Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

NEO-COLONIALISMO

NEO-COLONIALISMO

Leio nos jornais que a Grécia aprova cortes em meio ao caos nas ruas e penso: a crise da dívida pública européia atingiu de vez os cidadãos comuns.
A necessidade de quitar a dívida levou os países europeus a utilizar um remédio já empregado pelo FMI no Brasil há pouco tempo atrás, em pleno Governo FHC. Ou seja, esse remédio é nosso velho conhecido: ajuste fiscal, reforma da previdência (visando aumentar a idade para a concessão das aposentadorias), redução de direitos trabalhistas, exoneração de funcionários públicos, cortes de serviços públicos, aumento de tributos e privatizações.
É um remédio amargo que os europeus terão que engolir e cujos resultados são bastante discutíveis, pois acaba com a doença matando o doente.
A crise européia atual é consequência da crise do setor financeiro deflagrada em 2008 pelos derivativos norte-americanos. Devemos relembrar que a bolha estourou em vista do fato de os maiores bancos do planeta possuírem em suas carteiras de negócios os chamados “ativos tóxicos”. A princípio, a crise atingiu fortemente o sistema bancário norte-americano e britânico. Em um primeiro momento, os EUA não agiram deixando quebrar o Lehman Brothers. Em seguida, houve injeção bilionária de recursos públicos para salvar o sistema financeiro e a indústria automobilística norte-americana.
O que temos a ver com isso? – perguntariam meus poucos leitores – nosso sistema bancário não negocia os tais derivativos que contaminaram a economia mundial.
Não é bem assim.
Lembrem-se da Aracruz Celulose e da Sadia, que quase quebraram na crise de 2008.
Os ideólogos dos países capitalistas centrais estão buscando saídas para a crise deles e uma das idéias que está sendo lançada, encampada por Barack Obama, é a criação dos “bad banks”, instituições financeiras que absorveriam os papéis podres. É mais ou menos o que Marcello Alencar do PSDB fez quando privatizou o BANERJ: a parte boa foi vendida para o Itaú; a parte podre ficou com o Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Todavia, para a criação dessas instituições, faz-se necessário a alocação de recursos. De onde esses viriam? É aí que entram os BRICS, países que reúnem os emergentes com muitas reservas e com crescimento econômico superior à média dos países capitalistas centrais.
A idéia central dos economistas europeus e norte-americanos é transferir esses ativos podres para os BRICS. Somente a Alemanha, segundo os informes econômicos dos jornais, possui 1,1 trilhão de dólares em papéis podres circulando pelo mundo
Em um momento em que estamos discutindo o que fazer com as reservas do Pré-sal e criando fundo de previdência privada para funcionários públicos, é preciso ficar atento.
Com a aprovação da Lei 12.351/2010, há um enorme risco de que nosso país adquira esses papéis podres que circulam pelo mercado financeiro internacional, pois esta lei determina em seu art. 50 que os recursos do Fundo Social do Pré-sal sejam alocados principalmente em investimentos e aplicações em ativos no exterior. Verbis: “A política de investimentos do Fundo Social tem por objetivo buscar a rentabilidade, a segurança e a liquidez de suas aplicações e assegurar sua sustentabilidade econômica e financeira para o cumprimento das finalidades definidas nos arts. 47 e 48. Parágrafo único. Os investimentos e aplicações do Fundo Social serão destinados preferencialmente a ativos no exterior, com a finalidade de mitigar a volatilidade de renda e de preços na economia nacional.”
Obviamente, ao adquirir esses papéis, nós estaríamos contaminando definitivamente nossa economia, e há um enorme risco de absorção para este Fundo, de papéis que nada valem e que contaminaram toda economia européia e estadunidense. Logo, de forma direta, estaríamos terminando por financiar os riscos do capitalismo financeiro e aliviando de vez a economia desses países, em uma nova espécie de colonização.

