terça-feira, julho 18, 2006

LITERATURA

ENSAIO SOBRE A IDADE DO ZERO

Conforme expressou com acerto Antônio Cícero em Finalidades sem fim, Cia das Letras, o poeta contemporâneo no Brasil, como é o caso do Zeh Gustavo, que publicou recentemente seu livro A Idade do Zero, Ed. Escrituras, vive e publica suas obras após todas as experiências concretizadas por todas as vanguardas do século passado: modernismo, geração de 45, poesia concreta, poesia práxis. Nesse sentido, ao poeta assim situado cabe a posse de toda liberdade no uso da forma para expressar sua arte: versos livres, sonetos, poemas concretos. Entretanto, é preciso tomar certos cuidados, pois a linguagem serve para tudo, até para não dizer nada.
Fizemos esse pequeno intróito por haver impressionado nosso espírito a seguinte frase de Martim Heidegger, filósofo alemão: a linguagem é a casa do [Ser]. Nesse sentido, se a linguagem é a casa do [Ser]; se o poeta é o criador da linguagem, que conforme já advertimos: serve para tudo, até para não dizer nada; se do [Nada] nada podemos dizer por faltar a palavra adequada, como poderemos aceitar o fato de ser o poeta, assim como o filósofo, o vigia desse passo, por meio do qual o pensamento atinge o [Ser] por meio da linguagem?
Esse é o desafio que Zeh Gustavo assume para si, seguindo os passos de Mário Chamie: atingir o [Ser] pelo caminho de sua desconstrução. A chave de sua tentativa (se acertada ou não só o tempo dirá) é a desconstrução do [Ser] pelo inverso da palavra. Nesse sentido, o verso: “Optei: não-ser.” vai atravessar todo o livro.
No entanto, Zeh apresenta uma espécie de vício, qual seja, o uso repetido do prefixo de oposição, buscando martelar a ferro frio, quase que escrevendo ao contrário, parecendo querer dizer que a palavra escrita ao inverso ainda afirma o que ela é.
Como o poeta de carne e osso que é, Zeh Gustavo, em alguns momentos, combina uma tentativa de integração de seu Eu com o estar-no-mundo. Nesses poemas, há preocupação social, porém sem exageros, como por exemplo, em O Escriturário ou em Caixa Executivo, nos quais a vida surge como uma ilusão que nos permite apreender o Real. Na verdade, o escriturário escreve textos monótonos, bancários, folhas de serviço, enquanto Zeh não desescreve sobre o [Nada], mas sobre a Existência. Nesse sentido, o segredo de Zeh está desvelado, sua busca se dá pelo contrário: fazendo ode ao fastio de uma vida de compensar cheques, despensando para não sucumbir diante do quotidiano enfadonho, de trabalho realizado sem cor nesta vida sem prazer diário, entre paredes de concreto e vidro, onde vendemos o sangue de nossos melhores dias, o poeta termina por celebrar a vida verdadeira que se passa sob à luz do sol, pois como ensinava Walter Benjamim: os homens, assim como as flores, também se voltam para onde nasce o sol.
Em certo sentido, Zeh demonstra em seus poemas que houve uma implosão de sentimentos, em momento anterior da poesia brasileira, que ele não irá denunciar por delicadeza, no qual o poeta, assim como uma estrela-anã, representando o homem pós-moderno, com sua força gravitacional superior à força de expansão, irá se interiorizando até o infinito. Essa é a síntese de nosso tempo de exacerbado individualismo burguês, sobre o qual Zeh nos fará refletir: porque não explodir como uma supernova ao invés de se fechar sobre si mesmo como um buraco negro? Zeh está escrevendo após todas as vanguardas brasileiras, sem capturar o lodo dos autores pós-modernos, imitadores das gerações anteriores de Bandeira, Drummond e Cabral.

Serviço:
Gustavo, Zeh. Idade do Zero. Prefácio de Mário Chamie. São Paulo: Escrituras
Editora, 2005. 123pp. R$ 19,80.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home