dyke, que o recepciona da seguinte forma: “ Ó jovem, tu que vieste à minha morada (...) convém que tudo aprendas, tanto o ânimo inabalável da rotunda verdade, como as opiniões dos mortais, em que não há verdadeira confiança. Todavia, aprenderás isto também, como aquilo em que se acredita deve sê-lo sem qualquer dúvida, fazendo passar todas as coisas através de tudo.” Nesta recepção da deusa está contida, a verdade, aquilo que realmente existe, que pode ser pensado, pois o «Ser» está no pensamento, o pensar sendo da mesma natureza do «Ser»; bem como o «Não-ser», que é a via do erro, derivada do conhecimento sensível. Em poucas palavras, Parmênides afirma que a sensação deve ser afastada para se pensar o «Ser», deve-se usar a razão sem nenhuma contribuição dos sentidos, sendo que em qualquer investigação há sempre duas possibilidades logicamente coerentes que se excluem mutuamente: a de que o objeto de investigação existe, ou inexiste. Em bases epistemológicas ele rejeita esta segunda alternativa como ininteligível. Conforme ensina Kirk1, “o principal objetivo de Parmênides nestes versos é o de reivindicar o conhecimento de uma verdade não alcançada pelo comum dos mortais.” Parmênides, para usar uma expressão atual, procura abandonar o senso comum, para se dirigir por uma via de pensamento que o conduziria à uma compreensão transcendente da imutável verdade, bem como da opinião dos mortais.
A segunda parte do poema está inscrita no seguinte fragmento: “Anda daí e eu te direi (e tu tratas de levares as minhas palavras contigo, depois de as teres escutado) os únicos caminhos da investigação em que importa pensar. Um «aquilo» que é e que «lhe» é impossível não ser, é a via da Persuasão (por ser companheira da verdade); o outro, «aquilo» que não é e que é forçoso se tomar que não exista, esse te declaro eu que é uma vereda totalmente indiscernível, pois não poderás conhecer o que não é – tal não é possível – nem exprimi-lo por palavras.” Neste fragmento, o “Caminho da Verdade”, a deusa começa especificando as únicas vias de investigação logicamente consideráveis. Trata-se de uma peça de metafísica dedutiva, começando com premissas que ele supõe verdadeiras, que o levam a conclusão, que devem ser aceitas. Parmênides coloca em oposição dois caminhos excludentes, dos quais apenas um é aceitável. Uma maneira de reconstruir esse argumento é a seguinte: «o «Ser» (ou ente) É, e não pode não ser; o «Não-ser» não é, e não pode ser.» Esse postulado possui dois princípios: o Princípio de Identidade, conforme o mesmo, segundo o mesmo, descreve uma coisa que é ela mesma; e o Princípio de Contradição, pelo qual uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Em certo sentido, Parmênides está se contrapondo a Heráclito, pois para ele não há mudança, há imobilidade. Outrossim, há possibilidade, inferida através do fragmento, de conhecer o «Ser».
Tentando ser mais didáticos, exporemos um outro modo de reconstruir o argumento, apesar de ser um modo menos complexo, que poderá nos dar uma visão aproximada de sua tese.
Outro modo:
1) o ente existe, ou o ente não existe;
2) se é possível pensar o ente, este pode existir;
3) nada não pode existir;
4) daí, se se pode pensar no ente, este não é nada;
5) se se pode pensar no ente, este, necessariamente, tem que ser alguma coisa;
6) podemos concluir que se se pode pensar no ente, o ente, necessariamente, tem que existir.
Alguns esclarecimentos se fazem necessários para que possamos continuar nossa exegese:
1.º esclarecimento: os passos 1, 2, 3 e 6 são retirados do próprio texto;
2.º esclarecimento: os passos 4 e 5 devem ser fornecidos pelo intérprete para que o silogismo esteja completo;
3.º esclarecimento: o passo 1 tem que ser necessariamente verdadeiro, o mesmo acontecendo com o passo 2, pois a viabilidade de ser pensado (pensamento não tem conteúdo sensível) constitui condição suficiente para a possibilidade lógica.
4.º esclarecimento: o passo 3 é inaceitável, pois se nos afigura por certo impossível conhecer ou mostrar o que não existe. Com o intuito de validá-lo, teremos que interpretar «nada» como nome próprio de alguma coisa, bem como o nome de algo que não pode existir.
Aqui temos um problema de difícil solução, pois parece que Parmênides quis dizer que é impossível conhecer ou dar a conhecer uma coisa ou outra que não tenha atributos, ou não possui predicados verdadeiramente seus. Infere-se esta conclusão de outro fragmento no qual ele diz textualmente: “É indizível e impensável o que não é.” Para ele, se alguma coisa nasce, então, não deve ter previamente existido, pois teríamos que dizer dela anteriormente: «não é». Entretanto, a premissa proíbe essa interpretação, portanto, não há nascimento, pois «nascer» deve ser interpretado como «chegar a existir» e na premissa não é significa o que não existe, pois ele entende a não-existência como sendo absolutamente nada, ou seja, algo sem atributos, sequer «algo», tendo em vista que existir é efetivamente ser uma coisa ou outra, o que torna alguma coisa real é o fato de esta possuir predicados verdadeiramente seus.
Sendo o não-existente incognoscível, Parmênides conclui que a via negativa é, nas palavras da deusa, indiscernível, pois, para usar um exemplo bastante conhecido, a proposição: “Mr. Pickwick2 não existe” é totalmente incapaz de exprimir em pensamento genuíno, ao contrário, se ela fosse verdadeira nos seria dado conhecer tal sujeito. Entretanto, esta possibilidade última não prevalece, a menos que o sujeito exista, o que a proposição nega.”
É importante salientar ainda que a falsidade do passo 3 não torna, dedutivamente, todo argumento inválido. Ao contrário, pois, não constituindo este uma versão do termo médio excluído, como por exemplo o passo 1 é, torna-o dedutivamente válido. Finalmente, para sairmos de sua lógica e entrarmos em outros aspectos de sua filosofia, apesar da impossibilidade do passo 3, que, insistimos, dedutivamente não invalida o argumento, a conclusão, ou o passo 6 como o denominamos até aqui, é uma falsa conclusão, mesmo que não possa ser evitada, uma vez aceitas as premissas.
Há alguns outros esclarecimentos colocados em outros fragmentos pelo próprio eleata, que dificultam um pouco mais esta primeira via, tais como: “É impossível para [isso] não ser.” E, “é forçosos que [isso] não seja.” Plotino, citado por Gilson, vai interpretar da seguinte forma: “Pois a mesma coisa é ser objeto do pensamento e existir”, ou seja, pensar e existir são a mesma coisa e o nada (não-ser) não pode sequer ser pensado.
Em outro fragmento, trazido até nós por Simplício, poderemos analisar o «erro dos mortais» referido no Proêmio. Diz o fragmento: “Forçoso é que o que se pode dizer seja, pois lhe é dado ser; e não ao que nada é. Isto te ordeno que ponderes, pois é este o primeiro caminho da investigação, do qual te afasto, logo, pois, daquele, em que vagueiam os mortais que nada sabem, gente dicéfala; é que a incapacidade lhes dirige no peito o pensamento errante, e são levados simultaneamente surdos e cegos, aturdidos, em hordas sem discernimento, que julgam que «Ser» e «Não-ser» são a mesma coisa; e que o caminho que todos eles seguem é reversível.” Este fragmento é conhecido como «Erro dos mortais», bem como de «O caminho da opinião». A rigor, é uma síntese que Parmênides faz de sua argumentação contra a via negativa. Aqui ele afirma que qualquer objeto de pensamento deve ser um objeto real. Em seguida, há uma advertência contra a via de investigação seguida pelos mortais, o caminho errado. É interessante notar que nenhuma referência a este caminho foi feita no fragmento anterior, pois neste a deusa estava a especificar alternativas logicamente coerentes entre o que o investigador racional deve decidir.
Após este fragmento, tendo nos advertido do caminho «não é», nossa única esperança como investigador é seguir pelo caminho é: “De um só caminho nos resta falar: o do que é. Nesse caminho há indícios em grande número de que o que é ingênito e imperecível existe, por ser completo, de uma só espécie, inabalável e perfeito.”
Em outros momentos, o poema envereda pela Física propriamente dita, já bastante tratada nos manuais de filosofia. Nesta, a interpretação mais aceita é a de que não há possibilidades ilimitadas de exploração, o que uma leitura apressada do texto pode inferir. Ao contrário, Parmênides consegue reduzir essa infinitude de possibilidades a apenas uma, tendo em vista que esses indícios aqui referidos constituem na verdade, em outros pressupostos formais que qualquer assunto possível de investigação deverá satisfazer. Para finalizarmos este aspecto de nossa pequena dissertação acerca do pensamento parmenidiano, devemos retornar à afirmação feita alhures, de que o fragmento «O caminho da verdade», apesar de dedutivamente perfeito, termina com uma falsa conclusão: “se se pode pensar o ente, o ente, necessariamente, tem que existir.” Temos o dever de alertar o leito que isso em nada desmerece o pensamento do filósofo de Eléia, ao contrário, o torna mais notável por sua disposição de confiar em um argumento estritamente dedutivo e sustentar suas conclusões, por mais implausíveis que sejam, pois, em certo sentido, continuando o passo em direção ao abismo dado por Tales de Mileto um século antes, aqui se assinala o nascimento da verdadeira filosofia, ou um de seus aspectos mais importantes. Essa metafísica dedutiva reaparecerá na história da filosofia sempre como um fracasso3, em vista da implausibilidade de suas conclusões, bem como porque a razão não nos pode fornecer premissas válidas de modo a inferir a natureza da realidade. Nesse sentido, olhando pelo retrovisor em tempos pós-Galileu, Newton, Einstein, Planck e nosso refúgio nas etceteras, é simplesmente notável que essa tentativa tenha começado tão cedo e com tão pouco ambiente para lhe explicar o surgimento. Estudando Parmênides, compreende-se o tom referencial com o qual Platão e Aristóteles se referiam a ele.
Gastamos longas linhas para expormos nosso raciocínio sobre a metafísica dedutiva de Parmênides. Esperamos ser mais sucintos para expor o que chamaremos de sua Física, pela qual ele estabelecerá os critérios e sua definição do Ser.