Celso Gomes

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

O HOMEM SEM AGÁ

O HOMEM SEM AGÁ


Há algum tempo atrás, para ser mais exato na edição 25 do Algo a Dizer (http://www.algoadizer.com.br/site/exibirEdicao.aspx?MATERIA=36), Marlene Lima publicou um conto de sua lavra que havia sido premiado em um concurso literário. Faltava um livro da autora. Agora não falta mais. Marlene lançou em dezembro de 2011 o livro O Homem sem Agá, pela editora Cais Pharoux, uma coletânea de contos escritos ao longo dos últimos anos.
Sou filho de nordestinos. Meu pai veio para o Rio de Janeiro em um pau-de-arara para ganhar a vida como muitos outros retirantes. Por esse motivo, sempre me considerei meio nordestino, meio carioca. Morei em Natal quando criança, em uma das muitas idas e vindas do meu pai, que se sentia como um exilado no Sul maravilha.
Marlene fez o mesmo movimento que meu pai. De Alagoas para o Rio. Mas, assim como meu pai, Marlene nunca abandonou de vez sua terrinha querida. O pó do Nordeste se entranhou em sua pele, numa amargura de dar dó. Por esse motivo, a música, a literatura, a dança, as comidas, nunca dão conta de tirar essa nódoa, essa dor.
No entanto, não custa nada tentar.
O Homem sem Agá é isso. Uma bela tentativa de aplacar esse sentimento teimoso de exílio. O livro representa o caminho traçado pela autora até o Rio de Janeiro. Marlene, astuciosamente, vem de Alagoas para a Glória. Seu caminho de escritora nordestina que chega para ocupar um lugar há muito tempo vazio.
Por esse motivo, eu, meio carioca e meio nordestino, saúdo sua chegada à literatura brasileira, pois me senti assim lendo seus contos: um Brasil inteiro.

Celso Gomes

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

O PÁSSARO INCUBADO

       
O PÁSSARO INCUBADO

O pássaro preso na gaiola
É um geógrafo quase alheio
Prefere, do mundo que o cerca,
Não as arestas: o meio.

 É isso que o diferencia
Dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
Que existe dentro do cubo. 

Ao pássaro preso se nega
A condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado. 

 Falta a ele: não espaços
Nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
Que lhe decepa as asas. 

O pássaro preso é um pássaro
Recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
Nem mora onde é inquilino.

Cacaso
t;

Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

       
ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA

(I)
                     Certa feita, tomando um café no Odeon com minha mulher e meu filho Daniel, aproximou-se de nós um poeta vendendo seus livros artesanais. Nesse momento, ou um pouco antes, sem nenhuma razão aparente, meu filho iniciou um choro arretado, fazendo pirraça. Ficamos preocupados, pois não conseguíamos resolver o problema e constatamos estupefatos que o rapaz insistia em vender seus opúsculos, indiferente ao fato de o bebê estar chorando e da nossa preocupação. Bastante desgastados, compramos o livro do sujeito para nos livrarmos dele.

                     - Quanta sensibilidade! – minha mulher comentou.

                     Em casa, li o pequeno caderno de poemas: um amontoado de versos malfeitos e sem sentido, mas bastante sinceros.

                     Aliás, é preciso acrescentar que todo poema medíocre é extremamente sincero e que toda grande poesia possui um fundo irredutível de falsificação, de mentiras, de astúcia. Faltava ao sujeito saber que poesia não é ornamentar a palavra, mas subtrair dela, de espremer dela, o seu maior silêncio. Ao final do livro, perguntei-me: porque falar tanto de si mesmo se nada nos foi perguntado? Depois, fiquei pensando acerca dos motivos que levam um sujeito a escrever versos, publicá-los e sair pelas ruas a vendê-los. Obviamente não cheguei a nenhuma conclusão.

         (II)
                                 Paul Valery ensina que “os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.”

(III)
                     Os poetas mais novos creem que ser jovem é automaticamente ter talento e que o passado está morto e enterrado. No entanto, o passado não está necessariamente morto, tampouco deve ser demolido.

(IV)
                     A memória é condição da poesia.

(V)
                     Por outro lado, atualmente, os poetas brasileiros conservadores manejam as palavras com mais cuidado que os engajados, pois são contestados, ou melhor, desafiados pela realidade, pelos acontecimentos e precisam, para aplacar a angústia que os consome, do refúgio da linguagem. Enquanto isso, os entusiastas das últimas gerações, com exceções é claro, recorrem às palavras com indiferença, tendo em vista que se acreditam portadores de uma chave que abre a porta do futuro, terminando por produzir obras sem arte e sem paixão.
                     Em suma, os mais novos, desprezam a linguagem; enquanto os conservadores retiram desse limo sua vingança contra a realidade que não os satisfaz. 
(VI)
                     Na verdade, tanto os últimos como os primeiros deveriam ter ciência que a linguagem jamais se deixa dominar, jamais se deixa submeter aos caprichos do poeta.