O Ser
Parmênides tratou do «Ser» como objeto da inteligência, declarou-o imutável e decidiu pela unidade do Ser. Em linhas gerais, para o filósofo de Eléia, o «Ser» é:
a) ingênito e imperecível: o «Ser» assim é, pois o que é, não pode nascer e nem perecer. Aqui duas reflexões são postas pelo filósofo: como e de onde nasceu o «Ser»? Ele parte do princípio de que a única resposta razoável é: da não-existência. No entanto, ele rejeita tal assertiva, pois do «Não-ser» nada pode advir. Logo, conclui ele, o ser deve, necessariamente, ser ingênito e imperecível:
b) uno e contínuo: pretende o filósofo dizer que o que é contínuo o é em qualquer direção que ocupe. Há nesta afirmação uma negação implícita da existência do «Ser» no tempo;
c) imutável: seus fragmentos sugerem que é impossível para o que «É», nascer ou morrer. Nesse sentido, o que «É» existe imutável nas cadeias do seu limite. A noção de limite empregada por Parmênides é obscura, pois se a entendermos como limite espacial, teríamos que circundar o «Ser». Porém, talvez limite seja uma expressão metafórica para dizer «determinação», conforme o entendimento de alguns intérpretes. Nesse sentido, poderíamos perguntar: Parmênides estará dizendo que o que é não tem potencialidade para ser diferente? Se a resposta for afirmativa, o problema estará solucionado.
d) perfeito: é justo que o «Ser» assim seja, pois o que é de nada necessita, do contrário, de tudo careceria.

Conclusão:
Parmênides fez do «Ser», objeto da inteligência, conquanto o objeto dos sentidos seriam as qualidades sensíveis. Essa distinção referente à especificidade do conhecimento o colocará em oposição ao sensismo dos sofistas. Fazendo seu estudo do «Ser», Parmênides destaca a oposição entre este e o «Nada». Em função desse modo particular de encarar a realidade, o filósofo de Eléia irá discutir o problema da mutação, pois de onde o elemento novo procederia? Ou do «Ser», ou do «Nada». Concluindo ele que do primeiro não poderia se originar, tendo em vista que o «Ser» já é o seu «Ser», e o que se retirasse dele, já existiria; e ainda que não poderia advir do «Não-ser», pois este, sendo nada, nada poderia nele ser gerado. Em suma, para Parmênides o «Ser» não pode ser criado por algo, pois isso implicaria a existência de outro «Ser»;tampouco criado a partir do «Nada», pois implicaria a existência do «Não-ser», ou seja, o «Ser» simplesmente é. Esse problema se perenizou na Filosofia. Heráclito contesta a imutabilidade do «Ser»; Aristóteles acredita haver no «Ser» aquilo que atualmente já é ato e aquilo que está em potência para ser; Hegel tentará incluir o próprio «Nada» na estrutura do ente; e, finalmente, Sartre afirmará o ato sem a potência.
Os eleatas que o sucederam não tentaram conciliar sua doutrina monista da imutabilidade do «Ser» com a constatação óbvia de que a Natureza está em constante mutação. Ao contrário, tentaram provar que o movimento é impossível, uma ilusão do conhecimento sensível. A seguir, exporemos os paradoxos de Zenão de Eléia, seu principal discípulo, que foi a tentativa mais eficiente de comprovação das teses parmenidianas.