(VII)
                     A apuração de um estilo é o legado que o luxo dá ao fracasso.

(VIII)
                     Donald "Don" Robert Perry Marquis, poeta e humorista estadunidense, disse em certa ocasião que escrever um livro de poemas é atirar uma rosa no “Grand Canyon” e ficar esperando pelo eco.

(IX)
                     Que eco esperam os poetas que publicam seus versos em meios eletrônicos, ou em opúsculos como o que eu havia comprado, se toda ação concreta envolve dispêndio de energia e tempo, que poderiam ser gastos de outra maneira?

(X)
                     Sabemos que entre viver e escrever existe um hiato, que é preciso escolher entre viver e escrever, pois enquanto se escreve nada acontece. Nesse sentido, porque os poetas fizeram essa escolha, abrindo mão de momentos que poderiam ser mais bem aproveitados?

(XI)
                     Há cerca de 2.000 leitores de poesia no Brasil – dizia Otto Lara Resende. Por esse motivo, o meio editorial brasileiro sacrificou a poesia em favor do lixo despejado nas livrarias: zumbis, vampiros e anjos; autoajuda; romances estrangeiros de qualidade duvidosa; etc. Todavia, contraditoriamente, o povo brasileiro ama seus poetas. A culpa é dos poetas pela parca quantidade de leitores?

                      Talvez.

                     Alguns são herméticos demais, lacônicos, outros rebuscados, outros ainda, concisos ao extremo.

                     O laconismo deve se resignar ao silêncio, se não se deseja cair no obscurantismo, ou melhor, na obscuridade, na profundidade falsamente enigmática; e toda concisão tende ao silêncio. Então, não é melhor silenciar de vez?

(XII)
                     Alguns poetas precisam entender que poesia requer inspiração, sensibilidade, mas não é só isso. Poesia é trabalho. Dizia Cora Coralina que o trabalho é fonte permanente da poesia. É lugar comum afirmar que arte é 99 % de transpiração e 1 % de inspiração.

(XIII)
                     O grande poeta não é aquele que acerta, mas o que erra, que busca.

(XIV)
                     Todavia, o grande poeta não deixa nada para improvisação ou para inspiração. Ele vigia as palavras, pesa-as. Ele jamais esquece que a linguagem é a única realidade.

(XV)
                     O grande poeta é aquele que tenta, que não cumpre regras e cânones, que aposta no erro, que enverada por muitos caminhos, que falha, mas que sua para enfrentar o motivo de seu sofrimento, pois todo escritor sofre de algo que com a escrita ele enfrenta. Atormentado por uma memória prodigiosa, ele é incapaz de esquecer e essa incapacidade o torna imaginativo e doentio, levando-o, muitas vezes, a descer aos abismos dos remorsos, de construir seu espírito sobre essa tênue e sombria amurada. No entanto, suas falhas e erros servem para que outros escritores não percorram o mesmo caminho.

Ps. Godard é um exemplo de grande poeta, mas por favor jovens cineastas, não repisem seus passos.

(XVI)
                     A literatura de um grande poeta, ensina Proust, é um instrumento ótico que nos ajuda a ver o mundo de uma forma que, sem ela, talvez não víssemos por nós mesmos.

(XVII)
                     Um grande poeta é um escritor triste e sua voz possui força para impor o silêncio, para semear tempestades e a qualidade de uma literatura se mede pela quantidade de miséria que forja em seus leitores.

(XVIII)
                     No seu desejo de solidão, o grande poeta, como por exemplo, Gullar, “invade as ventas no limite do veneno”.

(XIX)
                     É preciso entender que Drummond, quando diz: “Ah, chega de lamento e versos ditos / ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça, / ao ouvido do muro, / ao liso ouvido gotejante / de uma piscina que não sabe o tempo, e fia / seu tapete de água, distraída.” é de um mundo sem deus que ele se refere. Drummond fala sobre o Ser de Parmênides, Heráclito, Heidegger e outros; de um universo vazio de intenções, que não nos prometeu nada; de um cosmo frio e indiferente ao drama humano.

(XX)
                     Em nossa solidão cósmica, somos como o Universo reflete sobre si mesmo. Por isso somos raros e nenhum poema dará conta desse fato tão triste. No entanto, é preciso tentar, trilhar o Real que, em grande parte, está invisível aos nossos olhos.