DE HOMERO AOS ELEATAS - PARTE VIII

A Escola Eleática:
Eléia era uma pequena cidade situada entre Roma e Nápoles. Embora pequena, foi palco da mais profunda escola pré-socrática, em vista do desenvolvimento que deu ao estudo da Ontologia.

Xenófanes:
Nasceu em 576 a.C. e faleceu em 480 a.C. Vindo da Ásia Menor, da cidade de Colófon, insatisfeito com o domínio persa – que levou muitos gregos a emigrarem para o Ocidente. Vide o caso de Pitágoras, oriundo de Samos – tendo sido discípulo de Anaximandro, segundo Teofrasto em seu livro Epítone, Xenófanes se radicou em Eléia, onde fundou a Escola Eleática.
Cria o filósofo que a multiplicidade do ser é apenas uma representação dos sentidos, que a diversidade múltipla da natureza é reduzida a algo de eminentemente fundamental atingido pela Razão: o Ser, que é um conceito raciocinado, instituído por uma especulação abstrata, que se sobrepõe acima da experiência sensível. Xenófanes qualificava este ser como uno, imutável, infinito, sendo esta infinitude da ordem da extensão material, o que o classificaria como um filósofo monista materialista, contrário à concepção antropomórfica de Deus. Para ele, os deuses não existiam e se eles têm a imagem dos homens, é porque são criação humana, pois se pudessem os cavalos pintar, pintariam deuses como cavalos.

quinta-feira, agosto 17, 2006

A PRIVATARIA DA VALE DO RIO DOCE

VALE DO RIO DOCE

Tensão no lançamento da campanha pela anulação da privatizaçãoGovernadora Rosinha desistiu de ceder teatro para lançamento dacampanha, que teve de ser feito na rua sob repressão da polícia.Movimentos sociais querem popularizar bandeira para pressionar Lula aacatar decisão da Justiça que anula venda da empresa.Maurício Thuswohl - Carta MaiorRIO DE JANEIRO