(XXI)
                     Quando se busca os grandes temas, o grande poema surge necessariamente.


                     Celso Gomes



                    
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Quinta-feira, Dezembro 15, 2011

A FARSA MIDIÁTICA

A FARSA MIDIÁTICA


A grande mídia tem feito o papel da oposição pautando os ministros que quer derrubar.

Ao mesmo tempo, foi publicado neste final de semana o livro “A Privataria Tucana” do jornalista Amaury Ribeiro Jr., Geração Editorial, que esmiúça as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. O livro teve a tiragem da 1.ª edição de 15 mil exemplares esgotada em um dia, apesar de ter sido ignorado pelos maiores meios de comunicação do país.

Amaury Ribeiro Jr. foi acusado pela grande mídia conservadora, durante a campanha eleitoral presidencial do ano passado, de participar de um grupo de petistas que quebraram o sigilo fiscal e bancário de políticos tucanos. A farsa midiática e tucana na campanha presidencial de 2010, a suposta montagem de um dossiê contra José Serra, foi desmontada à época pela Revista Carta Capital.

O fato é que a oposição não possui propostas para solucionar a crise mundial, e, tampouco, constitui-se como alternativa de governo. Sem rumo, a oposição se aferra ao tema da corrupção.

A bola da vez é Pimentel.

A campanha contra o ministro é diária.

Vamos esperar para ver até onde vai a hipocrisia da oposição, que deverá ser paralisada pela publicação de "A Privataria Tucana".

Entretanto, a mídia golpista pode sem querer estar prestando um serviço ao PT, pois essa história de consultoria do ex-prefeito de Belo Horizonte não cola. Isso é tráfico de influência e Pimentel tem que ser afastado do partido e do governo.

Celso Gomes

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Terça-feira, Novembro 22, 2011

DUAS INJUSTIÇAS HISTÓRICAS

Edwin Hubble Georges Lemaitre descobriu a expansão do Universo

Um artigo publicado na edição desta semana da revista Nature vem corrigir duas injustiças históricas na área da cosmologia.
O verdadeiro descobridor da expansão do Universo foi o cosmólogo belga Georges Lemaitre, que publicou seus cálculos no ano de 1927, dando finalmente uma solução dinâmica para as equações de Einstein.
A segunda injustiça a ser corrigida é que Edwin Hubble, a quem vem sendo atribuída incorretamente a autoria da descoberta, não usou sua influência para ganhar a primazia sobre o feito.
As revelações foram feitas graças ao trabalho de detetive do astrofísico Mario Livio, que trabalha justamente no instituto que coordena as pesquisas do Telescópio Espacial Hubble - o telescópio mais famoso do mundo, cujo nome homenageia justamente o agora demovido Edwin Hubble.
Lemaitre descobre a expansão do Universo
Georges Lemaitre publicou suas conclusões sobre a expansão do Universo em 1927, baseando-se em dados sobre o desvio para o vermelho de galáxias distantes.
Seu grande erro parece ter sido publicar seus resultados em francês, em um jornal científico belga pouco conhecido, chamado Annales de la Société Scientifique de Bruxelles.
O norte-americano Edwin Hubble só publicou seus resultados, em inglês, dois anos mais tarde, em 1929, chegando às mesmas conclusões de Lemaitre.
Hubble nunca ganhou um Nobel por isto, embora o Nobel de Física de 2011 tenha homenageado a descoberta de que esta expansão está se acelerando.
Mas seu nome passou a constar dos livros de história, do nome da chamada Constante de Hubble, que mostra a taxa de expansão do Universo, e do telescópio mais famoso do mundo.
Lemaitre, por sua vez, é praticamente desconhecido.

Trechos deletados
O mundo provavelmente ainda não saberia da descoberta de Lemaitre se não fosse o fato de que o seu trabalho foi traduzido para o inglês, e publicado na renomada Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.
Esta tradução foi publicada em 1931, quando as coisas estavam bem recentes, e Hubble ainda não havia entrado para a história de forma definitiva. Ou seja, daria tempo para corrigir a injustiça.
Mas entra então em cena o segundo episódio desta história intrigante: a tradução para o inglês do estudo de Lemaitre simplesmente deletou as partes sobre a descoberta da expansão do Universo.
Teoria da conspiração? O fato é que muitos dedos resolveram apontar para o próprio Hubble, que teria usado de sua influência para eclipsar a descoberta de seu rival e ficar com a fama.
Mas quem teria sido o verdadeiro responsável? A própria revista teria cortado os parágrafos comprometedores para Hubble? Ou seria mesmo o próprio Hubble que teria usado sua influência para eliminar o concorrente?
O trabalho de Mario Livio vem corrigir também esta injustiça.
Ele revisou uma série de cartas na Royal Astronomical Society, incluindo uma de Lemaitre, que mostram que o cosmólogo belga sabia do corte e concordou com ele.
Partindo de sua descoberta da expansão do Universo, Lemaitre inverteu o movimento e idealizou sua "hipótese do átomo primordial", que passou a ser conhecida como Teoria do Big Bang. [Imagem: Wikimedia]Crédito a Lemaitre
O fato de ter concordado em não publicar os parágrafos cruciais, contudo, não tira sua primazia da descoberta da expansão do Universo.
Porque ele concordou com isto, mesmo depois de Hubble ter publicado conclusões semelhantes mais tarde, ninguém sabe.
A revista Nature levanta algumas conjecturas:
"Talvez Lemaitre estivesse simplesmente lisonjeado demais por ser convidado a traduzir o seu artigo e, consciente da importância de Hubble entre os falantes em inglês, e com medo das repercussões, ou talvez desejoso de ingressar na Royal Astronomical Society - talvez ele próprio tenha se autocensurado."
A revista conclui que o caso contra Hubble, com as acusações de tentativa de anular o concorrente, devem ser arquivadas.
Mas igualmente devem ser levantados os verdadeiros créditos para Lemaitre.
"O nome do belga é um candidato valioso para o nome de uma futura missão espacial," conclui a revista.

Lemaitre lança a Teoria do Big Bang
O fato é que esta não é a única injustiça contra Lemaitre.
Afora o fato de ser reconhecidamente muito modesto e avesso à fama, talvez o "grande erro" de Georges Lemaitre seja bem outro.
Sempre houve um enorme preconceito contra ele na comunidade científica porque, embora fosse físico, astrônomo e professor universitário, ele tinha também outra ocupação - a maioria dos textos fala sobre o físico Hubble e o padre Lemaitre.
O fato é que o padre-cientista foi um dos gênios de uma geração que começou com Maxwell e incluiu Einstein, Heisenberg, Planck, Bohr, Schrodinger e Godel.

E a expansão do Universo não foi sua única contribuição para a ciência.
Partindo de sua descoberta da expansão do Universo, ele inverteu o movimento e idealizou sua "hipótese do átomo primordial", mais tarde refinada por George Gamow.
Esta teoria é hoje bem conhecida do público, mas com o nome de "Teoria do Big Bang" - este foi um termo sarcástico criado por Fred Hoyle, um físico defensor do universo estacionário, mas foi o nome que pegou.
Os créditos adequados para Lemaitre provavelmente serão dados apenas quando uma outra geração de gênios conseguir superar todas as teorias atuais, as dele inclusive, e ninguém mais der peso à autoria de teorias ultrapassadas.
Bibliografia:
Lost in translation: Mystery of the missing text solved
Mario Livio
Nature
09 November 2011
Vol.: 479, Pages: 171-173
DOI: 10.1038/479171a

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

Um poder de costas para o país

Um poder de costas para o país




Justiça no Brasil vai mal, muito mal. Porém, de acordo com o relatório

de atividades do Supremo Tribunal Federal de 2010, tudo vai muito bem.

Nas 80 páginas — parte delas em branco — recheadas de fotografias

(como uma revista de consultório médico), gráficos coloridos e frases

vazias, o leitor fica com a impressão que o STF é um exemplo de

eficiência, presteza e defesa da cidadania. Neste terreno de enganos,

ficamos sabendo que um dos gabinetes (que tem milhares de processos

parados, aguardando encaminhamento) recebeu “pela excelência dos

serviços prestados” o certificado ISO 9001. E há até informações

futebolísticas: o relatório informa que o ministro Marco Aurélio é

flamenguista.