O processo de privatização da Companhia Vale do RioDoce (CVRD), uma das maiores e mais lucrativas empresas estataisbrasileiras, sempre despertou paixões. Realizado em 1997, o leilão quepassou a empresa para mãos privadas só pôde ser concluído depois que apolícia conteve com violência as diversas manifestações contrárias àoperação que pipocaram pelo Brasil. No Rio de Janeiro, em frente àBolsa de Valores, houve enfrentamento físico entre milhares demanifestantes e as forças de repressão enviadas pelo então presidenteFernando Henrique Cardoso, principal avalista político daprivatização, numa batalha que ficou na memória da cidade.Nove anos depois, o Rio de Janeiro voltou a ser cenário da história daVale com o lançamento nacional, realizado na noite de segunda-feira(14), da Campanha pela Anulação da Privatização da Vale do Rio Doce.Curiosamente, a tensão política que cerca o assunto e estavaadormecida desde que a venda da empresa fora consumada, tambémreapareceu. Faltando duas horas para o ato de lançamento da campanha,que deveria contar com a participação de artistas da tevê e teriaapresentações dos sambistas Beth Carvalho e Noca da Portela e dorapper Bnegão, entre outros, a governadora Rosinha Matheus (PMDB),que, aparentemente, apoiava a iniciativa, voltou atrás e proibiu autilização do Teatro João Caetano, que pertence à rede estadual, paraesse fim.Os dirigentes das entidades que organizavam o ato - CUT, MST,Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), Coordenação Nacional deLutas (Conlutas) e Marcha Mundial das Mulheres, entre outras -receberam a decisão de última hora da governadora com surpresa eindignação e decidiram realizar a manifestação na praça em frente aoteatro. O problema foi que o show musical não pôde mais ser realizadopor falta de condições técnicas, fato que afastou a maioria dopúblico. Ainda assim, cerca de 300 manifestantes deram prosseguimentoao lançamento da campanha na rua, mas aí foi a vez de a PolíciaMilitar, incomodada com o conteúdo das letras das músicas cantadas aomicrofone pelo coletivo de rappers Lutarmada, entrar em cena parareprimir o ato e ordenar o desligamento da aparelhagem de som."A atitude da governadora demonstra a enorme dificuldade que a gentevai ter para tocar essa campanha. Os atuais donos da Companhia Vale doRio Doce têm um poder econômico muito grande", avalia a economistaSandra Quintela, da Rede Jubileu Sul e uma das dirigentes da campanhapela anulação da privatização da empresa. O que mais intrigou osorganizadores do evento foi a atitude de Noca da Portela, que ésecretário estadual de Cultura. Auxiliar direto de Rosinha, Nocaparecia tão entusiasmado que se ofereceu para cantar, mas, com amudança de posição da governadora, sequer apareceu ou levou osconvidados prometidos (Beth Carvalho, entre outros) ao Teatro JoãoCaetano.Apesar das dificuldades, a campanha foi lançada, com o slogan "OMinério é Nosso e a Vale é do Povo Brasileiro". Uma nova reunião dacoordenação foi marcada para 22 de agosto: "O desafio agora épopularizar a campanha e fazer com que essa discussão ganhe as ruas. Ocomitê coordenador é amplo e composto por várias forças, isso vaifacilitar a capilarização dessa luta. O próximo passo é criar comitêsem todos os estados", avalia Sandra Quintela. Presidente da CUT no Riode Janeiro, Neuza Pinto lembrou as manifestações de 1997 parajustificar sua aposta no processo de popularização da campanha: "Numanoite éramos duzentos, trezentos apanhando da polícia. Na manhãseguinte, havia dez mil pessoas do nosso lado. O governo FHC sóconseguiu leiloar a Vale porque colocou na rua o maior aparatorepressivo desde a ditadura".Os dirigentes dos movimentos sociais apostam tanto no apelo popular dabandeira de luta pela reestatização da Vale que o tema vai ser um dospontos do Grito dos Excluídos no próximo dia 7 de setembro, ao lado dereivindicações tradicionais ligadas à Aliança de Livre Comércio dasAméricas (Alca) e ao não-pagamento da dívida externa brasileira:"Faremos panfletos específicos sobre a questão da Vale que tambémserão distribuídos em todo o Brasil no dia das eleições", avisaSandra. Para Leo Haua, dirigente do MST, "é fundamental organizarcomitês populares" para fazer a campanha decolar: "É preciso levar adiscussão à sociedade e mostrar sua importância. Só com mobilização, adecisão judicial vai sair do papel", diz.Crime de lesa-pátriaA decisão judicial a que se refere o dirigente do MST foi a fagulhaque reacendeu as paixões ligadas à antiga estatal e deu início àCampanha pela Anulação da Privatização da Vale do Rio Doce. Ela foitomada no dia 16 de dezembro do ano passado, pelo Tribunal RegionalFederal de Brasília, que determinou a anulação do processo deprivatização e do leilão que vendeu a empresa. Provocados por uma açãopopular, os juízes determinaram a anulação em virtude das inúmerasfalhas e fraudes encontradas no processo. Para se ter uma idéia, aVale foi vendida, em 1997, por R$ 3,4 bilhões, valor pago de umatacada só (com garantia do Bradesco) pelo consórcio de compradoresganhador do leilão. Segundo técnicos, no entanto, o valor real dacompanhia na época se aproximaria de R$ 1 trilhão, o que transforma oleilão da vale num dos maiores crimes de lesa-pátria de nossahistória.Em 1997, segundo o TRF, somente foi levado em consideração pelogoverno federal na hora de vender a Vale o valor das ações da empresano mercado, tendo sido deixados de lado o valor patrimonial docomplexo empresarial (incluindo a fantástica infra-estrutura portuáriae ferroviária) e os direitos relativos ao potencial de exploração dasreservas minerais que, segundo dados levantados pelo CUT, é suficientepara que a empresa continue atuando pelos próximos 300 anos.Esquecido na hora da privatização, todo esse patrimônio da Vale éevidentemente levado em conta atualmente, na hora de fechar osbalanços da empresa. Recentemente, a Vale foi destaque de todos ostelejornais por ter apresentado no primeiro semestre de 2006 um lucrode R$ 6,1 bilhões, maior ainda do que os apresentados pelos bancosprivados Itaú e Bradesco. Em 2005, o lucro líquido da empresa seaproximou de R$ 10 bilhões, sem incorporar a valorização do patrimônioe os investimentos realizados. Ou seja, a Vale privatizada lucra porano quase o triplo do valor pelo qual foi comprada.Boa parte desse lucro é enviada ao exterior. Atualmente, cerca de 63%do capital preferencial da Vale é estrangeiro e apenas 3,3% pertenceao governo federal. Somente 5,4% das ações da empresa estão nas mãosdo governo brasileiro, enquanto cerca de 42% são propriedade deinvestidores externos. Sua venda, na visão dos movimentos sociais, foium excelente negócio para os compradores e um péssimo negócio para oBrasil: "Quanta falta faz este rio de dinheiro para o crescimentonacional, para geração de emprego e renda, moradia, estradas, saúde eeducação", lamenta Antonio Carlos Spis, da direção da CUT e da CMS.Boa vontade de LulaA evidência de que a venda da Vale havia sido fraudada era tanta que,desde sua concretização, mais de 60 ações contrárias foram iniciadasna Justiça. As denúncias variavam: irregularidades no processo,ocultação de jazidas minerais exploradas pela empresa nos relatóriosde bens, erros grosseiros de avaliação cometidos pelas firmas quefizeram auditoria na Vale antes da venda, etc. Uma dessas ações foireaberta pelo TRF e culminou na decisão do Tribunal pela anulação daprivatização da empresa. Agora, cabe ao governo federal acatar adecisão, coisa que ele ainda não deu o mínimo sinal de que pretendefazer."Basta um pronunciamento do governo para que o leilão da Valerealizado em 1997 seja anulado", constata Sandra Quintela, lembrandoque o Executivo Federal é réu no processo. A economista, no entanto,não parece otimista: "Bastaria a boa-vontade do presidente Lula, mas agente sabe que ele não vai abraçar essa causa de livre e espontâneavontade, afinal as pressões são muitas e o poder econômico envolvido égrande. Se o Lula tomar alguma atitude, vai ser por conta de uma outrapressão, a das ruas, que precisará ser muito forte", imagina.

Publicado em:
http://agenciacartamaior.uol.com.br

quarta-feira, agosto 16, 2006

POLÍTICA INTERNACIONAL - JIMMY CARTER

ENTREVISTA COM JIMMY CARTER, EX-PRESIDENTE DOS EUA: "OS EUA E ISRAEL
ESTÃO ISOLADOS"
Der Spiegel

da Redação

O ex-presidente americano Jimmy Carter falou com DER SPIEGEL sobre o
perigo que George W. Bush representa para os valores americanos, a
difícil situação no Oriente Médio e a saúde de Fidel Castro.

Der Spiegel - Senhor Carter, em seu novo livro o senhor escreve que
somente a população americana pode garantir que o governo dos EUA
retorne aos antigos princípios morais do país. O senhor está sugerindo
que a atual administração de George W. Bush age de maneira imoral?

Jimmy Carter - Não há dúvida de que esta administração se afastou
radicalmente das políticas básicas de todos os governos anteriores,
incluindo os de presidentes republicanos e democratas.

DS - Por exemplo?

Carter - Sob todos os seus antecessores houve um compromisso com a paz,
em vez da guerra preventiva. Nosso país sempre teve uma política de não
ir à guerra, a menos que nossa própria segurança estivesse diretamente
ameaçada, e hoje temos uma nova política de ir à guerra em uma base
preventiva. Outro sério afastamento das antigas políticas é a separação
entre Igreja e Estado, que descrevo no livro. Esta foi uma política
desde o tempo de Thomas Jefferson, e minhas próprias crenças religiosas
são compatíveis com ela.

Outro princípio que descrevo no livro é a justiça básica. Nunca tivemos
um governo que aprovasse tão aberta e claramente leis fiscais que
visavam unicamente beneficiar as pessoas mais ricas do país às custas ou
em detrimento das famílias dos trabalhadores americanos.

DS - O senhor também mencionou o ódio pelos EUA em todo o mundo árabe,
que foi conseqüência da invasão do Iraque. Diante dessa circunstância, é
uma surpresa que o apelo de Washington por democracia no Oriente Médio
tenha sido desacreditado?

Carter - Não, na verdade as preocupações que eu expus tornaram-se ainda
piores agora com os EUA apoiando e encorajando Israel em seu ataque
injustificado ao Líbano.

DS - Mas Israel não foi atacado primeiro?

Carter - Não acho que Israel tenha qualquer justificativa legal ou moral
para esse bombardeio maciço do Líbano. O que aconteceu foi que Israel
está detendo quase 10 mil prisioneiros, por isso quando os militantes no
Líbano ou em Gaza capturam um ou dois soldados Israel vê isso como
justificativa para um ataque à população civil do Líbano e Gaza. Não
acho que se justifique, não.

DS - O senhor acha que os EUA ainda são um fator importante para
garantir uma solução pacífica para a crise no Oriente Médio?