A leitura do documento é chocante. Descreve até uma diplomacia

judiciária para justificar os passeios dos ministros à Europa e aos

Estados Unidos. Ou, como prefere o relatório, as viagens

possibilitaram “uma proveitosa troca de opiniões sobre o trabalho

cotidiano.” Custosas, muito custosas, estas trocas de opiniões. Pena

que a diplomacia judiciária não é exercida internamente. Pena. Basta

citar o assassinato da juíza Patrícia Acioli, de São Gonçalo. Nenhum

ministro do STF, muito menos o seu presidente, foi ao velório ou ao

enterro. Sequer foi feita uma declaração formal em nome da

instituição. Nada.



Silêncio absoluto. Por que? E a triste ironia: a juíza foi assassinada

em 11 de agosto, data comemorativa do nascimento dos cursos jurídicos

no Brasil. Mas, se o STF se omitiu sobre o cruel assassinato da juíza,

o mesmo não o fez quando o assunto foi o aumento salarial do

Judiciário. Seu presidente, Cézar Peluso, ocupou seu tempo nas últimas

semanas defendendo — como um líder sindical de toga — o abusivo

aumento salarial para o Judiciário Federal. Considera ético e moral

coagir o Executivo a aumentar as despesas em R$ 8,3 bilhões. A

proposta do aumento salarial é um escárnio.



É um prêmio à paralisia do STF, onde processos chegam a permanecer

décadas sem qualquer decisão. A lentidão decisória do Supremo não pode

ser imputada à falta de funcionários. De acordo com os dados

disponibilizados, o tribunal tem 1.096 cargos efetivos e mais 578

cargos comissionados. Portanto, são 1.674 funcionários, isto somente

para um tribunal com 11 juízes. Mas, também de acordo com dados

fornecidos pelo próprio STF, 1.148 postos de trabalho são

terceirizados, perfazendo um total de 2.822 funcionários. Assim, o

tribunal tem a incrível média de 256 funcionários por ministro.



Ficam no ar várias perguntas: como abrigar os quase 3 mil funcionários

no prédio-sede e nos anexos? Cabe todo mundo? Ou será preciso aumentar

os salários com algum adicional de insalubridade? Causa estupor o

número de seguranças entre os funcionários terceirizados. São 435! O

leitor não se enganou: são 435. Nem na Casa Branca tem tanto

segurança. Será que o STF está sendo ameaçado e não sabemos? Parte

destes abuso é que não falta naquela Corte. Só de assistência médica e

odontológica o tribunal gastou em 2010, R$ 16 milhões.



O orçamento total do STF foi de R$ 518 milhões, dos quais R$ 315

milhões somente para o pagamento de salários. Falando em relatório,

chama a atenção o número de fotografias onde está presente Cézar

Peluso. No momento da leitura recordei o comentário de Nélson

Rodrigues sobre Pedro Bloch. O motivo foi uma entrevista para a

revista “Manchete”. O maior teatrólogo brasileiro ironizou o colega:

“Ninguém ama tanto Pedro Bloch como o próprio Pedro Bloch.”



Peluso é o Bloch da vez. Deve gostar muito de si mesmo. São 12 fotos,

parte delas de página inteira. Os outros ministros aparecem em uma ou

duas fotos. Ele, não. Reservou para si uma dúzia de fotos, a última

cercado por crianças. A egolatria chega ao ponto de, ao apresentar a

página do STF na intranet, também ter reproduzida uma foto sua

acompanhada de uma frase (irônica?) destacando que o “a experiência do

Judiciário brasileiro tem importância mundial”. No relatório já

citado, o ministro Peluso escreveu algumas linhas, logo na introdução,

explicando a importância das atividades do tribunal.



E concluiu, numa linguagem confusa, que “a sociedade confia na Corte

Suprema de seu País. Fazer melhor, a cada dia, ainda que em pequenos

mas significativos passos, é nossa responsabilidade, nosso dever e

nosso empenho permanente”. Se Bussunda estivesse vivo poderia retrucar

com aquele bordão inesquecível: “Fala sério, ministro!” As mazelas do

STF têm raízes na crise das instituições da jovem democracia

brasileira. Se os três Poderes da República têm sérios problemas de

funcionamento, é inegável que o Judiciário é o pior deles. E deveria

ser o mais importante. Ninguém entende o seu funcionamento.



É lento e caro. Seus membros buscam privilégios, e não a austeridade.

Confundem independência entre os poderes com autonomia para fazer o

que bem entendem. Estão de costas para o país. No fundo, desprezam as

insistentes cobranças por justiça. Consideram uma intromissão.


O GLOBO - 27/09/11
MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal

de São Carlos.