Carter - Sim, na verdade, como você sabe, desde que Israel é uma nação
os EUA forneceram a liderança. Todo presidente em todos os tempos fez
isto de maneira bastante equilibrada, incluindo George Bush pai, Gerald
Ford e outros, incluindo eu mesmo e Bill Clinton. Este governo não
tentou absolutamente nos últimos seis anos negociar um acordo entre
Israel e qualquer de seus vizinhos ou os palestinos.

DS - O que o torna pessoalmente tão otimista sobre a eficácia da
diplomacia? O senhor é o pai das negociações de Camp David, por assim
dizer.

Carter - Quando me tornei presidente, havíamos tido quatro guerras
terríveis entre os árabes e israelenses. Com grande dificuldade,
especialmente porque Menachem Begin foi eleito, eu decidi tentar a
negociação, ela funcionou e temos um tratado de paz entre Israel e o
Egito há 27 anos, que nunca foi violado. Você nunca pode ter certeza
antecipadamente de que as negociações em circunstâncias difíceis terão
sucesso, mas você pode ter certeza antecipada de que se não negociar o
problema vai continuar e talvez até piore.

DS - Mas as negociações não impediram os bombardeios a Beirute e Haifa.

Carter - Estou muito triste. Mas acho que as propostas que foram feitas
nos últimos dias pelo primeiro-ministro libanês Fuad Siniora são muito
razoáveis. E acho que eles devem declarar um cessar-fogo imediato de
ambos os lados; o Hezbollah disse que aceitará, espero que Israel
aceite, então haverá necessidade de longas e cansativas negociações para
estabilizar a fronteira norte de Israel. É preciso haver uma troca de
prisioneiros. Já houve trocas de prisioneiros com sucesso entre Israel e
os palestinos, e é algo que pode ser feito agora.

DS - Deveria haver uma força de paz internacional na fronteira libanesa-
israelense?

Carter - Sim.

DS - E o senhor pode imaginar soldados alemães participando dela?

Carter -Sim, posso imaginar isso.

DS - Mesmo com sua história?

Carter - Sim. Seria certamente satisfatório para mim pessoalmente, e
acho que a maioria das pessoas acredita que já passou bastante tempo
para que os fatos históricos possam ser ignorados.

DS - Um dos principais pontos do seu livro é a estranha coalizão entre
fundamentalistas cristãos e o Partido Republicano. Como essa coalizão
dos piedosos pode levar a catástrofes morais como o escândalo da prisão
iraquiana de Abu Ghraib e a tortura em Guantánamo?

Carter - Os fundamentalistas acreditam que têm uma relação única com
Deus, e que eles e suas idéias são as idéias de Deus e as premissas de
Deus sobre essa questão. Portanto, por definição, já que eles estão
falando por Deus, qualquer um que discorde está inerentemente errado. E
o passo seguinte é: os que discordam deles são inerentemente inferiores,
e em casos extremos - como o de alguns fundamentalistas ao redor do
mundo - isso torna seus adversários sub-humanos, de modo que suas vidas
não têm importância.

Outra coisa é que um fundamentalista não pode negociar com pessoas que
discordam dele porque um processo de negociação em si é um indício de
igualdade implícita. E por isso este governo, por exemplo, tem uma
política de simplesmente recusar-se a falar com qualquer um que discorde
fortemente dele - o que também é um afastamento radical da história
passada. Então esse é o tipo de coisa que me causa preocupação. E, é
claro, os fundamentalistas não acreditam que podem cometer erros, por
isso quando permitimos a tortura de prisioneiros em Guantánamo ou Abu
Ghraib é simplesmente impossível para um fundamentalista admitir que se
cometeu um erro.

DS - Como essa proximidade com o fundamentalismo cristão se manifesta
politicamente?

Carter - Infelizmente, depois do 11 de Setembro houve um surto na
América de intenso sofrimento e de patriotismo, e o governo Bush foi
muito hábil e eficaz em pintar qualquer um que discorde de suas
políticas como antipatriótico ou até traidor. Durante três anos, eu
diria, as principais empresas de mídia de nosso país foram cúmplices
nessa subserviência ao governo Bush por medo de serem acusadas de
deslealdade. Acredito que nos últimos seis meses mais ou menos parte da
mídia começou a ser crítica. Mas demorou muito.

DS - Sua colega democrata, a senadora Hillary Clinton, pediu
recentemente a renúncia do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Mas
ela, como muitos outros, permitiu que o presidente Bush invadisse o
Iraque sob um falso pretexto.

Carter - Correto.

DS - O país inteiro estava em risco de perder seus valores básicos?

Carter - Durante algum tempo sim. Como você possivelmente sabe,
historicamente nosso país teve a capacidade de autocorrigir seus
próprios erros. Isto se aplicou à escravidão em 1865, aplicou-se à
segregação racial legal há cerca de cem anos. Aplicou-se à era de Joe
McCarthy quando o anticomunismo teve uma fase temível no país, como o
terrorismo hoje. Por isso temos uma capacidade de nos corrigir e
acredito que hoje está ocorrendo uma autocorreção. Na minha opinião, o
resultado da eleição em Connecticut [a derrota na primária do senador
Joseph Lieberman, defensor da guerra] foi um indício de que os
americanos perceberam muito claramente que cometemos um erro ao entrar
no Iraque e ficar lá por tanto tempo.

DS - Hoje até o presidente Bush parece ter aprendido alguma coisa com a
catástrofe no Iraque. Em seu segundo mandato ele assumiu uma abordagem
mais multilateral e parece voltar à cooperação internacional.

Carter - Acho que o governo aprendeu uma lição, mas não vejo
qualquer indício de que o governo um dia admitirá que cometeu um erro e
precisava aprender uma lição. Não vi muitos indícios, aliás, da sua
premissa de que este governo agora está se reconciliando com os outros
países. Acho que neste momento os EUA e Israel provavelmente estão mais
isolados do que nosso país esteve em muitas gerações.

DS - O senhor escreveu sobre seu encontro com Fidel Castro. Ele parece
seriamente doente e os exilados cubanos já estão festejando nas ruas de
Miami. Provavelmente o senhor não estava no clima para unir-se a eles.

Carter - Não, é verdade. Só porque alguém está doente não acho que deva
haver uma comemoração da morte potencial. E minha própria opinião é que
Fidel Castro vai se recuperar. Ele é dois anos mais moço que eu,
portanto não é um caso sem esperança.

DS - O senhor tentou normalizar as relações com Castro, mas isso nunca
aconteceu. Alguma coisa foi conquistada através do isolamento de Cuba?

Carter - Na minha opinião, o embargo reforça Castro e perpetua o
comunismo em Cuba. Um grau máximo de comércio, turismo, visitas entre
nosso país e Cuba traria um fim mais rápido para o regime de Castro.

DS - O senhor já foi chamado de consciência moral de seu país. Como vê a
si mesmo? É um forasteiro na política americana hoje em dia, ou
representa um eleitorado que poderá talvez eleger o próximo presidente
dos EUA?

Carter - Eu acho que represento a vasta maioria dos democratas deste
país. Acredito que uma parte substancial da população americana concorda
completamente comigo. Não posso dizer uma maioria porque há partes
fragmentadas em nosso país e divisões sobre o controle de armas, a pena
de morte, o aborto e o casamento gay.

DS - Como presidente, seu desempenho foi muitas vezes criticado. Mas o
trabalho que o senhor fez para promover os direitos humanos foi
amplamente elogiado. A vida foi injusta com o senhor?

Carter - Eu tive sorte na vida. Tudo o que fiz trouxe grande prazer e
gratificação para mim e minha mulher. Estive quatro anos na Casa Branca
- não foi um fracasso. Alguém que serviu como presidente dos EUA, você
não pode dizer que é um fracasso político. E tivemos os melhores anos de
nossas vidas desde que deixamos a Casa Branca. Tivemos uma vida muito
plena.

DS - O senhor acha que conquistou mais fora do cargo do que quando era
presidente?

Carter - Bem, eu usei o prestígio e a influência de ter sido presidente
dos EUA da maneira mais eficaz possível. E depois, ainda consegui
realizar meus compromissos com a paz e os direitos humanos, a qualidade
ambiental, a liberdade, a democracia e assim por diante.

DS - Os EUA precisam de uma mudança de regime?

Carter - Como eu disse antes, existe um aspecto de autocorreção em nosso
país. Eu acho que o primeiro passo vai ser na eleição em novembro deste
ano.

Este ano, os democratas têm uma boa probabilidade de dominar uma das
câmaras do Congresso. Eu acho que o Senado vai ser uma decisão muito
apertada. Meu filho mais velho é candidato para o Senado pelo estado de
Nevada. E se ele e alguns outros tiverem sucesso e você tiver o Senado
americano nas mãos dos democratas, isso fará uma diferença profunda e
imediata.

DS - Senhor Carter, obrigado pela entrevista.